Tempo para ser melhor

Que a vida não está nada fácil, não é novidade para ninguém. Desigualdades de todo tipo fazem parte do nosso dia a dia de uma forma tão frequente que, infelizmente, passamos a não enxerga-las com a nitidez necessária. O que nos leva a um lugar perigoso, onde a indiferença rege todas as relações. E, quando nos tornamos indiferentes, tanto faz a dificuldade do outro, tanto faz a necessidade do outro. E isso nos faz segregar o diferente e a ignorar dores que não são nossas ao longo de um ano inteiro. Mas, ainda há tempo para ser melhor.

Talvez nenhuma outra data no ano seja capaz de transformar hábitos, como o Natal. Pelo menos para aqueles que partilham desta fé. De todo modo, a percepção do nascimento e da renovação da esperança em dias melhores, parece contagiar a todos. E, nem que seja por alguns momentos, celebramos a felicidade de forma coletiva, sem dar tanta importância ao que não tem importância. Famílias e amigos se reúnem, trocam mensagens de afeto e desejam que a prosperidade seja a luz de suas vidas. Isso é lindo, mas, será que alcança a todos? De jeito nenhum… infelizmente.

Esta seja a grande questão a ser considerada nesta data tão particular. Se todos são capazes de reunir os seus em volta de uma mesa, seja ela farta ou não, e desejar a todos que o amor e a felicidade sejam seus guias, por que não vemos isso acontecer, de fato? Por que não somos capazes de expandir nossos bons desejos para além das paredes confortáveis de nossos lares? Essa é uma boa hora para confrontar a nossa indiferença cotidiana e mostrar que somos, sim, capazes de compartilhar o que temos, com tantos que nada possuem.

Pode parecer um tanto assustadora a ideia de sair do protocolo de natal que diz que devemos ficar em casa, em família, vestindo roupas novas, distribuindo presentes e esperando a hora de desejar coisas boas aos nossos. Comércio, gastronomia e reuniões protocolares. Nos acostumamos a um padrão de comportamento que nos afasta completamente do sentido real desta data. Estar entre os nossos é bom, mas, compartilhar toda a positividade que emanamos no Natal, pode ser transformador.

Por isso, hoje, nesta data tão especial para tantos, é preciso ir além das guloseimas, presentes e encontros familiares e compreender que essa celebração jamais teve relação com o consumo. Deveríamos celebrar a chegada do sopro de esperança em uma família miserável, refugiada e perseguida, que viveu há mais de dois milênios. O curioso é que, mesmo tanto tempo depois, famílias como esta, continuam espalhadas por aí, vítimas das mesmas injustiças, porém, curiosamente, não despertam a nossa compaixão.

O contato com tantas desigualdades, forjaram a indiferença que vive em nós e, talvez por isso, tenhamos esquecido a verdadeira razão do Natal. Mas, é sempre tempo de mudar. Basta perceber que o nascimento da esperança acontece todos os dias nas milhares de famílias, iguaizinhas àquela que, supostamente, celebramos todos os anos. Que hoje, todos nós sejamos capazes de entender que a entrega, gratidão e prosperidade formam um fio condutor que nos conecta ao verdadeiro espírito do Natal. Para isso, precisamos perceber e aceitar que só a simplicidade nas relações, permitirá a real comunhão entre as pessoas.

Os novos tempos e suas transformações (Parte I)

Alguém saberia dizer o que o futuro nos reserva? Mas, sem cair no lugar comum das previsões pasteurizadas disponíveis por aí. Se alguém perguntar, hoje, às vésperas da segunda década do século XXI, como será a vida em 10 anos, não há resposta possível. Vivemos a história em tempo real como nunca tivemos a chance de viver antes. Os novos tempos e suas transformações, vão muito além de nascer, crescer, reproduzir e deixar algum legado para futuras gerações. E não sabemos muito bem o que fazer com isso.

Estamos em meio a um fenômeno curioso onde diferentes gerações, com experiências absolutamente diversas, compartilham a mesma época. Sim, sempre foi assim, mas, o abismo social e tecnológico nunca foi tão evidente. A nossa expectativa de vida aumenta à medida que a ciência avança, o que nos permite experenciar um pouco mais desse admirável mundo novo, o que não significa que todos teremos chances de fazê-lo da mesma forma e ao mesmo tempo. Conviver com essa pluralidade geracional deveria ser o maior privilégio destes tempos, mas, não é isso que se percebe mundo afora.

O analógico tenta sobreviver em meio a pressa da tecnologia que, diariamente, nos apresenta novidades que, em breve, serão relíquias, ou lixo. Duvida? Pense que a internet foi lançada em 1994 e os telefones celulares, um pouco antes disso. Isso foi ontem… Mas, o mais marcante nisso tudo, foi perceber que, a partir deste momento, o mundo, e as pessoas, dividiram-se em dois grupos. Os analógicos e os digitais. Para muitos isso não foi um problema, mas, muita gente ficou pelo caminho e, até hoje, não conseguiu entender a razão pela qual as fotos de família saíram dos álbuns e foram para nas nuvens. E isso não é culpa delas.

