Tempo, pra que te quero?

É fato que a vida no mundo virtual se transformou na extensão da nossa existência na vida dita real e, muitas vezes, a mescla entre essas realidades é tão forte que fica difícil dizer o que é real e o que parece ser. Quanto mais vivemos a cyber realidade, maior é o nosso distanciamento das coisas que antes eram preciosas. Saudosismos à parte, é apenas a constatação do óbvio.

À medida que a vida segue em mega velocidade, fica mais difícil apreender tudo o que vivenciamos. Outro dia começamos a usar o telefone celular para criar uma conexão móvel por voz com outras pessoas, mas hoje, este aparelho nos leva pra tantos lugares e nos apresenta a pessoas de formas tão diferentes que a última coisa que lembramos é de usá-lo para ligar e dizer um simples… oi.

De uma forma muito frequente, percebo que a noção de tempo está absolutamente alterada e, acho possível afirmar que já dominamos de alguma forma, a magia do teletransporte. Parece maluquice, mas é verdade. Não me refiro a transferência dos nossos átomos no espaço com o uso de máquinas mirabolantes, como na ficção científica. Nossa forma de deslocamento necessita de um outro tipo de equipamento, mais simples, conectado à rede, com mil aplicativos, redes sociais e que, claro, caiba na palma da sua mão. Pronto. Com essas ferramentas você será capaz de atravessar distâncias continentais e terá a nítida impressão que tudo se passou num piscar de olhos.

Passamos muito tempo falando que não temos tempo. Que o tempo não dá pra nada. Que precisamos de mais tempo. Como o tempo passou rápido demais… Talvez estejamos inaugurando um novo tempo. Uma era onde somos escravos e não senhores daquilo que comanda a vida de todos nós de forma implacável…

Há poucas décadas, as pessoas viviam em universos bastante reduzidos se compararmos com os dias de hoje. Mães e pais se relacionavam com vizinhos. Filhos tinham seus amigos de escola e os parceiros de aventuras da rua onde moravam. Os familiares moravam mais perto uns dos outros. Essas características transformavam um bairro em seu lugar no mundo. A conectividade entre as pessoas se dava sem intermediários, com interatividade em tempo real e à curta distância, sem a tecnologia como mediadora dessas relações. Éramos monitorados sem exageros. Utilizávamos o tempo como aliado e não como carrasco. Ir à escola, almoçar em casa, estudar, trabalhar, ir ao cinema, brincar na rua, jantar em família. Para tudo isso acontecer era necessário apenas uma coisa… tempo.

De alguma forma, nos deslumbramos pelo irresistível poder de sedução da tecnologia, a ponto de embaralharmos dois pilares da física, o espaço e tempo. Passamos muitos momentos nos perguntando em que dia estamos, quando e como fizemos tal coisa, de que forma conhecemos alguém, surpresos com o mês que já está no fim… Em que ponto nos tornamos tão displicentes e incapazes de perceber as mudanças à nossa volta? Para essa pergunta, cada um de nós tem a própria resposta, ou não.

Com o passar dos anos, ganhamos mais atribuições, mais tarefas, mais responsabilidades, o que provoca uma subtração imediata sobre o tempo nosso de todo dia. Aliado a isso, podemos incluir toda sorte de distrações oferecidas pela internet segundo a segundo. Basta uma olhadinha em seu smartphone para checar um email, que seu tempo começa a acelerar e, aquela olhada rápida, se transforma em papos como os grupos em mil aplicativos, consulta à previsão do clima, uma olhada nas curtidas daquela foto e, se você  lembrar, também vai checar o email que deu início a essa roleta russa virtual.

A conectividade é incrível e nos inclui em universos inalcançáveis até pouco tempo atrás. Mas, de uma forma muito sutil, porém muito frequente, ela também dilui as relações reais. Compensamos a famosa falta de tempo por presença virtual, o que muitas vezes faz com que relações longas, sejam mantidas de forma muito próxima e íntima, mas sem beijos e abraços de carne e osso.

