Muito além das nossas medidas

Às vezes tenho vontade de fazer mil coisas mas, no instante seguinte, desisto… Quem nunca pensou ou agiu dessa forma? Alguns mais, outros menos, mas todos nós desejamos sair do lugar onde estamos para conhecer e usufruir de tudo aquilo que o mundo pode nos oferecer. Afinal, não importa o tamanho do sonho, uma vez que a nossa imaginação sem limites nos leva, sem muito esforço, aonde quer que seja.

Mas, se a vontade existe, por que é tão difícil transformá-la em ação? Acho que esta é a maior encruzilhada na vida de todos nós. É obvio que, efetivamente, não se consegue tudo aquilo que é desejado, porém, tentar alcançar pode, na imensa maioria das vezes, nos conduzir a lugares inesperados e cheios de boas surpresas. É aí onde percebemos que tentar chegar a algum lugar, por si só, já começa a valer a pena.

Dito desta forma, até parece fácil. Basta desejar para acontecer. Quem dera fosse simples assim. Mas, de todo modo, conquistas não caem no colo de ninguém. Conquistar requer investimentos pessoais bastante altos e, além disso, as incertezas de todos os tipos são companheiras constantes, para todos aqueles que anseiam por mudanças, sempre. O que é justo, uma vez que ninguém é absolutamente infalível a ponto de não duvidar das próprias capacidades, afinal, só conhecemos nossos limites porque fomos postos à prova em algum momento.

O fator mais limitante para que vontades se transformem em realidade, vem de uma dificuldade em acreditar que somos capazes de realizá-las. Talvez porque, ao longo do tempo, tenhamos aprendido ou forçados a aprender que alguns lugares são inacessíveis, que não seremos capazes de seguir por este ou aquele caminho e, ainda, que quanto mais alto sonharmos, maior será a queda… Quanta bobagem.

Nossa imaginação, nos provoca o tempo todo, criando realidades fantásticas onde todo mundo pode vestir a pele que quiser, para ser quem se deseja ser. O que é maravilhoso, pois são esses momentos nos permitem percebem a nossa real dimensão. Somos muito maiores que as nossas presunçosas medidas e podemos ir muito além dos planos que foram traçados por nós ou para nós. Mas, é preciso ter em mente que essa é uma das tarefas mais prazerosamente difíceis da vida.

A jornada entre o desejo e a realização é cansativa e cheia de ciladas prontas para dar o bote. Caímos em quase todas sempre que nos deparamos com elas a primeira vez. Algumas vezes caímos de novo e mais uma vez nas mesmas armadilhas, que teimam em cruzar nossos caminhos. Mas, tudo bem… Cair e levantar fazem parte do processo.

A grande questão é perceber os obstáculos e tentar conhecer a sua origem. Muitos entraves são fornecidos pela vida mas, outros tantos, são perversamente criados, talvez inconscientemente, por nós mesmos. O que nos leva, em muitos momentos, a desistir, mesmo antes de tentar alcançar uma meta, um sonho ou um desejo. Assim como as incertezas, o auto-boicote pode ser um par frequente e incômodo, que escancara os nossos medos, fraquezas e covardias. Fugir desse monstro que nos acompanha é, quase sempre, uma grande perda de tempo. Precisamos domar nossos medos, impedir que ele nos paralise e seguir em frente, para muito além das nossas medidas.

Rótulos e Catálogos

Em um mundo onde parecer se torna cada vez mais importante do que ser, nos acostumamos a classificar praticamente tudo, criando um enorme catálogo onde coisas e pessoas que são identificadas e etiquetadas de acordo com o período do dia, variações de humor ou por estarem no lugar errado na hora errada.

Se é desta forma que iremos jogar esse jogo, começo a me perguntar: quantas etiquetas de identificação somos capazes de suportar e quantos rótulos conseguiremos colar em quem está ao nosso redor? Perguntas claramente sem respostas…

Hoje, as fronteiras se ampliaram de tal forma que, a nossa capacidade de ter uma opinião formada sobre tudo, desconhece limites. O que antes era restrito a pequenos comentários entre vizinhos de porta, transformou-se em teses, nada elaboradas, sobre os mais diversos assuntos e pessoas. O que significa dizer que, a boa e velha fofoca doméstica rompeu barreiras, mas continua firme e forte, só que agora, em escala global.

De todo modo, o desejo por saber segredos alheios continua a nos mover de forma quase irracional, seja em conversas de salão ou em redes sociais multiconectadas. O que provoca um estranho movimento na busca por informações não divulgadas, que utiliza como artifícios, desde sussurros ao pé do ouvido, até horas em frente ao computador dedicando-se a fuçar perfis, de forma amistosa ou nem tanto.

