Lobos em pele de cordeiro

Sabe aqueles momentos em que olhamos para trás e percebemos que investimos tempo demais em empreitadas que, simplesmente, não mereciam tanta atenção? Pois é. Acho que este é um dos grandes gargalos, comuns ao desenvolvimento de todos nós. Enxergar o real onde ele não existe não é simples como acreditamos ser. Há lobos em pele de cordeiro por toda parte, assumindo dimensões diferentes e sempre sofisticando sua camuflagem. Não perceber seus disfarces inesperados, não quer dizer que passaram despercebidos. Acreditem, cair em armadilhas é, em muitos casos, um ato consentido.

Sofremos tentativas de engano a todo instante e, conforme o tempo avança, criamos mecanismos de defesa eficientes que nos impedem de comprar gato por lebre. Mas, que fique claro que, esse nível de evolução não é para qualquer um. É privilégio daqueles que já quebraram a cara o suficiente para reconhecer uma furada, quando se deparam com uma. Detectar embustes e suas conversas fiadas, definitivamente, não é uma tarefa fácil.

Porém, há o outro lado desta moeda. Se não existe imunidade contra o conto do vigário, não há, tampouco, a criatura demasiadamente trouxa que não perceba, minimamente, que nem tudo que reluz, é ouro. Os mesmos caminhos que esculpem as nossas experiências, também desenvolvem dispositivos que baixam a nossa guarda, diante daquilo que parece ser o que não é. E nós sabemos disso.

Estamos cercados de gatos travestidos de lebres que, comumente, se apresentam como ofertas de empregos imperdíveis, viagens inesquecíveis e amores únicos. Maravilhas que são divulgadas aos quatro ventos, mas que, quando chegamos perto, as rachaduras na forma quase perfeita tornam-se visíveis. É neste momento em que uma escolha urgente irá definir o próximo passo: pegamos o atalho que nos conduz ao brilho de algo que parece verdadeiro, mesmo sabendo que não passa de uma bela ilusão de ótica ou, simplesmente desviamos o olhar daquela luz que, convenhamos, nem era tão bonita assim, e deixamos a vida seguir seu fluxo normal? Escolhas…

Na realidade, decisões como essas, não são pautadas por uma clareza absoluta. Até porque, em muitos momentos, o brilho falso emana de nós. O que cria uma disputa onde aquele que apresentar uma fantasia melhor elaborada, conquista o objeto de seu desejo. Mudamos de lado com frequência e ora somos gatos vira-latas, ora somos lebres felpudas. A grande questão é, por quanto tempo, somos capazes de sustentar máscaras que não nos servem?

Vivemos tempos onde reconhecer o que é verdadeiro virou um enorme desafio. Diferenciar ouro de latão não é mais tão obvio quanto parecia ser. E pode ser ainda pior. Quem nunca surpreendeu-se ao descobrir que aquilo que julgava ser um tesouro, não passava de pedras sem valor algum? Ninguém disse que esse reconhecimento seria fácil, ninguém disse que lidar com ilusões traria tantas marcas. Mas, apesar dos danos que sofremos nesse processo, não podemos, jamais, perder de vista que, um lobo não se veste de cordeiro sem ajuda. Nós ajudamos a fechar o zíper.

Sonhos são como brisa

A vida, essa jornada muito louca, pode ser tudo, menos previsível. Passamos um tempo considerável dessa viagem, pensando em “como seria se…” Seguimos criando nuvens com realidades paralelas que, usualmente, chamamos de sonhos. Nuvens que funcionam como estoques ilimitados, capazes de armazenar tudo aquilo que ainda não é compatível com o tempo presente. Sonhos são como brisa leve que alivia, acolhe e reascende esperanças de que, um dia, todo sonho pode se transformar em realidade.

Muitos acreditam que sonhos não passam de uma abstração, outros juram que são projeções de um futuro desejado e, ainda há aqueles que juram que sonhar pode conecta-los ao passado. Sonhar pode ser tudo isso, mas é acima de tudo, uma necessidade. Os sonhos são aqueles momentos únicos onde somos capazes de enxergar novas vidas dentro das nossas próprias. Olhamos para quem somos com um olhar estrangeiro, que busca novas referências e experiências. Sonhar é, antes de tudo, uma possibilidade real de fazer novas escolhas.

