Aquilo que chamamos de família

Um dia, quando a gente se dá conta, as crianças cresceram. Um dia, quando a gente percebe, o amor que sentíamos, expandiu-se para fronteiras nunca antes imaginada. Um dia, o que era um, virou dois, depois quatro, oito… e seguiu em frente sem conhecer limites. Essa matemática torta que, aparentemente divide inteiros, está, na verdade, multiplicando sentimentos que aproximam diferentes, selam parcerias e distribuem amor sem moderação. Talvez esta seja a melhor forma de encarar os grupos que se formam aleatoriamente e criam aquilo que chamamos de família.

Família. Grupos heterogêneos que se ligam por laços invisíveis e, por vezes, inexplicáveis, mas que possuem uma força tão absoluta que, independentemente das distâncias, impedem que as amarras se rompam, que os laços se desfaçam e que o amor se dissipe. A intensidade dessas relações conecta opostos, desnuda semelhanças, minimiza diferenças e, acima de tudo, cria uma unidade tão complexa, que não permite interferências e não aceita desaforos.

Famílias quebram convenções, quebram barreiras, quebram o pau. Envolvem-se em confusões insolúveis, em um primeiro olhar, fragmentam-se em pedaços bem pequenos para, em um futuro muito próximo, reestruturarem a unidade inicial, como se nada tivesse acontecido. “Só eu posso falar da minha família, mais ninguém!” Quem nunca fez uso desta clássica máxima familiar, usada por dez entre dez membros de algum clã? Isso, talvez, traduza um pouco do inexplicável que é conviver com as diferenças e, ainda assim, protegê-las como um tesouro que é só seu.

Pertencimento e família são parceiros inseparáveis, mesmo quando os laços se estremecem. O excesso de amor que nos une às nossas famílias, vez ou outra, provoca uma confusão que nos impede de separar a divergência da aceitação, e entender que pontos de vista podem ser, sim, discordantes. Fatores que, normalmente, quebram vínculos de confiança por aí afora, mas não em família. Mesmo que leve tempo, o amor ancestral que nos une, impede que diferenças se tornem irreconciliáveis. Leve o tempo que levar, os invisíveis laços familiares, atam-se novamente.

Pode parecer estranho vir ao mundo cercado por uma rede de acolhimento não programada, não escolhida, mas, ao mesmo tempo, indispensável na construção de quem somos individualmente. Avós, mães, filhos, sobrinhas, netos, irmãos… todos aqueles que vieram antes e todos aqueles que se seguirão a nós. Não importa o quão intimo e próximos somos, basta estar envolvido por esse laço apertado, que faz com que reconheçamos a nossa unidade e o nosso pertencimento. A energia inexplicável que nos aproxima, seja pela genética compartilhada, seja pela identificação construída vida afora, será sempre um dos nossos maiores desafios. Ser capaz de amar, agregar e entender o outro, apesar de nossas óbvias diferenças, é o que nos faz continuar querendo ser… família.

Infinitas conexões

Para onde quer que se olhe, lá estão elas. Nos conectamos o tempo inteiro com o universo que nos rodeia, mesmo quando não percebemos. Tudo o que o nosso olhar é capaz de alcançar, nos permite uma interação. É claro que ninguém se dá conta, conscientemente, do número de possibilidades que se apresentam para nós, do momento em que acordamos, ao instante em que fechamos os olhos. Estamos todos, de alguma forma, intimamente conectados em uma rede de infinitas conexões. E isso não é um exagero…

É claro que não somos capazes de interagir com absolutamente tudo o que nos cerca, mas estabelecer conexões vai muito além de uma interação consciente. Não, não estamos falando de relações. Estas, são fruto de conexões pensadas e ponderadas onde nós somos capazes de escolher, diante de incontáveis opções, quem gostaríamos de ter por perto. O que nos leva a repensar no papel do acaso em nossas existências.

