A suspeita aprovação alheia

            Se tem uma coisa que aproxima a todos nós, é a necessidade de conquistar a suspeita aprovação alheia. E não adianta negar. Quem nunca se pegou olhando ao redor, buscando um olhar, sorriso ou um tapinha nas costas que trouxesse um alento positivo que diga “é, você acertou”. É claro que cada um de nós sente o peso dessa aprovação de formas diferentes. Quanto mais jovens nós somos, mais devastadores são os efeitos do olhar do outro. Ainda bem, que o passar dos anos alivia esse fardo. Ou pelo menos deveria.

            É difícil saber com exatidão em que momento, as opiniões externas assumem o status de ditadoras do comportamento alheio. Talvez seja um avanço progressivo, onde, pequenas doses de interferências, supostamente inocentes, ganham volume e passam a criar pequenos obstáculos que, com o passar do tempo, transformam-se em barreiras difíceis de transpor. Mas, o mais inquietante neste enredo é perceber como, todos nós, de alguma forma, pautamos nosso comportamento a partir do que os outros apontam como certo ou errado, feio ou bonito, bom ou ruim.

            A opinião do outro sobre qualquer uma das nossas características não chega a ser um problema, uma vez que, a maioria de nós, também passa, com facilidade, de réu a acusador de acordo com a ocasião. E, neste jogo de gato e rato onde ora somos o dedo que aponta, ora somos a face que é exposta, apenas um resultado é possível: idealizar o outro de acordo com as nossas expectativas. Esperamos que o mundo aja de acordo com os nossos pontos de vista, logo, qualquer comportamento que não esteja enquadrado em nossos formatos, passa a ser alvo de julgamentos rasos e instantâneos.

           Então, não é exatamente a opinião do outro que nos afeta, mas, sim, o receio em desapontar as opiniões que o mundo tem a nosso respeito. Nossos questionamentos sobre o que os outros acham de nós, não passam de projeções dos nossos próprios julgamentos. Os perigos em medir as pessoas e seu comportamento a partir da nossa régua, permite, apenas, que criemos uma visão restrita e distorcida da realidade.

          Depender da aprovação alheia ou ser o inquisidor do comportamento do outro, são atitudes igualmente perversas, pois, ambas são responsáveis por anular expressões, aumentar medos e reprimir espontaneidades. O que, trocando em miúdos, significa fazer mal ao outro sem qualquer razão. Estamos impregnados de julgamentos que nos tornam senhores do comportamento externo e, ao mesmo tempo, dependentes crônicos da suspeita aprovação alheia. Mas, apesar desse cenário triste onde deixamos de ser originais, é possível enxergar uma luz de esperança.

         Vivemos em tempos onde o desejo pela aprovação do outro massacra e exclui, mas, se olharmos bem, o julgamento alheio não é tão poderoso assim. Para derrota-lo, basta abrir mão do próprio desejo de categorizar o outro. No momento em que percebermos que a diferença que enxergamos no outro, pouco importa na aceitação daquilo que temos de genuíno, estaremos livres para sermos quem somos e tranquilos para convivermos com todas as diferenças que o mundo nos apresentar.

O inesperado trazendo surpresas

         Se pararmos para observar a forma como vivemos a vida, chegaremos a conclusão de que fomos programados para programar praticamente tudo o que nos cerca. Mas, apesar do esforço feito para seguirmos um roteiro prévio e, por vezes engessado, desejamos quase em sigilo, que algo novo apareça repentinamente e mude os nossos rumos. Não importa o momento que vivemos, se o novo for capaz de mudar a nossa rotina, mesmo que de forma discreta, será muito bem-vindo. Vivemos negando, mas nada é mais esperado por nós, do que o inesperado trazendo surpresas.