Vivemos um período onde tudo é novidade e, como tudo que é novo, demoramos um pouco para achar o equilíbrio entre excessos. Não há como ignorar que o tempo ultrapassou seus limites de velocidade, mas também não podemos culpá-lo por tudo. Podemos e devemos encontrar o caminho do meio onde a vida virtual e a real sejam cúmplices e não adversárias. Onde as ausências sejam melhor administradas. Onde não seremos nem senhores nem escravos, mas sim, parceiros do nosso próprio tempo.

Só sei que nada sei…

Qual a melhor postura devemos ter diante das situações que a vida nos apresenta? Normalmente as pessoas gostariam de ser firmes, fortes e decididas. Esses são perfis festejados e desejados pela grande maioria. Quem quer ser indeciso e vacilante aos olhos do mundo? Conheço poucos…

Estar certo sobre tudo. Saber sempre onde se quer chegar. Decretar certezas sobre a vida alheia. Isso pode parecer incrível a primeira vista, mas algumas páginas depois, esse comportamento se torna monótono e definitivo, afinal, o benefício da dúvida nos leva a reflexão e, o pragmatismo das certezas, nos engessa.

Quem nunca expressou, com firmeza, uma opinião sobre algum assunto do qual não sabe nada? Ou simplesmente disse ter certeza absoluta em relação a algo que nunca viu ou ouviu falar na vida? Pois é! São gestos que nem percebemos, talvez porque seja importante mostrar as pessoas a nossa volta o quão assertivo e seguro podemos ser. Uma doce ilusão que pode ser desmontada tão rapidamente quanto o impulso em afirmar “eu sei” sobre qualquer assunto.

Ser o “senhor sabe tudo” transmite uma sensação de fortaleza e atrai a admiração de quem está a sua volta. Mas é óbvio que não se sabe tudo e se engana aquele que acredita nisso. Portanto, não há nada de mau em ter dúvidas. Uma, duas, dez ou tantas quantas forem necessárias. Ter a certeza de não saber tudo é, antes de tudo, um lampejo de lucidez.

A literatura já nos mostrou há tempos que o “ser ou não ser” é de fato uma ótima questão. O conflito é pedagógico. Quanto maior o número de opções, mais refinada fica nossa capacidade de escolha. Não tem nada de errado em errar. É escolhendo a pior opção que sabemos que existem coisas melhores. É por isso que estar ou sentir-se certo sobre tudo impede a possibilidade de escolha. Decidir seguir por uma via de mão única antes mesmo da viagem começar, certamente nos privará da surpresa provocada por atalhos inesperados e, muitas vezes, surpreendentes.

A diversidade que nos envolve é tão impressionante que se atualiza segundo a segundo. Seria, e é, um extremo desperdício tomar sempre o mesmo caminho, pegar sempre o mesmo ônibus, ir sempre ao mesmo bar, não se permitir novas amizades e amores. Talvez muitos escolham a dureza da certeza por dificuldade de aceitar o novo e seguem, por anos, executando o mesmo padrão de comportamento.

Ser indeciso a ponto de se paralisar diante da vida, obviamente não é nada bom, assim como ser o super certo sobre tudo é pra lá de chato… Trata-se aqui é de equilíbrio. O caminho do meio, sem muros, que permita desvios, curvas acentuadas, se perder de vez em quando. Um caminho onde seja possível duvidar, errar, acertar e tomar decisões de acordo com as opções que a vida nos oferecer. Ser flexível torna nossa existência mais rica de experiências. Estar sempre certo reduz a possibilidade de diálogo e pode nos privar de muitos momentos especiais.

Imagine não ouvir as estórias daquele amigo querido e bom de papo, simplesmente porque não concordamos em alguns pontos de vista? Não ouvir é perder tempo e achar que sabemos tudo é perder mais tempo ainda. Viver se torna mais fácil quando acreditamos que uma dúvida sincera vale mais que uma certeza irresponsável.

Batalha de gigantes

Nós sabemos que na maioria das vezes, nos ligamos emocionalmente a pessoas diferentes de nós. Identificamos no outro algo que nos falta e transformamos a ausência em um grande ponto de encontro.

Não se pode afirmar o que exatamente conecta lindos aos feios, abstratos com exatos, sonhadores com pragmáticos… Os diferentes se unem a partir de uma variável imprevisível e sem programação prévia. Todas essas parcerias poderiam ser consideradas mas, existe uma combinação explosiva que chama atenção por estar presente em muitas relações por aí. A união de Generosos & Egoístas.

