Reclamar requer atitude

Reclamações. Elas estão por toda parte e em todas as latitudes. O mundo inteiro parece se queixar de alguma coisa, em algum momento. Tirando aquelas questões óbvias que impedem que tenhamos uma vida digna, quais serão as causas de tamanha insatisfação? Individualidades à parte, há em torno de todos, uma densa névoa formada por incômodos de naturezas diversas e que a cada dia se torna mais fortes, nublando a nossa visão, nos impedindo de ver saídas, mesmo que estejam bem ao nosso lado.

Se reclamar significa não estar satisfeito ou confortável com algo que se vê ou vive, é bem possível que estejamos todos, de alguma forma, querendo aquilo que não temos ou vivendo uma vida muito aquém dos nossos planos. Não há problema em reclamar, ao contrário, o incômodo normalmente nos obriga a mudar de lugar e, com isso, vislumbrar novos horizontes. A grande questão é para onde as nossas queixas nos levam.

À medida que as reclamações vão surgindo, pulamos de casa e, assim, seguimos na busca pelo que acreditamos ser o melhor para nós. Parece simples vendo desta forma. Basta reclamar para que as coisas à nossa volta melhorem. Quem dera… Em muitas das vezes, ficar parado, falando mal da situação vivida, traz mais dores de cabeça do que soluções.

Mas, voltemos ao porquê da insatisfação generalizada. É possível que uma das razões que nos faz reclamar com frequência, seja a padronização irrestrita de quase tudo o que conhecemos. O número de caixas onde devemos caber e de rótulos que devemos usar, cresce a uma velocidade espantosa. Logo, se alguns formatos ganham força, é porque existem muitos interessados em fazer parte deles. Com isso, os versos da música se tornam realidade: quem está fora quer entrar, mas quem está dentro, não sai. Resultado? Reclamações…

Padrão. Ainda estamos nos acostumando a entender seu significado. As revoluções da humanidade mostraram nos últimos séculos o que significa a padronização. Seja no regime de trabalho, no vestir, na liberdade de expressão ou na forma de comer e falar. Estamos sempre tentando fazer parte de algum clubinho.

Os pequenos reclamam de sua estatura, os altos demais, também. Gordos querem emagrecer e ricos nunca acham quem têm o suficiente. Ondulados querem ser lisos e lisos querem volume. Querer o que naturalmente não é seu pode fazer com que traços, gestos e talentos únicos se percam, anulando assim, personalidades tão ou mais incríveis do que aquelas a quem pretendemos copiar.

Esta gangorra entre o querer o que não se tem e o reclamar do que consideramos abaixo da média para nós, cria um hábito cada vez mais obvio e perigoso: a intolerância. As relações passam a se basear em comportamentos infantis do tipo: Se não conheço, não me interessa e, se conheço e não gosto, falarei mal… Dessa forma, excluímos uma quantidade enorme de possibilidades, deixamos de considerar a pluralidade e nos tornamos restritos, menores e intolerantes.

Talvez uma reavaliação das nossas prioridades possa ser um grande passo para diminuir as reclamações que carregamos conosco, nos tornando mais leves e satisfeitos. Todos nós temos interesses possíveis e desejos realizáveis. Basta olhar para dentro e querer transformá-los em realidade.

Quantas pessoas chegam ao trabalho e reclamam de suas vidas e, ao retornarem para casa, perdem horas preciosas com mais e mais reclamações sobre o dia que tiveram? Muitas, certamente. O que é muito triste, mas para tudo há uma razão possível. Nos vendem sonhos irrealizáveis desde que nascemos e alguns simplesmente não conseguem ver a realidade por trás das propagandas enganosas, o que gera muita frustração. Se nossos filhos não se parecerem com os bebês de comercial de fraldas, tudo bem. Se aquela calça dos sonhos não está mais entrando, ok, acontece. Mas, sentir-se inadequado o tempo todo, não pode e não deve ser uma regra.

O detalhe mora em nós. Todas as vezes em que reclamamos demais e tentamos imprimir características alheias em quem somos, apagamos traços genuínos que poderiam expressar o que temos de melhor. Por isso, reclame sempre que quiser e precisar, mas cuidado para não virar um hábito vazio, afinal, reclamar do que se tem não é difícil. Complicado é criar novos caminhos para mudar a própria situação.  Reclamar requer atitude.

A difícil arte da escolha

Todos os dias somos obrigados a tomar decisões. Levantar ou dormir por mais cinco minutinhos? Pegar o trem ou o metrô? Terminar um relacionamento? Trocar ou não de emprego? Experimentamos múltiplas sensações a cada vez que precisamos dizer sim, não ou talvez. Às vezes pode ser fácil decidir entre casar ou comprar um bicicleta, porém, em vários outros momentos, as decisões podem virar sua vida de ponta-cabeça.

Independentemente do desejo de cada um, as decisões pairam sobre as nossas cabeças, implorando por definições de nossa parte. O que provoca uma certa ansiedade, pois sabemos que as decisões mudam de acordo com o tempo que levam para serem tomadas. Nesse caso, é importante saber o quanto estamos disponíveis e interessados em lidar com as inevitáveis mudanças que acompanham as escolhas.

