Amarras por todos os lados

Acho que você deveria emagrecer. Por que não corta esse cabelo? Não vai casar? Nossa, como você é incrível! Não quer filhos?… O bombardeio de perguntas sobre todo e qualquer assunto, não chega a ser uma novidade, mas, o que fica cada vez mais nítido, não é apenas a curiosidade alheia ou o desejo por uma fofoca casual. O interesse em palpitar sobre a vida dos outros está cada vez mais intenso, como se estivéssemos cercados com amarras por todos os lados.

Se pararmos para pensar em todas as experiências que acumulamos até chegarmos aqui, certamente encontraremos uma série de eventos transformadores, provocados pela interferência alheia. Eventos esses, responsáveis por mudanças, para o bem ou para o mal, em diferentes níveis na vida de cada um nós. E o mais curioso é que essas cordas invisíveis envolvem desde os mais inseguros até os, supostamente, decididos e bem resolvidos.

É tanta gente nos dizendo o que, quando e como fazer, que fica difícil estabelecer o que é, de fato, a nossa própria opinião ou se estamos apenas refletindo a vontade do outro. Essa simbiose social em que estamos atolados até o pescoço é, possivelmente, a grande rede que nos mantém realmente conectados uns aos outros. Não é exagero dizer que não é o amor, a paixão ou a amizade que nos une. O que nos aproxima do outro é vontade incontrolável em saber, qualquer coisa, da vida alheia. Gesto pouco nobre, mas, genuinamente humano.

Por mais que alguns imaginem que são absolutamente imunes ao julgo alheio, sempre existirão aqueles gatilhos discretos, capazes de desorientar até mesmo os mais libertários. Muitas vezes, passamos anos sob o controle de tantos interesses externos e sequer percebemos que, grande parte das decisões que tomamos, estão muito pouco relacionadas a quem somos na essência. Reagimos muito mais diante daquilo que acham ou esperam de nós, que deixamos de lado atitudes que nos fariam verdadeiramente felizes.

Afrouxar essas amarras é uma ação complexa, que demanda tempo e energia. Além de uma vontade imensa de traçar novos rumos, mesmo sabendo que a vida, até então tranquila, se tornará um campo minado prestes a explodir a cada vez em que a escolha for o não ao invés do sim. Para construir-se forte, é necessário cortar as cordas que atam, paralisam e ferem. Mas, é preciso estar atento. Esse mundo louco não terá a menor cerimônia com aqueles que ousarem ser como são.

Vivemos, felizmente, em uma época onde muitos e muitas buscam, incessantemente, o seu direito a voz e a expressão de seus desejos e vontades. O que incomoda aqueles que sempre estiveram confortáveis em seus lugares privilegiados, apontando dedos para tudo que soasse diferente. Mas, mais importante do que perceber as amarras que nos prendem, é mostrar para aqueles que sempre seguraram as cordas, que seus nós, nunca mais serão capazes de conter o nosso desenfreado desejo de liberdade.

A dor em ver o outro partir

A vida passa rápido demais. Sempre ouvimos isso, especialmente daqueles com mais tempo de estrada. Porém, o que temos percebido é que, a velocidade deixou de ser, há tempos, a responsável por encurtar vidas e impedir a realização de sonhos. Parece que o mundo adotou um giro tão alucinado, que pôs tudo de ponta a cabeça. Tirando do lugar, coisas que jamais poderiam ser movidas, como a dor em ver o outro partir.

Esse estado confuso, nos impõe uma realidade tão absurda quanto desumana, que nos empurra para a beira de um abismo de onde só é possível enxergar indiferença e dor. Não sei se é possível dizer o ponto exato onde adotamos a insensibilidade como bandeira. Só sei que nada, nada, se compara ao poder destruidor da falta de comprometimento com as necessidades do outro, sejam elas quais forem. A partir do momento em que nos tornamos imunes as dores alheias, nos transformamos, também, em vítimas da nossa própria indiferença. O que significa dizer que estamos todos à deriva, buscando por alguém que nos resgate desse mar de intolerância.

