Dias de folia

Folia. Muitas são as definições relacionadas e essa palavra, mas me chamou a atenção aquela que diz que a folia é uma antiga dança portuguesa, bem animada, acompanhada por cantos e pandeiros e executada por homens vestidos de mulher. Isso ajuda a entender muitas coisas.

Ah, o carnaval! Época esperada por muitos, tolerada por uns e execrada por outros tantos. Independente do seu amor ou ódio pelos dias de folia, é inegável a transformação coletiva observada ao longo destes quatro dias e, não se engane, mesmo que não seja um folião profissional, seus hábitos e certezas sempre mudarão durante as festas de momo.

Mas, se você é um folião inveterado, daqueles que programam com antecedência para onde ir, o que fazer e quais serão as fantasias da vez, este é, sem dúvidas, o melhor momento do ano. É hora de festejar e colocar para fora angústias e frustrações como se o mundo tivesse uma data de validade de apenas quatro dias… Isso pode ser bem perigoso.

Quais serão os motivos que nos levam a reprimir desejos e vontades por tanto tempo? Provavelmente não teremos uma resposta elaborada capaz de atender a essa pergunta, mas seguimos acompanhados de uma certeza: O carnaval vai chegar! E vai trazer as chaves que libertam todas as feras que deixamos adormecidas por meses em nossas caixas de pandora e que, apenas agora, liberamos seu acesso ao mundo, sem maiores restrições, ou quase isso.

Há quem diga que é um período de excessos. Não discordo. Tudo no carnaval é superlativo. Brincamos demais, bebemos demais, amamos repetidas vezes e experimentamos uma felicidade em estado bruto, livre das amarras morais que o cotidiano nos impõe.

Isto significa dizer que estamos livres para explodir toda a irresponsabilidade e inconsequência que mora em nós, durante a folia? Longe disso. Diversão é um ritmo que necessita de parceiros para que a dança seja bem executada e errar o passo, pode, quase sempre, pôr a perder toda a expectativa de felicidade, acalentada por meses a fio. Exageros podem, infelizmente, levar a excessos que destoam do espírito da festa.

Para muitos, o carnaval serve como refúgio silencioso, mas isso não é menos transformador. Mesmo que a escolha seja ficar em casa assistindo aos festejos pela televisão, algum sentimento será despertado pelas imagens que são vistas. A admiração pela beleza das fantasias, a alegria provocada pela irreverência dos foliões ou a vergonha alheia causada pela falta de figurino de alguns. Não importa o que se sente, mas como se sente. Os dias de folia chegam, alteram a nossa rotina e podem nos presentear com prazer e cansaço ou com reflexão e relaxamento, afinal, poucas datas são tão democráticas quanto a festa pagã.

O carnaval estará sempre presente nossas vidas. Para muitos, essa data traz liberdade para ser quem se é de verdade e permite que sejam retiradas as pesadas máscaras que carregam o ano todo, deixando à mostra suas alegorias reais, sem adereços. É por isso que, para muitas pessoas, as fantasias escolhidas para o carnaval são, de fato, as suas verdadeiras personas.

O carnaval existe para ser apreciado por todos os nossos sentidos, o que não significa que não devemos refletir sobre todas ilusões e armadilhas que ele nos oferece e, acima de tudo, não podemos ignorar os efeitos que todos nós, em algum grau, sentimos diante deste impressionante espetáculo.

As fantasias podem nos revelar, esconder ou projetar quem gostaríamos de ser. Isso é compartilhado por milhões de pessoas durante frenéticos quatro dias. Talvez esteja aí a grande força desta festa. Todos unidos pelo desejo de mostrar ao mundo, aquilo que mantém escondido e que poucos conhecem e, à medida que todos dividem o mesmo sonho, não há julgamento, não há culpa. Há folia! Bom carnaval a todos!

Vivendo fora da caixa

Quando eu crescer, quero morar sozinho. Adoro festas onde só tem gente bonita. Preciso de um carro só para mim. Quero ser amigo das pessoas mais populares e interessantes…

Nossa mente, vez ou outra, é visitada por estes pensamentos que projetam uma vontade quase irresistível de inclusão em algum tipo de padrão. Buscamos, com afinco, cenário e personagens que julgamos adequados e que trazem algum sentido a nossa existência. Isso significa que precisamos eleger um grupo para chamar de nosso. Será?

Ao mesmo tempo que queremos pertencer a alguma tribo, não nos agrada a ideia de sermos mais um na multidão, dessa forma, começamos a percorrer um caminho que nos mostra que também somos únicos, apesar da massa a nossa volta.

Quando crianças, vivemos sempre cercados pela família, amigos da escola, do bairro e isso ajuda a desenvolver, em algum grau, o ser social e coletivo que somos. À medida que crescemos, passamos a pensar e agir em bandos que quase sempre reúnem integrantes com características muito próximas e, assim, criamos um modelo de interação com o mundo que irá se repetir incontáveis vezes. Um formato que nos direciona na maioria das vezes, para os mesmos lugares, as mesmas pessoas e situações em fases diferentes da vida.

