Um universo de possibilidades

            Como será que criamos as nossas preferências, nossos gostos e prazeres? E, por que, achamos melhor o verde e não o amarelo? É claro que, muito do que somos deve-se a quantidade de informações sensoriais que tivemos vida afora. Quanto mais experimentamos, maiores as nossas chances de escolha, o que nos torna mais abertos às oportunidades que o mundo pode nos oferecer, certo? Nem sempre… Nem sempre. Muitas pessoas preferem fazer escolhas precoces que, infelizmente, deixam de fora um universo de possibilidades que a vida tem para nos mostrar.

            Quem de nós nunca afirmou, categoricamente, não gostar de tal estilo musical, uma determinada festa ou local onde, supostamente, não se sentiria à vontade? É claro que todas essas reações podem ser genuínas e, de fato, o contato com determinadas situações possa causar desconforto. Mas, sem medo de exagerar, percebo que na maioria das vezes, nos negamos a oportunidade de experimentar o novo, por uma única e simples razão – a novidade nem sempre é confortável.

          E, talvez, a sua maior importância seja a sua imprevisibilidade, pois não nos permite adivinhar os próximos passos, criar raízes ou acomodar-se diante daquilo que acreditamos ser nosso por direito. Sabemos que é difícil estar, o tempo todo, em busca do novo, mas, não podemos esquecer que é para lá de saudável, sentir aquele frio na barriga, quando nos deparamos com algo que, ainda, não conhecemos. É f ato que cada um de nós lida com a novidade de forma muito particular, o que justifica, em parte, a nossa resistência.

          Mas, o que provoca um certo espanto, é perceber que, cada vez mais, renunciamos a novas experiências, não por serem difíceis, mas, sim, por medo ou preguiça. A tão falada zona de conforto pode ser, neste caso específico, a grande responsável pela paralisia que nos impede de viver e aproveitar novas pessoas, lugares, trilhas sonoras, livros, comidas e profissões. Estar seguro sobre os próprios interesses, não nos impede de vivenciar o que é desconhecido. Agora, acreditar que nada pode superar o prazer de uma experiência repetida incontáveis vezes, é, sem dúvida, fechar portas e janelas para um admirável mundo novo.

         Portanto, quando estiver diante do desconhecido, tenha medo, mas não se deixe paralisar. Escolher o caminho imediato do “não gosto” ou “não quero, é a parte fácil. Aceitar o desafio de seguir em frente, mesmo sobre pernas trêmulas, pode nos conduzir a momentos memoráveis e insubstituíveis. Pense nisso.

Vida de criança

            A vida adulta requer muitas responsabilidades, correria, dificuldades e um bom número de frustrações. Até aí nenhuma novidade. Somos testados em níveis inimagináveis praticamente todos os dias, o que nos leva a criar cascas protetoras que, à medida que o tempo passa, enrijecem e aumentam proporcionalmente ao número de pauladas que a vida nos reserva. Mas isso não é privilégio dos adultos. Os pequenos também estão a mercê dos humores do mundo, apesar das nossas tentativas de suavizar a estrada. Mas, o que a realidade nos mostra é que vida de criança não é nada fácil.

            O tempo vai passando e a ideia de infância muda junto com o nosso corpo. Seios crescem, pelo aparecem, hormônios enlouquecem. Sinais que são usados para gritar ao mundo que não há mais lugar para a criança que fomos. Há uma pressa quase inexplicável em mudar de pele, em deixar para trás o sorriso estridente e o carinho explícito e sem moderações que só as crianças sabem expressar. Abrimos mão, tão precocemente, da nossa primeira fase exploratória, que mal temos tempo de perceber todas as estrelas que deixamos de alcançar.

            Para além da velocidade imutável do tempo, não se sabe por qual razão, resolvemos pular etapas nesse processo e desejar, cada vez mais cedo, que a tenra infância seja cada vez mais breve. Uma estranheza que só faz sentido na fase mais tensa e transitória de nossas vidas – a adolescência. Mas, como essa fase da vida é pródiga em equívocos, levaremos muito tempo nos lamentando por ter desejado, um dia, deixar de ser criança.

