Mudar é preciso

Mudanças… poucas coisas na vida são tão desejadas e, ao mesmo tempo, tão difíceis de realizar. Quando criança, pensamos em como será nossa vida quando nos tornarmos grandes. Adolescentes pensam em como será quando alcançarem a maioridade. Jovens adultos querem se formar, ganhar dinheiro e consumir tudo o que puderem. Quando mais velhos, cuidaremos dos filhos e de um ou dois cachorros. E, quando finalmente começarmos a esquecer as nossas memórias, mais vontade teremos de lembrar de todas as transformações que a vida nos proporcionou.

Parece um tanto contraditório, mas é um fato. Nascemos e crescemos desejando mudanças e, à medida que envelhecemos, não temos mais tanta clareza se as nossas transformações foram reais ou apenas desejos não realizados. De toda forma, a ânsia por mudanças nos movimenta. Não fomos talhados para fazer parte de uma cena onde o cenário e os personagens à nossa volta não mudam. Precisamos sempre de novas cores e sabores.

Então, por que passamos por situações onde sabemos que a mudança é um caminho óbvio, mas, ainda assim, é dificílimo romper certos laços? Muitas vezes, as barreiras que temos à nossa frente são, na verdade, caprichos egoístas da nossa mente que, por não conseguir escolher uma rota de fuga, decide se manter inserida em uma incômoda zona de conforto.

Mudar requer alguns complementos importantes como: coragem, vontade, decepção, necessidade… Independente do estímulo, mudar é preciso. Alguns conseguem com mais facilidade, outros enlouquecem só de imaginar uma mudança, por menor que seja, em seu rígido planejamento de vida. É compreensível. Mudanças não trazem apenas uma alteração de rota. Algumas exigem que coisas ou pessoas que já foram muito importantes no passado sejam retiradas de cena, permanentemente. E isso pode doer… mas passa.

De uma maneira geral, mudar promove transformações que enchem o peito de emoções que se misturam em doses e intensidades não programadas. Daquelas que vão desde o frio na barriga por algo novo e desafiador, até a tristeza por não saber como será o futuro após uma perda inesperada. Escolhas provocam mudanças. A falta delas também.

Pensar em mudar nos possibilita trocar de lugar e identidade, nem que seja por alguns instantes. Criamos cenas, escolhemos trilhas sonoras e companhias especiais para dar vida a alguém que poderíamos ter sido se, por acaso, tivéssemos seguido por caminhos diferentes daqueles que escolhemos tempos atrás. Nada além de projeções abstratas, mas que cumprem o importante papel de nos mostrar que, apesar da realidade em que vivemos, o mundo está cheio de possibilidades e novos caminhos, basta transformá-los em mudanças.

Porém, mudar não está restrito apenas a anseios individuais. Muitas mudanças são mais desejadas e mais festejadas quando são partilhadas por muitos. Nossas escolhas individuais não afetam apenas o nosso pequeno grande mundo. Coisas que pensamos podem impactar o cotidiano de um número imprevisível de pessoas, como votar, doar roupas, ir ao cinema com as crianças, atrasar uma reunião. De um jeito ou de outro, as nossas ações provocam mudanças em outras histórias, assim como o desejo de outras pessoas também mexe com nossos planos pré-estabelecidos.

Quando mudamos, todos à nossa volta sentem. Pequenos gestos podem parecer insignificantes para alguns, mas podem criar um fluxo capaz de conduzir nossas vidas por caminhos impensados. O que cria um movimento aleatório que promove mudanças em todas as direções, possibilitando encontros, desencontros, surpresas e decepções.

De todo modo, mudanças, mesmo que sejam necessárias, só acontecem quando, finalmente, sentimos o desconforto em ocupar um lugar que, definitivamente, não é mais nosso.

Mais amor, por favor

Os últimos tempos não têm sido fáceis para nenhum de nós. Somos bombardeados por um sem número de atrocidades dia após dia. Perdemos espaços e direitos. Perdemos pessoas. Perdemos amor. Estamos estacionados em uma época onde as perdas parecem ser maiores do que tudo aquilo que ganhamos. Independente da nossa percepção sobre isso, uma coisa é certa, sofremos todos.

O mundo nos desafia a todo instante, colocando limites à prova, nos mostrando que a tolerância ao sofrimento pode ser sempre um pouco mais flexível. Vivemos imersos em uma escala que mede, de forma perversa, a nossa capacidade em sentir medo, tristeza e dor. É difícil dizer como cada um de nós percebe isso, mas há algo que, aos poucos, vamos deixando de sentir e de aplicar em nosso cotidiano. Ser demasiadamente tolerantes pode provocar efeitos colaterais devastadores que só nos damos conta quando percebemos que nos falta amor para compartilhar.

