O que a falta nos faz

Sentir falta… Quantas coisas cabem nesta expressão? É necessário puxar pela memória para dar conta de tudo aquilo e de todos aqueles que fizeram parte da nossa jornada até agora. Porém, também é possível sentir o que a falta nos faz, mesmo quando não vivemos ou experimentamos algo. A falta não se prende ao tempo e, tampouco, a realidade.

Há um quê de fantasia nesse sentimento. Basta imaginarmos uma cena, um lugar ou uma experiência, para que a nossa criatividade nos presenteie com uma irrealidade tão vívida, que nos fará sentir a sua ausência. Assim, as estórias não precisam de protagonistas e cenários verdadeiros para tornarem-se momentos importantes.

Com alguma frequência, me pego sentindo falta de situações que não vivi ou de lugares onde jamais estive. O que talvez pareça um tanto estranho mas, olhar uma fotografia, ler um livro ou assistir a um bom filme, são gatilhos que permitem que sejamos tragados por uma deliciosa ilusão, da qual será muito bom sentir falta. Isso, certamente, nos ajudará a buscar na realidade, aquilo que gostaríamos de experimentar.

A falta, apesar da semelhança, não é sinônimo de saudade e, sim, parte dela. Essa palavra tão exclusiva da nossa língua e que agrega tantas emoções, traz consigo, lembranças de momentos que vivemos de fato e que adoraríamos reviver. Registros que deixam marcas e nos transformam em quem somos, sempre serão o objeto da nossa saudade.

Sentir falta é algo amplo e não se restringe ao passado. É igualmente presente e futuro. Sentimos por não ter em nosso cotidiano, não apenas as pessoas queridas, mas também, aquelas que não eram afetos óbvios. Sentimos ao projetar um futuro onde, pessoas que fazem a diferença em nossas vidas, não estarão mais ao nosso lado, independente da nossa vontade. Transformando, dessa forma, um devaneio abstrato em algo perturbadoramente concreto.

Entretanto, a falta nem sempre estará atrelada ao que queremos rever. Ao contrário. À medida que seguimos os nossos caminhos acumulando vivências, criamos uma extensa lista de coisas e pessoas que não farão a menor falta. O que é ótimo, pois reduz o fardo de carregar inutilidades, além de criar mecanismos de autoproteção contra ciladas sutis e inconvenientes frequentes.

Nossas experiências, por mais simples que possam parecer, mostram que a falta será uma constante que não fará distinção de idade, cor ou credo. E há uma razão para isso: as perdas que sofremos. Perdemos, desde muito cedo, pessoas e momentos que são caros para nós. Mesmo na nossa imaginação, perdemos, pois não saberemos se aquela ilusão poderá, um dia, ser revivida.

Perdas geram registros que deixam claro que, a partir de um determinado ponto, caminharemos sozinhos com as memórias do que vivemos ou que gostaríamos de ter vivido. É aí que a falta nos pega pela mão e aperta forte. Ajusta seu passo ao nosso e nos segue, caminhando lado a lado, não importa o rumo que vamos seguir.

Seja passada, presente ou futura; mais forte ou mais frágil; real ou imaginária. Sentiremos, de um jeito ou de outro, os efeitos que a falta nos faz.

E no meio de tanta gente

Falar sobre solidão pode ser uma cilada que nos leva ao lugar comum onde, estar só, é estar abandonado. Longe disso. Solidão pode ser a dois, em grupo ou no meio da multidão. A sua presença não se mede pelo número de pessoas que temos a nossa volta e, sim, pelo quanto estamos disponíveis para elas e vice-versa.

Mas este não é um texto sobre solidão e, sim, sobre escolhas. Estar só ou acompanhado, é algo que escolhemos com base nas conexões que fazemos com os nossos universos particulares.

Ouvimos, desde que nascemos, conselhos sobre quem era boa ou má companhia, com base nos padrões da tradicional família e com as variações do mundo de tempos em tempos. Crescemos e continuamos a classificar as companhias, agora por nossa conta e risco. Tentamos criar o nosso próprio padrão de escolha, por mais que digamos que não.

Isso, muitas vezes, determina de que forma iremos disponibilizar nosso tempo e atenção entre aqueles que estarão perto de nós. Amigos, conhecidos, os indispensáveis ou nem tanto… O elenco será montado de acordo com o grau de importância que as pessoas terão e isso dirá por quanto tempo irão permanecer em nossas vidas.

A grande questão é o quão seletivo ficaremos a partir disso. Desenvolvemos filtros que variam em eficiência, o que significa dizer que, sem notar, escolhemos estar mais solitários ou mais soltos no meio de tanta gente. O que nem sempre será sinônimo de boas escolhas…

Reparem que não fazemos uma programação prévia que diz o momento em que estaremos circundados de atenção ou agradecendo por não ter recebido nenhuma ligação, combinando para sair. Este é um jogo onde, estar só ou acompanhado, depende da disponibilidade e o interesse de outros participantes. Logo, o controle sobre o fluxo de pessoas em nossas vidas está longe de ser unilateral.

