Corpos cobertos de lama

Vivemos em um grande atoleiro onde, cada tentativa de andar para frente, nos afunda cada vez mais. O que seria, por si só, uma situação repleta de agonia e indignação, transformou-se em um padrão social onde a maioria, estranhamente, acostumou-se a sobreviver com seus corpos cobertos de lama. Vemos a esperança e a felicidade brilharem ao longe. Esticamos nossos braços na tentativa de poder toca-las, mas, os nossos pés presos sob a lama não permitem que sigamos adiante.

Ao mesmo tempo em que nascemos sob o signo da dificuldade, somos levados a crer que todos teremos as mesmas oportunidades, basta querer. Mentirosos muito habilidosos compram a fidelidade de quem tem muito pouco a oferecer, além de sua simplicidade. Usando artimanhas milenares que oferecem ilusões deslumbrantemente falsas, em troca de sonhos roubados de pessoas simples e repletas de esperança. Vivemos em um lugar onde a simplicidade tornou-se vítima da ignorância.

Somos subjugados por nossos pares e, principalmente, por aqueles que se julgam acima de nós. Aqueles que aprenderam a conjugar o verbo ter e esqueceram da importância do ser, distanciando-se cada vez mais do encantamento da simplicidade, banham-se na felicidade arrogante provocada pela sede de querer ter mais e mais. Essa gente ignorante, na ausência de argumentos, se vale da força para disseminar seus hábitos e sua visão de mundo. Custe o que custar. Doa a quem doer.

Vivemos em lugar onde esconder-se virou a única opção para se manter vivo. Dizer o que pensa ou ser quem se é, agora, um risco de vida. Na verdade, sempre foi. A ignorância rasa se incomoda quando a simplicidade consegue romper a força da lama que a mantém em cárcere e passa a irradiar a beleza de ser comum. Como se perpetuar em um lugar de poder, quando todos se derem conta de que, a força dos ignorantes, é forjada a partir da dor e do sofrimento dos mais simples? Já sabemos a resposta, infelizmente.

Estamos todos parados. Presos. Soterrados. A felicidade e esperança parecem distante demais para serem alcançadas pela ponta de nossos dedos. Em seus lugares, o ódio e a indiferença parecem não ter pressa de partir, colocando a todos sob seus domínios, intoxicando cada vez mais a lama que recobre as nossas peles e que nubla a nossa visão de mundo.

O mais impressionante nesta insanidade que nos arrebata, é a incapacidade de muitos em perceber o quanto estão impassíveis diante de todo mal a que são submetidos. Essa insensibilidade os faz acreditar que nada é tão ruim quanto parece. Criaturas cobertas por uma lama sufocante, disfarçada de brisa de otimismo. Mais um ponto para os calhordas que, habilmente, espalham migalhas de pão dormido e criam a esperança de conduzir essa massa faminta, a um banquete que jamais será uma realidade em suas vidas.

A lama que nos cobre não vem, apenas, de barragens negligentes. Vem da falta de oportunidades a qual fomos acostumados a conviver e atribuir aos céus a nossa falta de sorte. Não. Jamais foi por isso. Somos, sistematicamente, privados de nosso bem mais precioso: a simplicidade. Aquela que nos faz querer apenas o que é importante e que nos leva a compartilhar com quem tem menos que nós. A simplicidade é a força capaz de anular a resistência que mantém nossos pés presos essa lama tóxica e perversa. A simplicidade nos dá a liberdade de escolher apenas aquilo que vale a pena viver. E nada é tão assustador para os ignorantes abastados, quanto a possibilidade de ver o poder do ser simples.

Jogo de gato e rato

Todos os dias perdemos algo que nos é caro, importante ou essencial. Fazemos escolhas inconsistentes acreditando que elas nos levarão a certezas concretas, mas, o que percebemos é que existem muitas variáveis entre esse meio e fim. Mas, até aí está tudo certo. Nossas escolhas sempre implicarão em perdas que fazem parte de um jogo de gato e rato que será presença constante em nossas vidas. O problema é quando a nossa realidade nos impede de fazer as próprias escolhas, sejam elas quais forem.

A conectividade ilimitada acelerou viagens, encurtou distâncias e criou pontes para todos os lados. Aumentando, assim, a sensação de que a nossa capacidade de fazer escolhas é, também, sem limites. Até seria, não fosse o simples fato de não estarmos sozinhos nesse mundo. Mundo esse que pensa cada vez mais igual, massacrando cada vez mais a diferenças, em prol de uma padronização de comportamentos, potencializada pela suposta facilidade que temos em fazer escolhas. Que grande cilada.

