O que eu faço agora?

O que devemos fazer quando não temos a menor ideia do que fazer? Paralisar-se diante de uma situação pode ser uma possibilidade. Agir com violência também. Ainda há aqueles que choram e aqueles que sorriem diante de uma circunstância absolutamente inesperada. A única coisa em comum a todos é a pergunta: O que eu faço agora?

Para essas surpresas, não existe um padrão de comportamento à venda capaz de nos salvar das inúmeras saias justas que teremos que vestir vida afora. Algumas delas, mais de uma vez.

Se pararmos para pensar, é raro sentir-se realmente pleno sobre algo ou alguém. Mas isto não nos torna inseguros crônicos, tampouco, donos absolutos da verdade. Na maior parte das vezes, reagimos àquilo que o cotidiano apresenta, como se, a cada dia, fossemos desafiados a atuar em um filme, do qual temos apenas uma vaga ideia sobre o roteiro, elenco, texto e direção.

Então não somos os responsáveis por nossas próprias estórias e experiências? Sim, somos. Mas é preciso aceitar que temos pouco ou nenhum controle sobre os rumos que, de fato, vamos seguir.

Visto desta forma, até parece simples, mas é dificílimo perceber isso de forma racional. Vivemos um dia após o outro, sempre cercados pela ideia, presunçosamente ingênua, de que temos, sob o nosso controle, as rédeas de nossas vidas.

Para alguns, isto pode ser desafiador, mas para outros, significa um verdadeiro pesadelo. Afinal, lidar com o desconhecido o tempo todo, determina que não saberemos como agir com mais frequência do que se pode suportar. O que nos faz pensar e entender um pouco sobre nós mesmos e a forma como reagimos as peças que a vida nos prega.

É curioso pensar que parte do que somos está relacionada aos nossos momentos mais vulneráveis, onde, em situações de puro constrangimento, demonstramos uma pureza quase infantil na forma de pensar e agir. Talvez isso justifique reações impulsivas e imprevisíveis, comum a todos nós, quando não sabemos o que fazer. Claros resquícios da criança que fomos um dia.

Passamos tanto tempo aprendendo, a duras penas, como devemos ser decididos e confiantes que rejeitamos, completamente, a possibilidade de parecermos frágeis diante de qualquer situação. O que é uma grande bobagem, uma vez que jamais saberemos lidar com todas as situações, embora seja difícil de admitir, não temos resposta para tudo e, sim, ficaremos com caras de bobo muito mais vezes do que gostaríamos.

Pensar sobre isso ajuda a enxergar a quantidade de camadas que acumulamos com o passar dos anos e, como nos preparamos para usá-las em ocasiões diferentes, criando a falsa sensação de que estaremos sempre prontos para qualquer parada.

Na verdade, essas capas tornam-se pesadas demais e impedem que demonstremos incertezas e inseguranças, inerentes a cada um de nós. Sobre tudo isso, uma coisa é certa: A vida seria muito mais leve, se admitíssemos  que não há problemas em não ter respostas para tudo e, que não deveríamos nos esforçar tanto para esconder a espontaneidade da dúvida.

Desejo versus realidade

Depois de um tempo, muitas das nossas convicções mudam e, coisas em que acreditávamos transformam-se em rascunhos esmaecidos pelo tempo. A melhor prova disso está relacionada a um simples comportamento infantil, mas que adoramos repetir inúmeras vezes ao longo da vida: O que eu vou ser quando crescer? Essa parece ser a melhor síntese daquilo que passamos anos tentando compreender: desejo versus realidade.

Dentro dessa pergunta cabem muitos sonhos, muitas incertezas e muitos desejos. Queremos tantas coisas e pensamos nisso o tempo todo mas, o que conseguimos concretizar a partir dos nossos desejos? Não há como saber ao certo, uma vez que somos pródigos em desejar, pedir e esperar que esses desejos sejam alcançados. Mas, na realidade, pouco importa o que foi conquistado de fato. O mais interessante é perceber o quanto somos capazes de mudar e nos adaptar diante daquilo que conseguimos construir a partir disso.

Apaixonar-se é um bom exemplo para falar sobre isso. Na maioria das vezes, idealizamos tudo. Da casa que queremos a empresa onde gostaríamos de trabalhar. E com as pessoas não é diferente. Projetamos desde a embalagem até a forma de pensar e, como seremos especialmente felizes, ao lado do mais novo amor das nossas vidas. Tudo deve cumprir o nosso tão exigente controle de qualidade. Quem nunca se viu nessa situação? E vamos além. Quem de nós pode afirmar que esta projeção transformou-se, de fato, em realidade, exatamente como imaginamos? Difícil…

Mesmo sabendo que nada disso funciona como planejamos, insistimos nessa ilusória sensação que, de alguma forma, conseguiremos ter um pouco de controle sobre os nossos desejos. É nessa batalha interna entre a causa e o efeito, que experimentamos o inesperado.