Cuidado para não achar que estou falando do bonzinho contra o nem tão bom assim, até porque esses dois atores costumam mudar de personagem de acordo com seu parceiro de cena. Ouso dizer que este embate está presente em todos os tipos de relacionamento. Somos capazes, muitas vezes de dividir nossas vidas com um deles sem nunca perceber, tamanho o poder que ambos exercem sobre seus parceiros.

Generosidade agrega, aquece e nos torna bons aos olhos do mundo. O egoísmo isola, separa, individualiza e traz desconfiança. Encarando desta forma, como é possível que antagonistas tão óbvios possam se relacionar? Não só podem como costumam formar parcerias longas e agitadas…

Quantas vezes observamos diferenças absurdas entre casais que, apesar dos pesares, seguem juntos durante anos? Como observadores é fácil perceber, porém, quando nos colocamos na mesma situação, somos incapazes de notar quando e como fomos tragados por um ou por outro…

A máxima já é conhecida, todo generoso precisa de um egoísta para se expressar e vice-versa. Isso estabelece vínculos tão fortes que são capazes de superar até o amor. Muitas pessoas permanecem juntas mesmo após o seu fim, por que simplesmente não sabem como seriam suas vidas se, o jogo mudasse as regras ou, se a disputa entre a doação de um contra a demanda do outro chegasse ao final.

Mas o objetivo aqui não é demonizar egoístas e canonizar generosos. Ambos se retroalimentam tão intensamente, que deixam de perceber que se perderam de si mesmos no meio da estrada.

Isso me lembra de um casal que conheci onde um, além de generoso, era cheio de qualidades, pleno e orgulhoso em ser como era. Adorava partilhar a vida com alguém que não era um adversário real, mas que estava ali para segurar, com amarras invisíveis, a onda do altruísta egocentrado. Do outro lado, havia um egoísta divertido e com um magnetismo avassalador, que atraía a tudo e a todos que estivessem em seu raio de ação.

Observando essa relação à superfície, era muito difícil compreender como conseguiram compartilhar a vida por anos e anos. Criaturas que se amaram profundamente, mas que terminaram como prisioneiros de um relacionamento difuso, onde era possível enxergar com alguma clareza que seu ponto de encontro, definitivamente, não era mais o amor. E o mais impressionante, eram felizes assim, sendo apenas complementares.

Porém, mesmo essa curiosa dupla de diferentes, pode apresentar pólos iguais que, ao se encontrarem provocam uma repulsão instantânea, capaz de afastá-los a uma distância que os permite enxergar como realmente são. Diferentes e, de certa forma, incompatíveis. Essa talvez seja a única forma de romper esse laço, quando generosos e egoístas finalmente se veem refletidos um no outro.

O tempo que se leva para que isso aconteça é tão imprevisível quanto àquela variável que une todos os tipos de diferentes em relações inesperadas. Generosos e Egoístas ao se separarem deixam marcas profundas entre si, que ficam fortemente gravadas, como em um pacto inconsciente. Como se conhecem muito bem sabem, como poucos, trocar de lado quando os convêm. Sendo assim, é só esperar o próximo relacionamento para ver qual personagem lhe cai melhor ou qual das armaduras será mais forte, uma vez que, o encontro dessa dupla explosiva, pode se tornar uma verdadeira batalha de gigantes.

Selfie – Muito além do autorretrato

Tirou? Deixa eu ver! Ahhh, não ficou bom! Vamos fazer uma selfie?!

Quantas vezes vocês ouviram o texto acima em festas, praias, viagens, restaurantes, banheiros, academia, dentista, acidentes de trânsito, velórios, manifestações populares… ufa!! Independente da situação ou ocasião, a vontade de registrar nossa presença naquele exato momento é quase irresistível.

Não seria melhor dizer que tiramos um autorretrato? Até poderíamos, mas parece que o termo gringo confere muito mais poder e glamour à ação. A selfie hoje, possui status de substantivo mais que próprio, totalmente independente do seu criador e com um objetivo muito claro: Ser vista!