Que mal há nisso, uma vez que é agradável estar com nossos pares, que pensam e agem como nós? Independente da resposta, uma coisa é certa, estar sempre voltado para a mesma paisagem, exclui a possibilidade de interagir, sem restrições, com o ambiente que nos cerca.

À medida que desejamos um mundo mais exclusivo e que atenda aos nossos anseios, acabamos por criar alguns labirintos onde conhecemos a entrada, mas apenas imaginamos como será a saída. Passamos repetidas vezes por situações semelhantes que, no fim, não somos mais capazes de distinguir se vivenciamos algo novo ou apenas mais do mesmo. Isso provoca um efeito adverso muito comum quando vivemos sempre no mesmo quadrado. Passamos a desejar aquilo que está do lado de fora do nosso limite imaginário.

Uma vez que seguimos por essa estrada, criamos códigos muito pessoais que podem, com alguma frequência, nos isolar, já que não nos permitimos novas experiências em áreas distantes de nossa zona de conforto. Eliminamos grandes chances de aprendizado por não saber como lidar com situações que extrapolam as fronteiras que levamos anos para criar, sem saber muito bem o porquê.

Quando amadurecemos, passamos a perceber que organizamos pessoas e momentos em caixas iguais, mas com tamanhos distintos, criando barreiras sobrepostas que dificultam a chegada de qualquer coisa que não seja compatível com o nosso belo, exclusivo e monocromático mosaico de caixas empilhadas. E isso pode, com alguma intensidade, nos empobrecer, limitar, isolar e emburrecer. Criando um terreno fértil para a ignorância, toda sorte de preconceitos e solidão.

Em algum ponto da nossa jornada iremos, certamente, olhar com cuidado para a pessoa que fomos, para a pessoa que nos tornamos e para quem queremos ser. Para isso, é preciso transpor nossos próprios obstáculos e, assim, perceber que os sonhos de individualidade podem até nos satisfazer por um tempo, mas nunca o tempo todo.

Olhar para trás nos permite mirar a criança que fomos e lembrar que vivíamos rodeados por pessoas diferentes na forma e no conteúdo. Essas memórias ajudam a constatar que as barreiras que criamos nos limitam e que, quanto mais amplas forem as nossas fronteiras, corremos sérios riscos de nos tornarmos mais diversos, mais completos e mais felizes.

O amor e seus parceiros

O amor é plural. Independente do que cada um de nós pensa sobre o amor, uma coisa não se pode ignorar, ele sempre vem acompanhado de outros tantos sentimentos e sensações que, muitas vezes, fica difícil definir o seu verdadeiro significado. Talvez por isso, estejamos sempre relacionando esse sentimento a sujeitos diferentes. Amor de mãe, de irmão, de amigo… Assim, dependendo de quem se ama, conseguimos orbitar emoções diferentes e complementares, que conferem exclusividade para cada relação que criamos vida a fora.

As parcerias do amor variam de acordo com nosso momento, experiências, disponibilidade para possíveis desilusões e vontade de dividir espaços. Muitas são as variáveis dessa equação maluca que, normalmente, nos achamos capazes de resolver sempre que nos deparamos com ela, porém, à medida que o tempo passa, chegamos a centenas de resultados finais e que nunca batem com o nosso, ingênuo e idealizado, gabarito original.

Costumamos entender melhor essa questão quando pensamos nos grupos sociais ao nosso redor. A família, por exemplo, sempre será a maior referência de quando se trata de amor sólido e que, mesmo turbulento, é capaz de se perpetuar para sempre. Talvez isso seja possível por que, dentre todas as relações que teremos na vida, é a partir de nossos familiares que conhecemos o amor em forma bruta, plena e poderosa como uma força da natureza.

É na família onde temos mais tempo para lapidar o amor, permitindo que nossas emoções se aproximem dele, criando parcerias inesperadas que constroem, de forma muito particular e com vínculos muito fortes, as nossas relações familiares.

Muitos dizem que os amigos são a família que escolhemos. Concordo. Amizade também é uma construção, mas neste caso, o amor não é o primeiro elemento a chegar. Os parceiros como confiança e empatia, estabelecem um terreno seguro para a chegada do amor que, uma vez estabelecido, nunca abandona o seu posto.

A maioria de nós tem aquele amigo querido que, por circunstâncias alheias a nossa vontade, não conseguimos desfrutar de sua companhia frequentemente. Entretanto, independente desse lapso temporal, ao encontrar-los, sentimos uma torrente de felicidade que chega para anunciar que o amor continua lá, indiferente a passagem do tempo.

Então, isso significa que amaremos todos aqueles que encontrarmos pela frente? De forma alguma. O amor também se cerca de emoções que dificultam sua chegada, por vezes de forma permanente. Dificilmente amaremos alguém se os parceiros antipatia e rejeição forem os responsáveis pelos primeiros contatos. Isso ajuda a criar um controle de qualidade que filtra, naturalmente, os tipos de relacionamentos que teremos do início ao fim da vida. Ainda bem!

