A inveja mora ao lado

Se eu fosse você não faria isso! Olha, não acho que essa roupa ficou boa em você! No seu lugar, eu não viajaria agora! Acho que esse novo amor não te serve… Todos nós já ouvimos coisas parecidas vida afora. Mas o que leva algumas pessoas a despejarem, sem dó, frases nada motivadoras sobre as outras, ao menor sinal de entusiasmo alheio? Acho que sabemos a resposta…

Ah, a inveja! Aquele sentimento sorrateiro que nos faz cobiçar o que não é nosso e querer o que é do outro. Até aí, tudo bem. Ouso dizer que somos todos invejosos em algum nível. Querer o que não se tem, significa dizer que nos interessamos pelo que é do outro, mas que, infelizmente, está fora de alcance.

A inveja nos impulsiona. Pode parecer estranho, mas somos movidos pela vontade de chegar a lugares conquistados por outros e a posições ocupadas por quem chegou antes de nós. Isso não nos torna maus, mas alimenta uma engrenagem que nos obriga a querer sempre mais daquilo que não temos.

De forma superficial, relacionamos a inveja com maldade. Claro que há uma correlação, mas de forma geral, os invejosos são algozes ocasionais que desempenham funções importantes. São eles os responsáveis por inesperadas puxadas de tapete, depreciação de nossas qualidades óbvias e por criar intrigas em círculos sociais.

Os livros, filmes e novelas adoram retratar os conflitos provocados pela inveja e, portanto, nos levam a crer que não sucumbimos a ela na vida real. Que grande equívoco! A ficção carrega nas tintas ao tratar o tema, mas é o cotidiano que nos apresenta a inveja com sutiliza e em silêncio.

Apesar da má fama, a inveja nos proporciona mudanças de comportamento que não seriam possíveis sem a sua influência. Por exemplo, ser passados para trás nos torna mais cuidadosos e vigilantes; ser alvo de intrigas promove um olhar mais seletivo sobre as pessoas ao nosso redor e, ouvir críticas negativas e gratuitas sobre nossas qualidades e planos, nos obriga a estar mais atentos e cautelosos.

Todas essas características são armas importantes na infinita batalha que travamos diariamente. Ficamos mais preparados para lidar com essas situações porque, à medida que somos expostos às várias formas de inveja, criamos anticorpos cada vez mais resistentes, o que é um efeito colateral muito bem vindo.

Considero a inveja e seus agentes, os grandes antagonistas em nossas vidas, uma vez que, a partir deles, muitos sentimentos e sensações difíceis podem aflorar e se contrapor às virtudes que tanto prezamos. Isso é, sem dúvidas, uma ferramenta essencial na formação do caráter e diz muito sobre quem somos. Ceder aos caprichos da inveja, normalmente, leva a caminhos tortuosos e um tanto cinzentos, já que o brilho perseguido pelos invejosos vem sempre da luz do outro.

É muito difícil perceber de onde vem e quem traz a inveja consigo. Muitos são capazes de viver anos a fio em contato direto com pessoas que, por vezes, são consideradas cuidadosas e amigáveis, mas que estão sempre dispostas a frear sonhos e, de forma discreta, vão minando desejos e esperanças.

O que nos transforma em invejosos perversos é a vontade de chegar a um lugar e depor, sem pudores, o ocupante daquela vaga. Não por merecimento, mas por pura vaidade. É importante saber onde se quer chegar, mas é primordial ter em mente por quais caminhos se pretende seguir para alcançar o que se deseja.

Triste é viver sem emoção

Assistir a uma cena, seja real ou fictícia pode, subitamente, provocar um sorriso, uma lágrima, um alívio ou até mesmo um medo. Todas são reações possíveis diante de um estímulo mas, o que é capaz de nos tocar e baixar a vigilância da consciência, a ponto de permitir que sensações e emoções venham à tona?

Todos nós sentimos o mundo ao nosso redor de um jeito bem particular. Há aqueles que se emocionam em filmes, com novelas ou comerciais de TV. Outros são tocados por literatura, peças de teatro, textos da internet e, ainda existem os casos extremos, daqueles que se comovem por tudo e dos que estão sempre indiferentes a maioria das coisas.

Independente do estilo de cada um, é sempre muito bom sentir. Tenho a impressão de que quanto maior for a nossa disponibilidade para as emoções, mais equilibrados e melhores ficamos. Quando se pensa em sentir, é necessário incluir nesse pacote, não somente as emoções que nos trazem bem estar, mas também aquelas que mostram a realidade dura e sem rodeios, tão presente no universo de cada um de nós.

Vivemos fortemente cercados por sensações de todas as naturezas e intensidades, que nos bombardeiam sem piedade. Talvez este seja o momento da nossa história onde temos a mais ampla oferta de fontes de emoções. Porém, ironicamente, estamos cada vez menos sensíveis e interessados em tudo aquilo que é capaz de nos emocionar.