Observe suas fotos nas redes sociais. O que vê? Olhe com mais cuidado. A pose. O olhar. O cenário. Sua expressão… Agora tente se lembrar de uma coisa fundamental. Aquelas fotos foram espontâneas ou são o produto final depois de inúmeras tentativas fracassadas em busca do clique perfeito?

Se voltarmos no tempo, lembraremos que as fotos eram geradas por máquinas analógicas em filmes de 12 a 36 poses. Eram quase caixinhas de surpresa. Luz estourada, foto escura, desfocada… Quantas comemorações ficaram gravadas apenas na memória por conta de um filme que simplesmente queimava? Tempos onde a selfie não teria vida longa e custaria uma fortuna.

Pensando no passado e presente, a grande diferença que salta aos olhos é o significado dos cliques e flashes nos 2 períodos. Antes, serviam para eternizar um momento e serem exibidos em álbuns bem cuidados e porta-retratos distribuídos nos melhores pontos da casa. Agora, as fotos descansam nas galerias dos celulares, nuvens virtuais e, como nunca antes, podem ser vistas por milhares de pessoas em apenas 1 dia. O que deixaria morto de inveja até o mais belo dos álbuns da sua mãe.

Se continuarmos revirando nosso acervo digital, adivinhem quem será mais popular em meio aos nossos milhares de cliques?? As selfies nascem do desejo quase incontrolável por visibilidade fácil. O que antes era privilégio de astros e estrelas, hoje está ao alcance dos dedos de todos e de forma totalmente ilimitada.

Mas, mesmo com a tecnologia, o que seria das selfies sem as poses? Sensualidade, autoconfiança e ternura. Juntar esses três ingredientes em uma única foto ajuda a arrebanhar muitos seguidores e bombar de likes. Não podemos esquecer das legendas, que são responsáveis por convencer os observadores que aqueles registros foram únicos, incríveis e que, ninguém além de você, poderia usufruir tão bem daquele momento. Exclusividade faz toda a diferença.

É aí que retomo a idéia da selfie como uma entidade independente. Um produto quase comercial que, ao ser compartilhada, adquire vida própria, atraindo olhares curiosos e comentários que vão desde a admiração exagerada à total esculhambação pública. É o clássico, falem mal, mas falem…

Seriam as selfies tiranas, daquelas que permitem acesso livre à área VIP digital, desde que todos estejam devidamente produzidos e dispostos a manter seu imbatível padrão de qualidade? Onde, a beleza, alegria, superioridade, carisma e vaidade são requisitos obrigatórios e indispensáveis? Talvez…

Fico pensando no pobre Narciso. Talvez esse mito seja o primeiro registro de selfie da humanidade. Se existisse uma câmera e os filtros mágicos em sua época, o rapaz jamais morreria afogado ao buscar aquela imagem avassaladoramente bela. Nos tempos atuais, ele certamente seria um ícone pop, teria inúmeros seguidores e muitas curtidas. A busca pela autoimagem perfeita parece ser atemporal e pode, muitas vezes, aprisionar e levar à situações nada glamourosas.

Muito se fala que a maioria das pessoas hoje em dia, prefere TER ao invés de SER… Ter acesso a situações incríveis como shows, viagens extraordinárias, bares e restaurantes da moda… ter, ter e ter! Como se consegue tudo isso? Simples. Check-in, posts, likes, compartilhamentos, hashtags e, claro, selfies… A partir delas, o TER se confunde com o SER.

Ser e estar lindo, feliz, confiante e bem-sucedido o tempo todo, nem sempre é possível na dureza do cotidiano, mas a realidade virtual se encarregou de preencher com cores fortes o, muitas vezes monocromático, mundo de carne e osso.

Isso permitiu que nos transformássemos em nossas próprias fadas madrinhas, capazes de transformar os borralheiros que vivem em nós, em cinderelas e príncipes encantados. Sempre congelados numa imagem perfeita, formada por uma piscadela, uma cabecinha de lado, um bico sexy e dois dedinhos.

Estamos diante de um fenômeno coletivo, onde todos precisam ser vistos e amados, como uma espécie de confirmação da própria existência. A explosão da vontade coletiva de se expor e divulgar o que antes era particular, define momento atual, onde todos somos especiais e exclusivos. Onde todos somos… SELFIE.