         Porém, ser surpreendido não é uma tarefa fácil e, para muitos, fugir de uma agenda pré-determinada é quase um pesadelo. Mas, gostando ou não, é impossível negar que ficar surpreso pode nos proporcionar uma mudança de perspectiva bem interessante. Surpresas criam um inusitado jogo de cena onde, de um lado, a ansiedade domina o autor da ação e do outro, o imprevisível comanda todo o resto. Talvez seja este jogo duplo o que torna tão fascinante o ato de se surpreender.

       Surpresas não escolhem dia, hora e nem local. E é, justamente nessa falta de limites, onde ela sorrateiramente nos alcança e surpreende. Surpresas não têm compromisso com planejamento, talvez por isso, sejam capazes de ligar pontos, restabelecer vínculos antigos ou, simplesmente, criar novas conexões de onde menos esperamos. O que deixa a maioria de nós com aquela cara de bobo, própria de quem não sabe como agir quando perde as rédeas da situação. Ainda bem que o acaso existe e se disfarça de surpresa para nos mostrar o quão ilusório é, acreditar que somos senhores de nossos destinos.

          Poucas coisas substituem a euforia provocada por uma boa notícia fora de hora, por uma sensação que nunca se imaginou sentir ou por um sonho realizado sem tenha sido maturando durante longos anos. Surpresas nem sempre são prazerosas ou excitantes, mas são, sempre, transformadoras. Relacionamentos que acabam sem razão. Paixões que nascem de olhares despretensiosos. Transformar o sonho da escrita em sessões de autógrafos mundo afora… Tudo é transformador, tudo é reflexo de deliciosas surpresas que a vida nos dá.

      Acaso, destino, ou seja lá o nome que se queira dar, todos têm em comum, aquilo que os transforma em mistério – a capacidade de ser surpreendente. A felicidade de um sim, a ansiedade por quem demora a chegar ou a dor em descobrir algo que lhe fará sofrer… tudo isso perderia a importância se, algum dia, ignorássemos a ação do inesperado, impedindo que ele surpreendesse a nossa monótona programação diária. Ainda bem que é inútil lutar contra o que está por vir. Mas, o melhor de tudo, é ter a certeza de que, independentemente das nossas escolhas, é na surpresa que a vida se revela.

Conversas com os meus

            Na última semana, ao arrumar caixas antigas, me deparei com muitas referências de pessoas com quem compartilhei sonhos, dores, amores e esperança. Percebi que, à medida em que as fotos amareladas surgiam, novos fragmentos de memória pulavam, exibidos, diante de meus olhos, querendo mostrar que aquele momento era mais importante que todos os outros anteriores. E, sem me dar conta, passei horas em transe, em um interminável ciclo de conversas com os meus velhos eus.

            Sim, velhos. Apesar das imagens mostrarem uma juventude recheada de colágeno e de figurinos de gosto duvidoso, aquele garoto, adolescente magrelo, jovem rebelde e adulto esperançoso são, todos, velhas versões de mim. Versões que teimamos em deixar presas dentro de caixas, longe dos olhos alheios, longe das nossas lembranças. Estamos pré-programados para viver o hoje como se o amanhã não fosse chegar, deixando de lado, os registros daqueles que já habitaram nossas peles, mas, que, sabe-se lá o porquê, foram relegados ao um esquecimento consentido.

            Fotos antigas trazem informações para muito além das imagens. Olhar para aquele rosto de outros tempos, revela alguns dos pontos que marcaram as nossas trajetórias. O que dizer para aquele jovem emocionado no dia da sua formatura? O que será que pensava aquela criança sentada no chão da sala, comendo um pacote de biscoitos? Quais eram as expectativas dela ao rever as fotos do seu casamento? Difícil saber ao certo, mas as imagens de outrora são bem mais que simples recordações. Rever as imagens de nossos eus é, antes de tudo, reviver os antigos passos que nos trouxeram até aqui.

