Então é Natal!

Então é natal! Acho que esta constatação é sentida de formas muito particulares. Religiosos exaltam a chegada de Jesus Cristo. Crianças anseiam por presentes. O comércio espera por recordes de vendas e os pais preparam banquetes que serão devorados em família. Percebo que este é um roteiro seguido por quase todo mundo, mas certamente, esta data supera, e muito, o senso comum.

Sempre que o ano novo começa, projetamos o próximo natal para um futuro bem distante mas, de forma sorrateira, ele parece chegar muito antes e nos pega de surpresa quando nos deparamos com canções e decorações natalinas espalhadas pela cidade.

Na verdade, o tempo continua seu curso normal e apressado como sempre, porém, diferente de outras datas festivas, o natal é capaz de confrontar a nossa correria diária, nos obrigando a mudar o comportamento habitual, como se dissesse “Parem o que estão fazendo, pois preciso de atenção!” Ordem que atendemos prontamente.

Não concorda? Então vamos lá. Em que outro momento do ano nos programamos tanto para um evento? Quando participamos de tantas confraternizações e encontros com amigos, a ponto de não sobrar mais espaço na agenda? Em que outra situação queremos presentear pessoas queridas? E, acima de tudo, em qual outra época do ano nos forçamos a estar em família? É aí que o natal se mostra muito mais especial. Nos reaproximamos de muitas pessoas que ficaram pelo caminho ao longo de um ano difícil e, como sempre, muito corrido. Lembramos de amigos há muito esquecidos e resolvemos dizer um oi, desejar um dia feliz e, com isso, recebemos as felicitações de volta. Este gesto se repete tantas vezes que talvez crie um dos maiores e mais espontâneos fluxos de bem querer que conheço.

Essa onda de energia positiva se materializa na vontade de ajudar ao próximo de alguma forma, seja com lembranças, seja com abraços ou com visitas aos que não estão conectados a esta rede invisível de amor e carinho. Para muitos, o natal significa tristeza e por motivos distintos. Talvez o fato de se sentirem excluídos da catarse coletiva que este período promove na maioria de nós, seja o ponto que os une. Porém, a grandiosidade desta data é tão impressionante que pode, facilmente, transformar dor em alento, abandono em ternura e rancor em esperança.

Muitos atribuem um espírito ao natal. Prefiro pensar em coletividade. Em múltiplos desejos e em muitos espíritos em comunhão, vibrando na mesma sintonia e isto nos faz pensar em fazer o bem, de forma ampla, para além daqueles que amamos e estão por perto. Isso nos confere uma grandeza que não experimentamos o tempo todo mas que ao senti-la, somos capazes de transbordar aquele sentimento que não tem sido visto com muita frequência nas relações humanas em tempos tão difíceis… o amor.

Todas as sensações que sentimos no período de natal são maravilhosas, mas também trazem consigo a dúvida e a reflexão. Por que não agimos assim o ano inteiro? Que essa pergunta seja respondida da melhor forma por cada um de nós mas, a simples possibilidade de nos confrontarmos com a forma como lidamos com o mundo a nossa volta, já é um passo importante.

É provável que pensemos o quão pouco fazemos cotidianamente para tornar a vida mais simples, o quão pouco fazemos para transformar o mundo em um lugar menos hostil. Mas o natal está aí para nos mostrar, nem que seja uma vez por ano, que somos capazes de promover mudanças positivas, de pensar no bem estar de pessoas desconhecidas, de querer o bem e que vidas podem ser transformadas com pequenas e singelas atitudes. Basta querer. Feliz Natal!

O que eu quero ser quando crescer?

Desde sempre somos bombardeados por influências de todos os lados. Isso significa que somos, de alguma maneira, obrigados a nos encaixar em formatos pré-estabelecidos desde muito cedo. Porém, quando crianças, somos capazes de alcançar os lugares mais inusitados apenas usando a nossa fértil imaginação e, para isso, basta usar a mágica pergunta “o que eu quero ser quando crescer?”

Com o passar dos anos, os anseios de se transformar em bombeiros heróis, astronautas na lua, médicos de formigas e pilotos de foguete, dão lugar a sonhos mais pragmáticos e que, normalmente, apresentam a vida como ela é. Prática e sem rodeios.

Ainda muito jovens, começamos a olhar o mundo a nossa volta e estabelecer padrões que podem ser seguidos, às vezes por vontade própria, às vezes… No geral, seguimos os caminhos previamente traçados por quem veio antes de nós. Pais, professores, tios ou amigos próximos. Talvez façamos isso porque vemos nessas pessoas, modelos bem sucedidos de como ganhar o pão nosso de cada dia.

