Aqueles que não são o que dizem ser

Lidar com as pessoas sempre foi algo intrigante. Interagimos, desde sempre, com perfis muito distintos de nós. Uns mais fáceis e outros nem tanto, mas, nesse universo de personalidades que que nos influenciam, nada supera o desafio de conviver com aqueles que não são o que dizem ser.

Mas é preciso ir além do clichê que retrata as pessoas que não se mostram, como falsas, perigosas e insanas. Caricaturas retratadas em tintas muito fortes por todo tipo de ficção. Afinal, todos somos capazes de brincar de esconde-esconde com nossos traços de personalidade, mostrando e escondendo detalhes, de acordo com a nossa conveniência. Até aí, tudo certo. Seguimos o protocolo de sociabilidade que nos permite conhecer nossos limites e, principalmente, perceber como o olhar do outro é capaz de nos influenciar.

Essa tarefa, além de inglória, é quase sempre malsucedida por razões muito simples: somos muitos em um só. Preservamos aquele que verdadeiramente somos e mostramos o que nos convém, os outros nos leem através de suas lentes e tiram suas próprias conclusões. Isso pode significar muitas coisas, mas indica que, essencialmente, jamais saberemos tudo sobre quem quer que seja, apesar de acreditarmos no contrário.

E, nesse eterno pega-pega, investimos muito tempo e energia em supor que conhecemos, não só aqueles que nos rodeiam, mas também, aqueles que mal conhecemos. Criando uma teia de suposições e achismos que, invariavelmente, irão desaguar em opiniões equivocadas, percepções tortas e todo tipo de maledicências. Olhando por esse prisma, podemos concluir que vivemos num grande espetáculo onde escolhemos personagens adequados para diversos fins.

É claro que não se pode generalizar, mas é preciso reparar aos detalhes de quem nos cerca. Ninguém irá, de uma hora para outra, olhar com desconfiança para as pessoas que lhes são importantes, mas é interessante observar as mudanças constantes que sofremos o tempo todo. Sim, o tempo passa, muda regras e inclui novos participantes todas as vezes que começamos a aprender a jogar nossos jogos particulares e a prever quais serão os passos de nossos parceiros.

Ao mesmo tempo que esse é um movimento natural, pode ser, também, um perigo iminente, uma vez que não somos capazes de prever sequer, qual será o próximo passo daqueles a quem julgamos conhecer tão bem. Resultado? Algumas puxadas de tapete, rasteiras leves, passadas para trás com requintes de deslealdade e decepções de amplo espectro. Tudo dentro do roteiro que promete nos tornar pessoas melhores ou, pelo menos, mais atentas.

Infelizmente, é bastante comum que algumas pessoas consigam, de forma brilhante, mascarar aquilo que realmente são, apenas para furar um bloqueio chegar perto. Dessa forma, somos cercados por aqueles que preferem não apresentar qualquer protagonismo e ficar, eternamente, orbitando estrelas de maior brilho, de acordo com a sua conveniência. Uma distorção de realidade que nos faz acreditar que parecemos ser muito mais especiais do que realmente somos. É aí em que o perigo se faz presente.

Quebraremos a cara com certa frequência, sim, mas e daí? Deixaremos de viver, por medo do desapontamento com aqueles que não se mostram? Bobagem, pois, além da morte, só nos resta uma certeza inquestionável: sofreremos por acreditar que conhecíamos muito bem, quem  nao passava de um completo desconhecido.

Não devemos desistir do outro. Basta apenas jogar limpo e oferecer, sempre que possível, o que temos de mais verdadeiro e, exigir, o que o outro tem de melhor. Assim, seremos capazes de entender que, para sermos felizes, não precisamos de nada, além de boas doses de verdade.

 

Ao mestre, com respeito

Dia do mestre. Essa data repete-se como um ritual anual, que traz uma visibilidade instantânea para uma classe trabalhadora que sustenta os pilares de uma civilização. Não, não é exagero dizer isso. Salas de aula, são templos disponíveis para receber todos aqueles interessados no saber. E, para isso, é necessária a presença de um regente: o professor.

Escolas podem ser templos do saber, mas professores não são sacerdotes ou filantropos. Professores são profissionais. E merecem respeito. Celebrar o seu dia é importante, mas, esquecer sua existência ao longo dos outros trezentos e sessenta e quatro dias, é cruel. Não, os profissionais da educação não são pobres coitados em busca de holofotes cínicos ou de piedade falsa. Queremos e merecemos reconhecimento profissional, condições adequadas de trabalho e visibilidade.