Estamos endurecendo, apesar de falarmos o tempo todo que o bom da vida é ser feliz e que esse é um bem a ser conquistado a todo e qualquer custo. A felicidade fabricada em comerciais de tevê impõe que estejamos sempre cercados por pessoas lindas e incríveis, que ostentam sorrisos brilhantes e congelados. O ser feliz acima de tudo não permite reflexões ou perturbações.

À medida que o complicado mundo real nos apresenta um sofrimento diário que parece não conhecer limites, nos vemos obrigados a desenvolver subterfúgios que nos permitam seguir em frente. Talvez seja por isso que aceitamos com facilidade a ideia de vivermos em um mundo irreal onde tudo é divino e maravilhoso. Dessa forma, ficamos tão envolvidos com as nossas escolhas que, provavelmente, deixaremos de entender cada vez mais,  sobre aquilo que se passa atrás dos muros do nosso frágil castelo de cartas.

O significado disso é muito simples. Estamos nos tornando insensíveis. Crimes hediondos, corrupções grandes e pequenas, desrespeitos por toda parte. Nada disso parece surtir efeito sobre a maioria das pessoas. Caminhamos anestesiados sem saber bem para onde vamos. Nos habituamos a conviver com a frequência do mal em nosso dia a dia. O que acaba por alterar nossa percepção sobre o que é bom e ruim. Banalizamos a dor e os problemas do outro e, em contrapartida, exaltamos tudo que supostamente nos faz feliz. Esse padrão de comportamento cria um universo paralelo que é, ao mesmo tempo, liberdade e prisão. E isso é terrível…

Tudo isso me faz pensar sobre a empatia. Muitas são as nossas virtudes, mas a empatia é, sem dúvidas, uma da mais incríveis. É ela que nos permite trocar de lugar com quem é diferente de nós. Que não nos deixa esquecer que as posições mudam, que as ideias mudam e que, acima de tudo, somos capazes de mudar a partir das experiências do outro. Perder essa capacidade nos cega e empobrece imensamente.

Vivemos tempos que exigem que estejamos sempre plenos. Praticamente nos obrigando a, sempre que possível, exibir com orgulho, a forma como queremos ser vistos e admirados. É bem provável que por conta disso, a felicidade egocentrada tenha se transformado em um status quase obrigatório. Se sou feliz, a dor alheia não me interessa. Se sofro, a felicidade dos outros não me importa. Assim, a ausência de empatia, se torna um caminho fértil para a apatia. O que é uma pena.

Olhar o mundo através de uma máscara de indiferença, ao contrário do que se pensa, nos impede de ser verdadeiramente felizes. Porém, quando escolhemos enxergar sem filtros, percebemos que, à altura dos nossos olhos, os detalhes são mais vivos, as pessoas são mais próximas e que os problemas, assim como a felicidade, fazem parte do caminhar. Que amar e ser bom fazem diferença, assim como se interessar por quem é diferente de nós. Amar é bom e, ser bom é, sim, melhor que ser, ordinariamente, feliz.

Não espere tanto de mim

Desde muito, muito cedo, seguimos planos que alguém traçou para nós. E esse alguém, por sua vez, também segue uma cartilha que é compartilhada por muitos outros que vieram antes dele. Isso significa que, mesmo sem perceber, mantemos um padrão pré-determinado que, de acordo com a época, pode ser chamado de tendência, modinha ou estilo de vida. Não importa. O fato é que nossas atitudes, geralmente, seguem um roteiro prévio e socialmente estabelecido.

Muitos poderão pensar, “comigo, não!”, certos de que fazem parte de uma minoria capaz de romper com um sistema e tocar suas vidas segundo suas próprias convicções… Será possível?

De um jeito ou de outro, todas as vezes que desempenharmos papéis que já foram encenados por outros atores, estaremos eternamente sujeitos a comparações e, acima de tudo, seremos alvos certeiros da expectativa alheia. E isso pode ser bem chato.

Alguns exemplos são clássicos. Se estamos na escola, esperam que sejamos os melhores e que passemos de ano com louvor. Na faculdade, precisamos escolher as melhores profissões, o que na verdade é sinônimo de “escolha uma coisa que te faça ganhar dinheiro”. Se é um solteiro convicto, será motivo de piadas. Se passou dos trinta e não tem filhos, certamente tem problemas. Se troca de amores com frequência é… bem, é alguém que não é sério. Se muda de profissão, é instável e, se não se enquadra em nenhum padrão, é um caso perdido.

O peso dessas cobranças varia de acordo com a resistência de quem as suporta, mas é inegável que, em muitos momentos, o olhar do outro sobre quem somos e sobre o que fazemos pode ser massacrante. O lado curioso dessa situação é que só nos damos conta dessa patrulha quando nós somos o alvo mas, convenientemente, nos esquecemos que, por várias vezes, pode ser nosso, o dedo que aponta e faz cobranças.

