O que vão dizer de mim?

Outro dia ouvi de um amigo algo do tipo – eu queria muito fazer algo nada a ver com o que faço hoje, mas acho que está tarde para mudar, além do mais, o que vão dizer de mim? – Causa estranheza perceber que em pleno século XXI, a opinião alheia ainda provoque tanto desconforto. Não que meu amigo seja uma exceção, ao contrário, todos nós, em algum momento da vida, atravessamos dilemas vazios como esse. Atire a primeira pedra aquele que nunca deixou de lado algo potencialmente importante, por receio a maledicência alheia.

“O que os outros vão falar de mim?” É curioso que, ao encarar essa pergunta, a maioria de nós costuma dizer, ao outro, que isso é uma grande bobagem, afinal, as pessoas irão falar de nós de uma forma ou de outra. Mas, basta que troquemos de lugar para que essa indagação fique carregada de sentido. Quando nós somos o alvo do olhar inquisidor de alguém, a suposta bobagem, passa a ter um peso que ninguém gosta de suportar. Por isso, é importante estarmos atentos a importância que atribuímos aos olhares externos tão presente em nossas relações cotidianas.

Somos julgados desde que nascemos, logo, isto não deveria ser exatamente uma questão. Mas é. Se, por alguma razão, paramos para pensar sobre o que vão dizer de nós, não precisamos ir muito longe para entender que isso causa algum incômodo. Até mesmo para a mais bem resolvida das criaturas. É claro que imaginar que falam e como falam de nós, pode causar efeitos devastadores, capazes de impedir que algumas pessoas sigam as suas vidas. Mas, apesar dessa dificuldade, é preciso enxergar isso sob outra ótica.

Se pudermos trocar a paralisia provocada por um olhar torto, um boato infundado ou uma fofoca maldosa, por um peito estufado de alguém orgulhoso por ser quem é, já seremos capazes de estabelecer o início de uma reação contrária aos desocupados juízes da vida alheia. Sei que não é fácil arrancar essa autoconfiança sabe-se lá de onde, mas, essa é, possivelmente, o maior dos nossos desafios. Confiar no nosso próprio taco é o que suporta nossos voos, o que sustenta a nossa coragem e o que mantém nosso medo sob um certo controle.

Faz parte da nossa essência notar o outro e tudo que o envolve. Perceber quem está a nossa volta pode, e deve, ser importante para que possamos ampliar a visão que temos do mundo e de nós mesmos. Mas, manter-se preso a observação do cotidiano alheio apenas por curiosidade ou vaidade é, além de mesquinho, um sinal de que as coisas não andam lá muito interessantes na vida de uns e outros. Por esta razão, dentre tantas outras, nada pode ser mais importante em nossa existência, do que a busca pela real percepção de quem somos e até onde podemos chegar.

Tocar as nossas próprias vidas já é uma responsabilidade sem tamanho, especialmente quando ocupamos o nosso viver com o que de fato importa. Quanto mais cedo aprendemos que o nosso pertencimento deriva dos momentos vividos, menor será o desejo de julgar ou invejar uma trajetória que não nos pertence. Sim, somos todos humanos e não escapamos à tentação de uma fofoquinha ou de um olhar curioso, mas, se deixar seduzir descontroladamente pela maledicência, nos leva a julgamentos rasos e irresponsáveis que, na maioria das vezes, falam muito mais sobre nós, do que sobre os outros.

Um novo ciclo ao redor do sol

Enfim, chegamos ao novo ano. Essa data tão aguardada e festejada por todos, simboliza o início de um novo ciclo, de uma nova vida, de um novo mundo. Depositamos todas as nossas esperanças no primeiro dia do ano, como se fincássemos uma bandeira em um território recentemente conquistado e, lá, fazemos pedidos para o ano que se inicia. Sei que isso é parte de um hábito feliz, que nos fortalece para o início de um novo ciclo ao redor do sol.

Seguimos toda sorte de rituais que nos prometem proteção contra o mal e o acesso irrestrito a paz, a prosperidade e ao sucesso. E, assim, tentamos suavizar o turbilhão que nos espera nos próximos 366 dias deste ano. Pedimos como muita fé, para que o ano que se inicia nos conceda tudo o que precisamos e que afaste tudo o que impeça a nossa felicidade. O curioso nisso tudo é que ficamos tão ocupados com os nossos desejos, que esquecemos que os responsáveis pela realização da nossa lista de desejos não é o ano recém-chegado. Somos nós!