Ao jogarmos pedras em um lago, observamos a formação de pequenas ondas circulares e, dependendo da força do arremesso, essas ondas serão maiores e chegarão mais longe. O mesmo acontece quando fazemos escolhas. Algumas decisões podem criar movimentos bastante abrangentes, enquanto outras sequer são sentidas, mas é importante ter em mente que decisões tomadas são capazes de mudar rumos, opiniões e pessoas… sempre.

Quem dera fosse apenas a nossa pedra a ondular o espelho d’água. Um sem número de pessoas executa a mesma ação, o tempo todo. O que significa dizer que nós também somos afetados pelas ondas provocadas por decisões alheias. E isso nos faz viver dilemas diários onde precisamos conciliar aquilo que decidimos com os reflexos das decisões de outros.

Esta é uma equação dificílima e seu resultado pode pautar não apenas as escolhas que fazemos, mas também, a vida que levamos. Decidir-se nem sempre é algo que se aprende voluntariamente. Os pais fazem escolhas por seus filhos, professores por seus alunos e parceiros de vida também o fazem com frequência. O que me parece normal, mas a grande questão é: qual é o limite entre controlar suas decisões ou deixar que outros façam isso por você?

Definitivamente, este não é um horizonte claro e definido. Por vezes decidimos. Por vezes decidem por nós. Simples assim? Talvez seja, mas é difícil afirmar, uma vez que mudamos muito à medida que o tempo passa. Normalmente erramos muito nas escolhas e, quando jovens, isso até pode ser um problema mas, lá na frente, seremos gratos por muitas das decisões tortas que tomamos ou que permitimos que outros tomassem por nós.

Essa também é uma época onde nos arriscamos com frequência. Assumimos riscos, não apenas nas escolhas que fazemos, mas também na forma como autorizamos a influência de outras personalidades sobre as decisões que deveriam ser apenas nossas.

O tempo passa e as escolhas ruins deixam marcas. Passamos a perceber, com mais cuidado, aqueles que interferem no ir e vir de nossas decisões e assim nos tornamos mais autônomos e conscientes do que pode ser melhor ou pior para nós. O que de forma alguma, significa dizer que a maturidade só trará boas decisões. A maturidade traz, inclusive, a segurança para escolher aquilo que aparentemente pode ser uma grande roubada, mas que agora podemos, conscientemente, pagar para ver.

Não importa se é uma pessoa proativa e cheia de certezas ou aquela que usa a previsão do signo para definir a cor da roupa que usará, uma verdade única une estes dois perfis: ambos precisam escolher de que forma irão encarar a vida e isso, independente da trajetória de cada um, sempre será uma decisão pessoal e intransferível.

 

Vida de gente grande

Durante a infância, queremos que o tempo passe depressa mesmo sem saber ao certo o porquê. Quando adolescentes, continuamos impacientes, criamos fantasias sobre como será a vida adulta e mil ideias românticas acerca da tão desejada independência tomam conta dos nossos pensamentos.

Até que um dia a tal vida de gente grande chega com o pé na porta e, como um rolo compressor, anuncia que as regras irão mudar a partir daquele momento. Alguns sonhos terão de esperar, desafios surgirão diariamente, corações serão partidos com certa frequência e que o seu tempo será seu maior e mais precioso bem.

Visto dessa forma, crescer parece um pesadelo, mas não é. Ser gente grande pode até não ser um conto de fadas feliz, mas está longe de ser um sonho ruim. Transformações deixam marcas, mas quem disse que isso não é bom?

Sem perceber, nos tornamos adultos. Isso nos obriga a atuar em tantas frentes que a sensação de estar em muitos lugares ao mesmo tempo é constante. Somos um original capaz de se multiplicar em inúmeras cópias por uma única razão: não damos conta do recado o tempo todo. Por este motivo, voltamos a ficar impacientes com o tempo, agora pelo motivo oposto. Desejamos desesperadamente que ele diminua seu compasso e que não passe tão depressa.

Nesse ritmo intenso, os dias passam como se fossem minutos e os anos parecem fluir como se fossem semanas. Isso cria uma espécie de ciclone cronológico que nos confunde imensamente e de tal forma, que chega a alterar a nossa percepção sobre o tempo, estabelecendo confusões mentais que nos fazem questionar o que passamos, quando e com quem. Coisas do tipo: Aquele encontro com os amigos aconteceu há um mês, certo? Errado. Foi há três meses. A melhor viagem da sua vida foi há dois anos. Não, foi há 4 anos. Seu filho, que nasceu “outro dia desses”, se transforma em uma pessoa diferente a cada dia e bem diante dos seus olhos… Estas são provas incontestáveis do poderoso ritmo que a vida adulta nos impõe.

Para ser gente grande é preciso fazer parte de um esquema complexo. Entender que seu ritmo e seu tempo avançam com passadas bem largas, fazem algumas pausas que permitem um descanso rápido para, em seguida, retomarem sua jornada acelerada e sem rumo certo.

