Aqui pensando, o livro

Ao acordar e ler esse texto neste domingo eu, certamente, estarei entorpecido por uma sensação que levará tempo para digerir. A noite que antecedeu essa manhã, abrigou momentos indescritíveis que personificaram anseios e transformaram sonhos na mais bela expressão de realidade. Ideias, pensamentos e memórias inquietas que um dia provocavam desconforto, rolaram da cabeça à ponta dos dedos, até alcançarem folhas em branco, onde marcaram com tintas fortes, tudo aquilo que desejavam dizer. E, assim, depois de muito observar a vida e seus ciclos, nasce o aqui pensando, o livro.

Isso pode parecer um ensaio de futurologia, mas é, na verdade, a antecipação de um momento há tempos aguardado e que ficou perdido pelas caixas de passado que acumulamos com o passar do tempo. As surpresas que a vida proporciona, por vezes transformam ações inesperadas em sonhos possíveis, que nos levam a lugares completamente diferentes da nossa programação cotidiana. O que ajuda a compreender que o mundo nunca é o mesmo como muitos preferem acreditar.

Realizar sonhos parece algo pueril e que já é assunto batido em filmes e desenhos onde, de forma romântica e afetada, os personagens buscam a felicidade envoltos por uma trilha sonora encantadora. Na vida real, sonhos fazem parte de uma construção a partir do olhar que nos mostra que o surpreendente mora nos detalhes, e que é, a partir deles, que chegaremos exatamente onde quisermos. Porém, essa vida de gente grande que não conhece limites e prima pela impaciência, impedindo que enxerguemos muito além de nossas medidas.

Mas, posso ser sincero? Grande parte das frustrações que colecionamos não são causadas por sonhos não realizados. Nossas dores falam muito mais sobre influências e escolhas que tivemos ao longo do processo. Realizar é um verbo onde tudo cabe, sobretudo o medo. Quem de nós nunca se sentiu paralisado diante da possibilidade de um acontecimento e se perguntou “qual foi o dia que me tornei medroso?”. Uma indagação praticamente cotidiana, mas que, infelizmente, é responsável pela ruína de sonhos sequer sonhados. Esta dúvida nos direciona para o que talvez seja o nosso grande desafio na vida: a difícil arte da escolha.

Algo muito comum em dias, onde a felicidade tornou-se uma unidade de medida virtual e as selfie vão muito além do autorretrato de quem somos de fato, viver a realização do outro transformou-se, de forma perversa, numa nova forma de sonhar. Enxergar a própria vida e seus anseios com um olhar estrangeiro, provoca uma incompatibilidade entre o que queremos, o que podemos e onde pretendemos chegar. Talvez a volatilidade das relações atuais tenha sua grande parcela de culpa, nos fazendo acreditar em um mundo irrealmente belo, mas, basta um olha mais apurado para perceber que nem tudo que reluz é ouro.

Mesmo que ainda não se saiba onde se quer chegar, é inegável que não se parte de lugar algum, sem o estímulo de um sonho. Alcançar nossos objetos de desejo é um processo complexo com começo, meio e fim. Tentar subverter essa ordem é, além de arriscado, a fonte de grande parte das nossas crises particulares. A forma como planejamos as nossas realizações mudam constantemente, mas o que precisa ser mantido, de forma inegociável, é a certeza de que, para transformar sonhos em realidade, é preciso preservar a admiração que vive em nós.

Feliz novo ano!

O renascer das luzes

O natal chegou! Todo ano ele chega trazendo promessas, trocas de presentes, desejos de felicidade futura e compromissos voláteis com a pessoa que queremos ser no próximo ano. Daí, chega o próximo ano e toda aquela empolgação que arrebata a todos, transforma-se, em poucos dias, em uma lembrança esmaecida. É estranho perceber que, em tão pouco tempo, o renascer das luzes da esperança, dá lugar a uma indiferença cativa, com a qual aprendemos a conviver cada vez mais.

Voltando ao espírito natalino, não há como passar incólume por dezembro e suas luzes que piscam, brilham e ofuscam os olhares de quem as observa. As luzes de dezembro vão muito além da simples proposta de iluminar casas, árvores de plástico ou vitrines. A proximidade do natal cria uma atmosfera muito particular, que permite a abertura de portas que teimam em se manter fechadas ao longo do ano. As luzes que piscam sem parar são, na verdade, chaves que nos ajudam a destravar os cadeados fechados por nós mesmos.

