Camadas de tinta

            É difícil mensurar a quantidade de desafios e dificuldades vividos até aqui, mas, ao tentar olhar para trás, percebo quão transformadora foi essa jornada. Agimos a partir dos movimentos que a vida nos apresenta e estamos sempre em busca de alguma demanda que nos faça mudar o status anterior. Empregos, amores, família e todas as outras convenções sociais que nos façam assumir novas posturas diante da vida, exigem novas cores e formatos. Dessa forma, seguimos a vida acumulando novas camadas de tinta que ajudam a esconder nossas texturas originais.

       Vivemos em um sistema que molda formatos, que dita comportamentos, que impõe regras. Essa padronização geral, nada ingênua e muito ardilosa, nos leva a crer que possuímos um colorido único e que podemos expressar todas as nuances que desejarmos. E, o que parece muito sedutor é, na verdade, um grande engano. Sabemos bem o que interessa aos padrões: normatizar, relativizar e nivelar pessoas e suas formas, talentos e suas cores, sinalizando que todos devemos circular em uma infinita palheta de cores pastéis, porém, acreditando que somos exclusivamente radiantes.

          Assim, para cada desafio que a vida nos apresenta, substituímos os tons e apagamos os registros daquilo que não nos serve mais. O que não chega a ser um grande problema, uma vez que, mudar, é desejável. Mas, o quanto de interessante, particular e original, ocultamos sob tantas demãos de tintas? O que deixamos de enxergar como único em nós, apenas por que o mundo nos diz que não é adequado explorar cores fortes e brilhos intensos demais? É, não resta dúvidas de que detalhes raros se perdem quando decidimos nos pintar nos mesmos tons de todos os outros.

              Seguimos uma cartilha repleta de regras que são postas em prática do instante em que abrimos os olhos, até o momento em que eles não mais se abrirão. Nos pintam com as tintas sóbrias da família e daí vem a escola nos padroniza em tons de bege e cinza. Na adolescência, descobrimos as cores intensas que os padrões tentam ocultar a todo custo. Um curto período onde a intensidade é tolerada com alguma parcimônia, infelizmente.

        Mas, é na idade adulta onde somos obrigados a encarar uma das perguntas mais difíceis da vida, mesmo que jamais tenhamos percebido a presença desta indagação: Nos manteremos no catálogo dos frios tons padronizados ou pintaremos nossas fachadas com cores fortes e vibrantes? Essa pergunta não é simples e, tampouco, possui uma resposta óbvia. Sempre oscilaremos entre momentos de intensidade e sobriedade.

         Nos cobriremos com muitas cores vida afora, mas, precisamos ter muito cuidado com os detalhes de nossas pinturas originais. Cobri-los com muitas camadas de tinta ruim, ajuda a soterrar potencias, aniquilar talentos e suprimir genialidades que sequer tiveram a chance de brilhar. Sempre é tempo de remover as cores circunstanciais e deixar brilhar os tons que ninguém mais tem.

Troco likes por humanidade

            E, nesse emaranhado de notícias caóticas que nos envolve diariamente, fomos subitamente informados que, os nossos amados e necessários coraçõezinhos, não mais farão parte da vitrine do amor virtual. De uma hora para outra, deixamos de ver o quanto celebridades perfeitas são adoradas e o quanto suas postagens são queridas. Mas, acima de tudo, perdemos a comparação, a disputa e busca desenfreada pela atenção virtual que tanto nos faz bem. Ainda bem. Será que chegou a hora em que poderemos, enfim, trocar likes por humanidade?

            Todos somos vítimas e algozes nesse jogo voraz, que chamamos de redes sociais. Queremos ser vistos, seguidos e admirados cada vez mais. Deixamos de lado o prazer de uma refeição quente, de um belo dia de praia e de como é bom ser tocado pelo olhar de quem nos ama. Preferimos fazer isso tudo através de uma lente que, sedutoramente, nos permite repetir registros incontáveis vezes até que, finalmente, alcancemos aquilo que acreditamos ser perfeito o suficiente para atrair o olhar alheio. Trocamos instantes de intimidade por imagens frias e ávidas por publicidade.