A velocidade alucinante imposta por nosso estilo de vida, acaba impedindo que fiquemos concentrados em qualquer coisa por muito tempo, e isso vai diluindo a nossa percepção sobre as pequenas coisas que, sob o ponto de vista correto, poderiam nos emocionar intensa e verdadeiramente.

Como não endurecer? Esse é certamente um exercício muito difícil, uma vez que cada um sabe onde o sapato lhe aperta mais e quais as dores e delícias que temos de enfrentar diariamente para sermos quem somos. De todo modo, resistir é uma obrigação e, de forma quase heróica, precisamos preservar aquilo que nos diferencia uns dos outros e nos permite mudar inúmeras vezes, baseado nos estímulos que nos afetam e que chamamos de emoções.

Seja a visão de um casal de idosos caminhando de mãos dadas ou de uma criança que sofreu maus tratos, em ambos os casos, sentimos que nossos corpos se alteram, às vezes de forma sutil, às vezes com violência, mas, independente da reação final, são as nossas emoções as responsáveis por nossa capacidade de reação.

Quando no apaixonamos, ficamos absolutamente à mercê de sensações que, normalmente, não fariam a menor diferença. O coração não saltaria pela boca quando recebemos um telefonema ou uma mensagem de texto, nem tampouco acharíamos graça de piadas do gosto duvidoso. Pequenos exemplos de como nossas emoções nos transformam e nós sequer percebemos.

Extremos emocionais à parte, poucas coisas são tão agradáveis quanto sentir nossas emoções em doses suaves. Imagine sentar em algum lugar que nos faça sentir bem e contemplar tudo aquilo que estiver em nosso campo de visão. Crianças correndo, casais brigando, cachorros latindo, pessoas se exercitando… Garanto que todos visualizaram estas cenas e que, cada uma delas, foi capaz de despertar sensações diferentes motivadas por emoções distintas.

Nossas emoções poderiam ser, facilmente, mais um dos nossos sentidos. É a partir delas que percebemos o mundo e as pessoas que nos cercam e é a partir delas que trocamos experiências de todos os tipos. Tornar-se indiferente e imune às emoções é, sem dúvida, perder uma maneira deliciosa de se relacionar consigo e com o mundo.

O mundo nunca é o mesmo

Ninguém desce duas vezes o mesmo rio. Concordo com Heráclito, o filósofo. Pensando sobre isso, pude, de forma perturbadora, analisar momentos vividos, atitudes tomadas e desfechos para um sem número de situações que nunca ficaram muito claras. Até agora…

Entender essa afirmativa é perceber a transitoriedade das coisas ou, de forma mais simples, compreender que o mundo muda o tempo todo e que nós, em muitos momentos, não percebemos ou nos recusamos a aceitar as mudanças que a vida nos impõe.

Normalmente acreditamos que somos únicos, mesmo sendo formados por incontáveis experiências. Seguimos acreditando que somos como somos e que mudar é para os outros, não para nós. Doce ilusão!

Somos vários em um só na maior parte do nosso tempo, mesmo sem perceber. Mudamos ao entrar em casa, ao chegar para trabalhar, quando vamos à festas ou estamos absolutamente sozinhos. Oferecemos uma face de acordo com o tipo de espelho que encaramos.

Perseguimos situações que não vivenciamos, pessoas que não conhecemos e amores que não vivemos. Isso promove um fluxo de desejos bastante intenso, onde cenários e atores mudam com frequência, e isso, nos impede de prestar muita atenção ao que se vê ou se sente e, à medida que nos deparamos com  o crescente número de possibilidades, maior é a nossa dificuldade em descobrir qual porta devemos abrir.

Mas, onde nasce o nosso fascínio pelo novo e diferente? E quando, de fato, percebemos que precisamos e podemos mudar? Arrisco dizer que as mudanças só acontecem a partir da observação cuidadosa sobre o que nos cerca. Um bom observador é capaz de traçar caminhos a partir de experiências adquiridas ou apreendidas.

Quem nunca sentiu a sensação de estar parado no tempo enquanto o mundo e as pessoas continuam caminhando, menos você? Penso sobre isso com alguma regularidade e me pego fazendo planos para mudanças imediatas, o que nem sempre dá certo. Perceber que os dias são sempre iguais, além de um bom sinal de alerta, ajuda a planejar sua mudança particular com mais cuidado.

Mudar não se baseia apenas na vontade. Percebemos o que nos faz sonhar com mudanças, mas o que de fato nos instiga a enfrentar a novidade são nossas experiências e os exemplos que miramos, como bons empregos, salários mais altos, temporadas em outro país, ter filhos, conseguir meditar ou simplesmente ganhar o pão de cada dia… a vontade é apenas o primeiro passo.

