Amar é barra pesada

Há uma receita padrão espalhada por aí, que diz a todos que, amar, será a coisa mais incrível que poderá acontecer em suas vidas. Isto cria uma legião de perseguidores da fórmula mágica, que os fará amar e, ao mesmo tempo, receber o mesmo amor em troca. Como em um belo e clássico conto de fadas.

O amor é, de fato, o sentimento que tem a seu favor, a maior estratégia de marketing de todos os tempos. Desde o nascimento, ouvimos  que só o amor constrói a felicidade. Elegemos dias especiais para comemorá-lo. Admiramos casais apaixonados em propagandas, livros, novelas e filmes. O que significa dizer que somos, praticamente, obcecados pelo amor. Não como um sentimento natural que é construído a partir da união de vários outros sentimentos, mas como uma espécie de estilo de vida. Tenha amor, seja amor, ame e seja feliz.

Ah o amor romântico… Tão idealizado e, ao mesmo tempo, tão inacessível. Até mesmo para nós, os seus criadores. O que é, no mínimo, curioso. Valorizamos o amor a tal ponto, que o transformamos em algo quase divino. Resultado: passamos anos e anos em busca de algo que se afastará de nós, todas as vezes que tentarmos alcançá-lo.

O grande problema é que leva-se muito tempo para perceber que o amor, sublime amor, não passa de um pote de ouro enterrado sob um arco-íris imaginário. E, mesmo quando nos damos conta disso, pouca coisa muda. Afinal, é preferível se envolver pelo ideal de amor, a constatar que, sem ele, aquele romantismo que adoramos tanto, nunca passou de um mito.

O mundo é árido demais para não acreditarmos no amor. Concordo. Mas é preciso aprender que o amor cotidiano é como uma tela impressionista. Quanto mais distante estamos dele, mais belo e sublime ele fica. Porém, para que a mágica aconteça, é necessário estar próximo, só que, de perto, esta mesma tela, apresenta cores mais fortes e formas mais confusas, nada fáceis de entender. Assim como são todas as coisas no mundo real.

Então, amar não é ouvir sinos e receber flechadas de cupidos marotos? Claro que não. Mas essa é uma imagem mental muito mais agradável do que dizer: o amor é taquicardia, noites sem dormir e um certo descontrole emocional, certo? É aí é que entra a grande jogada de mestre.

Se o amor é barra pesada e nos coloca de ponta cabeça, mas, ainda assim, não vemos sentido em não sentí-lo, por que não mexer um pouco nessa imagem? Criando a ideia de que amar requer sacrifícios, mas que, apesar disso, nada pode superar o êxtase que sentimos por termos sido agraciados pela dádiva do amor romântico. Resumindo: me engana, que eu gosto…

Perseguir o amor ideal, reforça a ideia de que amar é algo raro e precioso. Logo, quando acreditamos que finalmente nos tornamos parte do seleto grupo daqueles que amam, desenvolvemos uma nova característica: o apego.

Só em imaginar o trabalho que tivemos para alcançar o amor, é completamente compreensível que queiramos aquele amor dentro e perto de nós sempre e, se for possível, para sempre. Só que, como diz a canção: o para sempre, sempre acaba. E é neste ponto que a nossa capacidade de perceber a realidade se confunde.

Uma vez que conseguimos sentir o mais nobre dos sentimentos e gostamos da ideia, não vamos querer abrir mão dessa sensação. Porém, em muitos momentos, é preciso perceber que o amor transformou-se, deixou de existir ou, simplesmente, não nos serve mais.

É nesta hora que encaramos a mais complexa das facetas do amor: o seu fim. É nessa hora que o amor, seja ele idealizado ou cotidiano, dá lugar ao apego e nos impede de enxergar, com clareza, a melhor saída. O que nos deixa paralisado em um dilema dificílimo. Se, de um lado está tudo aquilo que vivemos, do outro, tudo aquilo que não viveremos mais…

Por isso, todas as vezes que se sentir apegado à alguém, pense no que valerá mais a pena: guardar as lembranças de uma bela história de amor ou destruir as boas memórias românticas, se apegando a um presente triste e decadente? Independente da resposta, a escolha sempre será sua.

Olhares diferentes

Outro dia, observando as pessoas em um vagão lotado, enquanto tentava vencer o sono, percebi com mais cuidado, àquela multidão de desconhecidos, vindos não sei de onde e indo para os mais diferentes destinos. Naquele cenário, o que mais chamou a atenção foi ver tantas pessoas juntas, expressando-se da mesma forma. Todos juntos expressando uma certa indiferença coletiva. Uma espécie de solidão cercada de gente.

Isso, obviamente, não significa que aquelas pessoas eram, de fato, solitárias. Mas, à primeira vista, a forma como se portavam, demonstrava um enorme distanciamento entre elas, apesar da proximidade física. Um segundo olhar permitiu perceber ansiedades que escapavam em gestos, consultas apressadas ao relógio, olhares perdidos e uma apatia quase generalizada.

