Quando o fim chegar

Ciclos. Somos regidos por incontáveis mecanismos com começo, meio, fim e recomeço. Sejam eles particulares ou não, nascemos com uma única certeza: todo ciclo tem seu fim. Exercemos controle temporário sobre alguns deles, mas na grande maioria das vezes, as peças movidas nesse tabuleiro pré-programado somos nós. Dessa forma, seguimos ávidos por ciclos que se iniciam, empolgados por novas jornadas, mesmo sem ter a menor noção de como será quando o fim chegar.

Nascer, crescer, reproduzir e morrer… essa é a cascata de eventos que aprendemos nas aulas de ciências e que acreditamos acontecer com todas as outras espécies do planeta, menos conosco. Agimos como se fossemos imunes aos efeitos do mais previsível de todos os ciclos. Nós, simplesmente, não aceitamos essa programação prévia, estabelecida e comum a absolutamente todos os seres que já passaram por esta terra.

Criamos delírios de eternidade para quase tudo que pensamos ou fazemos. Talvez este seja o maior reflexo da nossa incapacidade em aceitar a finitude de tudo o que nos cerca e, principalmente, da nossa inabilidade em enxergar o nosso próprio fim da linha. Traçamos planos a perder de vista, fazemos amizades sem data de validade, marcamos encontros que nunca acontecem e, quase sempre, fazemos juras de amor eternas, projetando a nossa existência para além dos limites conhecidos, apesar de sabermos, desde sempre, que o para sempre, sempre chega ao fim.

Então, como não conseguimos lidar com a certeza do fim, apostamos em nossas memórias para que, assim, seja possível prolongar indefinidamente os nossos ciclos, mesmo depois do ponto final. O que pode ser uma armadilha que nos mantém presos a momentos, pessoas e situações que há tempos não existem mais. Ciclos imaginários permitem um controle que nos dá a falsa impressão de que estamos no comando quando, na verdade, somos reféns de um mundo irreal, que restringe a nossa capacidade de reagir aos estímulos da realidade.

É difícil perceber as etapas de um ciclo. Começamos relações com laços muito sutis, que não deixam claro que, de fato, iniciamos um processo sem volta. Mas, basta perceber que estamos diante de algo importante para que, imediatamente, passemos a acreditar que aquilo será para sempre. Muitos diriam que isso nos torna otimistas. Será? Vislumbrar relações duradouras e repletas de felicidade, pode até ser um desejo, mas está longe de ser uma realidade. Ciclos reais não são suaves.

Voltando as relações. Quando percebemos que um novo amor começou, ficamos tomados por uma plenitude tão arrebatadora que, pensar no fim daquele êxtase, é a última coisa que se quer. Momento perfeito para juras de amor eterno, não é? Certamente, mas conforme o tempo passa e os ciclos avançam, tudo muda, independente do nosso desejo inicial. Paixões ardentes dão lugar ao amor constante e esse, por sua vez, requer atenção e paciência para continuar existindo. E se, por acaso, deixarmos de seguir o manual de cuidados do amor eterno, ele certamente chegará ao fim.

Mas, como fazer para aceitar o fim? Diante desse fato, temos dois caminhos. Um deles é não aceitar e tentar, de todas as formas, retardar as etapas de um ciclo, mesmo sabendo que isso não é possível. Apegar-se a memórias de um passado feliz é, normalmente, a escolha da maioria. Porém, a dificuldade em aceitar o fim não pode ser pior do que manter-se preso a relações terminais, disfarçadas com uma capa de ilusões de felicidade.

O outro caminho é compreender que nada dura para sempre. Só que para alcançar esse nível de lucidez, é preciso passar por vários ciclos imaginários cheios de armadilhas criadas por nós mesmos. Independente de qual será a escolha, em algum momento seremos obrigados a encarar o fim, sem retoques e sem possibilidade de retorno. Nesse momento, o vazio se estabelece, mas isso não é ruim. É apenas o anúncio de que estamos preparados para, enfim, iniciar um novo ciclo.

