O segredo do sucesso

            Basta esbarrarmos com uma história bem-sucedida que, quase imediatamente, uma pergunta nos toma de assalto: qual é o segredo do sucesso? O que é normal, uma vez que acreditamos que as boas trajetórias, só são possíveis, se estiverem cercadas por um sigilo maroto, que finge gostar do anonimato, mas que aguarda, ansiosamente, pelo momento em poderá, enfim, exibir com orgulho o êxito conquistado. O que me leva a pensar que passamos anos acreditamos em uma lógica, que, na verdade, está invertida.

            Desde cedo nos ensinam que em boca fechada não entra mosca. Concordo que a elaboração de planos e estratégias, anda melhor quando protegida por um silêncio precavido. Mas, sabemos também, que o sucesso é exibido e foi feito para ser visto e admirado. Tentar escondê-lo pode funcionar por um tempo, mas não o tempo todo. Tentar abafar sonhos promissores, não trazem garantia alguma de que eles serão realizados. Ao contrário. Podemos condena-los ao esquecimento antes que consigam ver a luz do dia.

            Muito se fala sobre uma suposta “receita para o sucesso”, capaz de transformar a vida de todos aqueles que estiverem dispostos a seguir, a risca, o seu passo a passo. O que significa abdicar de coisas aqui e ali, com muito foco, disciplina e algumas renúncias… Como se todos fossemos iguais e estivéssemos em busca das mesmas coisas. Porém, a partir do instante em que percebemos que a ideia pasteurizada de um sucesso único e acessível a todos, não passa de uma fábula comercial, ganhamos a chance de entender que, ser bem-sucedido é, exclusivamente, uma atitude pessoal e intrasferível.

            Afinal, o que é o sucesso? Seria aquele ideal inatingível que as revistas tentam vender, onde corpos perfeitos, dentes brilhantes e cabelos sedosos, emolduram pessoas lindas, felizes e profissionalmente realizadas? Talvez, o sucesso só possa ser alcançado por aqueles que acordam muito cedo, gastam a sola de seus sapatos em busca de uma oportunidade, e carregam como mantra a frase que diz: Não reclame, trabalhe! E, assim, seguimos por essa estrada de tijolos irregulares em busca da realização de sonhos que nos façam, enfim, beber o néctar do sucesso. Mas, será esse o caminho correto?

            Ao mesmo tempo em que somos bombardeados por receitas de sucesso mirabolantes, os dias seguem seu fluxo independente e constante, sem concessões e sem clemência. O que nos obriga a tentar, de todas as formas, alcançar uma fórmula mágica que consiga adequar a nossa busca pelo sucesso, às vinte e quatro horas de um dia que não tem a menor cerimônia em nos atropelar como um rolo compressor. Resultado: frustração pessoal e idealização do conceito inalcançável de sucesso.

O tempo (ou a falta dele) e as histórias repletas de clichês contadas por pessoas de sucesso, criam uma combinação responsável por desenvolver em todos nós a sensação de que, ser bem-sucedido é, de fato, um privilégio para poucos e bons. Talvez, por isso, seja algo que deva ser mantido em segredo absoluto, para que não caia em mãos erradas. Mas, antes de sair por aí, nessa corrida maluca em busca de um sonho, certifique-se que esse sonho lhe interessa, lhe cabe ou lhe pertence. Se achar que sim, não faça tanto segredo do seu sucesso, porque o sucesso, não se faz em segredo.

Nó na garganta

            Nó na garganta. Essa é a sensação mais incômoda e mais constante dos últimos tempos. Há tantas desgraças acontecendo em tempo irreal, que nos transforma em expectadores de um espetáculo maluco, onde somos elenco e plateia, mesmo que essa não seja a nossa vontade. Vivemos como se estivéssemos envolvidos por um círculo de cordas esticadas capazes de nos puxar com violência, que torna impossível manter-se de pé. Sentimos as cordas, mas não enxergamos a mão que as controla.