Com isso, as crianças piratas do espaço, caçadoras de tesouros perdidos e bailarinas das nuvens, cedem lugar a jovens trabalhadores que, muitas vezes, constroem suas estradas na direção oposta dos seus sonhos. Não pensem que isto é uma crítica, é apenas uma constatação.

Há muitas gerações, as pessoas escolhem ou são levadas a escolhas que podem se tornar certezas para o resto de suas vidas. Este é um ciclo muito natural para a grande maioria até os dias de hoje, afinal, é muito difícil escapar do impiedoso rolo compressor que é a vida adulta, sempre cheia de urgências e sem tempo a perder. Mergulhados no olho desse furacão, não nos damos conta que, dentre todas as situações que nos são impostas, somos obrigados a deixar sonhos marotos adormecidos e bem escondidos em nossos compartimentos mais íntimos.

Para alguns, isso pode causar alguma angústia ou frustração, mas a vida nos mostra que decepções só são percebidas quando temos consciência das escolhas que abraçamos. Outros tantos, acreditam que suas escolhas não provocaram perdas, são frutos apenas frutos de planejamento e determinação. O que é incrível!

De todo modo, o olhar para dentro e o auto questionamento são para lá de saudáveis. Cada período de nossas vidas imprime um “EU” diferente em todo nós que, de tempos em tempos, resolvem coexistir, o que pode ser ótimo, pois nos possibilita resgatar bons hábitos e ainda desenvolver novos pontos de vista.

Isso me faz acreditar, cada vez mais, que somos os principais agentes responsáveis por nossas transformações que, muitas vezes são tão sutis que sequer percebemos quando de fato acontecem.

Tudo isso serve para ilustrar que, apesar das nossas escolhas prematuras, continuamos a ser muitos e quanto mais o tempo passa, mais diversos e interessantes podemos ser e, sem medo de errar, podemos e devemos criar túneis e atalhos, e até algumas paradas, em uma estrada que foi construída para seguir em linha reta.

Então, quando se perguntar o que quer ser quando crescer, tenha em mente que crescer nunca é um ponto final e que nossos anseios infantis adormecidos podem acordar a qualquer momento e reclamar seu lugar de direito, decidindo que crescer não tem a ver com idade ou conquistas, e sim, com a vontade de viver.

Crises particulares

Muito se fala sobre crises, de todos os tipos e proporções. Sejam elas em relações de trabalho, amor ou políticas, mas independente da situação em si, o que chama a atenção é a sua origem e não o seu efeito. Qual é a origem de uma crise? É uma pergunta desafiadora, uma vez que nos impõe uma análise sobre os reflexos de decisões tomadas no passado e isto é bem difícil. Mas, dentre tantas opções, é melhor escolher apenas um motivo que seja responsável por alterar a maioria das pessoas, a crise provocada pelo avanço do tempo… Um clássico!

Para cada fase da vida, uma crise. Talvez a grande questão desse tema esteja relacionada com a forma de absorver o que se passa a nossa volta. Já repararam que, quase todo mundo costuma classificar a própria juventude como a melhor época de suas vidas? Ou ainda, que as crianças de hoje jamais saberão como a vida era boa em outros tempos… Será verdade ou puro romantismo? Uma coisa é certa, esse ponto de vista será repetido por muitas e muitas gerações.

Se atribuirmos velocidades às diferentes fases da vida, talvez seja mais fácil  entender algumas certezas. Na infância e adolescência pegamos carona em um jato supersônico, uma vez que a quantidade de coisas para ver, sentir, descobrir e aprender é tão descomunal que não há como registrar tudo. Isso explica, em parte, nossas memórias um tanto borradas e confusas desse período. Tínhamos muito a fazer em pouquíssimo tempo, o que nos forçou a filtrar, de alguma forma, as experiências que deram certo e que no presente, são usadas para justificar o quão fomos únicos e especiais no passado.

À medida que envelhecemos, conseguimos desacelerar um pouco. O que nos permite interagir com o mundo de forma mais organizada, mas ainda assim, temos muita coisa a fazer. Muito para amar, chorar, beber, sorrir e conquistar… Só que o tempo continua em seu ritmo acelerado, nos obrigando a fazer escolhas difíceis que, muitas vezes, provocam consequências por décadas.

Porém, chega a um ponto da nossa trajetória em que fazemos as pazes com o tempo e, enfim, conseguimos ver as coisas como elas realmente são. Enxergamos nossas vidas em alta definição, com imagens que expõem detalhes até então invisíveis. E é neste ponto que percebemos como nossas decisões pregressas, conscientes ou não, foram fundamentais na nossa construção pessoal.

Talvez isso aconteça aos 30, 40, 50 anos… tanto faz. O que realmente importa é perceber o momento em que nos tornamos capazes de contemplar a vida em suas cores reais, sem distorções. Isso, certamente, traz algum desconforto. Obrigando que um novo movimento seja feito na busca por novas escolhas, provavelmente mais serenas, que irão ditar as próximas etapas da nossa jornada.