Vislumbrar um céu nublado, mergulhar no mar, caminhar de mãos dadas, tomar um banho de sol ou de chuva, observar… Todas as nossas ações vão, pouco a pouco, construindo uma rede tão complexa de conexões, que sequer percebemos a sua formação e, quando menos se espera, já temos um paladar formado, um gosto musical e um jeito de se expressar muito particulares. A forma como nos conectamos com o mundo, diz muito sobre quem fomos, sobre quem somos e, mais ainda, sobre quem seremos um dia.

O que significa dizer que estamos num eterno liga-desliga com todo os estímulos que surgem diante de nós. A programação da TV, as músicas que ouvimos ou as conversas de bar, os pés na bunda de dêmos e levamos, o certo e o errado. Bebemos em todas essas fontes que ajudam, para muito além da nossa percepção, a criar o que chamamos de jeito, vontade ou… personalidade.

O que nos difere, no geral, é a forma como lidamos com esses estímulos. Alguns de nós estão sempre prontos para novas experiências, enquanto outros, preferem seguir as velhas novidades. E não há problema algum nisso, mas é importante ficar atento. Ignorar demais aos estímulos, nos colocam no trilho da insensibilidade. Não basta perceber as possibilidades, é preciso querer se conectar a elas.

Se a vida é feita a partir das conexões que estabelecemos com as pessoas e com o mundo, somos, em grande parte, responsáveis pela realidade em que vivemos, sim. Somos nós quem decidimos a maioria das nossas ações diárias. Criamos a nossa rotina. Mas é tão bom ir além disso. Permitir-se contemplar outras paisagens, trocar o caminho para o trabalho, observar mais e se deixar observar. Somos capazes de infinitas conexões, todos nós. Ligações que nos ensinam, nos movem e, sobretudo, nos dão a chance de sermos melhores a cada dia.

O desamor é tóxico

A vida tem se tornado, em linhas gerais, um desafio que vai muito além da simplicidade dos sonhos, dos desejos materiais ou da conquista de um espaço para chamar de seu. Parece que viver não é mais um ato natural que nos leva a acordar todas as manhãs, tocar a vida e fechar os olhos a noite para que tudo recomece. Parece que nos esquecemos como é viver de forma leve. É como se estivéssemos infectados por uma indiferença que nos impede, inclusive, de perceber como o desamor é tóxico.

Muitas são as mazelas que somos obrigados a enfrentar, o que nos leva a pôr em xeque, valores que sempre foram inquestionáveis, como a nossa capacidade de amar, por exemplo. Poucas coisas são tão devastadoras quanto duvidar do amor e sua força transformadora. É claro que isso gera efeitos colaterais que se desdobram como ondas gigantes, com tamanhos e intensidades diferentes, mas que, inevitavelmente, alcançam a todos.

Entender qual é a gênese desse movimento que prega o descaso e não o cuidado, a descrença no lugar da empatia e o ódio ao invés do amor, é o maior desafio em tempos tão difíceis. O mundo inteiro assiste, sem reações, ao levante de um mal que busca usurpar um protagonismo a qualquer custo. Achar que vivemos uma fase, é a chancela que a maldade precisa para espalhar-se como metástases de um câncer intratável. É hora de extirpar esse mal.

Não é mais possível permitir que o mal e todos os seus disfarces, continuem nos soterrando, humilhando, afogando, desabrigando e adoecendo. Não é possível que continuemos a ser alvejados por balas que saem de armas de inimigos infiltrados em nosso cotidiano, sem levantar suspeitas. O ritmo de perdas e danos provocados pelo desamor que se estabelece como nova ordem, é tão avassalador, que impõe a todos um choro constante, onde o nosso maior castigo é, justamente, não poder decidir o momento em que devemos parar de chorar.

Apesar de sentir e perceber que nos tornamos reféns do ódio escolhido por muitos, há inúmeras formas de minar sua força. Desamor é amargura. Ninguém se sustenta por muito tempo provando, exclusivamente, o amargo sabor do ódio, da inveja, do racismo e, muito menos, consegue manter-se respirando numa atmosfera contaminada pela indiferença.