            Em um dia, prédios desabam. Noutro, catedrais ardem em chamas. E, quase ao mesmo tempo, furacões varrem populações pobres do mapa. Morremos como formigas, sofremos como gigantes, choramos como crianças. Nunca foi tão difícil compreender o que, de fato, está acontecendo a nossa volta. Bem e mal. Certo e errado. Sim e não. Conceitos que sempre foram tão sólidos, hoje não passam de borrões derretidos e sem definição.

            A sensação, quase real, de que estamos correndo a esmo, a espera de alguém de que nos diga o que fazer, varia entre o pânico anestesiado e a indignação eufórica. Mas, mais uma vez não sabemos como agir diante desses antagonismos que resolveram formar pares incomuns e conflitantes. A alteração dos padrões que sempre nortearam a vida muitos de nós, provoca uma desesperança tão densa que quase podemos tocá-la. É claro que, em muitos momentos, já confrontamos situações difíceis, mas, nunca como agora.

            O mundo está ao contrário, e todo mundo reparou. O que aumenta, ainda mais, essa certeza, são as diferentes formas de reação da massa diante desse circo dos horrores cotidiano. Emoções potencializadas permitem que pequenas discordâncias, transformem-se em diferenças irreconciliáveis, amizades se desmancham como castelos de areia e o diálogo é nocauteado pela intolerância. E, em meio a esse tiroteio social, não sabemos se corremos, se buscamos um abrigo ou se nos posicionamos no front de batalha.

            Essa balbúrdia generalizada tem provocado efeitos colaterais, capazes de provocar um tumor moral nada fácil de tratar, mas, muito fácil de diagnosticar. Qual é o seu principal sintoma? Ódio em estado bruto. Sem retoques e sem pudores. Ódio que provoca uma irracionalidade, que impede a todos de ponderar, ouvir e refletir. É como se, depois de muito tempo sob controle, em masmorras muito bem guardadas, essa raiva tenha descoberto frestas por onde fugir. Criando disfarces elaborados para, aos poucos, tomar conta daqueles que, durante muito tempo, desejaram expressar seus piores reflexos, mas não sabiam como. Até agora.

            Esse ódio chegou a todos os lugares, dominou lideranças, que transformaram-se em exemplos a seguir. Ícones arrebanham seguidores inebriados pela possibilidade de explodir suas intolerâncias, sem constrangimentos. Ver esse panorama em palavras traz dor e desassossego, sem dúvidas. Se o nó na garganta foi meu companheiro ao longo desta escrita, ele também possibilitou o renascimento do desejo por um basta e me fez entender que só conseguiremos nos livrar das amarras do ódio, quando restaurarmos o poder do amor.

Nossos melhores horizontes

Às vezes, o horizonte a nossa frente não se parece com aquela imagem idealizada de um mar calmo e com águas claras. É, bem verdade, que essa figura idealizada e romântica é quase uma lenda. A vida está mais para um oceano revolto, do que para uma praia em calmaria. Esse turbilhão em que vivemos, quase sempre, nos faz olhar de um lado para o outro em busca de luzes de emergência que indiquem caminhos que conduzam à praias paradisíacas, onde repousam os nossos melhores horizontes.

O momento em que vivemos, não importa em que lugar do mundo estejamos, não tem sido fácil. A cada dia uma nova notícia nos alcança e, independente da nossa vontade, diminui nossos reflexos, provocando uma apatia difícil de vencer. Criando rachaduras na nossa capacidade de reagir, e se indignar, diante de tanta loucura. É neste ponto onde encontramos a primeira armadilha: a banalização daquilo que nos incomoda.

Jovens são perdidos para a violência, chuvas fortes provocam desabamentos, mulheres sofrem abusos, escolas não conseguem mais instruir, não há sensação de segurança, famílias são esfaceladas… Desigualdades por todos os lados, injustiças para onde quer que se olhe e dores compartilhadas, que não sabemos explicar, apenas sentir. Com isso, nos deparamos com a segunda armadilha: achar que não existem luzes de emergência quando a única coisa que enxergamos é a escuridão.

Mas, ao mesmo tempo em que parece não haver saída deste abismo sem fundo, onde as tragédias parecem grandes demais, passamos a enxergar detalhes que antes não eram notados. Pequenas atitudes, gentilezas sutis e uma cordialidade cotidiana que insistem em resistir, diante de uma realidade excludente, raivosa e impessoal. Mas, felizmente, são essas sutilezas que injetam energia em corpos e almas sem esperança. E, assim, chegamos a terceira armadilha: acreditar que não viveremos dias melhores.