É praxe iniciar todos os anos desejando coisas boas e novas realizações e, de forma quase automática, desejamos a quem estiver ao nosso alcance, que os próximos doze meses sejam prósperos e felizes. E recebemos as mesmas felicitações em contrapartida. O que não é nada mal, afinal, não se pode dispensar boas energias. Mas, infelizmente, a prosperidade tão desejada não surgirá em um passe de mágica, só porque assim queremos. Acreditar que teremos nossos desejos atendidos é apenas o primeiro passo de uma longa, porém rápida, jornada.

O que faz um novo ciclo ser diferente do anterior é o quanto de energia colocamos em nossas ações, para que os sonhos projetados no ano-bom, transformem-se em realidade. O cotidiano nos mostrará, sem filtros, que não conseguiremos muita coisa se decidirmos aguardar que o ano novo realize os nossos desejos. É preciso arregaçar as mangas e fazer acontecer. E que obstáculos serão parceiros constantes nessa caminhada. Sorte, oportunidade, esforço, conhecimento… estas são algumas das variáveis que também fazem parte do desafio que é realizar o sonho de um ano perfeito.

A combinação desses fatores, ao mesmo tempo que cria dificuldades, nos permite conhecer os nossos limites e o quanto estamos dispostos a pagar para seguir adiante na tentativa de realizar os nossos desejos. Esperar que as realizações é uma grande cilada, afinal, expectativa sem atitude é o caminho mais fácil para a frustração. Percebo que a cada ano que passa, somos contemplados com uma nova chance de compreender que realizar sonhos é um processo de aprendizado. O que não é uma tarefa fácil, mas é, sem dúvida, uma grande chance de garantirmos que, ano após ano, manteremos o nosso direito de sonhar e de aprender como transforma-los em realidade.

Tempo para ser melhor

Que a vida não está nada fácil, não é novidade para ninguém. Desigualdades de todo tipo fazem parte do nosso dia a dia de uma forma tão frequente que, infelizmente, passamos a não enxerga-las com a nitidez necessária. O que nos leva a um lugar perigoso, onde a indiferença rege todas as relações. E, quando nos tornamos indiferentes, tanto faz a dificuldade do outro, tanto faz a necessidade do outro. E isso nos faz segregar o diferente e a ignorar dores que não são nossas ao longo de um ano inteiro. Mas, ainda há tempo para ser melhor.

Talvez nenhuma outra data no ano seja capaz de transformar hábitos, como o Natal. Pelo menos para aqueles que partilham desta fé. De todo modo, a percepção do nascimento e da renovação da esperança em dias melhores, parece contagiar a todos. E, nem que seja por alguns momentos, celebramos a felicidade de forma coletiva, sem dar tanta importância ao que não tem importância. Famílias e amigos se reúnem, trocam mensagens de afeto e desejam que a prosperidade seja a luz de suas vidas. Isso é lindo, mas, será que alcança a todos? De jeito nenhum… infelizmente.

Esta seja a grande questão a ser considerada nesta data tão particular. Se todos são capazes de reunir os seus em volta de uma mesa, seja ela farta ou não, e desejar a todos que o amor e a felicidade sejam seus guias, por que não vemos isso acontecer, de fato? Por que não somos capazes de expandir nossos bons desejos para além das paredes confortáveis de nossos lares? Essa é uma boa hora para confrontar a nossa indiferença cotidiana e mostrar que somos, sim, capazes de compartilhar o que temos, com tantos que nada possuem.

Pode parecer um tanto assustadora a ideia de sair do protocolo de natal que diz que devemos ficar em casa, em família, vestindo roupas novas, distribuindo presentes e esperando a hora de desejar coisas boas aos nossos. Comércio, gastronomia e reuniões protocolares. Nos acostumamos a um padrão de comportamento que nos afasta completamente do sentido real desta data. Estar entre os nossos é bom, mas, compartilhar toda a positividade que emanamos no Natal, pode ser transformador.

Por isso, hoje, nesta data tão especial para tantos, é preciso ir além das guloseimas, presentes e encontros familiares e compreender que essa celebração jamais teve relação com o consumo. Deveríamos celebrar a chegada do sopro de esperança em uma família miserável, refugiada e perseguida, que viveu há mais de dois milênios. O curioso é que, mesmo tanto tempo depois, famílias como esta, continuam espalhadas por aí, vítimas das mesmas injustiças, porém, curiosamente, não despertam a nossa compaixão.