Talvez, o culto à felicidade desmedida confunda um pouco a nossa percepção sobre quando é bom estar rodeado de amigos e quando os momentos solitários são para lá de preciosos. E assim, vamos criando molduras lindas que abrigam momentos de sorrisos ultra felizes, festas incríveis  e repletas de pessoas igualmente encantadoras. É isso que escolhemos mostrar, mesmo que ocorra esporadicamente. Mostrar-se em bandos animados tornou-se quase obrigatório.

É importante ter em mente que há uma dinâmica que rege as relações e que, ora estaremos mais felizes em grupo, ora seremos pessoas melhores se desfrutarmos da nossa própria companhia. Não há nada de mal nisso, ao contrário. O grande problema é que estamos caminhando a passos largos na direção de universos paralelos, onde a realidade e o mundo virtual não são equivalentes.

Como isso é possível? Simples. Decidimos demonstrar o brilho de nossa coletividade em plataformas virtuais, enquanto restringimos as nossas relações no mundo real e sem filtros.

Estar indisponível para novas experiências reduz as chances de estabelecer novas relações com infinitas possibilidades. E, dessa forma, não demonstramos ao outro que estamos prontos para começar um novo jogo. Ser incríveis e cheios de amigos nas telas frias é divertido, porém perigoso. Na vida, é preciso criar conexões. Ficar restrito a poucos e bons pode ser a escolha que nos fará andar de mãos dadas com a solidão.

 

O novo ano

Olhar para trás ou para frente? O último dia do ano tem o poder de criar um transe coletivo, que provoca uma explosão que reúne sentimentos e lembranças das coisas que já vivemos, com as esperanças e incertezas sobre o novo ano que está por vir.

Mas, independente de como tenha sido o ano que passou, a transformação no calendário cria uma atmosfera quase mágica que nos permite, dentre outras coisas, deixar os problemas de lado e celebrar tudo aquilo que foi importante e desejar que dias mais tranquilos estejam reservados para nós.

O tão celebrado ano novo é muito curioso. Já perceberam que, com a sua chegada, nos aproximamos da criança que fomos um dia? Somos tomados por uma esperança quase ingênua que nos leva a listar infinitos desejos até quase perder o fôlego, com um brilho no olhar que que não se nota todos os dias e com uma pureza que, infelizmente, não conseguimos demonstrar com facilidade.

Nesses momentos, nos aproximamos daqueles que são preciosos para nós. Não apenas porque são familiares e amigos, mas porque é junto a eles que conseguimos dividir as nossas experiências e fortalecer vínculos que se afrouxaram, mesmo contra a nossa vontade. À medida que a vida vai passando, entendemos que as datas emblemáticas como o ano novo, são, na verdade, refúgios que nos obrigam a desacelerar, respirar fundo e olhar para quem está ao nosso redor.

Mas, até aí, tudo bem. Já conhecemos e repetimos esse comportamento ano após ano. Lembramos que é preciso ter por perto quem importa mas, por que, então, não fazemos isso com mais frequência? Culpamos a vida corrida e, com isso, tentamos convencer aos outros e a nós mesmos que somos mais ocupados do realmente somos. Criando, assim, uma mentirinha sincera para atenuar a nossa ausência.

Entendo que não há como negar que somos tragados pela rotina que individualiza e afasta da coletividade. Mas, por mais inevitável que isso possa parecer, é preciso um criar um movimento contrário que nos force a encarar o lado oposto e incluir nas agendas tão superestimadas, aqueles de quem só lembramos ao fim de cada ano.

Quem de nós não está com uma lista repleta de desejos novos e antigos para o ano novo que se inicia? Quantos seguirão adiante e quantos serão abandonados pelo caminho? As incertezas da virada serão sempre equivalentes ao número de pedidos que projetamos. Há os simples, os desafiadores e os quase impossíveis. Desejos que nos transportam para realidades fantásticas onde podemos compartilhar o que queremos, com quem faz a diferença.

Mas, por que  deixar que isso fique restrito a nossa imaginação? Não faz muito sentido passarmos tanto tempo pensando em “como teria sido”, se não for para transferir energia para fazer as coisas acontecerem de fato. São tantas distrações irrelevantes, que impor limites a elas é quase um ato de resistência. E é isso que nos transformará em pessoas mais disponíveis para pôr em prática todos os planos que imaginamos para o ano que acaba de começar.

Por estas e outras razões, que é necessário olhar para trás e conferir o que foi feito, o que foi deixado de lado e o que valeu a pena. Assim como olhar para frente e adaptar seus sonhos ao novo ano. Inclua todos os que puder e não se esqueça de traçar caminhos largos para que muitos desejos, pessoas e experiências possas pedir passagem. E, se for possível seguir um conselho para o ano que acaba de nascer, esteja sempre disponível para aquilo que a vida te oferecer.

Feliz 2018.