Multidões de indivíduos convivendo lado a lado, sem sequer notar a presença do outro. Como colônias formadas por células auto-suficientes que, apesar da semelhança, não mais se reconhecem como um coletivo. Criando, assim, representantes de universos bem particulares, capazes de voltar seus olhares apenas para si. Como isso é possível? Usando os portais dimensionais que carregamos no bolso. Nossos celulares fornecem acesso irrestrito a mundos que vão, muito além, dos limites físicos impostos pelos diversos vagões de onde entramos e saímos diariamente.

Cabeças baixas, polegares velozes e expressões faciais fortuitas, denunciam a nossa forma mais recente de interação com aquilo que nos rodeia. Passamos a enxergar coisas e pessoas através de filtros, onde tudo é genuinamente montado e pensado para agradar aos olhos alheios. E gostamos disso, cada vez mais.

Dessa forma, vamos deixando de lado, algo que sempre foi muito caro às relações humanas: o olhar. Perdemos tantas horas observando imagens estáticas e vídeos vazios, que esquecemos de admirar olhares, sorrisos e paisagens reais. Assim, pouco a pouco, um comportamento até então individual, ganha ares de coletividade, o que estabelece um paradoxo curioso: a socialização da individualidade.

Mas o que isso significa? Que caminhamos, a passos largos, em direção a virtualização da realidade que conhecemos. E para viver nesse novo lugar, criamos avatares de nós mesmos, que irão interagir com uma infinidade de alter egos cheios de virtudes e sem defeitos comprometedores. Dessa maneira, fica estabelecido um fluxo invertido, onde o mundo real torna-se refém de uma realidade virtual, cheia de padrões difíceis de seguir, mas que apresentam desafios diários, que nos instigam a sair de um mundo cheio de verdades absolutas, duras e sem maquiagem.

Nesta realidade, é comum perder-se entre downloads, posts, likes, streamings, lives e stories. Somos apresentados a uma nova forma de comunicação muito particular, de compreensão restrita e excludente. Apesar do interesse pelo mundo virtual aumentar vertiginosamente, há aqueles que não estão prontos ou interessados em desbravar essa fronteira. Estes formam uma turma, não de excluídos digitais, mas de incluídos na boa e velha vida real.

Pode parecer estranho, mas é cada vez mais atual essa duplicidade. Nunca fomos tão solitários no mundo real e, ao mesmo tempo, nunca tivemos tantos amigos não presenciais. E, desse jeito, criamos muitos laços sem toque, damos abraços sem calor, chegamos ao êxtase sem suar e ouvimos declarações de amor através de áudios frios e estéreis. Assim, sem perceber, substituímos, pouco a pouco, a nossa tumultuada, porém deliciosa, humanidade, por algo que ainda não sabemos nomear.

Flutuar em realidades virtuais sempre será tentador, afinal, muitos querem mostrar o que têm de melhor, o tempo todo. Tarefa praticamente impossível de realizar em um mundo onde a realidade não se preocupa  em agradar a ninguém. O que é ótimo. Perceber as pessoas à nossa volta e admirar os lugares por onde passamos, desperta diferentes emoções e sensações absolutamente verdadeiras e isso, só é possível, quando enxergamos a vida através dos nossos próprios olhos.

Vou te contar um segredo

Vou te contar um segredo. Mas só se você jurar que não vai contar a ninguém… Quantas vezes iniciamos conversas oferecendo este contrato de confiança,  mesmo tendo a certeza que o pedido de sigilo não será mantido? Tudo bem, acreditar que segredos ficarão guardados, mesmo quando deixam de ser secretos, faz parte deste acordo fictício.

Mas se a intenção é divulgar uma informação, por que apelar para o silêncio do outro? Simples. Saber de alguma coisa que ninguém mais sabe, nos coloca em situação de vantagem de alguma forma ou, pelo menos, acreditamos que sim. Dessa maneira, quando divulgamos algo que fazemos questão de demonstrar sua exclusividade, também nos tornamos únicos, afinal, ser o portador de informações preciosas, transforma pessoas comuns, em privilegiados ocasionais.

A grande questão está em saber o que, de fato, é uma informação única e importante ou apenas uma situação irrelevante, que é maquiada, até tornar-se interessante o suficiente para ser guardada à sete chaves, mas sem nenhum cadeado.

Na grande maioria das vezes valorizamos a manutenção dos segredos até que se tornem moedas de troca. Compartilhamos intimidades, particulares ou alheias, em troca de confiança e fidelidade o que, com frequência, não costuma ser uma transação bem sucedida. Deste modo, aquilo que tentamos reter, escorre em alta velocidade entre bocas e ouvidos, ganhando mais cores e contornos. A fluidez de segredos mal guardados, transforma o íntimo em exposto, a confiança em inconfidência e o sigilo em fofoca.

Ter o que contar pode abrir caminhos, normalmente reservados aos que tem como objetivo, descobrir e armazenar informações para, então, valorizá-las até que transformem-se, enfim, em segredos fadados a revelação. Mas, se de um lado, alguém se favorece com o vazamento deliberado de segredos frágeis, do outro, estarão aqueles que depositaram informações valiosas em caixas de fundo falso. Segredos podem ser degraus ou baús. Depende de quem escolhemos para guardá-los.