Mas por que se ocupar tanto com a vida alheia, cobrando posturas e fazendo projeções sobre coisas com as quais não temos nada a ver? Difícil responder porque simplesmente não existe uma razão sensata para isso. Talvez isto se deva ao conjunto formado pela admiração, frustação e inveja que sentimos pelo outro, aliado a um bocado de tempo sobrando.

Acima de tudo, gastamos tempo e energia esperando que os outros se comportem com base em nossos delírios e, assim, deixamos de prestar atenção ao que é realmente importante. Nossa própria vida. Nossos anseios. Nossas conquistas.

O que pode, com frequência, gerar um descontentamento que é só nosso, uma vez que idealizamos coisas, pessoas e comportamentos que são reais apenas em nossas cabeças. Isso, via de regra, cria uma certa confusão, pois cobramos de alguém, algo do qual ela não faz a menor ideia. Dessa forma, criamos linhas que dificilmente se encontram onde, de um lado temos a expectativa e do outro, a realidade.

De todo modo, é preciso ficar atento aos detalhes. As experiências de vida criam filtros que aumentam a nitidez do nosso olhar sobre o outro. Isso quer dizer que, quanto maior for a nossa percepção da realidade, menor será a ansiedade provocada por uma expectativa sem fundamentos. Isso pode nos poupar tempo e sofrimento e, o melhor de tudo, nos autoriza a dizer, para nós e para quem quer que seja, que, por favor, não espere tanto de mim.

A família que escolhemos

Amigos são a família que escolhemos… Essa definição circula sem cerimônias na cabeça de muita gente mas, de fato, o que isso significa? Que a família é algo sublime e que agregaremos a ela, todos aqueles que forem especiais? Ou que a família biológica não dá conta das diversas formas de amar que a vida nos apresenta? Difícil saber, uma vez que cada um de nós possui um ponto de vista sobre o que é família, amizade, amor…

A despeito da formação do nosso núcleo familiar original, somos forjados para viver em sociedade. Isso quer dizer que fomos, e ainda somos, criados não apenas para o encontro, mas também para o confronto. Independente da forma como vamos conduzir a vida, uma certeza se fará presente. Seja na arte de encontrar ou de confrontar, sempre precisaremos de parceiros. E essa é uma lição que aprendemos desde cedo.

Ainda muito pequenos, iniciamos uma busca por pares. As crianças com sua espontaneidade em estado bruto começam, entre tapas e beijos, a construir o que um dia chamaremos de amizade. Aprendem a conviver, amar e odiar, sentir inveja, formar parcerias e a entender aqueles que não fazem parte do seu pequeno mundo. Assim, passam a perceber que, ao longo da vida, conhecerão muitas pessoas. Que alguns passarão sem muito alarde. Outros serão deixados propositalmente para trás e que, alguns poucos, se tornarão presenças constantes em suas jornadas.

À medida que crescemos, nos damos conta que a vida é dividida em etapas e, se tivermos sorte, seremos capazes de criar alguns vínculos importantes. Essa não é uma tarefa fácil, uma vez que conhecemos tantas pessoas que sequer somos capazes de lembrar em detalhes. Isso nos permite garimpar, dentre tantas possibilidades, aqueles que proporcionam bons encontros conosco.

Acertamos sempre em nossas escolhas? De forma alguma, mas isso nem sempre será ruim. Conhecer pessoas e gostar delas imediatamente é simples, mas apenas a convivência, nos permite perceber que aquele suposto amigo de infância instantâneo não passava de um rascunho mal feito disfarçado de obra-prima.

Mesmo com os tropeços, a vida acaba sempre nos oferecendo presentes. Daqueles que, por vezes, vêm em embalagens meio tortas e mal acabadas, mas que guardam verdadeiros tesouros em seu interior. Uma riqueza diversa e ao mesmo tempo tão particular, mas que podemos resumir em uma palavra: Amigos.

Brincamos com eles, discutimos sobre tudo, discordamos sobre mil coisas, implicamos com frequência e, apesar disso, os amamos profundamente. Um amor imune a passagem do tempo, à distância e a correria diária.

Há aqueles que vemos sempre. Outros que fazem parte de grupos de aplicativos e os que, por inúmeros motivos, custamos a encontrar. Mas, de alguma forma, criamos laços invisíveis que, quanto mais o tempo passa, mais apertados se tornam. Amigos são delícias necessárias em um mundo de individualidades galopantes e, muitas vezes, tornam-se um refúgio onde depositamos nossas alegrias e frustrações, sem receio de julgamentos e reprovações apressadas.