Nada pode ser mais triste…

Ódio… ódio e mais ódio. Estamos imersos em uma zona muito escura onde qualquer movimento, por mais simples, parece aumentar ainda mais a sensação de que não somos capazes de replicar nada, além de ressentimento, raiva e amargura. E nada pode ser mais triste que isso… ou será que pode?

Vivemos tempos duros, onde opiniões não são debatidas, são impostas. Tempos onde diálogos dão lugar a convicções particulares elevadas a categoria de verdades absolutas. Estamos sufocados por um cotidiano áspero, denso e nauseante, que tenta, a todo custo, silenciar murmúrios, lamentos e gritos. Tentamos sair do mesmo lugar mas nossas pernas pesam e nossos braços não alcançam saídas de emergência. Vidas aprisionadas, limitadas a ver o mundo sob a ótica do medo e do ódio. Tem como dar certo?

Saímos de casa cheios de dúvidas e com um único desejo: retornar com dignidade. Infelizmente, não há garantias para que isso aconteça. Estamos como crianças brincando em uma piscina onde, o primeiro a encostar na borda, estará eliminado do jogo. Porém, no nosso caso, as bordas aproximam-se do centro, encurralando a todos, deixando a clara mensagem: retirem-se, vocês não são bem vindos aqui. Por quanto tempo é possível aguentar?

Amigos revelam posições divergentes e apoiam causas que colidem violentamente com valores que prezamos tanto. O que seria normal, se não fossem tempos de cólera. Todos têm razão ou pelo menos querem ter. Nessa busca pela afirmação das causas próprias, formam-se facções que disputam território onde possam plantar suas certezas e suprimir seus contrapontos que, a esta altura, transformam-se em desafetos. Vale a pena lutar por isso?

E sob o domínio de um medo tão consistente, seguimos sem muitos planos, apenas reagindo aos estímulos que a vida nos dá. Perdidos em uma sequência de sobressaltos que aceleram o nosso coração e amolecem as nossas pernas. À mercê de toda a sorte de riscos que só uma sociedade adoecida é capaz de oferecer. Hoje, para provocar pânico não é preciso vislumbrar uma ameaça real, basta apenas enxergar o diferente como algo ameaçador. Foi para isso que evoluímos tanto?

O medo, o ódio e a ignorância são forjados do mesmo material, fluido e maleável, que pode crescer indefinidamente, sem apresentar nenhuma rachadura. Basta que seja inflado com cuidado até que tomem corpo e englobem tudo a sua volta. Criando uma cobertura dissimulada que envolve a todos com uma película impossível de ser detectada. Assim, lutas fervorosas são travadas, acusações graves são feitas e relações são desfeitas, mas nenhum dos lados consegue enxergar essas camadas, o que torna impossível perceber quem, de fato, comanda toda essa batalha. Até quando ficaremos tão cegos?

A compaixão, algo tão inerente a humanidade, torna-se cada vez mais supérflua. Uma perfumaria cara, um artigo de luxo. Não podemos acreditar, por nem um segundo, que isso é verdadeiro. Sentir-se conectado a quem está ao nosso redor, é sentir suas alegrias, angústias, medos, é perceber seus defeitos e qualidades. Se privar disso é escolher não entender o próprio mundo, a própria realidade. Sentir o outro é, também, se ver refletido. Abraçar o outro, é sentir o mesmo abraço. Ouvir as experiências alheias, é vivencia-las também. A isso, chamamos de empatia. De que vale usar um termo da moda, sem saber o seu significado?

Morremos cada dia mais. Grupos morrem aos milhares. Mas pouco importa, enquanto isso não nos afetar diretamente, são apenas estatísticas arremessadas em nossa direção diariamente. Em cidades onde o medo e a ignorância são os pais do ódio, ninguém deveria se sentir indiferente a dor do outro. Talvez este seja o maior desafio dos tempos atuais: curar corações repletos de horror para que, só assim, seja possível resgatar e transformar em realidade a empatia presente apenas no discurso. Vale a pena tentar? Nunca valeu tão a pena resgatar a nossa própria humanidade.