Depois disso, vieram os celulares que nos apresentaram uma forma de comunicação revolucionária. Mas, o caldo entornou, de fato, quando a internet mudou, aumentou a qualidade e seu acesso foi democratizado. E, em paralelo, os smartphones chegaram com o pé na porta, prontos para nos arrebatar. Deste ponto em diante, passamos a viver como nunca vivemos antes. Novos tempos. Novos comportamentos. Fazemos parte do olho de um furacão que mistura o velho e novo, o analógico com o tecnológico, que altera padrões seculares sem a menor cerimônia ou aviso prévio.

Quais são os impactos dessa revolução? Não faço a menos ideia. E acho que os futuros historiadores terão dificuldades de explicar esse ponto da História. Passamos séculos ligados uns aos outros, a partir de relações próximas e sinestésicas, onde as conexões eram feitas a partir de mãos dadas e troca de olhares. Hoje, vemos o mundo a partir de uma tela, regida por uma rede cada vez mais autônoma e autoritária, que dita exatamente o que devemos ver, quando ver e por quanto tempo. Pela primeira vez, vivemos um processo de desenvolvimento, completamente desconectado da evolução social que nos trouxe até aqui.

Esses novos tempos são sedutores. Nos fazer crer que teremos acesso livre ao conhecimento de uma forma nunca vista. Concordo. Nos fazem crer que somos senhores de nossas escolhas como jamais fomos. Desconfio. Tentam nos convencer que nunca foi tão fácil viver como vivemos hoje, afinal, a tecnologia nunca foi tão democrática. Desculpe, mas essa não dá para engolir. Ao mesmo tempo em que nada disso é verdade absoluta, tampouco é uma mentira completa. É irreal aceitar que todos serão igualmente beneficiados. Vivemos um período onde as desigualdades, de todos os tipos, crescem de forma exponencial, também, graças a esses novos tempos. É preciso pensar mais sobre isso.

O mundo não está colaborando

Outro dia me disseram que nada pode ser mais eficaz para espantar maus pensamentos, do que a energia positiva. Que bons pensamentos são capazes de neutralizar as agruras típicas dos momentos difíceis. Não duvido, mas, até que ponto, acreditar que, apenas a nossa positividade, pode mudar qualquer coisa só porque queremos? Talvez esse seja o grande momento para tentarmos entender que precisamos ir além das boas vibrações. Era para ser um texto feliz e leve para um domingo ensolarado, mas, o mundo não está colaborando.

Quem nos garante que as frases fofas de incentivo que ouvimos e transmitimos o tempo todo, não fazem parte de um manual ingênuo de autoajuda, que tem a pretensão de transformar as nossas vidas num piscar de olhos? Isso, por si só, jamais seria um problema, quanto mais good vibes, melhor. Mas, até que ponto, se apegar exclusivamente à certeza de que dias melhores virão, não promove uma letargia coletiva, que nos impede de reagir a toda sorte de injustiças que a vida nos impõe cotidianamente? A resposta é difícil, mas não custa compartilhar a angústia.

Somos mais de sete bilhões de pessoas compartilhando um planeta. Desse número monumental, a imensa maioria sofre, sofre e apenas sofre. Um sofrimento sem fim, que nem todas as boas vibrações são capazes de amenizar. Curiosamente, são essas pessoas, as mais envolvidas com crenças religiosas que prometem o alívio de suas dores. Observando por essa ótica, parece um tanto claustrofóbico ter tanta gente em um único lugar, suplicando por dias melhores que, na maioria das vezes, jamais chegará. Imaginar que, bilhões de criaturas adoecidas por uma realidade amarga e sem perspectiva, não deixam de acreditar em uma redenção é, ao mesmo tempo, surpreendente e assustador.

Não, a intenção aqui não é desacreditar a força do pensamento positivo, mas, sim, entender o porquê da nossa dificuldade em reagir de forma prática, reta e decisiva contra as maldades e injustiças nossas de cada dia. A nossa história como sociedade repete-se, sem nenhuma criatividade. Enquanto uns poucos mandam, outros muitos são massacrados em várias frentes. A História nos mostra isso. Os telejornais, também. E as projeções de futuro não são diferentes. Parece que nascemos fadados a entrar em uma pirâmide formada por camadas que não se comunicam e, dependendo da nossa posição, jamais seremos capazes de alcançar seu cume.

Todos sabemos que viver não é nada fácil, mas, acho que já ultrapassamos os limites do insuportável. A cada dia sofremos derrotas tão poderosas que colocam a todos de joelho da pior forma. Nossas quedas diárias não têm relação com competições naturais entre aqueles que partem de um mesmo ponto, em condições de igualdade e respeito mútuos. Nossas quedas diárias promovem humilhações que retiram todo e qualquer traço de dignidade. Talvez seja isso, também, que aniquila as possibilidades de reação diante de tanta indiferença.

Não seria ousadia dizer que, possivelmente, estejamos vivendo em escala global, o maior período de retirada de direitos coletivos e de ridicularização das liberdades individuais. O que massacra qualquer capacidade de pensamento contrário que nubla possibilidades mínimas de enxergar-se como alguém que pode, deve e merece ser feliz, para além da sobrevivência. Para isso é preciso ir um pouco além das boas vibrações. É preciso dizer não a tudo e a todos que ousarem insinuar que devemos viver a partir de nossos limites e, não, de nossas liberdades.