Amor em tempos de ignorância

          Muitas são as lições que recebemos ao longo do tempo. Mas, dentre as principais estão: só o amor é capaz de nos transformar, só o amor pode nos salvar, só o amor pode nos tornar, verdadeiramente, felizes. Independente de tudo o que aprendemos sobre este nobre sentimento, todos nós concordamos em, pelo menos, um ponto: Amor é entrega. É algo que sentimos, não para manter guardado, mas, para distribuir e contaminar tudo ao nosso redor. Porém, como fazer isso em tempos onde a intolerância nos envenena? Como compartilhar o amor em tempos de ignorância?

        O amor é, essencialmente, um sentimento que depende dos sentidos. Precisamos enxergar, tocar, cheirar, sentir o gosto e ouvir todas as coisas e pessoas que nos farão cair de amores ao longo da vida. Abraços apertados aproximam para além dos limites físicos. Cheiros nos fazem viajar no tempo. Sabores ficam gravados em nossa memória para sempre, assim como as canções que embalaram as estórias que permitiram ser quem somos. O amor se alimenta dessas experiências. Sempre foi assim. Até agora.

          Já faz algum tempo que o amor, por si só, não transforma tudo aquilo que toca. Passamos grande parte da vida idealizando esse sentimento. Tanto que ficamos reféns de algo que desejamos muito, mas que, também, temos muita dificuldade de entender. O amor se transformou numa caça ao tesouro, só esqueceram de contar qual é o seu verdadeiro brilho. E, diante da ausência de uma face óbvia, começamos a duvidar um pouco de sua existência e, sobretudo, da força transformadora desse sentimento tão necessário.

           Esse ceticismo que pôs o amor em cheque, fortaleceu traços que jamais deveriam ficar fora de controle, como a inveja, a intolerância e a desconfiança. Combustíveis prontos para acender a chama da ignorância que, nos dias de hoje, parece não conhecer limites. E, em paralelo, a vida moderna nos oferece, cada vez mais, uma forma de viver onde a troca de experiências é opcional. Comemos sozinhos, não saímos de casa para comprar pão, não ouvimos mais a voz do outro e não observamos o sol se pôr, sentindo a brisa nos tocar carinhosamente

       Fazemos isso pela tela de um equipamento eletrônico que pretende encurtar distâncias, mas que está, cada dia mais, criando barreiras praticamente intransponíveis. Barreiras que nos impedem de ver, sentir, tocar e ouvir o que o outro tem a nos dizer. Abrindo caminho para que a única fonte de interação com o mundo, seja a nossa própria voz e a nossa forma de pensar. Criando distâncias desnecessárias que, quando somadas, formam um grande e perigoso labirinto de ignorâncias.

       E o amor, que precisa de pontes para se estabelecer, se perde nesse emaranhado de estradas desconexas, onde todo mundo fala, mas ninguém se escuta. É chegada a hora de quebrar esses muros e criar pontes onde o amor possa circular e celas, onde a ignorância possa repousar sem nos fazer mal. Será que isso é pedir muito?

Essa culpa eu não carrego

          Estamos diante de uma sequência de eventos que, de tão estranhos, beiram a insanidade. Eventos que acontecem em uma velocidade tão impressionante, que nos impede de acompanha-los com alguma clareza. Vivemos um momento de tanta estranheza, em que, até o nosso cotidiano perde, pouco a pouco, o próprio sentido. Isso nos leva ao perigoso caminho da isenção. E, uma vez que não temos mais a responsabilidade por nossas ações, sejam elas diretas ou não, passamos a usar com muita frequência, o jargão mais infame dos últimos tempos: Essa culpa eu não carrego!

         Esta é a grande muleta que utilizamos sempre que precisamos pular fora de uma questão. Não quero. Não sei. Não vi. Não fui… Assim, se nada tenho com o que quer que seja, me isento de tudo. Mas, até que ponto, podemos ficar à margem de decisões, sejam elas pessoais ou coletivas? É possível passar a vida sem se envolver? Sim e sim. Essa é a resposta de muitos e cada vez mais.

          O mundo está recheado de pequenas questões e de grandes polêmicas que caem em nossos colos muitas vezes ao dia, o que quase torna possível uma justificativa para a isenção nossa de cada dia. Quase. Sabemos que não é possível estar a par de tudo e, muito menos, interferir em todas as questões que nos cercam, mas, não há como fugir de todas o tempo todo. Afinal, o que nos constrói como sociedade é, definitivamente, a capacidade de fazer conexões e agir de acordo com o comportamento do outro.

         O que se vê agora é o oposto disso. Como se, de uma hora para outra, passássemos a negar todos os estímulos e provocações inerentes a qualquer relação, em prol de uma neutralidade repleta de um cinismo quase covarde. Sabemos que é possível ver a miséria e não se importar, assim como ver as vítimas da violência aumentarem progressivamente e, ainda assim, fazer de conta que nada disso é capaz de conquistar a nossa atenção.

     Não há, por trás destas palavras, a pretensão em ditar regras de comportamento sobre como cada um deve conduzir suas relações com a vida que os cerca. Mas servem de alerta para esse movimento coletivo onde tudo acontece, mas nada é da nossa conta. Relativizar a importância das coisas é uma bola de neve que começa com pequenas insensibilidades, que começam com um bom dia não respondido e um sono fingido no assento preferencial, e vão até a não aceitação da responsabilidade pela escolha de demônios como representantes do povo. Afinal, essa culpa, eu não carrego, não é mesmo?