É difícil perceber os efeitos desse mal que aflige a todos, uma vez que ele não tem uma rotina definida. Pode ter muitos nomes, muitas formas e diferentes intensidades. O que se sabe, concretamente, é que, a falta de cuidado com o outro só precisa de uma única chance para tornar-se um hábito. Que começa discreto e faz com que deixemos de lado uma coisa aqui, outra ali, até que em um dado momento, passamos a ignorar praticamente tudo aquilo que, aparentemente, não é importante. É nesse ponto, em que nos tornamos peças de um jogo onde, sem exceção, todos os participantes saem perdendo.

Tornar-se indiferente a tudo que, aparentemente, não lhe afeta, abre portas para uma série de efeitos colaterais deletérios, como a intolerância, o medo, o ódio e o desprezo por seu semelhante. E, para aumentar ainda mais esse caldeirão, o cotidiano nos brinda, a cada instante, com cenas injustas e desumanas, que beiram a primitividade a barbárie. Cenas que nos agridem com tanta frequência que, impressionantemente, acabam relegadas a banalidade. Compartilhar a dor e ser afetado por ela, só é possível quando ainda somos capazes de senti-la.

Crianças se perdem. Jovens são dizimados. Enterram-se desejos. Famílias são destroçadas. Sociedades entram em colapso. Perdemos nossa humanidade. Renegamos a empatia. Negamos direitos. Usurpamos poderes. Matamos sonhos que ainda não nasceram. Morremos um pouco a cada dia.

Até quando ficaremos indiferentes a isso?… Até quando?

É tão bom ter alguém

Não é bom estar sozinho. A vida é tão melhor quando temos alguém para dividir felicidades e tristezas. Busque alguém para passar os seus dias. Ficar só é sintoma de que algo vai mal. Tenha filhos para não se sentir solitário na velhice… Essas são algumas das máximas que são disparadas de forma indiscriminada, por uma patrulha de criaturas sempre prontas para apontar caminhos a seguir. Sem pensar nos efeitos colaterais de suas, ditas, boas intenções ou, ainda, se o outro está interessado em ouvi-las. O que achamos sobre isso? Pouco importa, afinal, é tão bom ter alguém.

Essas afirmativas que soam, ora como conselhos, ora como maldições, fazem com quem aprendamos a acreditar que estar só é uma espécie de castigo e, por isso, iniciamos uma busca incessante por parcerias que nos salvem deste triste destino. Como se o ideal de felicidade estivesse, visceralmente, ligado ao fato de estar conectado a alguém. E não é apenas isso. É necessário que essa ligação faça parte do ideal das parcerias românticas, onde só o amor é capaz de nos transformar em seres plenamente felizes.

Não se pode negar que partilhar nossos momentos é sempre algo prazeroso, reconfortante e necessário. Porém, estabelecer que isso só é possível, a partir do instante em que formos atingidos por flechas de cupidos desorientados, é de um romantismo que não corresponde a realidade. Dessa forma, cria-se, desde muito cedo, uma responsabilidade injusta, que estabelece que, se não for a dois e por amor, suas chances de alcançar a felicidade se aproximarão do zero. Deixando de lado, uma das coisas mais importantes para a vida de todos nós, que é, sem dúvidas, a capacidade de auto amar-se.

Essa dificuldade em perceber que não somos apenas uma casca e, sim, uma excelente companhia para nós mesmos, pode acarretar dificuldades em perceber quem somos e o que, de fato, nos agrada. Tudo isso por conta desta pressão irracional que nos diz que a nossa felicidade repousa sobre mãos desconhecidas e que, como num passe de mágica, surgirão a nossa frente, trazendo a solução para todos os problemas, uma vez que nada é capaz de superar a dádiva que é ter alguém para chamar de seu.

Com isso, deixamos de aprender como é fascinante sentir-se confortável quando vestimos a nossa própria pele e nos tornamos capazes de enxergar quem somos por inteiro. Algo tão simples de acontecer, não fosse a tirania social que impõe, seja de forma velada ou ostensiva, que é impossível ser feliz sozinho. É obvio que é maravilhoso compartilhar experiências onde há amor, mas esqueceram de nos contar que o amor assume várias formas, tem várias cores e muitas possibilidades. E por essas e outras, não seria justo eleger apenas o amor romântico como o passaporte para a felicidade.