Quando nos remetemos a época em que vestíamos nossas capas infantis, não há como negar a vocação pueril pela imaginação, pela fantasia, pelo sonho. Crianças criam realidades que são inversamente proporcionais ao seu corpinho em formação. Crianças voam, conquistam o espaço sideral, nadam com baleias em oceanos bravios e dormem na lua, admirando as estrelas. Olhando do alto de nossos corpos adultos, esses sonhos não passam de delírios infantis, impossíveis de realizar. Gente grande esquece das lições que aprendeu quando era gente pequena. Uma pena… Crianças ensinam que sonhar grande é o que nos faz chegar mais longe.

À medida que crescemos e começamos a descobrir o que é controle, passamos a sonhar em amplitudes menores. O que antes tinha o tamanho do universo, agora é visto através de lentes um tanto míopes, incapazes de captar detalhes pequenos e sem brilho, que poderiam ser transformados em sonhos fantásticos. Isso não é uma regra mas, de fato, está cada vez mais difícil, sobrepor nossos doces delírios à realidade nua e crua que nos arrebata diariamente. Mas, sonhos são perenes e quando menos esperamos, florescem novamente e nos lembram que, independente do peso que carregamos, resistir é preciso.

Sonhar também pode ser apenas um verbo dito, sem medidas, por aí afora, quando nascemos com plenas possibilidades de realiza-los. Para muitos, sonhos são como caprichos que serão alcançados sempre que quiserem. Para muitos, muitos outros, sonhos também são caprichos, só que inalcançáveis. Não ter direito ao que parece ser tão simples e tão óbvio é a realidade de uma maioria que aprendeu desde muito cedo que, sonhar é um privilégio exclusivo de poucos.

A capacidade de sonhar é uma das maravilhas de ser humano. Privar-se desse presente, ou ser excluído dele, é igualmente perverso e injusto. As crianças que fomos e que ainda brincam dentro de nós, precisam de espaço para que continuem fazendo aquilo que fazem de melhor: sonhar grande. Tudo bem que, viver na casca adulta e cheia de responsabilidades, não facilita muito a nossa vida, mas não se deve abrir mão da dádiva que é sonhar, mesmo quando a realidade nos negar esse direito.

Se enxergar sob outras perspectivas, sejam elas grandes demais ou não, permite que sejamos quantos quisermos e, acima de tudo, nos ajuda a escolher quem realmente queremos ser e onde, de fato, queremos chegar. Sonhar é bom demais, mas transforma-los em realidade é, infinitamente melhor. Mas, para isso acontecer, não é preciso muito. Basta acreditar.

O que viemos fazer aqui…

Há momentos em que nada parece ter muito sentido e que as pessoas com quem convivemos, não passam de figurantes sem fala em uma trama sem pé nem cabeça. Um espetáculo que reproduz cenas desconexas, onde só existe um personagem principal, que não sabe ao certo o que dizer. Todos nós já fomos os protagonistas destes momentos confusos onde sentimos tudo, menos a segurança de saber o que viemos fazer aqui.

Ninguém recebe um manual de instruções dizendo qual é o passo-a-passo que levará aos caminhos que todos julgam ser os melhores. Na verdade, seria muito chato ter um protocolo que diz aonde ir, quem conhecer, quando dizer sim e qual é o momento certo de dizer um sonoro não. A vida é, com toda certeza, um modelo experimental onde a única coisa que sabemos é que não sabemos de absolutamente nada. Apesar de passarmos muito tempo, por vezes a vida toda, acreditando que temos tudo sob controle.

Mas, apesar da aparente loucura, esse experimento nos permite criar conexões diversas com um sem número de atores vida afora. Vínculos que podem durar instantes ou se perpetuarem enquanto durar o nosso “para sempre”. Não importa. Sentir-se parte de algo ou alguém vai, aos poucos, criando bordas seguras onde podemos parar e descansar sempre que quisermos. E que, depois de passar um tempo nesses refúgios, seguiremos em busca de outros pontos para, mais uma vez, repousar e criar novos vínculos.

Esse movimento não é excludente. Quanto maior for esse rio, maiores serão as possibilidades de escolher pontos até então desconhecidos. Isso permitirá que criemos laços de vários tamanhos, capazes de nos unir a pessoas diferentes de nós, se tivermos sorte. Não é fácil estabelecer vínculos com aqueles que fogem ao nosso restrito padrão de comportamento. Essa grande bobagem que nos ensinam quando ainda não temos o vigor suficiente para ignora-la, infelizmente, nos impede de perceber a grande rede de conexões, laços, relações e afetos, que temos bem diante de nós.