O contato com tantas desigualdades, forjaram a indiferença que vive em nós e, talvez por isso, tenhamos esquecido a verdadeira razão do Natal. Mas, é sempre tempo de mudar. Basta perceber que o nascimento da esperança acontece todos os dias nas milhares de famílias, iguaizinhas àquela que, supostamente, celebramos todos os anos. Que hoje, todos nós sejamos capazes de entender que a entrega, gratidão e prosperidade formam um fio condutor que nos conecta ao verdadeiro espírito do Natal. Para isso, precisamos perceber e aceitar que só a simplicidade nas relações, permitirá a real comunhão entre as pessoas.

Os novos tempos e suas transformações (Parte I)

Alguém saberia dizer o que o futuro nos reserva? Mas, sem cair no lugar comum das previsões pasteurizadas disponíveis por aí. Se alguém perguntar, hoje, às vésperas da segunda década do século XXI, como será a vida em 10 anos, não há resposta possível. Vivemos a história em tempo real como nunca tivemos a chance de viver antes. Os novos tempos e suas transformações, vão muito além de nascer, crescer, reproduzir e deixar algum legado para futuras gerações. E não sabemos muito bem o que fazer com isso.

Estamos em meio a um fenômeno curioso onde diferentes gerações, com experiências absolutamente diversas, compartilham a mesma época. Sim, sempre foi assim, mas, o abismo social e tecnológico nunca foi tão evidente. A nossa expectativa de vida aumenta à medida que a ciência avança, o que nos permite experenciar um pouco mais desse admirável mundo novo, o que não significa que todos teremos chances de fazê-lo da mesma forma e ao mesmo tempo. Conviver com essa pluralidade geracional deveria ser o maior privilégio destes tempos, mas, não é isso que se percebe mundo afora.

O analógico tenta sobreviver em meio a pressa da tecnologia que, diariamente, nos apresenta novidades que, em breve, serão relíquias, ou lixo. Duvida? Pense que a internet foi lançada em 1994 e os telefones celulares, um pouco antes disso. Isso foi ontem… Mas, o mais marcante nisso tudo, foi perceber que, a partir deste momento, o mundo, e as pessoas, dividiram-se em dois grupos. Os analógicos e os digitais. Para muitos isso não foi um problema, mas, muita gente ficou pelo caminho e, até hoje, não conseguiu entender a razão pela qual as fotos de família saíram dos álbuns e foram para nas nuvens. E isso não é culpa delas.

Depois disso, vieram os celulares que nos apresentaram uma forma de comunicação revolucionária. Mas, o caldo entornou, de fato, quando a internet mudou, aumentou a qualidade e seu acesso foi democratizado. E, em paralelo, os smartphones chegaram com o pé na porta, prontos para nos arrebatar. Deste ponto em diante, passamos a viver como nunca vivemos antes. Novos tempos. Novos comportamentos. Fazemos parte do olho de um furacão que mistura o velho e novo, o analógico com o tecnológico, que altera padrões seculares sem a menor cerimônia ou aviso prévio.

Quais são os impactos dessa revolução? Não faço a menos ideia. E acho que os futuros historiadores terão dificuldades de explicar esse ponto da História. Passamos séculos ligados uns aos outros, a partir de relações próximas e sinestésicas, onde as conexões eram feitas a partir de mãos dadas e troca de olhares. Hoje, vemos o mundo a partir de uma tela, regida por uma rede cada vez mais autônoma e autoritária, que dita exatamente o que devemos ver, quando ver e por quanto tempo. Pela primeira vez, vivemos um processo de desenvolvimento, completamente desconectado da evolução social que nos trouxe até aqui.

Esses novos tempos são sedutores. Nos fazer crer que teremos acesso livre ao conhecimento de uma forma nunca vista. Concordo. Nos fazem crer que somos senhores de nossas escolhas como jamais fomos. Desconfio. Tentam nos convencer que nunca foi tão fácil viver como vivemos hoje, afinal, a tecnologia nunca foi tão democrática. Desculpe, mas essa não dá para engolir. Ao mesmo tempo em que nada disso é verdade absoluta, tampouco é uma mentira completa. É irreal aceitar que todos serão igualmente beneficiados. Vivemos um período onde as desigualdades, de todos os tipos, crescem de forma exponencial, também, graças a esses novos tempos. É preciso pensar mais sobre isso.