Neste dia, é possível constatar que os professores estão fadados ao esquecimento. Estamos desaparecendo. Os alunos, os pais, a comunidade e as autoridades vão, pouco a pouco, minimizando a figura responsável pela formação daqueles que irão, independentemente da área de atuação, desenvolver o mundo onde vivem. É como se colocássemos o professor atrás de uma névoa densa, onde é possível enxergar apenas um contorno difuso, mas, sem a nitidez necessária para dar a devida importância ao seu ofício.

Somos, de fato, os pilares de qualquer sociedade que se pretende séria, organizada e justa. Salários de fome, “saunas” de aula e desrespeito por todos os lados, só podem ser combatidos de uma forma: dizendo basta! Alunos e professores, reivindiquem uma educação de qualidade, mas façam isso ocupando os espaços necessários e, principalmente, façam isso votando certo.

Professores não são vítimas, assim como, não são abnegados que trabalham por amor e vocação. Professores não precisam da reverência de imperadores e, sim, de reconhecimento real, afinal, de oportunismo leviano e eleitoreiro, já estamos fartos. Não somos santos e nem melhores que ninguém. Mas somos, sim, essenciais.

Médicos salvam nosso corpo físico, engenheiros constroem as cidades, advogados e suas leis mantém a nossa organização social, mas, nenhum destes profissionais é capaz de promover uma transformação diária na vida de tantos. Professores, apesar de responsáveis pela formação de todos os outros profissionais, não são agraciados com aquilo que é comum aos demais trabalhadores que formam: o reconhecimento.

Precisamos entender esse paradoxo que nos faz amar os professores, a ponto de celebrar um dia só seu e, ao mesmo tempo, despreza-los todas as vezes em que lutam por melhores condições de trabalho. Não há melhor reconhecimento do que ver o sucesso pessoal e profissional de um estudante. Não há glória maior que ouvir de um ex-aluno, o quanto fomos importantes em sua formação. Essa, talvez, seja uma das poucas razões que impedem que desapareçamos na névoa do descaso e do esquecimento. Para que professores não se tornem invisíveis, a sociedade deve reconhece-los e valoriza-los. Para que isso aconteça, não é preciso muito. É necessário apenas… respeito.

A fábula do valentão

Tenho certeza que muitos de vocês, são capazes de identificar aquela figura que fez parte de vários momentos importantes de suas vidas e que, quase sempre, foi responsável por memórias um tanto incômodas? Essa pessoa é tão constante, que já tem lugar cativo no inconsciente coletivo, como se fosse uma personagem de fábulas. Tá aí um bom exemplo para dar nome a esse texto: a fábula do valentão.

Nas ruas onde costumávamos brincar, dentre todas as crianças, havia sempre aquelas que se destacavam por algum talento. Mas nada chamava mais atenção do que aquela criança que despontava como liderança e que já exercia um certo fascínio sobre todas as outras. Este suposto líder se destacava, geralmente, por sua força, habilidades físicas ou por ser considerado mais bonito que os demais. Características que são superestimadas em todas as faixas etárias, mas que, na infância, se expressam em estado bruto, sem filtros e com requintes de crueldade.

Crianças que conseguiam uma legião de admiradores, que davam suporte a todas as suas decisões, inflando seu ego infantil e colocando-os no centro de seu universo. Isso nos ajuda a entender que, quando muito jovens, achamos que divergências devem ser resolvidas no braço, sem articulações ou ponderações. E, por conta disso, quantas vezes não testemunhamos o fim prematuro de uma brincadeira, simplesmente porque o dono da bola estava perdendo para outra criança mais fraca e menos popular que ele?

Esse é um clássico infantil e que, infelizmente, pode acompanhar algumas pessoas vida afora, caso não seja contido. Limites, respeito ao outro e educação são princípios importantes nesse momento. Ainda bem que a família e a escola entram nesse circuito para nos ensinar que não vivemos mais em cavernas, logo, as divergências devem ser resolvidas através do diálogo. Pelo menos, é o que esperamos…

Ao chegarem na adolescência, os valentões infantis transformam-se, quase sempre, em meninos e meninas populares, cheios de aptidões físicas e pouco apresso as questões do intelecto. Parece preconceito, mas é apenas a constatação de um fato. É nessa época onde as diferenças se acirram e permitem a criação de grupos, assustadoramente, heterogêneos. Os rapazes fortes e esportivos, as meninas mais gatas do colégio, os meninos que brincavam com meninas e vice-versa, os descolados, os nerds e por aí vai. Arranjos sociais que rompem os muros escolares e se espalham por todos os lados.