É obvio que, diante dessa encruzilhada que não aponta para lugar algum, esperança não é algo fácil de perceber. Mas, basta treinar o olhar para percebermos que aquilo que nos afasta pode, também, ser uma forma de aproximação. A dor, a indiferença ou a falta de empatia, permitem reflexões sobre quem somos e o que é, de fato, importante para nós. Talvez esse seja o grande ponto de retorno. Aquele mar revolto ao qual nos acostumamos, nos endurece e nos impede de enxergar a boa energia das coisas simples.

Portanto, aquela ideia do horizonte calmo e solar, pode até não ser uma verdade absoluta, mas traz consigo uma importância que vai muito além de um ideal romântico. Imaginar que um dia seremos capazes de chegar até as belas paisagens que julgamos perfeitas, garante, não apenas um fôlego extra para seguir em frente e de cabeça erguida, mas também, a capacidade de não sucumbir às armadilhas que nos impedem de acreditar que dias melhores virão.

A beleza da gratidão

     Diga obrigado. Seja gentil. Cumprimente as pessoas. Seja grato… Certamente a maioria de nós já ouviu estas recomendações vindas daqueles que nos precederam. Somos lembrados o tempo todo de que é preciso ser gentil, mesmo sem saber bem o porquê. Mas, a cada momento, fica mais e mais claro que não há como viver coletivamente, sem praticar a gentileza. E, principalmente, não há como viver coletivamente, se não soubermos retribuir a gentileza que recebemos. Esse é, sem dúvida, o ponto de partida para entender a beleza da gratidão.

Os anúncios em lugares públicos, também são grandes fontes de treinamento de cordialidade, onde, não raro, encontramos avisos soltos de “Ceda lugar aos que necessitam”, “assento preferencial para idosos”, “pedestres primeiro”… O que significa que não basta aprender a ser gentil, é preciso manter-se vigilante. A gentileza, apesar de transformadora, pode ser muito frágil quando não é considerada como uma expressão inegociável do bem viver. Mas, essa percepção, não é compartilhada por todos. Infelizmente.

É este o ponto onde estamos agora. Um momento onde uma efervescência de emoções nos toma de assalto, provocando rompantes emocionais incontroláveis, muitas vezes. Ora amamos demais. Ora detestamos sem limites. Mas, independente de qual é a emoção que nos controla, reagimos a tudo a partir de uma perspectiva individual e intransferível. O sentimento é meu e que se dane o resto… Repararam como pode ser fácil ignorar a gentileza e substitui-la por qualquer outro sentimento, desde que nos traga uma satisfação imediata?

Esta pode ser a principal razão pela qual não podemos, jamais, baixar a guarda. Se a evolução não nos fez uma espécie cordial na sua origem, que a convivência e os bons exemplos sejam responsáveis por esse feito. Criamos muitos mecanismos que nos aproximaram uns dos outros, até formarmos esses agrupamentos colossais, onde a ação de um, impacta na vida de milhares de outros. Não há como administrar isso sem criar um código que torne mais suave, a dificílima arte da convivência.

Gentileza não pode ser um ato isolado. Ser cordial, desperta gatilhos emperrados que nos levam a agir de forma semelhante criando, assim, uma coletividade onde o bem mais precioso não é ter e, sim, ser. Ser mais leve, mais disponível e, acima de tudo, ser mais grato por tudo o que as pequenas atitudes gentis podem proporcionar, seja individual ou coletivamente.

E, o melhor de tudo, não está apenas na constatação do poder da gentileza, mas, sim, naquilo que de mais potente que ela é capaz de gerar: a gratidão. Ser grato é o reflexo imediato de um ato despretensioso. Por isso, mantenha-se atento o máximo que puder. Não confunda a suavidade da gentileza, com fraqueza. Não confunda a alegria da gratidão, com bajulação. Se custa muito pouco ser gentil, ser grato custa menos ainda.