Porém, se há quem revele segredos a todo instante e sem qualquer critério, também há aqueles que compreendem que nem tudo deve ser divulgado de forma irrestrita.

Todos nós guardamos informações, experiências ou sentimentos em pequenas, porém, bem protegidas, caixinhas de segredos. Que são abertas, somente, em situações de absoluto conforto e entrega. Isso pode, eventualmente, resultar em corações partidos e decepções em diferentes níveis, o que, à primeira vista, dos como um castigo, revela-se um grande aprendizado à medida que o tempo passa.

Segredos são ótimas armas para aguçar a curiosidade alheia mas, também são essenciais para nossa autopreservação. Eles são responsáveis por nos mostrar quem somos de fato, de onde viemos e como chegamos até aqui. É claro que essa trajetória é compartilhada por muitos, mas, todas as experiências, mesmo as mais simples, possuem singularidades que fazemos questão de guardar em locais onde apenas a nossa mente consegue acessar.

As características únicas que mantemos a salvo do mundo, deveriam ser presentes raros que ofertamos, de tempos em tempos, para poucos e bons. Segredos jamais devem ser fardos pesados que sufocam e impedem de ser quem realmente somos. Essas são linhas tênues que sempre nos acompanham.

Segredos são fundamentais. Às vezes nos transformam em pedras e por vezes em vidraça mas, quase sempre, são eles que formam um banco com informações únicas e preciosas, que só serão reveladas àqueles que, de antemão, prometerem jamais contá-los a ninguém…

O surpreendente mora nos detalhes

Pare um pouco e olhe à sua volta. Como você definiria este exato momento da sua vida? Difícil responder a esse desafio, não é? De fato não há uma resposta padrão para isso, mas uma característica é comum para a maioria das pessoas. Todos pensam sobre aquilo que não têm: amores, dinheiro, emprego, amizades… Tudo nos falta. Porém, mesmo quando o acaso sorri para nós e somos agraciados com tudo isso, continuamos preenchidos por ausências que não sabemos classificar.

É confortável pensar que a nossa eterna insatisfação, seja a única responsável por nos fazer seguir em frente querendo, cada vez mais, algo que sequer sabemos ao certo o que é. Mas, talvez seja a nossa voracidade por quantidade, o combustível que alimenta o nosso desenfreado querer. Sem julgamentos sobre isso, afinal, o querer faz parte de nossa essência. Porém, frequentemente, nos perdemos entre vontades e deixamos de festejar os desejos e sonhos que já foram realizados. O que é um grande e recorrente equívoco.

Ouvimos o tempo todo que é preciso ser grato mas, ainda assim, deixamos a gratidão de lado no instante em que saciamos a nossa fome de querer. Isso nos faz perder em todos os aspectos. Detalhes relevantes ficam de fora do nosso restrito campo de visão o que, quase sempre, nos impede de valorizar conquistas, independente do seu grau de importância.

Passamos uma vida inteira estabelecendo conexões com objetos e pessoas. A grande questão é que não percebemos que todas essas relações, são alicerces fundamentais na construção de quem somos no presente e, principalmente, de quem seremos no futuro.

O surpreendente mora nos detalhes e, aceitar a sua importância, nos transporta de um lugar comum onde somos pessoas que querem ter, para o posto especial onde estão aqueles que escolheram, acima de tudo, ser.

O maior significado disso, está na forma como olhamos o universo à nossa volta e de que maneira ele retribui esse olhar. Entender que cada detalhe vivido é importante, não determina que teremos que lembrar de todos eles. Mas é fundamental aceitar que, quanto maior for a nossa sensibilidade para reconhecer o que de fato é importante, estaremos mais disponíveis para as experiências que viveremos adiante.

A vida nos apresenta a infinitos caminhos e nunca sabemos ao certo, por onde devemos seguir. Mesmo assim, seguimos. Mas, dentre todas as escolhas que podemos fazer, existe uma que fará toda a diferença: a forma como enxergamos a vida. A leveza no olhar permite ver além, permite enxergar verdades sutis. O que nos obriga a dar valor a cada degrau que subimos, a cada amigo que fizemos e a todas as conquistas que tivemos.

Observar a vida através de lentes desfocadas, nos impede de ver à distância e, assim, acreditamos que só aquilo que está por perto é importante. Esta miopia nos leva a enxergar, apenas os pontos de uma grande pintura quando, na verdade, só uma visão panorâmica é capaz de iluminar detalhes escondidos, que demonstram o quão precioso pode ser o olhar sobre tudo aquilo que nos cerca.

Talvez agora, se nos perguntassem como definiríamos as nossas vidas neste exato momento, fosse possível dizer que continuaremos a querer aquilo que não temos. Porém, agora, é possível ir um pouco além. Como? Compreendendo que as coisas e pessoas que já conquistamos não podem ser vistas como medalhas sem importância e, sim, como tesouros inestimáveis que devem ser preservados, admirados e compartilhados. Isso nos permitirá entender que, ter a consciência de que somos formados por detalhes, é o que nos torna genuinamente especiais.