É necessário e urgente que todos percebam a fonte do mal que os torna, inconscientemente, algozes uns dos outros. Precisamos de doçura, luz, ar puro e paz para tocar a vida. É a luz, não a escuridão, a responsável pelo retorno do equilíbrio, tão ignorado nos últimos tempos. É na luz que os olhos brilham. É na luz que a sinceridade se expressa. É na luz onde o amor se encontra.

O berro das minorias

É praticamente impossível nos dias de hoje, não perceber o quanto nos tornamos mais diversos e, com isso, menos tolerantes a vozes de comando que gritam alto demais, mas que não tem nada a dizer. Pouco a pouco, os cabrestos que sempre se encarregaram de apertar quando menos esperamos, começam a perceber que há algo diferente, como se os nós habituais não fossem mais capazes de conter uma voz crescente, que se cansou do silêncio. É o berro das minorias que descobriu-se potente e sem medo de transformar.

Os noticiários se encarregam, diariamente, de jogar em nossas caras toda sorte de horrores onde, para variar, as vidas afetadas são aquelas a quem nos acostumamos chamar de minorias. O que é muito estranho, para dizer o mínimo. Somos um país onde as mulheres representam mais da metade da população. Somos um país de maioria negra. Somos uma nação que bate recordes de público em paradas LGBT. Como é possível continuar chamando tudo isso de minoria?

Sabemos que há muitas respostas possíveis, mas nenhuma delas explica o fato dessa parcela mais que expressiva continuar sendo vista desta forma. Arrisco a dizer que, por traz dessa percepção de mundo compartilhada por todos nós, existe um grupo em desvantagem numérica que está desesperado. Desesperado com a ideia de perder os privilégios que estruturou ao longo dos séculos, para aqueles que, segundo a sua visão perversa e excludente, não merecem sonhar com dias melhores.

E, assim, criaram uma grande ilusão que nos fez acreditar que pequenos grupos são maioria e que grandes massas não passam de grupos insignificantes. Passamos anos acreditando que somos, de fato, muito poucos. Não se enxergar exercendo algumas profissões, não ter seus traços representados em brinquedos, não se ver refletido na arte. Não ocupar todos os espaços. Não. Não. Não… Se não pode ser visto, logo, não existe. Essa foi, e ainda é, a grande estratégia quem mantém a real minoria do controle de tudo.

Dividir para conquistar. Manobra de guerra eficaz quando se pretende minar a força de gigantes, para que eles jamais percebam o tamanho de seu poder de transformação. Mantendo-os eternamente adormecidos e afastados de tal forma que, como o passar do tempo, não são mais capazes de reconhecer suas próprias faces refletidas. Resultado de uma exclusão muito bem pensada.

Assumimos a convenção que estabelece que grupos desorganizados, mesmo que tenham claras características que os colocam em vantagem, serão chamados de minorias. Mulheres, negros, gays, crianças, pobres, imigrantes… Minorias. Brancos, abastados, religiosos, educados, políticos, banqueiros… O falso ideal da maioria inatingível. Desproporções que sustentam os pilares da desigualdade desde sempre e para sempre. Os anos não foram gentis com essa maioria fragmentada e incapaz de enxergar a sua própria potência. Até agora.

As barreiras que impediam que semelhantes se enxergassem como tal, caem a cada dia. O que leva essa massa a perceber que seu lugar no mundo não é aquele onde privações são a única realidade possível. À medida que pequenos grupos se reconhecem como único, espaços são reivindicados, direitos são conquistados e, a partir disso, passos para trás não serão mais tolerados. A mudança chegou. É hora de acolher, aprender a ser melhor e compreender que as diferenças, que sempre foram impostas, jamais foram reais.

Dia após dia as “minorias” encontram seus pares e voltam, após um interminável exílio, ao reconhecimento de sua própria face. Que é diversa, divertida, inteligente e muito potente. E isso, gostem ou não, é um caminho sem volta. Ainda bem.