O mundo não está colaborando

Outro dia me disseram que nada pode ser mais eficaz para espantar maus pensamentos, do que a energia positiva. Que bons pensamentos são capazes de neutralizar as agruras típicas dos momentos difíceis. Não duvido, mas, até que ponto, acreditar que, apenas a nossa positividade, pode mudar qualquer coisa só porque queremos? Talvez esse seja o grande momento para tentarmos entender que precisamos ir além das boas vibrações. Era para ser um texto feliz e leve para um domingo ensolarado, mas, o mundo não está colaborando.

Quem nos garante que as frases fofas de incentivo que ouvimos e transmitimos o tempo todo, não fazem parte de um manual ingênuo de autoajuda, que tem a pretensão de transformar as nossas vidas num piscar de olhos? Isso, por si só, jamais seria um problema, quanto mais good vibes, melhor. Mas, até que ponto, se apegar exclusivamente à certeza de que dias melhores virão, não promove uma letargia coletiva, que nos impede de reagir a toda sorte de injustiças que a vida nos impõe cotidianamente? A resposta é difícil, mas não custa compartilhar a angústia.

Somos mais de sete bilhões de pessoas compartilhando um planeta. Desse número monumental, a imensa maioria sofre, sofre e apenas sofre. Um sofrimento sem fim, que nem todas as boas vibrações são capazes de amenizar. Curiosamente, são essas pessoas, as mais envolvidas com crenças religiosas que prometem o alívio de suas dores. Observando por essa ótica, parece um tanto claustrofóbico ter tanta gente em um único lugar, suplicando por dias melhores que, na maioria das vezes, jamais chegará. Imaginar que, bilhões de criaturas adoecidas por uma realidade amarga e sem perspectiva, não deixam de acreditar em uma redenção é, ao mesmo tempo, surpreendente e assustador.

Não, a intenção aqui não é desacreditar a força do pensamento positivo, mas, sim, entender o porquê da nossa dificuldade em reagir de forma prática, reta e decisiva contra as maldades e injustiças nossas de cada dia. A nossa história como sociedade repete-se, sem nenhuma criatividade. Enquanto uns poucos mandam, outros muitos são massacrados em várias frentes. A História nos mostra isso. Os telejornais, também. E as projeções de futuro não são diferentes. Parece que nascemos fadados a entrar em uma pirâmide formada por camadas que não se comunicam e, dependendo da nossa posição, jamais seremos capazes de alcançar seu cume.

Todos sabemos que viver não é nada fácil, mas, acho que já ultrapassamos os limites do insuportável. A cada dia sofremos derrotas tão poderosas que colocam a todos de joelho da pior forma. Nossas quedas diárias não têm relação com competições naturais entre aqueles que partem de um mesmo ponto, em condições de igualdade e respeito mútuos. Nossas quedas diárias promovem humilhações que retiram todo e qualquer traço de dignidade. Talvez seja isso, também, que aniquila as possibilidades de reação diante de tanta indiferença.

Não seria ousadia dizer que, possivelmente, estejamos vivendo em escala global, o maior período de retirada de direitos coletivos e de ridicularização das liberdades individuais. O que massacra qualquer capacidade de pensamento contrário que nubla possibilidades mínimas de enxergar-se como alguém que pode, deve e merece ser feliz, para além da sobrevivência. Para isso é preciso ir um pouco além das boas vibrações. É preciso dizer não a tudo e a todos que ousarem insinuar que devemos viver a partir de nossos limites e, não, de nossas liberdades.

Esperança, sonho e realidade

Já repararam que, independente de quão difícil é a situação real, estamos sempre seguindo em frente, guardando no peito um sopro leve e especial? Sopro que guardamos em lugar seguro para que nada possa leva-lo para longe de nós. Esse cuidado é responsável pelo frescor que nos ajuda a vencer as intermináveis dificuldades, que esbarram por nós ao longo da nossa estrada. E são essas dificuldades as responsáveis por grandes revoluções internas que nascem de um sopro de esperança, sonho e realidade.

Quem nunca se pegou em uma enrascada daquelas, sem saber para onde ir ou o que fazer, mas, sabia que, lá no fundo, aquilo não passava de uma fase ruim e que não tardaria a ir embora? Pois é, saber ao certo o porquê seguimos acreditando em dias melhores é um tanto complicado. Uns chamam de fé, outros de otimismo e há quem diga que exista um pouco de loucura nisso. Loucura, aliás, é um termo muito utilizado quando não sabemos explicar uma situação, um fato.