Nos acostumamos a pisar no acelerador de nossas vidas e só percebemos o tempo, no momento em que o ciclo anual chega ao seu fim. Seja porque estamos de férias, seja porque recebemos mensagens felizes de onde menos se espera. Esta é a época onde decidimos trocar olhares, conversar longamente e sorrir junto com aqueles com quem dividimos nossos espaços e que, muitas vezes, sequer sabemos seus nomes. Reflexos da indiferença nossa de cada dia.

Mas, basta enxergar o piscar de pequenas luzes, para entender que é o momento de acalmar a rotina e voltar a perceber que tudo o que construímos é fruto de uma obra coletiva. Mesmo que, por vezes, acreditemos que somos os únicos responsáveis por nossas conquistas. E é aí que, quase como um passe de mágica, voltamos a enxergar o poder da coletividade. O brilho que se espalha nessa época ajuda a iluminar as relações e nos faz mudar de alguma forma. Alguns compram presentes, outros escrevem cartões e ainda há aqueles que investem seu escasso tempo em prol de outro. É dezembro nos mostrando que a caminhada é muito melhor quando é compartilhada.

Estas luzes que iluminam nossos corredores internos, mostram saídas escondidas, que sempre estiveram próximas, mas que, por omissão ou esquecimento, não eram vistas. Atalhos que nos conectam ao outro, seja ela conhecido ou não. O brilho de dezembro vai muito além da decoração natalina. Ele nos lembra que também possuímos uma luz potente, capaz de iluminar o mundo e as pessoas à nossa volta. Uma luz tão especial e intensa, que se funde com tantas outras, criando um belo mosaico onde ninguém fica no escuro.

Resgatar essa luz interior é, possivelmente, o grande presente para o fim de um ciclo. Natal é época de olhar para quem amamos, é tempo de ajudar a quem precisa e é hora de entender que precisamos ser muitos, para sermos um só. As luzes da esperança não podem ser confundidas com pisca-pisca de belas vitrines. Estas servem apenas para lembrar que é chegado o momento de trazermos de volta a luz que mora em cada um de nós e que, de tão intensa, nos faz acreditar que podemos ser melhores o ano todo. Talvez este seja o real significado do natal, lembrar que, apesar das dificuldades, devemos manter nossas luzes, permanentemente, acesas.

Universo de falsas importâncias

Qual foi a última vez que você escolheu não ser o centro das atenções? Ou, há quanto tempo não se permite olhar a sua volta e perceber os detalhes da vida, especialmente se não for a sua própria? Já se perguntou se tudo aquilo que lhe aflige é, de fato, um problema tão grande assim? Essas perguntas agem como o prenúncio de uma autoanálise que costuma ser feita de tempos em tempos, e que tem a presunção de explicar esse universo de falsas importâncias…

De cara, esse assunto parece conter traços de religiosidade ou da busca pelo bem romantizado e intocável, que diz que devemos nos doar, não importa a situação. Mas não é nada disso. Pensar na importância que supostamente temos em nossos mundos é, completamente diferente, de vestir uma capa de importância que, arrogantemente, escolhemos como peça importante do nosso figurino social. Saber-se importante não tem qualquer relação com acreditar-se como tal.

Em tempos onde fakes parecem não conhecer limites, tornou-se simples atribuir importância ao que não tem. As mídias sociais deram retoques aos supérfluos do cotidiano, transformando o que era ordinário em essencial. Com isso, uma avalanche de bobagens passou a ser vista como algo prioritário. O que nos desorienta quando é necessário diferenciar um drama midiático de uma dificuldade verdadeira. Tudo passa a ser problema quando nos achamos, demasiadamente, importantes.

Então, sé é uma realidade o fato de estarmos, cada vez mais, banalizando relevâncias e enaltecendo desimportâncias, como é possível perceber o que é realmente essencial para nós? É claro que todos terão uma opinião baseada em suas experiências, mas a minha questão é: o que é genuinamente importante nesta vida? Família, amigos, trabalho e amores, certamente fazem parte do hall de coisas mais importantes em nossos universos particulares. Mas, será que estamos expressando, verdadeiramente, o quanto tudo isso é valioso?