A grande questão não reside em querer saber algo sobre alguém, mas sim, o que fazemos quando não temos a nossa curiosidade satisfeita. Neste ponto, o jogo torna-se um tanto perigoso. Não saber notícias verídicas sobre o que quer que seja, jamais foi impedimento para que coisas não fossem ditas e repetidas por aí afora.

Uma vez que todo mundo fala de todo mundo, o tempo todo, é compreensível que essa montanha russa de informações necessite de algum tipo de organização. É aí que entram os rótulos. O que se fala sobre o outro parece ter uma importância cada vez menor, uma vez que classificar as pessoas tornou-se muito mais interessante.

Aquele colega de trabalho que conspirador, a vizinha insinuante, a criança mal educada, o pai relapso, políticos corruptos, adultos mimados… a lista de rótulos parece não ter fim. Todos nós já estivemos dos dois lados, etiqueta e etiquetador, réu e juiz. Baseamos nosso julgamento nas provas mais desqualificadas possíveis. Olhares e comentários alheios parecem ser suficientes para que criemos caixas sob medida onde, sem muito critério, incluiremos tudo aquilo que a vista alcança.

Aprendemos ao logo da vida que ser organizado é uma qualidade, logo, classificar pessoas seria um resultado positivo deste aprendizado, correto? Possivelmente não, uma vez que, na imensa maioria das situações, sequer conhecemos aqueles que serão colocados em nossas caixas pré-moldadas. Dessa forma, muitos erros de avaliação são feitos e, com frequência, colocamos etiquetas erradas em pessoas certas. Não permitimos segundos olhares. Miramos quase tudo utilizando apenas os nossos pré-conceitos que, quase sempre, estão envolvidos por um filtro que nos impede de enxergar as situações com mais nitidez. O que, infelizmente, conduz a uma série de erros em nossos julgamentos. Erros que já cometemos e que continuaremos a cometer.

Por mais que exista a noção de que não se deve julgar um livro pela capa, é o que fazemos o tempo inteiro. Nossos olhares superficialmente inquisidores, teimam em focar apenas em detalhes e não no todo. Ver o mundo de forma parcial é uma pena. Lugares e pessoas são formados por uma infinidade de camadas, prontas para serem descobertas, porém, isso só será possível a partir do momento que deixarmos de dar tanto crédito a rótulos e começarmos a valorizar conteúdos.

Sopro de novidade

Entra ano, sai ano e as pessoas seguem em busca de realizações, amores, trabalho e… Surpresas. Independente da capacidade de organização de cada um ou da forma como programa a sua vida, é fato que, vez ou outra, contamos com uma visita inesperada que pode, em segundos, alterar realidades tão ingenuamente construídas. Talvez seja por saber que, em algum momento, seremos surpreendidos por um sopro de novidade, que seguimos acreditando e aplicando regras e normas vida afora.

A surpresa traz uma quebra de rotina, uma transgressão que nos mostra que nem sempre estamos no controle. O que pode ser delicioso para alguns e um pesadelo para aqueles que estão acostumados a seguir por estradas retas, com poucas curvas e sem atalhos, de preferência.

Mas, como tudo na vida pode ser bom ou ruim, não seria diferente com as novidades. Porém, isso não quer dizer que ser surpreendido negativamente, esteja nos planos de quem quer que seja. Surpresas desagradáveis são inevitáveis, mas nem sempre são permanentes. Ser pego de surpresa em situações que causem algum mal-estar, acaba conferindo um jogo de cintura capaz de nos fortalecer todas as vezes que o inesperado fizer uma surpresa.

Dessa forma, é possível, não somente, identificar as maravilhas contidas em uma boa surpresa, como também, querer a sua presença constante em nosso cotidiano. Talvez por isso, todas as vezes que desejamos algo inusitado, esperamos sentir uma descarga de energia que, inevitavelmente, terminará em sorrisos bobos e corações acelerados.

Porém, via de regra, transformamos, ou tentando transformar, surpresa em regra. Mas o surpreendente jamais será aquilo que esperamos que aconteça. O nome disso é expectativa. Surpresa é um atalho não programado, que nos conduz por caminhos absolutamente inesperados. Levando a destinos completamente desconhecidos. É aí que reside o poder da novidade.

As surpresas possibilitam um contato interessante com o novo. A cada nova situação, que foge do nosso roteiro prévio, temos a chance de conhecer diferentes nuances de nós mesmos e que não costumam aparecer com frequência. Então, à medida que somos surpreendidos, demonstramos novas reações e sentimentos que, ao longo do tempo, ajudarão a formar a nossa personalidade.

Somos formados pela dobradinha racionalidade & surpresa. Uma delas nos mostra que, para conseguir o que se deseja, é necessário pensar, programar, calcular riscos para, então, agir. Já a outra, chega como um furacão, derrubando nossos castelos de cartas, pretensamente organizados, mostrando que os caminhos entre o desejo e a realização são múltiplos e nem sempre fáceis de enxergar.