Sempre que vislumbramos um ponto de chegada, precisamos ter em mente que não sabemos o que vai acontecer após o primeiro passo. A vida nos mostra que há inúmeras formas para se chegar onde se quer mas, jamais, saberemos como será ao certo. São muitas variáveis que vão muito além do nosso simples desejo e, não contar com isso, pode ser um grande engano.

Voltemos ao exemplo da paixão. Quando nos deparamos com alguém que, mesmo superficialmente, preenche os requisitos do nosso desejo, imediatamente, começamos a tentar por em prática, todo o planejamento que passamos anos organizando. Às vezes dá certo por um tempo mas, como em todo bom plano, é preciso estar pronto para os imprevistos…

É nesse ponto em que somos capazes de sentir os efeitos daquilo que não podemos controlar. E, por mais óbvio que isso possa parecer, não levamos em conta que a nossa vontade é apenas parte de uma reação que, para dar certo, precisa de uma parceria que a complemente.

Mas, infelizmente, as coisas mais claras nem sempre são as mais fáceis de enxergar e, por isso, tentamos impor o nosso plano mirabolante e nos esquecemos que, do outro lado, existe alguém pronto para fazer mesmo. Talvez esteja aí a grande mágica disso tudo. Podemos planejar os nossos desejos mas, não saber como chegaremos lá, nos permite desenvolver um certo jogo de cintura que pode facilitar a nossa caminhada.

Reclamamos muito da vida e das dificuldades que ela nos apresenta, mas a responsabilidade de parte das nossas frustrações, possivelmente, esteja relacionada a dificuldade que temos em flexibilizar a forma como tentamos transformar sonhos em realidade. Para evitar que nossas vontades não passem de projeções vazias, precisamos entender e aceitar que existem mil possibilidades entre o desejo e a sua realização.

A dedicação é o que nos salva…

Sempre que pensamos em sucesso, felicidade ou amor, tentamos visualizar como estaremos tempos depois do início de uma nova etapa de vida. Mas o que deve-se fazer para conquistar o que se quer? Dedicação é, certamente, aquilo que nos salva. Será?

Não se enganem, pois este não será um daqueles textos que dizem que devemos ser absolutamente dedicados, não importa a hora ou o local. Não há dúvidas sobre a importância de estar comprometido e inteiro quando queremos algo, de fato. Mas há um erro de avaliação neste senso comum que nos leva a, quase sempre, insistir em projetos mal concebidos, sonhos sem planejamento ou amores imaginários. Acreditamos cegamente que, se as coisas não deram certo como era esperado, foi porque nos faltou dedicação e paciência.

Concordo que, em muitas vezes, é preciso perseverar para chegar onde se quer, porém, em alguns momentos, manter uma posição inalterada sobre algo que só  traz retornos negativos, não é uma prova de dedicação inabalável, mas sim, de uma teimosia envergonhada que nos impede de abrir mão de escolhas equivocadas.

Por conta disso, muitos investem tempo demais naquilo que, no fim das contas, tem importância de menos. Parece fácil falar sobre algo que só descobre-se vivendo, mas, se deixássemos de lado a boa e velha culpa que nos acompanha de perto e que aparece todas as vezes em que duvidamos de nossa capacidade de continuar seguindo em frente, talvez fosse mais fácil perceber a diferença entre dedicação de verdade e aquela burrice ocasional, capaz de nos cegar muito além do que gostaríamos.

Mas, até onde devemos ir para que seja possível convencer os outros e a nós mesmos, de que estamos dedicados e dispostos a a continuar no caminho que traçamos previamente? O limite para isso é impossível de precisar, mas é possível dizer que o caminho será longo, uma vez que a ideia de desistir do que quer que seja nos afeta profundamente, como se, mudar as regras do jogo, nos transformasse em fracassados confessos.

Reside, nesta questão, uma perversidade cínica que diz que só a dedicação nos fará alcançar metas e que, ao mesmo tempo, devemos suportar todas as dificuldades em nome daquilo que escolhemos… Isso talvez faça sentido naqueles momentos onde as escolhas e chances são escassas. Porém, à medida em que somos apresentados a novas possibilidades, mudar de rumos não significa falta de dedicação e, sim, uma simples e necessária mudança de ponto de vista.