Somos levados a crer nesta fala que diz que podemos conquistar tudo, quando quisermos e o quanto aguentarmos. Mas, na prática, o que percebemos é exatamente o contrário. Diante de um cenário de múltiplas possibilidades, fica cada vez menor, a nossa capacidade de decidir o que é melhor para nós. Nos atrapalhamos entre tantas saídas e atalhos, que fingem nos levar para onde quisermos, mas, que no fim, nos mantém exatamente no mesmo lugar. Esse mundo pretensamente grandioso nos ilude com ofertas de escolhas vitoriosas, que não passam de derrotas disfarçadas.

Enquanto entramos nessa grande roda de hamster, perdemos de vista que nossos desejos não são suficientes para garantir que nossas escolhas sejam sempre acertadas. Estamos envoltos por muitas camadas que, propositalmente, nos distraem e distanciam daquilo que queremos. Perdemos horas de sono sem razão. Perdemos encontros importantes porque não temos tempo. Deixamos de vislumbrar a vida real por estarmos vidrados em telas brilhantes. Amores são perdidos por não sabermos reconhece-los. Quem disse que nossas escolhas só trazem ganhos?

A realidade em que vivemos traz pitadas de um surrealismo tão cínico quanto perverso. Pessoas saem de casa e por razões absolutamente descabidas, não conseguem retornar. A violência é a grande expressão disso. O desejo desenfreado por ter, faz com que deixemos de perceber que não é necessário querer tudo. Quando todos desejamos mais do que podemos ter, fatalmente esbarraremos na vontade do outro, gerando conflitos que criam uma grande deformação social que nos engole a todos e nos tira, sem pudores, tudo aquilo que nos é caro, importante ou essencial.

Se a vida é de fato um grande jogo, perder ou ganhar são efeitos mais que esperados. Esse equilíbrio de forças só é possível enquanto formos donos do nosso direito de escolha, seja para ganhar ou para perder, desde que seja uma decisão nossa. Querer abraçar todas as chances possíveis para, no fim, acumular êxitos, não é apenas uma ilusão, é a certeza de que o descontrole sobre as escolhas que o mundo nos oferece pode, e vai, nos fazer perder mais do que poderíamos imaginar.

Todo mundo tem algo a dizer

Dia desses, após passar algumas horas em um debate acalorado sobre assuntos descartáveis, percebi que estamos vivendo a era onde todo mundo tem algo a dizer, sobre todos os assuntos do mundo. Até aí tudo certo, uma vez que opinar é, de forma geral, uma maneira de ouvir colocações, sejam elas discordantes ou não. Mas, o que tem chamado atenção, de forma assustadora, é a capacidade ilimitada que alguns têm de falar muito, sobre assuntos com os quais jamais tiveram qualquer intimidade.

Somos parte de uma época onde, ao mesmo tempo que supervalorizamos a fala, esquecemos de sua cara metade: a escuta. E, em um cenário onde todos falam e ninguém se ouve, cria-se um campo fértil para toda a sorte de distorções e ruídos numa comunicação já precária. A ausência de uma escuta, nos obriga, não apenas, a aumentar o volume de nossas falas, mas, também, a falar sobre o que quer que seja. Assim, passamos a berrar opiniões inconsistentes aos quatro ventos, na tentativa de conquistar ouvintes disponíveis. O problema é quando decidem nos ouvir, justamente, quando não temos nada valioso a dizer.

O direito de se expressar não é democrático como parece, infelizmente. Há um número enorme de pessoas sem voz espalhadas por aí, esperando uma única chance para serem ouvidas. Chance que, muitas vezes, nunca chega. Em contrapartida, percebemos uma minoria formada pelos mesmos personagens, que parecem ter acesso irrestrito a expressão de sua voz e, por isso, são capazes de influenciar amplamente, todos aqueles que, cansados de gritar, decidem seguir o que lhes é dito. Opiniões padronizadas e pasteurizadas distribuídas sem moderação.

Talvez esta seja uma das razões que nos empurrem para tribunas imaginárias em busca de um lugar de fala. Lugar de fala. Expressão nova que traz significados que vão muito além da sua aparente simplicidade. Ter um lugar para expressar suas vivências, seus dramas e conquistas com propriedade, é fruto desse movimento que busca ouvidos interessados em ir além dos discursos encomendados e das frases feitas, utilizadas por quem tem a pretensão de acreditar que pode falar sobre tudo e para todos. Não. Isso não é possível.