Sopro e chama. A combinação perfeita que transforma a suavidade em intensidade, forte o suficiente para nos sustentar em períodos difíceis, ajudando a manter a cabeça erguida e a crença de que algo novo está por vir. Esses dois elementos podem fundir-se em um sentimento tão poderoso, quanto necessário, que nos leva a enfrentar desafios, entender as derrotas e saborear vitórias. Sopro e chama de viver, são os ingredientes que nos levam até a arma mais potente e necessária de nossas vidas: a esperança.

Esperança que é combustível diário, que não permite que deixemos de sonhar e acreditar. Não importa se são pequenos ou grandes, fáceis ou, aparentemente, impossíveis. Os sonhos alimentam e fortalecem nossas almas. Sim, pode até parecer piegas, ok, mas e daí? Mas não há como fugir dessa. Afinal, verdades importantes, daquelas incontestáveis, costumam ser constrangedoramente simples. Talvez por isso, tenhamos tanta dificuldade em aceita-las. Pior para nós. Mas, em algum momento, essa ficha cai e deixa tudo mais leve.

Esperança e sonhos nos inquietam, mas isso, por si só, não é tudo. É preciso transformar esse frisson em concretude. É o que chamamos de realização. Mas, essa conta nem sempre é fácil como parece. A esperança nos faz sonhar e pode, até, transformar sonhos em realidade. Mas é preciso um pouco mais. A concretização dos sonhos depende de sorte, mas, sobretudo, de atitude. Por isso, mantenha seus sopros de esperança sempre em lugar seguro, porque, de uma hora para outra, eles podem transformar seus sonhos em realidade.

Desafios cotidianos

Tem dias em que algumas perguntas ficam martelando a cabeça e o coração e nos levam a reflexões que, normalmente, não fazemos. Pensar sobre o que nos leva adiante é um bom exemplo disso. O que será que me tira da cama todos os dias pela manhã, para além das respostas óbvias, como trabalho, escola, cuidar dos filhos? É claro que a motivação não é provocada por um único estímulo. Ocupamos novos espaços porque queremos mais que o direito básico à sobrevivência. Talvez os desafios cotidianos possam nos ajudar a responder.

Sentir-se desafiado é o que impede que fiquemos paralisados diante da vida. Tudo bem que, não saímos de casa pensando – hoje eu vou trabalhar porque estou me sentindo desafiado – Mas, é claro, que a real intenção é essa. Ganhar dinheiro, um desafio. Pagar as contas, outro desafio. Exercita-se, mais um desafio. Estes exemplos, dentre tantos outros, fazem parte do nosso dia a dia, mas, que, achamos por bem chamar por outros nomes. O que pode facilitar e amenizar o caminho até as futuras conquistas.

Nomear o que nos faz caminhar não é o mais importante, o essencial é saber que, seguir em frente, faz parte do desejo por algo novo e melhor, seja de forma consciente ou não. Essa teimosia em continuar seguindo, apesar das pedras no caminho, pode ter várias origens, mas, a maior delas, certamente, é a inquietude ancestral que nos impede de parar e aceitar a existência do impossível. Talvez seja essa energia que tenha nos trazido até aqui e que ainda nos levará a lugares inimagináveis.

Nestes dias onde viver se tornou o maior de todos os desafios, sobra pouco tempo para transformar os nossos sonhos em realidade e, assim, criar os nossos desafios particulares. Sobreviver é fundamental, mas, nada como tornar real uma ideia ou fazer acontecer aquele projeto que sempre pareceu inatingível. Esses desafios vão além do roteiro básico que nos mantém vivos. Somos muito mais do que engrenagens que precisam de água, alimento e ar para sobreviver, reproduzir e morrer. Afinal, o essencial, por vezes, não é o suficiente.

A nossa principal característica, talvez seja a capacidade de transformar sonhos em realidade. Não há sonho que não nos desafie, assim como não há realização sem tenhamos sido desafiados em algum momento. Desafios conectam o pensamento à ação, a dúvida à certeza e o desejo à realização. Reparem no movimento que essas palavras trazem ao serem lidas. Assim é com a vida. Entre a intenção e conquista é preciso compreender que, independente de toda e qualquer dificuldade, necessitamos de um único estímulo que nos leve aonde sonhamos chegar. Nada é mais desafiador do que ser grato por todas as conquistas que nasceram de uma ousadia chamada desafio.