O que nos faz refletir sobre a forma como conduzimos a vida. Regras em excesso podem engessar nosso olhar, possibilitando apenas a mesma perspectiva sobre todas as coisas. Ao passo que, ser errático e desafiar o acaso o tempo todo pode gerar uma dependência por adrenalina que, certamente, excluirá do nosso campo de visão, a beleza pragmática do cotidiano.

O dia a dia não precisa ser enfadonho ou desinteressante, ao contrário. É possível incluir pequenas surpresas ao nosso cotidiano, sim. Mudar itinerários, ir ao cinema em outros bairros, permitir-se momentos de contemplação sem preocupações ou sair de casa em uma manhã qualquer, sem planejamentos, apenas com a vontade de aproveitar tudo o que for possível, nos dão a chance de experimentar situações simples, porém, repletas de novidades. Mas, para que isso aconteça, é preciso estar disponível para sentir esses sopros de novidade.

 

 

Mimados não podem sofrer

Levanta essa cabeça. Enxuga essas lágrimas. Sacode a poeira e segue em frente… Somos bombardeados por estímulos como esses, desde sempre. Estímulos que nos permitem, ou pelo menos tentam, retirar o sofrimento de nossas vidas, mesmo que momentaneamente. Coisa cada vez mais comum em tempos onde é inadequado sofrer. Ao menos publicamente.

Vivemos a era da felicidade quase obscena e obrigatória. Chegamos ao êxtase quando vemos nossos bons momentos esparramados por aí. Nos sentimos motivados a demonstrar a nossa felicidade, seja ela real ou meticulosamente fabricada, sempre que vemos alguém expondo registros mais felizes que os nossos. É evidente que, neste cenário, não há espaço para sofrer.

Mas qual é o problema em não querer sofrer? Na verdade, a ausência de sofrimento deveria ser encarada como uma benção e não como uma questão delicada. Então, se a felicidade é o contraponto exato do sofrimento, logo, se não há motivos para sofrer, sobram razões para explodir de felicidade, certo? Não no mundo real…

Hoje, se as crianças choram e demonstram algum tipo de sofrer, criamos, imediatamente, formas de aplacar seu sofrimento. E a mais simples delas, é a pronta satisfação das suas vontades. Para cada choro, um desejo realizado. Assim, desde muito cedo, aprendemos que sofrer é algo que precisa ser evitado. O que faz sentido, uma vez que ninguém quer sentir algo que traga dor ou tristeza.

Porém, há algo de estranho nesse atual padrão de comportamento. Querer apenas o lado brilhante da moeda ou apenas os belos dias ensolarados, pode criar uma realidade onde, as pessoas que nela vivem, desfrutam da mais plena felicidade. O que seria perfeito, não fosse por um pequeno detalhe: a felicidade absoluta não é real, pelo menos não da forma como gostaríamos. Para que seja possível conhecer essa euforia, é necessário saber o que significa conviver com seu antagonista. É importante conhecer os extremos para ter a  justa medida do que queremos de bom e do que não queremos de jeito nenhum.

Vivemos o “aqui e agora” que escolhemos, via celular ou controle remoto e, dessa forma, nos permitimos optar por um sem número de possibilidades isentas de sofrimento. Séries, filmes, aplicativos de relacionamento… Montamos tudo para que o resultado final seja aquele que programamos previamente. Pode até dar certo mas, na imensa maioria das vezes, as estórias seguem rumos totalmente inesperados. O que tem provocado muitas frustrações por aí. Queremos ser felizes e ponto.

Estamos mimados. Só queremos saber do que pode dar certo. Do que acaba em finais felizes. Não sabemos como lidar com perdas, dores e fracassos. O sofrimento é para aqueles que merecem, o que não é o nosso caso, não é mesmo? Para que chorar, se posso eternizar sorrisos em fotos descartáveis? Para que sofrer, se elaborei caminhos que me conduzem apenas a felicidade? Por que viver na realidade nua e crua, se posso criar realidades repletas de ilusão?

Talvez este seja o grande paradoxo dos tempos atuais. Não sofrer virou projeto de vida, contudo, esta escolha pode, sim, transformar-se em uma fonte inesgotável de sofrimento. Virar as costas para o que consideramos feio e doloroso, jamais será a garantia de que não viveremos momentos ruins. Ao contrário. Quando encaramos as dificuldades, percebemos que a vida nos dá limites muito mais severos do que aqueles que preferiríamos viver em nossas bolhas de felicidade.

Momentos difíceis são a outra face da moeda. Podemos até não querer conhecê-los, mas eles sempre estarão lá. E, sem sombra de dúvida, teremos que lidar com eles, mesmo que não seja uma escolha. Por isso, quando decidir viver apenas as boas coisas da vida, criando mecanismos para continuar mimado, mesmo depois de grande, lembre-se que só é possível valorizar a felicidade, quando, enfim, aprendemos a conviver e respeitar o que é o sofrer.