O peso das nossas escolhas

O que eu faço agora? Essa pergunta é feita todas as vezes em que o chão desaparece sob nossos pés e ficamos à deriva, sem referências e sem a menor ideia do que fazer. Não paramos para pensar sobre isso, a não ser que sejamos vítimas dessa súbita falta de base que, ao contrário do que parece, não nos deixa sem opções. Sofremos exatamente por não saber escolher diante de tantas possibilidades que se abrem a nossa frente mas, principalmente, sofremos por não saber qual será o peso das nossas escolhas.

Esse questionamento, que precede uma escolha rápida e sem ensaios, cria um desconforto em vários sentidos. Ora por demonstrar nossas fragilidades, ora por expressar ansiedade ou, simplesmente, porque nos faz constatar que não estamos preparados para tudo. Mas isto está longe de ser algo ruim. Ser pego de surpresa, exige uma capacidade de reação veloz e, normalmente, sem segundas chances. Erros nas escolhas são bem mais comuns que acertos, mas, como quase tudo na vida, tomar decisões mais assertivas, também depende de experiência e aprendizado.

Há momentos onde o mundo passa por cima de nós como um rolo compressor, exigindo respostas para perguntas que sequer entendemos, sem oferecer tempo para reflexões ou buscas por novos caminhos. Diante desse beco sem saída, só nos resta procurar soluções onde elas são mais difíceis de encontrar: dentro nós. Neste cenário, somos obrigados a voltar o olhar para nosso interior, nem que seja por uma fração de segundo,  e tentar achar forças em lugares que jamais acessamos. Dessa forma, adentramos em áreas nebulosas e desconhecidas, perdidas em nossas gavetas internas.

Pensando dessa maneira, não saber como agir em determinadas situações, tem o seu lado bom. Fincar raízes muito profundas pode restringir nossos reflexos e comprometer a nossa capacidade de reagir as surpresas que a vida nos oferece. Perguntar-se o que fazer, quase nunca traz as respostas certas e, muito menos, aquelas que esperamos. Por uma simples razão: Não há certezas, erros ou acertos. Existem apenas possibilidades que serão criadas de acordo com as nossas decisões.

Ser confrontado por situações desconcertantes, reduz a nossa possibilidade de escolha, permitindo que fiquemos entre o não, que nos deixa estagnados no mesmo porto seguro, ou o sim, que pede uma dose extra de coragem para navegar por mares desconhecidos. Mas, independente da escolha, algumas perguntas são impacientes e pedem respostas instantâneas. É esta fração de segundo que nos faz seguir em frente e, pouco importa, se vamos dizer sim ou não, o importante no momento de decisão, é a forma como teremos que lidar com as nossas certezas, inseguranças, verdades, mentiras…

O imprevisível caminha ao lado desses momentos. Nunca saberemos ao certo quando ou porque será necessário pular mais alto e decidir algo de primeira. Muito menos saber o quão difícil será tomar decisões que não estavam em nossos planos e que podem, com frequência, afetar as pessoas ao nosso redor, de formas que não podemos prever. É sempre bom não perder de vista que as nossas decisões, por mais simples que sejam, jamais serão individuais.

É claro que a vida nos coloca em situações onde há muito pouco ou nada a ser feito mas, ainda assim, é possível decidir se nos conformamos ou não com essa situação. Vivemos as decisões que tomamos, sejam elas repentinas ou não. Porém, sempre que exercitamos a nossa capacidade de escolha, conhecemos um pouco mais de nós e reconhecemos limites. Por vezes colocamos esses limites à prova, o que nos ajuda a compreender que existem linhas que não devem ser ultrapassadas.