O sentimento mais cobiçado do mercado

            Amores vêm e vão. Todos sabemos que o ato de amar pode significar tudo, menos a privação da liberdade. Mas, se isso não é nenhum segredo, por que razão cometemos o mesmo erro repetidas vezes? Por que tentamos, a qualquer custo, sustentar relacionamentos em ruínas? Vai saber, mas tenho cá minhas dúvidas se, o que nos mantem presos a essas relações, é o amor ao outro ou o simples desejo de manter guardado no peito, o sentimento mais cobiçado do mercado.

            O amor é inebriante, fato. E isso faz com que o simples contato com ele, provoque tantas reações inesperadas e incomuns, que levam a nocaute praticamente todas as criaturas que cruzam o seu caminho. O que, olhando de forma isenta, parece um tanto assustador imaginar que um único sentimento é capaz de alterações tão profundas. Mas, como ficar isento diante de algo que mais parece um tsunami? Quando acreditamos estar longe de seu alcance, ele chega, sem qualquer aviso prévio, e nos arrebata sem dar chance de defesa.

            O amor, em si, é único. Amamos e ponto. Mas, é claro que há muitas nuances na maneira como expressamos esse sentimento. Intensos, suaves, insanos, divertidos, descontrolados… Ou tudo isso ao mesmo tempo, variando de acordo com o gosto e temperamento do freguês. Os objetos do amor mudam ao longo da vida. Mais para alguns, menos para outros, mas, em geral, o amor sempre se apresenta. E adoramos quando isso acontece, mesmo sem saber para onde isso irá nos levar.

           Esse sentimento que os poetas pintaram com as tintas de romantismo, não passa de reações químicas fortíssimas que dominam o nosso sistema nervoso, segundo a ciência. O que, trocando em miúdos, uma vez apaixonado, nosso cérebro altera tudo ao seu alcance. O que nos deixa emocionalmente alterados, também provoca mudanças fisiológicas. Esse sentimento é químico, é biológico e pode provocar dependência. O amor é profundamente cerebral, mas não revelem isso ao coração, ele pode não aguentar.

         É desafiador tentar racionalizar algo que é, essencialmente, sentimento. Mas, não há como não se perguntar, diante desse cenário, se o que nos faz falta é amar alguém ou se, o que queremos, de fato, é ter a oportunidade de sermos atropelados por essa força da natureza que resolvemos chamar de amor? Pode parecer um tanto confuso, e é. Amar não é simples, o que não significa que precise ser complexo. Muitas vezes não sabemos lidar com ele, o que causa um certo pânico. E, possivelmente, essa seja a razão de cometermos sempre o mesmo equívoco – tentar ter controle sobre um sentimento que suporta amarras.

              O que faz com que nos percamos no meio desse caminho cheio de atalhos e curvas, é a dificuldade em enxergar que o amor é uma imagem espelhada, uma estrada que corre junto a um rio, dois corpos de mãos dadas. O amor precisa estar latente, precisa ser sentido, mesmo quando não há alguém para fazer o papel da pessoa amada. O amor é uma ponte permanente, sempre pronta a realizar novas conexões e, mesmo que isso não ocorra, essa ponte estará ali para nos mostrar que, independente de sua mágica, o amor é sentimento que se constrói livremente de dentro para fora. Nunca ao contrário.

Um universo de possibilidades

            Como será que criamos as nossas preferências, nossos gostos e prazeres? E, por que, achamos melhor o verde e não o amarelo? É claro que, muito do que somos deve-se a quantidade de informações sensoriais que tivemos vida afora. Quanto mais experimentamos, maiores as nossas chances de escolha, o que nos torna mais abertos às oportunidades que o mundo pode nos oferecer, certo? Nem sempre… Nem sempre. Muitas pessoas preferem fazer escolhas precoces que, infelizmente, deixam de fora um universo de possibilidades que a vida tem para nos mostrar.

            Quem de nós nunca afirmou, categoricamente, não gostar de tal estilo musical, uma determinada festa ou local onde, supostamente, não se sentiria à vontade? É claro que todas essas reações podem ser genuínas e, de fato, o contato com determinadas situações possa causar desconforto. Mas, sem medo de exagerar, percebo que na maioria das vezes, nos negamos a oportunidade de experimentar o novo, por uma única e simples razão – a novidade nem sempre é confortável.