Viver na superficialidade é algo muito fácil. A glamourização do comum atrai muito mais olhares do que demonstração real de afeto. Vemos pessoas protestando ativamente em prol de causas humanitárias e sociais em um universo que só existe dentro de uma tela, enquanto desejam toda a sorte de maus agouros. de forma indiscriminada e perversa. a todos que cruzam seus caminhos. Pessoas que super dimensionam as próprias questões, deixando claro que seus problemas sempre serão mais importantes e mais urgentes que os do resto da humanidade.

Acreditar nisso é uma grande perda de tempo. Todos passamos por situações boas e ruins o tempo todo. Superestima-las só ajuda a criar problemas imaginários, próprios de quem se julga excessivamente importante. Mas, é muito simples desconstruir essa irrealidade. Basta mirar as pessoas de forma mais direta e mais humana, sem defesas, julgamentos prévios ou arrogância. O que facilita a retiradas dos véus que nublam a nossa percepção do mundo, nos obrigando a ver as coisas como são. E como sempre foram.

Possivelmente avançaremos nesse autodeslumbramento que nos faz ignorar o que é de verdade, para valorizar coisas nem tão importantes assim. Mas, sem dúvida, esse movimento vai desacelerar e passaremos a sentir falta do toque, do olhar, da troca e, principalmente, da sensibilidade que nos salva da arrogância burra e nos permite perceber que problemas são criados a partir de experiências reais e, jamais, de tolices que resolvemos supervalorizar, na busca por um lugar ao sol neste vasto universo das falsas importâncias.

O avanço do tempo

Envelhecer. Este termo por si só, é capaz de provocar as mais diversas reações em quem, com ele, se identificar. Sensações que misturam resistência, horror e resignação tornam-se, rapidamente, cárceres de onde só é possível ver o que há de pior naquilo que nos acompanha desde o dia em que nascemos. Vamos envelhecer. Estamos envelhecendo. Quanto a isso não há muito o que fazer a não ser aceitar que, o avanço do tempo, pode ser muito mais legal do que querem nos fazer crer.

Ficar velho é um fato inconteste e, a partir do momento em que isto se torna uma aceitação e não uma batalha, um novo mundo se abre diante de nossos olhos. Para as crianças, por exemplo, o tempo não existe. A energia infinita aliada ao indomado ímpeto infantil, talvez sejam as únicas ferramentas, poderosas o bastante, para desafiar o tempo. São os adultos que, pouco a pouco, mostram aos pequenos que somos todos regidos por um grande ciclo de desenvolvimento imutável, que inclui: nascer, crescer, reproduzir e morrer.

Esse ciclo biológico pode até cumprir o seu papel nos livros de ciências, mas, na vida real, não há garantias de que essa sequência será obedecida. Destas etapas, apenas nascer e morrer são inegociáveis. Afora isso, não temos o menor controle sobre quando e como organizaremos o nosso crescimento. E, neste caso, crescer vai muito além do que tornar-se uma grande massa de células. O crescimento pede experimentação. Dificilmente, seremos capazes de descrever sensações sem, de fato, senti-las. Dificilmente, criaremos cascas sem a experiência da queda. E quedas que só existem porque foi necessário saltar antes.

Envelhecer é um acumulado de pequenas cascas, capas ou camadas, que se formam de acordo com a nossa disposição para saltar no escuro, na tentativa de alcançar algo que sequer conhecemos. Uns podem chamar isso de experiência, outros de inconsequência, mas, ambos concordariam que, os degraus que galgamos, além de abrirem caminhos rumo ao desconhecido, também permitem que deixemos nossas pegadas cravadas por onde passamos. Marcas que são testemunhas de uma história construída um dia após o outro, salto por salto, queda por queda.

Olhar-se no espelho é, de fato, algo desagradável quando a figura que buscamos é aquela que não mais existe. Fitar a face refletida aos trinta, quarenta ou setenta e, ingenuamente, esperar ver a mesma imagem da década anterior é, absolutamente inútil. Passar a vida olhando-se no espelho, com a certeza de que sempre verá a mesma imagem, é o mesmo que marcar um encontro com quem não existe mais. Não percebemos a passagem do tempo até que ele, de fato, passe.

Ser parceiro do tempo significa aceitar que os joelhos irão doer, que o colágeno irá nos abandonar e que o fôlego não será mais o mesmo. Falhas normais para uma máquina sempre em movimento. Mas, em contrapartida, é necessário perceber que o tempo não está aí apenas para levar o nosso viço consigo. As vivências ao longo da vida preenchem muito mais do que esvaziam.