Hoje, um mundo de possibilidades permite o embate entre os que precisam ser ouvidos e os que sempre tiveram voz. O que é interessante por si só, uma vez que a transferência de pontos de vista busca, em teoria, um entendimento maior sobre as questões que nos cercam. Pena que isso é tudo o que não temos. Os lugares de fala são minimizados, sempre que seus representantes legítimos tentam se fazer ouvir. Agonias sufocadas quando vem à tona, desconcertam e desconstroem aqueles que fizeram de tudo para mantê-las longe dos holofotes.

Em tempos onde muitos falam e poucos escutam, a desesperança se instala de forma tão confortável, que nos impede de ver saídas que retomem o caminho do diálogo. Apesar de ser uma tarefa nada fácil, ela é, sim, possível. Para entender o que são os lugares de fala, é preciso resgatar velhos ensinamentos. Colocar-se no lugar do outro, não fazer com alguém o que não gostaria que fizessem com você, respeitar as opiniões diferentes da sua e ter, sobretudo, mais amor para compartilhar. Ingredientes simples que estruturam um dos maiores tesouros que podemos partilhar nessa vida: a empatia. A única capaz de mostrar que todos temos que respeitar, em doses iguais, o direito de falar sobre o que nos movimenta e o dever de ouvir sobre as dores e os amores do outro.

Cortinas de fumaça

O que não querem que vejamos? O que está por trás daquilo que é dito apenas para confundir? Nos fazemos estas perguntas o tempo todo, o que é um claro sinal de que sofremos tentativas de engano tão frequentes, que já incorporamos ao nosso dia a dia a ideia de termos um algoz a nossa espreita. Criaturas prontas para criar cortinas de fumaça que desviam a nossa atenção para o que de fato importa. Um truque quase perfeito. Quase…

O que ouvimos hoje, de pessoas que jamais deveriam prestar desserviços sociais, não nasceu agora. Aprendemos desde muito cedo a ludibriar a verdade, transformando caminhos retos, em curvas confusas que irão, supostamente, suavizar a caminhada. Com essa primeira lição, fica claro que a verdade é algo direto, duro e, por vezes, doloroso demais para encarar. Talvez isso explique a nossa predileção por mentirinhas suaves, utilizadas sempre que for preciso amortecer o peso da verdade.

Entramos em contato com um mundo encoberto por uma névoa densa ainda na infância. Sob o pretexto de desviar dos olhares infantis, tudo aquilo que acreditamos ser mal e, dessa forma, assegurar a pureza das crianças. Exemplos clássicos podem ajudar a entender isso. Quando arrumamos nossos filhos, criando neles a esperança de um passeio agradável quando, na verdade, é uma dolorosa vacina que os espera. Ou, quando juramos a eles que compraremos aquele brinquedo na volta. Isso, sem falar dos medos que plantamos em seus corações, com o pretexto de protege-los das maldades do mundo. Desvios de atenção nascidos na boa fé, que podem se transformar em grandes armadilhas.

Por que a verdade é tão temida, a ponto de criarmos tantas artimanhas para alterar a sua verdadeira forma? Podemos fingir que não, mas, lá no fundo, todos sabemos a resposta. Fomos criados sob a ilusão de que caminhos tortuosos, apesar de longos e confusos, trazem algum conforto. Já, a verdade, só conhece retas duras, que não se dobram a nossa vontade. Talvez por isso seja atribuída a ela, adjetivos que rimam mais com dor do que com amor. Afinal, algo nu e cru, com pernas curtas e que provoca dor quando se apresenta, não deve ser uma coisa tão boa assim…

E, com base neste julgamento para lá de equivocado, nos habituamos a confundir verdades incontestáveis com mentiras sinceras. Criando, assim, um híbrido entre o certo e o errado que se fortalece continuamente, até tornar-se um só. É neste ponto onde névoas suaves transformam-se em densas cortinas de fumaça que tem como missão principal, fazer com que acreditemos nas distorções que mostram partes de um todo, mas, jamais, a imagem original. Atenção redobrada, pois, a negação da verdade, seja intencional ou não, nos leva a criar atalhos que, ao invés de facilitar trajetórias, nos empurram, de forma irreversível, para abismos repletos de mentiras.