            Porém, a infância não é conceito uniforme e compartilhado por todos. Ser criança nem sempre é uma dádiva. Durante muito tempo e, infelizmente, ainda hoje, crianças não tinham direito a sua infância. Famílias eram numerosas não porque isso significava um símbolo de amor e união. Pais precisavam de mão de obra e, seus filhos, eram esse braço forte. Nesses casos, a infância jamais foi páreo para a necessidade de sobrevivência. O amor que costura as relações familiares é um acontecimento recente, o que, talvez explique, a diferença no olhar que cada um de nós tem sobre o que é ser criança.

        Fome. Miséria. Guerra. Dinheiro. Violência. Sentinelas das desigualdades humanas, responsáveis por confiscar o direito mais fundamental de todos nós – a infância. Nossas crianças caem como fantoches diante de muitas injustiças para as quais não têm a menor chance de resistência. Como garantir às crianças, o direito a própria infância? É preciso se apropriar do amor. Entendendo que, apesar das dificuldades óbvias que irão nos acompanhar vida afora, garantir as delícias da infância, vai permitir que os adultos de hoje, de ontem e de sempre, tenham consigo o direito de sonhar e que jamais possam se envergonhar de demonstrar verdade, carinho e amor livres de preconceitos, como só as crianças sabem fazer.

Dedos apontados

            Já perceberam a quantidade de dedos apontados para todos nós o tempo todo? É como se vivêssemos em um mundo onde todos são juízes e, nós, os únicos culpados. Porém, o mais curioso disso é que, como quase tudo na vida, migramos de um lado para o outro dessa moeda com uma tranquilidade que vem sempre acompanhada de uma certa cara de pau. Apesar dessa ambiguidade, temos a nossa posição preferida nesse jogo e, certamente, não é aquela de onde enxergamos os dedos apontados para nós.

            Adoramos meter o dedo onde não somos chamados, adoramos. Por mais que muitos digam o contrário, somos enxeridos por natureza. E isso nem sempre é legal. O papel do acusador é o nosso preferido e isso não é à toa, afinal, dizer o que o outro deve fazer, sentir, pensar ou agir é muito confortável e nos dá uma deliciosa sensação de poder. Mesmo que isso não passe de uma tola ilusão. Ser curioso não é algo que nos torna malignos, ao contrário. O que seria de nós sem a curiosidade que nos presenteou com tantas maravilhas ao longo dos tempos?

            Não se trata de ser ou não curioso e, sim, o que fazemos da nossa curiosidade. Muitos preferem deixar de lado a delícia de uma descoberta boa, pela imaginação contaminada de suposições rasas. Chega um momento em que escolhemos, mesmo sem perceber, se queremos o caminho mais fácil ou o mais complexo, se queremos descobertas árduas ou se preferimos invenções convenientes. É bom ficar atento, pois, essa escolha, tem mais a ver conosco do que com o outro.

            Mas há um bom termômetro para perceber quando começamos a apurar demais o nosso julgamento raso – ter opinião formada sobre tudo e todos. É nesse instante que assumimos, permanentemente, o papel de julgadores sem culpa. Quem se leva a sério demais, não aceita a ideia do erro, logo, jamais poderá ser julgado. Muitas pessoas, seja por ingenuidade, circunstância ou desvio de caráter, aprendem que a melhor forma de não expor seus erros, é escancarar o erro do outro. Simples assim. Será?

            Não sei se há uma receita mágica que nos faça perceber que não é possível ser só pedra ou só vidraça. Seremos apontados, acusados e julgados muitas e muitas vezes. Algumas poucas com uma certa justiça, mas, na maioria das vezes, estaremos expostos a altíssimos níveis de maledicência e perversidade. Tudo certo, isso não é o fim do mundo, apesar de ser lamentável. Leva tempo para criar uma casca grossa que nos proteja destes dedos em riste voltados para nós.

           Mas, suportar tudo isso pode ser mais simples do que se imagina. Basta praticar um exercício relativamente simples: trocar os papéis. Se a posição do acusado injustiçado lhe incomodar, pense duas vezes se vale a pena se manter na pele do acusador leviano, afinal, nesta vida não podemos duvidar que a empatia pode nos salvar e que, assim como, jamais devemos esquecer que o mundo dá muitas voltas. Sempre.