          E, talvez, a sua maior importância seja a sua imprevisibilidade, pois não nos permite adivinhar os próximos passos, criar raízes ou acomodar-se diante daquilo que acreditamos ser nosso por direito. Sabemos que é difícil estar, o tempo todo, em busca do novo, mas, não podemos esquecer que é para lá de saudável, sentir aquele frio na barriga, quando nos deparamos com algo que, ainda, não conhecemos. É f ato que cada um de nós lida com a novidade de forma muito particular, o que justifica, em parte, a nossa resistência.

          Mas, o que provoca um certo espanto, é perceber que, cada vez mais, renunciamos a novas experiências, não por serem difíceis, mas, sim, por medo ou preguiça. A tão falada zona de conforto pode ser, neste caso específico, a grande responsável pela paralisia que nos impede de viver e aproveitar novas pessoas, lugares, trilhas sonoras, livros, comidas e profissões. Estar seguro sobre os próprios interesses, não nos impede de vivenciar o que é desconhecido. Agora, acreditar que nada pode superar o prazer de uma experiência repetida incontáveis vezes, é, sem dúvida, fechar portas e janelas para um admirável mundo novo.

         Portanto, quando estiver diante do desconhecido, tenha medo, mas não se deixe paralisar. Escolher o caminho imediato do “não gosto” ou “não quero, é a parte fácil. Aceitar o desafio de seguir em frente, mesmo sobre pernas trêmulas, pode nos conduzir a momentos memoráveis e insubstituíveis. Pense nisso.

Vida de criança

            A vida adulta requer muitas responsabilidades, correria, dificuldades e um bom número de frustrações. Até aí nenhuma novidade. Somos testados em níveis inimagináveis praticamente todos os dias, o que nos leva a criar cascas protetoras que, à medida que o tempo passa, enrijecem e aumentam proporcionalmente ao número de pauladas que a vida nos reserva. Mas isso não é privilégio dos adultos. Os pequenos também estão a mercê dos humores do mundo, apesar das nossas tentativas de suavizar a estrada. Mas, o que a realidade nos mostra é que vida de criança não é nada fácil.

            O tempo vai passando e a ideia de infância muda junto com o nosso corpo. Seios crescem, pelo aparecem, hormônios enlouquecem. Sinais que são usados para gritar ao mundo que não há mais lugar para a criança que fomos. Há uma pressa quase inexplicável em mudar de pele, em deixar para trás o sorriso estridente e o carinho explícito e sem moderações que só as crianças sabem expressar. Abrimos mão, tão precocemente, da nossa primeira fase exploratória, que mal temos tempo de perceber todas as estrelas que deixamos de alcançar.

            Para além da velocidade imutável do tempo, não se sabe por qual razão, resolvemos pular etapas nesse processo e desejar, cada vez mais cedo, que a tenra infância seja cada vez mais breve. Uma estranheza que só faz sentido na fase mais tensa e transitória de nossas vidas – a adolescência. Mas, como essa fase da vida é pródiga em equívocos, levaremos muito tempo nos lamentando por ter desejado, um dia, deixar de ser criança.

            Porém, a infância não é conceito uniforme e compartilhado por todos. Ser criança nem sempre é uma dádiva. Durante muito tempo e, infelizmente, ainda hoje, crianças não tinham direito a sua infância. Famílias eram numerosas não porque isso significava um símbolo de amor e união. Pais precisavam de mão de obra e, seus filhos, eram esse braço forte. Nesses casos, a infância jamais foi páreo para a necessidade de sobrevivência. O amor que costura as relações familiares é um acontecimento recente, o que, talvez explique, a diferença no olhar que cada um de nós tem sobre o que é ser criança.

        Fome. Miséria. Guerra. Dinheiro. Violência. Sentinelas das desigualdades humanas, responsáveis por confiscar o direito mais fundamental de todos nós – a infância. Nossas crianças caem como fantoches diante de muitas injustiças para as quais não têm a menor chance de resistência. Como garantir às crianças, o direito a própria infância? É preciso se apropriar do amor. Entendendo que, apesar das dificuldades óbvias que irão nos acompanhar vida afora, garantir as delícias da infância, vai permitir que os adultos de hoje, de ontem e de sempre, tenham consigo o direito de sonhar e que jamais possam se envergonhar de demonstrar verdade, carinho e amor livres de preconceitos, como só as crianças sabem fazer.