Esta é a hora em que colocamos em xeque tudo aquilo que fizemos. Se o preço pago foi justo, se queremos continuar trilhando a mesma estrada ou não… Perceberam como estas questões são incômodas? Acho que isso nos ajuda a entender o que chamamos de crise, seja ela existencial, de meia idade ou outra qualquer. Crise ensina que lugar comum ou zona de conforto não são eternos. Crise nos permite revirar nossos baús até encontrar peças de reposição que acumulamos ao longo do tempo, sem perceber.

Explorar a nossa capacidade de renovação nos possibilita encontrar saídas onde antes existiam muros de pedra e resgatar velhos sonhos abandonados pela estrada. Por esse motivo, a necessidade de renascimento talvez seja a melhor resposta quando nos perguntarmos qual é a origem de nossas crises. Dessa forma teremos sempre a certeza que, em algum momento, seremos sempre capazes de seguir em frente, mesmo sem saber aonde ir.

Colcha de retalhos

Das muitas perguntas que me faço o tempo todo, nenhuma consegue ser tão recorrente e incômoda quanto “Quem sou eu?” Pode parecer um tanto doido mas, tentar saber quem somos, ajuda a viver melhor não só com os outros mas com nós mesmos.

Mas por que essa pergunta é importante se temos tanto a fazer diariamente e não sobra tempo nem para lembrar qual foi a última refeição? É aí que está o “xis” da questão. Tudo passa tão rápido a nossa volta que percebemos muito pouco do que está diante dos nossos olhos. Estamos sempre seguindo em frente com tanta convicção de que o melhor ainda está por vir, que deixamos de sentir as marcas que o cotidiano nos imprime.

Saber o que melhor nos define é um desafio. Normalmente, temos um monte de respostas prontas sobre tudo e todos, mas quando se trata de apontar o dedo para a própria cara, a conversa muda de figura… Para buscar respostas que expliquem melhor quem somos é preciso se despir das várias camadas de pele que acumulamos ao longo da caminhada. E um bom começo para isso é mergulhar em uma viagem ao seu universo particular.

Nascemos em meio a um conflito familiar. Nossos pais, na árdua missão de nos educar, projetam suas expectativas sobre nós dando início, mesmo que sem querer, as muitas pessoas que seremos ao longo da vida.

À medida que crescemos, começa o bombardeio de influências. Do popstar do momento, àquela querida professora de português. Sem contar que, dependendo do amor da vez, podemos ser maratonistas, amantes de cinema iraniano, mochileiros sem destino ou obcecados por dietas sem glúten. Tudo bem! Novas experiências são sempre bem vindas.

É óbvio que uma resposta rasa não contempla a diversidade que nos forja, mas ajuda a elaborar mais e melhor uma opinião sobre quem fomos e sobre quem queremos ser. De cara, isso permite constatar que somos muitos em um só. E isso é ótimo!

A combinação entre nosso eu verdadeiro e quem gostaríamos de ser funciona, ao mesmo tempo, como partida e chegada. A nossa realidade, por vezes rígida e engessada, é sempre por onde começamos. É a partir dela que projetamos quem poderíamos ser, onde gostaríamos de estar…

E isso só é possível porque aprendemos desde muito cedo, que para sobreviver precisamos ser muitos. Alguns reais, outros nem tanto… Quem nunca, em um momento de dureza, se imaginou como o mais novo milionário da loteria e se pegou fazendo mil planos? Ou ainda, quem de nós, durante os encontros de família, ouvindo estórias da nossa velha infância nunca sentiu o coração pular de felicidade ao relembrar da criança que fomos? Maravilhosos momentos de encontro com quem fomos e com quem poderíamos ser.

E como estaremos daqui a 15 anos? Você pode perguntar em uma roda de amigos, mas para essa pergunta não há resposta, só possibilidades. Sabemos que há uma década tínhamos sonhos, um grupo de amigos, um gato ou um cachorro, freqüentávamos uma boate, ouvíamos o mesmo estilo musical e sempre batíamos ponto no mesmo boteco… E hoje? Onde estão nossos grandes amigos? O bar de sempre fechou 5 anos atrás. A boate virou um shopping e aquelas músicas que amávamos se tornaram os hits mais bregas da história. Parece triste? Mas não é! O tempo passou e nos transformou, só isso.

A única certeza é que daqui a 5, 10 ou 15 anos, seremos outros. Mais diversos e com novas estórias pra contar. Cheios de novas capas e camadas que vão vestir a nova pessoa que seremos, e ajudarão a trilhar novos caminhos, repletos de diferentes perfumes, sabores, sorrisos, cores e amores, adicionando mais detalhes a nossa linda e surpreendente colcha de retalhos.