Se as relações são forjadas a partir da interação entre o amor e seus parceiros, por que será que temos tanta dificuldade em compreender isso, quando se trata de outras maneiras de amar? Pode facilitar o entendimento, se compararmos com a forma como construímos outros tipos de relações.

Quando conhecemos alguém, sentimos um misto de emoções que podem, ou não, conduzir a uma grande história de amor. Mas nesse caso em particular, diferente do caminho que usamos para construir outras relações, o amor e todas as outras emoções se misturam em altas doses, de forma aleatória e imprevisível. O resultado disso pode, muitas vezes, determinar os rumos dessa história. Leve, divertida, intensa, possessiva, indiferente ou carregada de cobranças. No momento em que as relações criam-se rapidamente e as emoções se fundem ao acaso, é dificílimo perceber quando amamos de fato, quando não temos tanta certeza disso, ou ainda, quando sabemos que o amor se foi, mas as demais emoções juntas, criaram laços quase indissolúveis.

De modo geral, acreditamos que só o amor nos traz a plenitude. Amar sem parceiros é apenas um conceito. Amar traz consigo o sorrir, dançar, chorar, sofrer, doar, comprometer e uma infinidade de sensações que, em conjunto, o tornam sublime. Por isso, se deixarmos seus parceiros de lado, o amor uma vez sentido, pode se transformar em amor ressentido e deixar, para sempre, de fazer sentido.

Mosaico de nós mesmos

Vivemos tempos superlativos. Amamos demais, choramos demais, somos super felizes, odiamos intensamente e nos compadecemos pouquíssimo pela dor do outro. Não é necessário passar muito tempo próximo a alguém para que nossas emoções aflorem em grau máximo.

Talvez possa parecer exagerado afirmar isso, mas é inegável que há algo de inusitado e desconcertante nas relações dos tempos modernos. Seja no trabalho, no amor, ou até mesmo em um desentendimento no trânsito, estamos sempre prontos, inteiros e cheios de razão sobre alguma coisa. Pelo menos tentamos demonstrar que sim…

Mas como isso é possível? Simples. Uma vez que assumimos que falta tempo para nos dedicarmos às relações, criamos tipos prontos e pré-moldados que mostram sempre o melhor que há em nós. Profissionalmente, usamos o personagem eficientíssimo e proativo, disposto a resolver questões com a competência de um super funcionário.

Quando nos aventuramos em um relacionamento, seguimos um roteiro prévio que nos diz o que, quando e como agir. Demonstramos ao outro o quanto somos incríveis e como valemos à pena, afinal, somos muito especiais.

Corremos tão intensamente atrás das nossas escolhas, que sobra pouco tempo para elaborar melhor como vamos nos relacionar com quem nos cerca. Talvez seja por este motivo, que passamos a viver em modo automático, padronizando nosso comportamento, a fim de mostrar ao mundo que somos especiais e pronto. Sem perda de tempo. Sem maiores explicações.

Estar sempre nessa estratosfera nos impede, muitas vezes, de perceber os pequenos, porém interessantes, detalhes em parceiros de trabalho, vizinhos de porta ou até mesmo naqueles com quem dividimos a vida. E isso tem grandes chances de se transformar em armadilhas. À medida que oferecemos o melhor de nós, estaremos sempre esperando uma contrapartida igual ou maior. Uma tarefa nada fácil de realizar.

Achar que somos incríveis e importantes é muito bom, mas pode, em muitos momentos, gerar uma expectativa exagerada sobre tudo. Muitas são as vezes em que não conseguimos realizar aquilo que desejamos, da forma como planejamos. Resultado? Nos frustramos e reclamamos cada vez mais sobre tudo e todos.

O outro lado dessa moeda também é carregado de intensidade. Quantas vezes conhecemos alguém e, em minutos, ganhamos um amigo de infância? Porém, se a criatura não corresponder ao nosso ideal de amizade, teremos alguém novo para odiar.

Nos relacionamos em tempo real e virtual. Cada vez mais deixamos os detalhes de lado e só queremos saber do que realmente importa. Resumimos quem somos e mostramos, sob uma lente de aumento, apenas aquilo que julgamos importante sobre nós. Juntamos uma característica aqui e ali e formamos, com tintas fortes, um grande mosaico de nós mesmos mostrando, apressadamente, o que temos de melhor.

Em uma época onde o tempo é escasso e a pressa dá o tom das relações, acabamos por nos render ao exagero e abrimos mão das sutilezas que podem tornar a vida mais prazerosa.

Flertamos com a superficialidade frequentemente. Criamos o hábito de prestar atenção apenas ao que brilha mais, as pessoas mais bonitas, as melhores festas, ao filme que todos assistem… e por conta disso, muitas vezes, investimos nossa energia em experiências que só escolhemos viver porque outros decidiram que seria bom.

Tudo indica que este processo onde superestimamos muitas coisas, inclusive a nós mesmos, é fato consumado. Mas é possível sobreviver bem a tudo isso se decidirmos parar de olhar para tudo que nos é apresentado e começar a enxergar os detalhes e nuances que tornam a vida, de fato, muito mais interessante.