Dizem que somos capazes de oferecer ao outro, apenas aquilo que trazemos conosco. Pode parecer clichê, mas é uma verdade. É difícil estabelecer afeto, quando depositamos no outro, a responsabilidade pela nossa felicidade. Precisamos parar diante do espelho e compreender que aquela pessoa que vemos refletida, tem o direito de se reconhecer inteira e amar-se incondicionalmente. Só assim será possível resistir a dura cobrança que nos diz as mesmas bobagens, todos os dias e de muitas formas, insistindo que para ser feliz é preciso ter alguém. Concordo, desde que sejamos nós os principais responsáveis pelo nosso próprio jeito de ser feliz.

Fragmentos irreais

Os últimos tempos tem sido pródigos em novidades. Até aí nada de novo. A grande diferença de tudo o que foi vivido antes para o que temos agora é, sem dúvida, a velocidade com que as experiências nos alcançam. A pressa é tamanha, que quase tudo nos escapa, e não queremos mais perder nenhum detalhe. Assim, abrimos mão de sermos únicos e criamos fragmentos irreais de nós mesmos, na tola tentativa de dominar a velocidade dos novos tempos.

O tempo deixou de ser o moderador de nossas existências, para assumir o posto de observador desse grande jogo no qual vivemos onde, o ganhador, será aquele que fingir melhor ser quem jamais foi, ter estado onde sequer imaginou estar ou parecer ter aquilo que nunca teve. A ansiedade em estar em todos os lugares e com todas as pessoas, faz nascer criaturas fragmentadas que não sabem ao certo de onde partir ou aonde querem chegar. A falta de percepção sobre o que é real, nos fazem acreditar nas irrelevâncias de uma vida cada vez mais editada.

O que parece estar muito claro, mesmo que não seja percebido por todos, é a batalha interna que travamos onde, o indivíduo que somos de fato, tenta conter os cacos que insistem em se espalhar por todos os lados. E, pelo que podemos ver, os nossos pedaços tão pequenos parecem vencer essa briga com folga. Afinal, quem nunca viveu o terrível dilema que nos leva a escolher, dentre milhares de opções, as partes de nós que julgamos próximas da perfeição? Queremos oferecer o melhor de nós sempre. Mesmo que seja uma fantasia.

O volume de possibilidades de interação mudou tanto, e em tão pouco tempo, que não é mais possível saber se os novos meios de comunicação nos fragmentaram ou se nos pulverizamos para poder atingir um número maior de conexões. É uma busca quase filosófica por respostas que, de fato, pouco importam. Estamos vivendo o delírio de uma vida editada por aplicativos e filtros que prometem, além da felicidade plena, a conquista de uma perfeição, concretamente, irreal.

De fato, nos habituamos a enxergar a vida por ângulos específicos. Vemos frações de paisagens. Rostos divididos, pratos de comida, corpos moldados sob a luz correta e sorrisos constrangedoramente felizes… Todos vistos por lentes especiais cuja a finalidade é criar o imaginário da perfeição. O que, obviamente, não é possível, uma vez que o ser perfeito não passa de uma peça publicitária bem elaborada, que diz que somos capazes de alcançar esse objetivo, apesar de sabe-lo inatingível… Assim sempre que chegarmos perto do que acreditamos ser perfeito, uma nova meta é criada. O que nos obriga a construir uma nova face o tempo todo, pois, só assim, conseguiremos estar, ingenuamente, a um passo de um lugar que jamais existirá.

Essa receita foi feita para dar errado, claro. Escolher ser muitos para agradar as demandas de um mundo tão diluído, provoca um efeito dominó onde todos dizem tudo para agradar a todos e, assim, conquistam a admiração de uma plateia sempre crescente. É aí que me vem a seguinte dúvida: será que vale perder o direito as próprias escolhas, a capacidade de dizer não ou a vontade de fazer apenas o que lhe agrada, somente para viver a ilusão de que podemos ser múltiplos na arte de fingir ser quem jamais seremos? Desconfio que, encontrar essa resposta, será o nosso grande desafio, diante desse acelerado novo tempo.