            Somos aquilo que postamos. Na verdade, nos transformamos em perseguidores de atenção. Mas, que atenção é essa que se tornou tão cara para todos nós? Quem nos garante que, quem nos curte, nos ama? Quem pode nos afirmar se, os milhares de seguidores que vivem dentro de caixinhas de tela brilhante, de fato, existem? Vale a pena ser alvo de um amor tão intenso e, ao mesmo tempo, tão efêmero? Vale a pena ser reduzido a uma imagem incapaz de expressar realidade? Não, não vale.

               É curioso como, em tão pouco tempo, desistimos de ouvir vozes reais para sorrir de áudios sem rosto. Até outro dia, jamais dispensaríamos o calor que emana de mãos dadas, para conquistar “olhares” que não conseguem nos olhar nos olhos. Montamos perfis baseados em luzes editadas e felicidades ensaiadas exaustivamente, com um único e claro objetivo: o seu like. Fico curioso para saber como será a nossa interface entre o real e o virtual. Ainda seremos amados, agora que somos feitos de likes invisíveis?

             Distribuímos curtidas indiscriminadas, esperando ter outras tantas em troca. As mídias sociais reinventaram o escambo, só que, neste caso, a moeda de troca é formada por projeções irreais de felicidade. Delícias modernas oferecidas a todos nós, mas, disponíveis para poucos. O que provoca efeitos colaterais que são imperceptíveis para alguns, mas, devastadores para outros. Agora que os likes sumiram de nossas vistas, talvez esta seja uma boa chance para deixarmos de lado a busca por uma ilusória perfeição virtual, para abraçarmos, definitivamente, a nossa imperfeita, genuína e deliciosa humanidade.

Não existem inocentes no absurdo

            Em que momento o intolerável começou a ocupar o lugar comum em nossas vidas? Dormimos repudiando barbaridades e acordamos acreditando que roubar infâncias é algo normal. Será que o mundo se pôs de ponta a cabeça com tamanha velocidade que nos impediu de perceber que, o que era bom, perdeu valor no mercado e, o que era deplorável, passou a ser suportável com muita tranquilidade? Será que a maldade invisível deu uma rasteira na nossa boa-fé? Muitas perguntas e uma única certeza. Não existem inocentes no absurdo em que vivemos.

            Presenciamos nos últimos tempos, situações que beiram o insano, o imoral e o impensável. E podem acreditar, esta não é uma fala revestida de pudor. É uma constatação indignada, impotente e assustada diante de uma realidade que, nem nos nossos piores pesadelos, imaginaríamos viver. É como se estivéssemos em uma dimensão onde o nosso umbigo é o centro do universo. Uma dimensão cinzenta onde tudo é desimportante, superficial e perigosamente indiferente.

            Vivemos um mundo pelo avesso. Degradamos a casa onde fomos criados. Alteramos tudo que vemos pela frente, mesmo que isso signifique o desaparecimento de tantas outras vidas mundo afora. Praticamos uma violência que adjetivos não conseguem mais classificar. Transformamos a barbárie em algo corriqueiro e banal. Criamos uma prisão claustrofóbica, revestida com papéis de parede que refletem um belo céu azul com nuvens calmas. Uma bela forma de autoengano que dá suporte a um estilo de vida perfeitamente irreal.

            Criamos células fantasiosas que escondem aquilo que não queremos ver. Transformamos o feio em bonito, o que era errado virou certo e o mal passou a não ser tão mal assim. E por quê? Talvez para esconder a nossa enorme covardia. O absurdo não tomou conta de tudo repentinamente, como escolhemos acreditar. Permitimos que ele tomasse corpo, demos suporte para que ele se espalhasse e, quando ele assumiu o controle, lavamos nossas mãos e nos maquiamos com o bom e velho cinismo, próprio dos covardes e dos mal-intencionados.