O que nos permite observar o mundo com suas cores reais, apesar de enxergarmos menos. A experiência nos torna capazes de sentir o que há de verdadeiro em quem nos cerca, de forma simples e sem dramas. Como é possível chegar a esse ponto? Basta desistir da batalha inglória, e perdida, contra os anos que insistem em seguir em frente. O que devemos fazer é caminhar em paz, desfrutar a viagem e aproveitar tudo aquilo que só o passar do tempo tem a nos oferecer.

Carrossel de emoções

Vivemos bombardeados por uma quantidade tão absurda de influências, que fica difícil entender o que, de fato, acontece conosco. Ao longo de um único dia, é possível sorrir, entristecer, irritar-se, perder esperanças para, logo em seguida, encontra-las novamente. Um carrossel de emoções tão complexo e, ao mesmo tempo, tão disponível, que não nos deixa muitas escolhas, a não ser vivê-lo. Estar cercado de tantas sensações ao mesmo tempo, faz com que pequenos sentimentos passem desapercebidos. Perdemos os detalhes do cotidiano por conseguir enxergar, apenas, aquilo que salta aos olhos.

Pode não ser uma opinião unânime, mas, desenvolvemos dia após dia, uma miopia acerca das emoções que sentimos, que torna difícil reagir, em tempo real a tudo que nos afeta. Muitas vezes esquecemos de algo que ouvimos outro dia. Mas, ao acordamos no dia seguinte, lembramos da situação, que, só agora, ficou nítida o suficiente para despertar uma reação nossa. Vivemos em um eterno delay emocional.

Efeitos retardados são comuns quando se trata de emoções. Por vezes somos maltratados e, ao invés de respondermos imediatamente, seguimos em frente como se nada tivesse acontecido. Porém, cedo ou tarde, lembraremos do fato, com a indignação certa, só que na hora errada. A frequência desses lapsos é tamanha, que torna difícil saber se estamos reagindo ao agora ou se estamos um degrau abaixo na expressão das nossas reações. Isso me faz pensar se estamos, de fato, inteiros nas relações ou nos pulverizando, na tentativa de alcançar um volume maior de interações dia após dia.

Independentemente da resposta, uma coisa é certa – estamos perdidos. Difíceis são esses novos tempos onde tudo a nossa volta parece correr mais rápido que a nossa capacidade de percepção. Trabalhamos demais, ganhamos de menos, vivemos entre o mundo virtual que cobra felicidade, e o real que pede mais atenção. Somos muitos quando deveríamos ser, simplesmente, únicos. Criamos a ilusão de que nada passa aos nossos sentidos, mas, a verdade é que, quase tudo nos escapa.

Esse contato direto com mil emoções, faz com que acreditemos que vivemos tudo ao extremo, apesar de sabermos muito pouco sobre o que nos cerca. Conhecemos alguém agora e, no segundo seguinte, juramos amor eterno. Achamos alguém interessante e, em pouco tempo, já utilizamos mil adjetivos, como se fossem adereços, para classificar quem mal conhecemos. E, assim, seguimos banalizando sentimentos e subestimando a nossa capacidade de sentir verdadeiramente. É como se puxássemos linhas que trazem emoções fugazes, porém, impressionantemente descartáveis.

Viver em um carrossel de emoções não é uma escolha e, sim, uma imposição do mundo que habitamos. Mas é possível minimizar seus efeitos, desafiando a velocidade que o tempo nos impõe. Desacelerar é o verbo que devemos conjugar em quantas pessoas conseguirmos e, dessa forma, garantir um folego maior, que nos permitirá olhar novamente ao nosso redor e, enfim, captar cores e texturas das formas que passamos a enxergar parcialmente. Enxergar o mundo fracionado passou a ser o suficiente, nesta nova ordem que parece não ter muito apreço pela paciência.

Vivemos os reflexos de um tempo, onde, o tempo, é tudo o que não temos. O que me faz acreditar que estamos diante de uma difícil escolha: queremos o raso em excesso ou a riqueza dos detalhes que só a calma é capaz de oferecer? Talvez não exista uma escolha única, mas, não há como negar que usufruir a plenitude de momentos bem vividos não pode, jamais, ser substituída pela pressa de viver experiências que serão esquecidas, antes mesmo de serem lembradas.