Essa rigidez na forma de pensar e agir, escancara uma dificuldade coletiva que demonstra como, permitir-se mudar, é bastante complexo. Não nos tornaremos criaturas mais indolentes só porque nos permitimos mudar de opinião. Ao contrário. A mudança é essencial para que seja possível dedicar-se as experiências que valem a pena viver.

Somos apresentados a diversas situações, igualmente interessantes, diariamente.  E, neste leque de opções, podemos escolher a qual delas iremos nos dedicar e por quanto tempo, mesmo sabendo, de antemão que, em nenhum momento, teremos a certeza se estamos dedicando energia suficiente para algo ou alguém. Até porque esta percepção sempre terá dois, ou mais, lados distintos que, nem sempre são compatíveis.

Mas, independente disso, é essencial estar em paz com as próprias escolhas e com a forma como nos dedicamos a elas. Dedicação deve ser o reflexo da nossa vontade de transformar sonhos em realidade, sem perder de vista que esse processo pode até ser turbulento, mas que não pode, de forma alguma, cobrar um preço alto demais a ser pago.

Ideias, pensamentos e memórias

Todas as vezes em que iniciamos um novo projeto, somos arrebatados por uma enxurrada de ideias que, aos poucos, vão se acalmando e se organizando. Às vezes de forma cordial, às vezes travando batalhas violentas, na tentativa de fazerem parte da história que vai nascer. Porém, neste processo, uma questão se faz presente: Qual é a origem da diversidade de pensamentos e ideias que povoam as nossas cabeças e que ajudam a formar as nossas memórias? Uma pergunta nada fácil de responder, uma vez que exige respostas autênticas e muito particulares.

Estar onde estamos é, obviamente, fruto de uma caminhada nada fácil. Nos perdemos, mudamos de ideia com frequência, sofremos mais do que gostaríamos mas, sobretudo, somos agraciados por experiências transformadoras que são responsáveis por nos trazer até aqui. Muitas delas caem no esquecimento, muitas são lembradas eventualmente e, algumas, são companheiras fiéis por anos e anos. Esse acumulado de horas vividas reflete, não apenas a nossa biografia, mas aquilo que queremos ser no futuro e por quais estradas queremos seguir.

Vendo as coisas por esse ângulo, é possível acreditar, então, que cada momento vivido conta… e muito. Apesar disso, passamos anos acreditando piamente que, pensamos e agimos de acordo com a nossa natureza, personalidade ou que é o destino, o responsável por nossas ações. Dependendo do que acreditamos, isso pode até ser verdade, mas não completamente.

Cada um de nós, pode ter um temperamento que sinaliza para onde seguir, mas é o resultado de experiências prévias que servem de suporte para novas decisões. O que pode ser a salvação para novas ciladas e possíveis constrangimentos desnecessários. Pena que isso, nem sempre, é uma realidade.

Quantas e quantas vezes, repetimos um padrão de comportamento, apesar de sabermos de antemão, qual será o fim da estória? Muda o elenco, mas o roteiro é sempre o mesmo, assim como o seu desfecho. Todos nós já protagonizamos esse mesmo filme, mas é possível mudar esse final, uma vez que, muito do que vivemos não depende apenas do outro. A nossa conivência sempre dará a palavra final, independente da situação.

A grande questão está em saber como usar a memória a nosso favor. Sei que é, praticamente impossível, manter a nossa reserva de experiências atualizada o tempo todo mas, ficar uma pouco mais atento ao que se vive pode, alem de poupar sofrimento, aumentar o crédito de felicidade de todas as formas, cores e tamanhos.

À medida que vencemos as décadas de vida, vamos ressignificando tudo aquilo que nos rodeia e que é, de fato, importante. Brigas em família perdem o sentido, dizer sim para tudo não é mais uma necessidade e, dizer não, torna-se um hábito libertador. Talvez este seja um dos grandes sentidos do envelhecer.

A falta de experiências, próprias da juventude, nos apresenta ao exagero e descontrole. A maturidade, chega de mansinho, provando que, com calma, é possível desfrutar mais e por muito mais tempo, as situações que vivemos todos os dias.

Dessa forma, concluímos que não há formula única que explique a diversidade de ideias que vive em nós. Ainda bem… Somos parte rocha e parte nuvens, que mudam de forma e cor, que desaparecem para em seguida surgirem pesadas e barulhentas. Mas sempre deixando registros que nos marcam e forjam os pilares daquilo que somos verdadeiramente. Por esta razão, quanto maior for o número de experiências vividas, mais fortes seremos e, se cada momento conta, por mais insignificante que possa parecer, é melhor fazer cada um deles valer a pena. É melhor fazer cada um deles se tornar… memorável.