Mas, o que de fato importa aqui, é de que maneira conseguimos lidar com a figura do chefe da turma, da mais bela do grupo ou do mais popular da rua, sem sucumbir à dominação do outro, apenas por ser considerado inferior a ele? A resposta não é tão difícil como parece, basta usar algo que é inerente a todos nós – a inteligência.

Exaltar a dominação pela força e reprimir o diálogo inteligente, são reflexos sociais que resolvem aparecer de tempos em tempos. E esse fenômeno só é possível quando muitos decidem ignorar toda a forma de pensar que seja contrária à sua. Voltando a ser como aquelas crianças birrentas, que sempre acabam com a brincadeira, todas as vezes em que o resultado as desfavorecer. Um péssimo caminho a seguir quando o objetivo é resolver conflitos e não, cria-los.

À medida que crescemos, nos tornamos mais conscientes sobre as pessoas e as coisas que nos cercam, percebemos que, manter os valentões populares em seus lugares de destaque, é uma escolha nossa e não deles. Nos tornamos homens e mulheres feitos quando, enfim, constatamos que é a soma da inteligência, empatia e o respeito pelas diferenças, a grande força que carregamos conosco o tempo todo. Esse é o grande poder capaz de subverter a ordem estabelecida e transformar pessoas comuns e sem perspectiva, em criaturas fortes e, genuinamente, valentes.

Dane-se!

O mundo tem se tornado um lugar complicado, para dizer o mínimo. Quantos de nós está realmente interessado com o que se passa à nossa volta? Chegamos a um ponto onde nem as nossas próprias questões chamam a atenção como deveriam. Não estamos indiferentes as questões do outro apenas, nos tornamos negligentes conosco também. Saber mais sobre a dor e a delícia de ser quem somos, tornou-se algo trabalhoso demais. Logo, dane-se o seu problema, não dou conta de mim, imagina de você… Quem nunca ouviu ou pensou algo parecido?

Nestes momentos em que medimos tudo por uma régua muito rasa, ligamos um farol interno que aponta para todos os lados sinalizando, para quem puder enxergar, que estamos nos lixando para toda e qualquer situação que possa, minimamente, trazer algum desgaste. Estamos todos em modo avião. Mantemos os sinais vitais com energia suficiente apenas para seguir em frente e, qualquer coisa que fuja a isso, irá demandar um esforço adicional que não interessa a ninguém.

Apesar das semelhanças, não podemos confundir esse estado de desinteresse coletivo, com apatia. Não é. Estamos, deliberadamente, nos importando menos com o que interessa de fato. Seguimos criando realidades paralelas onde elegemos algo para chamar de nosso e que se dane o mundo. Essa seletividade leviana, cria bolsões recheados de desinteresse, que não exclui apenas os problemas alheios. Fazemos parte desse pacote esquisito na mesma medida.

Valorizamos bobagens e deixamos de olhar com mais cuidado para o que pode nos transformar, melhorar e evoluir. Ignoramos talentos naturais, deixamos de lado novas possibilidades, criamos aversão pela novidade… Por que? A resposta não é tão difícil. Por medo ou preguiça de ter que colocar a mão nessa massa heterogênea e difícil de moldar que, não por acaso, chamamos de vida. Mudar de rota é trabalhoso, e como trabalho é algo fora de questão, é melhor dar de ombros, fazer cara de nada e pensar – dane-se – isso não daria em nada mesmo…

A primeira Lei de Newton nunca fez tanto sentido como agora. Estamos divididos entre corpos que se mantém em movimento, seguindo sabe-se lá para onde, e criaturas que se mantém em um repouso assustador, sem sinais de alteração. O que não seria um problema, uma vez que alternar movimento e repouso faz parte do nosso desenvolvimento. Mas, pelo que tudo indica, resolvemos deixar de lado essa alternância. Fazer isso é assumir que, não importa o que aconteça, movimentos aleatórios ou repousos irresponsáveis permanecerão inalterados. Em que momento perdemos a capacidade de reação?

A única escolha que me parece clara neste momento, é a decisão coletiva pela omissão. Não quero saber! Problema seu! Isso não me afeta! Foda-se! Dê seu jeito! Faça de novo! Dane-se… Não importa qual é a expressão utilizada e, sim, o que ela significa. Pensar no próprio umbigo o tempo todo, exclui a beleza da partilha e a importância da coletividade. E isso pode ser um caminho sem volta…

É bom ficar atento, pois, não se interessar pelo o que acontece a um semelhante, pode desenvolver uma insensibilidade crônica, um descompromisso leviano e um cinismo insuportável que deixam uma mensagem muito clara: toda forma de indiferença que aplicamos ao outro, será devidamente retribuída na mesma velha e conhecida moeda.