Quem de nós nunca ficou anos sem olhar nos olhos de um amigo, mas, ao encontrá-lo novamente, se deu conta que o tempo deixou marcas superficiais, apenas? Estar entre amigos de verdade nos dá a chance de tirar as máscaras de autoproteção que usamos para enfrentar o mundo.

Para nossa sorte, nossos amigos sempre serão capazes de reconhecer, não importa a camuflagem utilizada, a nossa verdadeira face. E isso vai nos garantir colo, loucuras, sermões, viagens, desencontros, mas acima de tudo amor, muito amor. Amigos são responsáveis por unir amor sem culpa, cumplicidade sem chantagem e pertencimento sem amarras. Amigos são pequenos espelhos onde não temos medo de ver nossas faces refletidas.

Isso é ser família, certo? Talvez. Mas, amigos não são desejados ou programados como filhos, eles surgem em épocas diferentes, te pegam pela mão, dão um sorriso e começam a caminhar ao seu lado. E, dessa forma, criam laços para sempre, mesmo sem saber quanto tempo o para sempre vai durar.

Surpresas da vida

A maioria de nós está sempre pronta para programar tudo, desde um cineminha durante a semana, até um casamento com anos de antecedência. Mesmo aqueles que não se consideram organizados neste sentido, também estão programados para programar.

Apesar do esforço feito para seguir o nosso roteiro, por vezes engessado, desejamos quase em sigilo, que algo novo apareça repentinamente e mude os rumos daquilo que traçamos previamente. Queremos muitas vezes que o inesperado, de fato, traga uma surpresa. Não importa o tamanho ou o momento, se ela for capaz de mudar a nossa rotina, mesmo que de forma discreta, será bem-vinda.

Porém, ser surpreendido não é uma tarefa fácil e, para muitos, fugir de uma agenda pré-determinada é quase um pesadelo. Não é à toa que as surpresas serão sempre classificadas como agradáveis para alguns e bem desagradáveis para outros tantos. Mas, gostando ou não, é impossível negar que ficar surpreso pode nos proporcionar uma mudança de perspectiva bem interessante.

Surpresas, invariavelmente, vêm sempre acompanhadas por outras sensações e sentimentos, que formam um inusitado jogo de cena em que, de um lado, a ansiedade domina o autor da ação e do outro, o imprevisível comanda todo o resto. Talvez seja este salto no escuro que torne o surpreendente tão instigante.

Mas, surpresas nem sempre estão relacionadas a novidade. Somos capazes de viver por anos ao lado de pessoas, formar opiniões rígidas sobre sua forma de ser e agir, sem sequer nos permitir conhecê-las de verdade. Porém, quando baixamos a guarda e deixamos o acaso agir, podemos ser recompensados com gratas surpresas que sempre estiveram próximas, esperando apenas um sorriso acolhedor para se mostrar.

Seja em família, no trabalho ou entre vizinhos e amigos, teremos sempre aqueles que se mostram mais próximos, disponíveis e abertos e, por isso, serão os escolhidos para formar laços mais justos e relações mais estreitas. Por conta disso, acabamos deixando muitas pessoas à margem do nosso círculo de confiança e isso não segue um planejamento, simplesmente acontece.

E é justamente nesses limites, onde mora a surpresa. É ela que, de forma bem silenciosa, resolve ligar pontos, restabelecendo vínculos antigos ou simplesmente criando novas conexões de onde menos esperamos. E, literalmente, nos pega de surpresa, deixando a maioria de nós com aquela cara de bobo e o leve desconforto de quem não sabe o que fazer quando perde as rédeas da situação. E isso, quase sempre, nos coloca sob os holofotes e nos obriga a enxergar pessoas e situações sob uma ótica diferente. Tarefa fácil para alguns e terrível para outros.

Poucas coisas substituem a euforia provocada por um gesto ou notícia fora de hora. Encontrar um semi-desconhecido de longa data em uma fila demorada permite que, com calma, seja possível conhecer sua história, seus desejos e particularidades e que, ao final desse encontro, brote um sorriso em seus lábios e você pense em como, depois de tanto tempo, nunca percebeu o quanto aquela pessoa era legal. Ou ainda, como aquele irmão chato, que te irritou por décadas, pode, num estalar de dedos, mostrar uma face que a sua miopia não foi capaz de enxergar e se transformar em alguém que merece toda a sua admiração. Deliciosas surpresas que a vida nos dá, sem sombra de dúvida.

De todo modo, a surpresa estará sempre acompanhada de alguma coisa que nos move. A felicidade de um sim, a ansiedade por um aceite que demorou muito para acontecer ou a dor em descobrir algo que nos fará sofrer. Seja qual for o resultado, jamais deixaremos de desejar que aquele algo a mais apareça sem avisar e bagunce a nossa monótona programação diária. Deixando claro que, apesar de todos os nossos planos, é na surpresa que a vida se revela.