Decisões são desafiadoras e nos testam de formas que nem imaginaríamos possíveis. O ato de escolher impõe mudanças, quer você queira ou não.  É difícil dizer se escolhemos os caminhos corretos, mas podemos afirmar que somos a síntese das escolhas que fizemos. O que faremos daqui em diante? Escolhas. Qual a melhor maneira de fazê-las? Aprendendo com elas…

A difícil arte da despedida

Que encontraremos muitas dificuldades pela vida afora, ninguém duvida, mas algumas são particularmente indigestas. É o caso das despedidas. Estas estão, certamente, no topo da lista, até por conta da sua natureza. Dizer adeus não é uma simples fala, é uma atitude que, dependendo da ocasião, pode ser algo difícil de entender e aceitar.

Não é fácil precisar quantas vezes nos vimos obrigados a dizer até logo, tchau ou adeus. Afinal, como é possível que algo que fazemos todos os dias, possa ser tão complicado? Simples. Despedidas são pessoais, intransferíveis e não dependem apenas do nosso consentimento. Dessa forma, seja para dizer ou ouvir os sinais de afastamento, sempre precisaremos da participação e da vontade de outros atores, talvez por isso seja tão complicado vivenciá-los.

Visto dessa forma, a despedida parece algo ruim e que sempre nos trará dor e sofrimento. Em alguns momentos sim, é verdade, mas sempre há um quê de renovação por trás de um simples até logo. Despedir-se dos amigos do trabalho após um dia exaustivo, pode significar um retorno feliz pra casa, uma ida ao cinema ou um encontro com amigos. Dizer tchau aos seus pais, depois de um bom domingo em família, nos permite retornar as nossas vidas particulares, repletos de amor e boas energias. Essas despedidas são quase uma forma de carinho, pois sabemos que são temporárias e que, todas as vezes em que for preciso dizer esse tipo de adeus, é porque voltaremos a viver aqueles bons momentos novamente.

Sair de casa, mudar de profissão, ver os filhos voando para fora do seu ninho ou terminar um relacionamento abusivo. Todas essas situações estão impregnadas de sentimentos como a saudade, rancor, amor, frustração e ansiedade. Despedir-se do que quer que seja, pressupõe um afastamento, o que irá provocar uma distância, maior ou menor, daquilo que estávamos tão acostumados a chamar de nosso.

Mas, dentre todas as formas de dizer adeus, nada supera a dificuldade que temos em aceitar as despedidas definitivas e inevitáveis. Aquelas em que nenhuma vontade é respeitada e nenhum desejo é levado em conta, pois elas irão acontecer independente do nosso querer e sem dar qualquer explicação. Deixando para trás uma estrada devastada por vazios preenchidos de silêncios e perguntas sem respostas…

Perder. Já repararam que as perdas, seja lá quais forem, são quase sempre precedidas por despedidas? Quando viajamos sem destino e sem data de retorno, significa que perderemos, por tempo indeterminado, aquilo que nos era garantido. Mas, nesta situação, houve a possibilidade de dizer até breve, mesmo que a despedida do que deixamos para trás, fosse definitiva. O grande problema é quando, por um capricho das circunstâncias, somos privados do direito de dizer adeus. É nesse ponto onde somos tomados pela impotência diante de coisas completamente fora do alcance na nossa compreensão. E isso incomoda.

Dizer adeus é como dar o último passo de dança ou pôr um ponto final de uma história. Quando isso não acontece, nos perdemos em passos aleatórios e textos desconectados que não nos levam a lugar algum. Então, apesar de todo o peso que algumas despedidas podem ter, é preciso dizer adeus para que novas etapas possam, enfim, começar. É difícil perceber quando, de uma hora para outra, aquilo que era nosso por direito, passa a ser algo deslocado e menos importante.

Nesses momentos, despedir-se é o melhor a ser feito. A sensação de posse pode, muitas vezes, mascarar a importância das coisas. Deixar para trás o que não precisamos, não significa que não sentiremos falta, mas sim, que é necessário buscar novos caminhos e experiências. Despedir-se é dizer adeus a ilusória sensação de pertencimento.