            Fazer uma imersão em nosso museu particular, traz uma gama de emoções que se alternam entre amor e ódio, esperança e frustração, euforia e tristeza. Visitar registros do passado, nos permite criar uma nova perspectiva sobre nós mesmos. Uma perspectiva que desafia nossas escolhas presentes e nos faz pensar em como as decisões tomadas por aquelas pessoas eternizadas em fotos amareladas, foram responsáveis por tudo aquilo que nos tornamos, para o bem ou não.

            Visitar nossas versões anteriores, ajuda a entender como a vida é dinâmica e como somos capazes de nos adaptar a situações que nunca imaginamos viver, até sermos postos à prova. Somos testados, resistimos e nos transformamos. Unimos o que já conhecíamos a novos detalhes e, assim, conhecemos um novo eu para chamar de nosso. Dessa forma, vamos tecendo uma grande colcha de retalhos que nos protege, desafia e impulsiona a seguir em frente, criando novas e melhores, versões de nós mesmos.

Viver é inevitável…

            Os dias vêm e vão. Transformam-se em semanas, meses, anos e décadas. Esse avanço irrefreável do tempo, impõe a todos, incontáveis barreiras que imprimem novos caminhos, escolhas e consequências, a uma velocidade difícil de alcançar. Por vezes, diante da impossibilidade de vencer o tempo, criamos moldes imprecisos que nos permitem algum encaixe, mesmo que isso provoque algum desconforto. Mas, apesar desses subterfúgios, é difícil burlar a vida por muito tempo e, em algum momento, ela irá nos mostrar que viver é inevitável.

                  Esse caminhar acelerado do tempo, estabelece diferentes formas de interação com o mundo. Alguns preferem viver sem colete de proteção, como se o amanhã não fosse chegar, enquanto outros pisam do freio e apertam seus cintos, na esperança de conseguir controlar o que não tem controle. E, há aqueles que tentam o caminho do meio entre o exagero ansioso e a austeridade segura. Mas, no fundo, pouco importa a forma escolhida, uma vez que a vida não faz consultas prévias. Se estamos acima deste solo e debaixo deste céu, é preciso aceitar que viver é mandatório.

                Tem gente que nasce, cresce, gera descendentes, envelhece e morre, sem, jamais, se dar conta se, isso era, ou não, viver. Completar o ciclo da vida com sucesso, não traz nenhuma garantia de uma vida, de fato, bem vivida. Em muitos momentos, ligamos o piloto automático que a tudo controla. Ele nos acorda, leva ao trabalho, paga as nossas contas, permite alguns momentos burocráticos de lazer, nos põe para dormir e traz a certeza de que, no dia seguinte, tudo será, exatamente, como no dia anterior. Isso é viver?

            A forma como decidimos levar a vida está, em grande medida, baseada nos hábitos que criamos. Hábitos que ora indicam os extremos, ora sinalizam o caminho do meio. Mas, independente disso, é preciso ir além dos meus ou dos seus hábitos. Eles são apenas reflexos da forma como enxergamos a vida e, cada um de nós a vê sob uma perspectiva. Afinal, a vida não é uma pintura onde todos conseguem enxergar a mesma paisagem. Nascemos com horizontes pré-programados diante de nós. Amplia-los é uma questão de escolha, de luta e de oportunidades.

           Perceber que viver é inevitável, já é um bom ponto de partida para uma mudança. É o que nos faz enxergar para além dos hábitos, das convenções e da opinião alheia. Ter noção da importância da vida, não pode ser algo que se tem, apenas quando nos deparamos com a maior de todas as nossas certezas. Tentar dar valorizar a vida diante de seu obrigatório fim, é, de longe, o nosso maior engano.

           Todos nós conheceremos o fim disso que chamamos de vida, e isso não se discute. Mas, até que esse derradeiro dia chegue, teremos milhares de novas chances de contar a nossa própria história. Cabe a nós decidirmos se nossas vidas serão lidas como um belo romance ou como um monótono manual de instruções. Dentre todas as coisas que a vida nos impõe, nada pode ser mais importante do que aceitar o inevitável desafio de viver.