Às vezes tenho a impressão de que o tempo acelera sempre que tomamos decisões. Pense em todas as vezes que decidiu começar alguma coisa, um curso novo ou um novo trabalho. Basta iniciar algo para perceber que o tempo corre mais rápido e, quando nos damos conta, anos se passaram e sequer somos capazes de distinguir o que de fato aconteceu naquele período.

A espera e a dúvida que precedem decisões criam um estado de animação suspensa. A tomada de decisão libera as amarras do tempo. Dessa forma, seguimos apressados, tentando entender o que houve conosco desde que nos tornamos “donos do próprio nariz”. Raramente temos a sorte de compreender esse processo, mas de um jeito ou de outro, sabemos que, independente do que conseguimos apreender da vida, seguiremos em frente, ansiosos pela próxima surpresa.

Crescer e aprender a viver é, sem sombra de dúvida, uma daquelas aventuras que conhecemos apenas o ponto de onde partimos. Por isso fazemos planos sem saber se serão realizados. Nos apaixonamos sem garantias. Sonhamos inúmeras vezes. Abandonamos alguns sonhos pelo caminho, mas realizamos outros tantos. Ser adulto requer, acima de tudo, resistência.

Sabemos que o tempo muitas vezes levará consigo informações preciosas, mas não podemos perder de vista que a correria, em algum momento, se transformará em caminhada, que as imagens borradas por conta do excesso de velocidade, voltarão a ter forma, textura e definição. Neste momento finalmente percebemos que tudo aquilo que vivemos ficou registrado, que nada foi em vão e que, a partir desse ponto, as experiências acumuladas nos permitirão, enfim, entender como foi boa a vida de gente grande.

Nem tudo que reluz é ouro

O que de fato enxergamos quando olhamos ao nosso redor? Incontáveis detalhes de coisas e pessoas, certamente. Mas por que não conseguimos reter essas imagens por muito tempo? Difícil dizer, porém, sabemos que nem tudo nos passa despercebido. Alguns detalhes acabam preenchendo a nossa vista, provocam sensações agradáveis e, por conta disso, criamos uma seletividade no olhar e na forma de interagir com o mundo.

Sim, desenvolvemos um olhar seletivo para tudo e para todos desde sempre, embora muitos sequer percebam que, cotidianamente, fazem uso de inúmeras lentes, prontas para um ajuste de foco, de acordo com a paisagem à sua frente. Trocando em miúdos, só enxergamos com cuidado, aquilo que instantaneamente julgamos como belo e interessante. O que cria um padrão de comportamento, no mínimo, peculiar.

Compramos livros e revistas pela capa e veneramos as imagens perfeitamente alteradas de celebridades. Perseguimos o ideal de beleza que, como todo e qualquer conceito idealizado, não existe. Julgamos as pessoas apenas por seu modo de vestir e queremos, quase sempre, fazer parte do elenco que frequenta as festa onde só encontraremos gente bonita…

Esse modo de agir estabelece uma polarização onde o que considero bonito, quero por perto e o que for feio, por favor, mantenha uma distância segura. E, entre um pólo e outro, há um milhão de coisas e pessoas buscando um grupo para chamar de seu. Adivinhem em qual lado a maioria desejará estar?

Se o nosso olhar parcial e seletivo cria focos e interesses bastante estreitos, é preciso ter em mente que deixaremos de perceber um universo de possibilidades à nossa volta e que, nós também seremos ignorados pelo radar de tantos outros. Nesse jogo, estaremos sempre incluindo e sendo incluídos, excluindo e sendo deixados de fora do campo de visão de outras pessoas.

Aparências. Vivemos em uma roda viva moderna onde a embalagem se estabelece como um modelo a ser seguido. Já o conteúdo… Bom, este torna-se, cada vez mais, um produto secundário. Em épocas onde belas imagens sem significado e relevância são a chave para o sucesso, qualquer coisa que tome mais de cinco minutos de atenção, não parece ter muita graça.

Então, como fazer para ser notado? De acordo com as forças que regem os dias de hoje, se o seu objetivo é ter audiência, torne-se quem você não é. Para isso não é preciso muito esforço. Basta ter fotos bem estudadas, filtros milagrosos e horários certos para postagens. Pronto! Está criado um avatar bem sucedido que viverá eternamente feliz entre curtidas e compartilhamentos.

Porém, o mundo virtual não é o único a viver de aparências. Puxem pela memória que, certamente, se lembrarão daqueles personagens que contam vantagens imaginárias ou são capazes de sacrifícios desnecessários, que tem como único objetivo, ser um rascunho mal feito de uma obra original. E isso é bem triste.

Para ser, é preciso ter verdade. Não há mal algum ter espelhos para mirar, o problema é desejar que eles reflitam uma imagem que não é a sua. Perde-se muito tempo e energia tentando ser quem não é.

É impossível estar atento a tudo que se passa diante dos nossos olhos e, tomar decisões baseadas apenas em um primeiro olhar, pode ser muito raso. É preciso se permitir segundos olhares. Estes sim são capazes de enxergar, sem pressa e sem padrões, a verdade sobre as coisas e pessoas que nos cercam.