Vivemos uma busca por novidades e, talvez por isso, nos esqueçamos dos vínculos que fizemos ao longo do tempo. Uma praia onde fomos felizes na adolescência, um amor que ainda persiste, mesmo depois do seu fim ou o repouso restaurador no colo de uma mãe. Situações que podem ser apagadas, sem razão, por conta da nossa estranha mania de trocar antigos laços, por possibilidades incertas. Buscar o novo não é um erro, deixar para trás as boas conexões, sim.

Na vida, nada é mais importante do que os laços que criamos. Trabalho, amores, amigos, família… Tudo isso nos dá muitas chances de contarmos uma história, a nossa história. Que pode ter finais alterados, cenas reescritas e inúmeros personagens. Perceber esse poder de renovação, traz novos significados para a vida que pretendemos levar. Seremos quem quisermos porque já fomos muitos. Teremos um futuro de laços mais firmes, quando não deixarmos para trás, os laços que nos trouxeram até aqui.

Os cacos que deixamos pelo caminho

Imagine acordar, olhar em volta e não conseguir enxergar nada além de uma terra arrasada, sem graça ou significado, onde nada parece ter importância. Nesse cenário amarelado, onde a felicidade é um artigo escasso, a desesperança caminha a passos largos por trilhas que só oferecem o gosto amargo da derrota. Narrativa triste, não é? Mas, muitas são as situações capazes de desencadear essa dolorosa visão de mundo, de onde é possível ver, apenas, os cacos que deixamos pelo caminho. Mas, felizmente, isso não é definitivo.

A visão que temos da realidade é, em grande parte, o reflexo daquilo que somos e sentimos. Dessa forma, o mesmo dia ensolarado pode ser visto, tanto como, o mais belo dos dias, quanto, como o dia mais desagradável do ano. É o nosso olhar diverso que permite a mudança de foco sobre qualquer coisa, a qualquer momento, salvando a todos de tristezas desnecessárias ou de alegrias superestimadas. Nossa aparente inconstância, nos ajuda a perceber as várias nuances de uma mesma cena, mesmo quando a vida insiste em reduzir o nosso campo de visão.

Vivenciar momentos em que, por alguma razão, perdemos nossa unidade e nos transformamos em fragmentos de nós mesmos, não pode, de forma alguma, ser motivo de medo ou vergonha. É praticamente impossível manter-se incólume diante das peças que a vida nos prega o tempo todo. Somos uma grande escultura que parece perfeita vista de longe, mas que, de perto, expõe as rachaduras e emendas conquistadas ao longo do tempo.

Vez ou outra, faltam alguns pedaços que, ao se espatifarem com a queda, formam pequenos cacos difíceis de encontrar e colar novamente. O que nos obriga a tomar decisões difíceis, porém definitivas. Continuamos a procurar os pedacinhos que nos faltam, ou seguimos em frente, exibindo as rachaduras provocadas pelas experiências vividas? A escolha não é óbvia, tanto que mudamos de atitude com frequência. Ora estamos de quatro procurando fragmentos de nós mesmos, ora, ignoramos solenemente, todo e qualquer pedaço inútil que tenha ficado pelo caminho.

Como agir, sempre que virmos nossos cacos espalhados por aí? Não faço a menor ideia, mas, sem dúvida, escolheremos uma forma de ação que estará relacionada a maneira como enxergaremos o mundo, no exato momento em que as rachaduras aparecerem. O fato inconteste é que a vida nos dá pancadas que variam de intensidade e podem deixar marcas, profundas ou não. Nunca saberemos quando isso irá acontecer e nem como, mas, certamente, perderemos muitos cacos como resultado dessa luta. Para alguns deles, emendas. Para outros tantos, indiferença. Para poucos, porém especiais, a falta.

Não passamos pela vida à toa. Aprendemos a valorizar o que, de fato, tem importância. Mas, até chegarmos a esse entendimento, perdemos um tempo precioso investindo em desejos que não trarão nada, além de marcas. Mas isso está longe de ser ruim, apesar do sofrimento que provoca. As rachaduras que exibimos são o resultado das experiências que tivemos, sejam elas boas ou não. Não é isso que importa.

As partes que nos faltam e os pedaços que colecionamos, criam uma espécie de mosaico absolutamente particular, capaz de contar exatamente qual é a dor e a delícia de ser quem somos. Não querer colecionar seus cacos é uma triste opção por não viver e, infelizmente, abrir mão da maravilha que é, poder contar a própria história.