É preciso ter em mente que neste exato momento, ocupamos um lugar no mundo que é fruto de mudanças feitas lá atrás, conscientes ou não. Para muitos de nós, o trajeto feito até este ponto foi praticamente automático e sem maiores planejamentos. Para outros, cada passo da estrada foi criteriosamente pensado e executado.

Independente da forma como pensamos, as mudanças chegam e transformam o que conhecemos como realidade, inclusive quando nossos planos não saem como esperado. Todo mundo conhece alguém ou já passou por situações semelhantes. Amigos que perderam um ente querido, que enfrentaram os desafios de uma paternidade precoce, que foram demitidos de seus empregos de forma inesperada e começaram uma nova atividade profissional. Ainda há aqueles que usaram as próprias histórias, por vezes esquecidas, para trilhar novos rumos.

Sempre seremos capazes de pavimentar novos caminhos que ajudarão a construir quem seremos no futuro. O tamanho da diferença entre quem se é e onde se quer chegar dependerá do apetite que cada um tem por mudanças.

Uma vontade. Um plano. Disponibilidade para o novo. Estes são passos muito importantes quando se pretende mudar algo, mas é preciso aceitar que são apenas partes da engrenagem de um mundo que nunca é o mesmo e isso nos afeta cotidianamente. Como disse Heráclito, nós não podemos nunca entrar no mesmo rio, pois como as águas, nós mesmos já somos outros… Quanto mais disponíveis estivermos para as mudanças, mais experiências teremos e maior será a nossa troca com o transitório mundo em que vivemos.

Os filhos do querer

Querer… Talvez este seja, não importa o idioma, o verbo mais utilizado pela humanidade. Querer engloba tantas outras ações como desejar, amar, consumir, explorar, ganhar, enriquecer, viver… Uma palavra simples que nos leva à realização de todos os nossos desejos, ou pelo menos a tentativa de realizá-los.

Aprendemos desde muito cedo a saber o que queremos e o que não queremos. Quem nunca dividiu as pétalas de uma flor desejando o “bem me quer” no final? Querer bem é sempre o que se deseja, não é?

Nossos desejos estão muito relacionados às conquistas. Estamos sempre na busca pelo que consideramos maior e melhor. Para mim, o querer dá origem ao que nos torna genuinamente humanos: nossas emoções.

Sempre queremos coisas em quantidade e formas variadas e como somos muitos, estamos sempre prontos a disputar por tudo, com todos. Praticamente todos os seres desse planeta disputam por alguma coisa. A competição é uma mãe capaz de gerar filhos muito peculiares. A vitória, a derrota, a frustração e a perseverança são bons exemplos dessa prole.

Nessa disputa, o desejo da maioria seria sempre o sucesso e a glória mas, como bem sabemos, não é possível vencer sempre que se deseja, logo, a vitória, a filha mais bela, não está acessível a todos.

É possível pensar em tantas gerações espontâneas a partir desses primeiros rebentos. Orgulho e arrogância, persistência, vaidade, felicidade… certamente seriam descendentes da vitória e, em contrapartida, da derrota surgiriam a decepção, inveja e rancor. Frustração e perseverança seriam os fiéis da balança, permitindo o direito de escolha entre a estagnação e a capacidade de seguir em frente, apesar de tudo.

Felicidade, amor e ódio também surgem da nossa capacidade de querer. Quantas vezes ouvimos a célebre frase de pára-choque “não tenho tudo que amo, mas amo tudo o que tenho”? E ter tudo o que se ama é sinônimo de felicidade. Mas, há limites para o querer? Confirmar o amor pelo que se tem não é, nem de longe, afirmar que não se quer mais e mais. Dessa forma, essa corrida maluca sempre terá um novo começo.

É quase poético pensar nas emoções como uma família grande e muitas vezes desajustada, com muitos descendentes nascidos de cruzamentos aleatórios, forjando nossa humanidade. Perceber o mundo além dos nossos instintos primitivos nos confere um status de exclusividade.

Há quem diga que somos únicos na natureza… resquícios do nosso antropocentrismo, certamente. Mas, seguindo por essa estrada, nossa exclusividade está relacionada aos nossos desejos, necessidades e vontades que se relacionam gerando descendentes férteis que se recombinam de diversas formas e em intensidades absolutamente não programadas.

Se olharmos bem de perto, o querer humano também gerou gêmeos antagônicos que podem nos equilibrar ou desestabilizar completamente. Não concorda? Vamos lá… Amor & ódio. Vitória & derrota. Felicidade & tristeza. Arrogância & humildade. Medo & coragem…

Reagimos a tudo a partir de nossas emoções. Quando conquistamos algo muito desejado, quando perdemos uma coisa importante ou quando estamos inertes de frente da TV numa tarde chuvosa de domingo… lá estarão nossas emoções, interagindo entre si, determinando aquilo que chamamos de estado de espírito.