         Estamos diante de um paradoxo. Evoluímos tanto sob diversos aspectos, mas, ao mesmo tempo, jamais deixamos de flertar com a irracionalidade. E não é difícil constatar isso, basta olhar para os absurdos escolhidos, deliberadamente, pelas maiorias orgulhosas espalhadas por aí. Podemos consumir mais venenos? Renunciar à educação ampla e justa e aniquilar patrimônios naturais? Subjugar mulheres, abusar de crianças, rechaçar afetos? Acumular mais do que precisamos e desprezar a pobreza e aqueles que nela são forçados a viver? Sim, podemos. Sim, queremos.

            E por quê? Isso eu não sei dizer, mas o que fica muito claro, diante do que temos vivido, é que estamos afundados até o pescoço neste absurdo convenientemente perverso. O que o mundo quer de nós agora? Que façamos escolhas. Precisamos decidir se continuamos presos à essa lama ou se lutamos para que o absurdo, enfim, dê lugar à razão.

O insano ritmo que inventaram para nós

    É engraçado como nos acostumamos a observar, falar e viver a vida em modo avançado. Corremos de um lado para o outro, sem saber muito bem aonde estamos indo. Sabemos, apenas, que precisamos chegar lá, seja lá onde for. E, essa correria, não abre muito espaço para momentos de calmaria espontânea, desaceleração programada ou aquela simples vontade de não fazer absolutamente nada. Até que, por descuido da tal vida moderna, algo inesperado nos obriga a reduzir o insano ritmo que inventaram para nós.

          Essa parada não programada é um desejo que, apesar de compartilhado por muitos, quase não ousamos expressa-lo em alto e bom som. Como se fosse algo feio, desejar que, por alguns momentos, a vida sentisse preguiça e nos concedesse um tempo para respirar, rever amigos, consertar a torneira ou ver os filhos crescerem de verdade. Parece que, no momento em que nos rendemos a esse modelo de vida que sussurra o tempo todo em nossos ouvidos “Não pare! Siga em frente! Não olhe para trás!”, passamos a ver tudo em imagens borradas e sem definição.

          E, nos raros momentos em que conseguimos uma pausa para respirar, percebemos que não vimos as crianças crescerem, os cabelos brancos chegarem e as amizades se transformarem em lembranças. Raros momentos em que chegamos à conclusão que passamos a vida no mesmo lugar, sem perceber que lugar era esse. E, a partir desse ponto, passamos a acreditar que é preciso fazer escolhas, a começar pelo ritmo que imprimimos à vida. Ninguém deseja sair do maravilhoso transe que é viver usufruindo do maior bem que podemos desejar nos dias de hoje: o tempo.

         Talvez, o ato de escolher, tenha se transformado no maior dos nossos privilégios. Se decidirmos correr, o mundo, talvez, nos presenteie com algumas possibilidades. Se a escolha for por uma vida onde o tempo não é um tirando e sim um parceiro, é melhor ficar preparado para os muitos olhares inquisidores que lembrarão, a todo instante, que não é possível ser bem-sucedido sem se deixar sacrificar pela pressa da vida. Como eu disse, uma escolha nada simples.

         Apesar de todos compartilharmos o desejo por uma vida mais calma, o real significado disso é absolutamente particular. Se somos todos diferentes, também são diversos os nossos desejos. Mas, de todo modo, precisamos estar atentos ao que fazemos do nosso próprio tempo e, o quanto de culpa atribuímos a ele pelas escolhas que fazemos. Não se trata de fazer a escolha de Sofia, mas, sim, de entender que não é preciso esperar que o destino coloque paradas obrigatórias em nosso caminho.

       Em tempos de correria obrigatória, as paradas nem sempre nos trazem saúde para usufruí-las. O tempo sempre seguirá o seu inabalável e contínuo fluxo. Sejamos seus cúmplices e caminhemos lado a lado do único que pode nos mostrar como viver bom, se aprendermos a degustar tudo no seu devido tempo.