         Meus amigos, não há como ser isento em um mundo feito de escolhas. Não há como ser isento em uma vida que implora por posicionamentos. Não há como ser isento nesta realidade sem ser cínico. Não há como ser isento quando se vive coletivamente. Não há como ser isento. Não há.

Forças da natureza

       É impressionante como algumas palavras bem curtas, apresentam significados que difíceis de explicar. Já perceberam que algumas das pessoas mais importantes de nossas vidas são denominadas por, no máximo, três letras? Tia, tio, avó, avô, mãe e pai. Criaturas que têm seus nomes substituídos por toda uma vida, e se enchem de orgulho disso. Quando nascemos somos imediatamente apresentamos a indivíduos sem nomes próprios, mas que pouco se importam com isso. Pessoas que deixaram de ser indivíduos para tornarem-se forças da natureza. E uma dessas forças é celebrada hoje.

          Pai. Quantas definições cabem aí? Sei lá. Criar significados serve para muitas coisas, mas não para forças da natureza. Essas simplesmente se criam, se mantém e se sustentam por si só. Se fecharmos os olhos, encontraremos na memória alguma figura que antes parecia um gigante, de fala grossa e com mãos pesadamente protetoras e carinhosas. Figura essa que extrapola vínculos genéticos, basta que esteja repleta de uma capacidade inesgotável de amar.

            Pais são, injustamente, lembrados como rochas inabaláveis que estão ali para sustentar os seus de todas as formas possíveis. O que acaba por criar uma ideia de que devemos oscilar entre amor, respeito, medo e admiração por estes que têm, obrigatoriamente, a função de pilares de suas famílias. Porém, o tempo passa e leva consigo esse estereótipo repleto de força bruta e vazio de sensibilidade. Pais podem, e devem, ser muito mais que isso. Sensibilidade, cuidado e afeto são traços humanos que não podem ser aprisionados em gêneros. Afinal, amor sem demonstração, não passa de intenção vazia.

            Pai. Palavra cunhada sobre a figura masculina e que, por muito tempo, relegou os homens ao papel de provedor isento de sentimentos por sua prole. O curioso nisso tudo é que, apesar de muitos tentarem masculinizar, de forma tóxica, a figura paterna, o ser pai nos conduz a um substantivo feminino, acolhedor e forte, porém cheio de ternura: a paternidade. Tão desejada por uns, tolerada por outros e, infelizmente, rechaçada por muitos. Negar o acolhimento que a paternidade oferece ao homem, é, sim, provocar abortos cinicamente aceitáveis.

           Ser pai não é doar genes. Ser pai é estar lá por seus filhos não importa quem sejam, o que tenham feito ou de onde tenham vindo. Ser pai nasce do desejo de perpetuar-se incondicionalmente. Ser pai é assustar para, em seguida, derramar-se de amor. Ser pai é aprendizado, entrega e insegurança. É brigar e se emocionar, dizer bobagens e cair na gargalhada. Ser pai é pavimentar caminhos limpos, porém repletos de pegadas largas, firmes e profundas, capazes de nos guiar, fortalecer e amparar sempre… e para sempre.

Feliz dia para todos aqueles que decidiram ser pais.

Aniversários são datas curiosas

       Aniversários são datas curiosas. É uma celebração que começa muito antes de entendermos o porquê desse ritual comemorativo. O que significa que já somos festejados, mesmo antes de saber o que isso quer dizer. Mas, o mais curioso em fazer aniversário, é a possibilidade que temos, ao longo dos trezentos e sessenta e cinco dias do ano, de poder ser o centro de um fluxo de energia tão particular e especial.

        E, mesmo que tenhamos 8, 25, 44 ou 89, há uma energia especial que nos visita e faz companhia durante as vinte e quatro horas do dia que foi reservado especialmente para nós. Que energia é essa? Não sei dizer, mas, de todas as emoções que nos arrebatam no dia em que estreamos nessa vida, nada é tão significativo quanto a gratidão. Fazer aniversário é relembrar, todos os anos, que há uma vida para ser vivida lá fora. É ter a certeza de que, sim, somos o motivo da alegria e da gratidão daqueles que nos trouxeram até aqui.

       Fazer aniversário é ter o privilégio de ser a razão de um sorriso, de um abraço apertado, de um beijo molhado, de uma ligação de longe ou de uma mensagem na rede social. Fazer aniversário é receber amor gratuito, alegria genuína e um carinho restaurador que nos dá forças para seguir mais um ciclo que se inicia. A data que acreditamos ser nossa, é, na verdade, o nosso momento mais coletivo e que nos proporciona a melhor, a maior e a mais especial troca de afeto que podemos receber. E, em tempos tão duros, nada é tão potente quanto doar e receber amor.

       Aniversários são datas realmente curiosas não pela festa em si, mas, porque nos dão, nem que seja uma vez ao ano, a chance única de agradecer por tudo aquilo que realmente importa e, principalmente, por nos lembrar o que a felicidade plena pode caber em carinhos simples e abraços verdadeiros. Ser grato por isso é, sem dúvidas, o nosso maior presente.

 

Muito obrigado por tudo,

Marco Rocha.