Repararam que não estamos falando de coisas concretas e tangíveis? Jamais tratamos nossas emoções de forma pragmática. Embora a neurociência explique que, todas as variações dos estímulos cerebrais são provocadas por hormônios, neurotransmissores e uma infinidade de substâncias químicas sintetizadas pelo nosso corpo, continuamos, de forma rebelde, a tratar nossas emoções não como manifestações científicas, possíveis de mensurar, mas como algo que deva ser sentido, sem fazer muito sentido.

A verdade é que aquele querer inicial se desdobrou em diversas emoções, mas não se perdeu, apenas mudou. O querer sempre será nosso ponto de partida. Dele, podemos seguir por muitos caminhos, por vezes retos e tranquilos, por vezes sinuosos e inconstantes, mas, mesmo sem um plano de voo prévio, imaginamos que a jornada será repleta de emoções de todas as formas, cores e em diferentes doses. Como saber? Não se pode. Apenas uma certeza nesse caminho… O querer é o que nos move.

Novos tempos

Todo fim de ano é igual. Fazemos promessas sem limites, desejamos mais saúde, mais dinheiro, amor e prosperidade. Até aí tudo bem, pois, de maneira geral, depositamos todas as nossas fichas no futuro, acreditando que o inesperado e o desconhecido realizem todos os nossos desejos.

Estamos sempre tentando suprir nossas carências através da busca por aquilo que não alcançamos e por coisas que nem sabemos direito se queremos ou não. O que é absolutamente normal, uma vez que a capacidade de projetar em sonhos os nossos desejos não conhece limites. O conjunto que reúne nossas vontades e incertezas é o combustível que alimenta um dos nossos melhores sentimentos: a esperança!

Esse é, sem dúvidas, o sentimento que nos faz olhar para frente e acreditar que no futuro reside a fonte dos nossos desejos realizados e, independente do tempo, em algum momento transformaremos em realidade os nossos sonhos.

O novo ano traz consigo essa capacidade de reunir milhões e milhões de pessoas a partir da união de suas esperanças e desejos. Que podem ser de origens muito diferentes, mas que, certamente, tem como grande objetivo, a transformação de suas vidas para melhor. Ainda que o mundo, a vida e as circunstâncias nos conduzam por caminhos com muito mais curvas do que retas, a nossa vontade, quase irracional, de realizar nossas promessas, nos impulsiona a seguir, apesar dos pesares.

Mas, se todos estão em sintonia na busca pela concretização dos seus anseios, por que então, as coisas nem sempre saem como se espera? Muitas vezes não medimos muito bem a distância entre o sonho e a realização, o que pode, com freqüência, provocar a sensação de que existem sonhos possíveis e outros nem tanto.

Desejar sem planejar pode aprisionar nossos projetos na categoria de sonhos. O que, de certa forma, nos exime da frustração provocada por possíveis insucessos, uma vez que sonhos são etéreos e não precisam ser obrigatoriamente realizados. Sendo assim, criamos estradas paralelas que se conectam vez ou outra. Uma delas abriga sonhos rasos e sem maiores planejamentos, daqueles que nos permitem desejar por um sapato, uma viagem ou um carro e que, com algum esforço, conseguimos realizar. Na outra via, enxergamos os sonhos mais antigos, grandiosos e, teoricamente, mais difíceis de concretizar.

Qual seria o propósito de seguir por vias paralelas que apresentam limites de velocidade e paisagens tão distintas? Percebo muitas respostas, mas esta talvez seja, mesmo que de forma inconsciente, a estratégia que encontramos para nunca deixar de sonhar e continuar seguindo em frente, uma vez que o cotidiano é, em muitos momentos, o responsável por apagar as cores vibrantes dos nossos sonhos.

E quando isso acontece, ficamos diante de um dilema: endurecer diante da vida, nos tornando menos sensíveis ao mundo que nos cerca ou acessar a estrada dos sonhos exuberantes e assim redescobrir o prazer de se transportar para dimensões que nos permitem ser o que quisermos ser.

Sonhar é bom. Sonhar é indispensável e nos garante uma agradável lucidez. Mas sonhos carecem de realização. Pôr em prática aquilo que projetamos intimamente nos deixa plenos e ávidos por novas conquistas. E se a travessia que fazemos ao longo dos 365 dias nos afasta das nossas promessas particulares, é na transição entres os anos velho e novo que recuperamos, de forma arrebatadora, a nossa capacidade de sonhar, de avaliar o que passou e fazer novos planos.

A chegada de um novo tempo é, também, o momento de renovação daquele sentimento que nos pega pela mão e mostra que o novo estará disponível para realizações, quedas, aprendizados e surpresas e que, para isso acontecer, basta apenas uma coisa: ter esperança! Feliz ano novo!!!