Como lutar contra o que não tem nome?

            É difícil elaborar respostas com alguma racionalidade quando estamos face a face com o horror. Tipo aquelas situações em que coisas terríveis acontecem e não se pode, simplesmente, fechar o livro ou desligar a TV. Os últimos tempos tem trazido à tona um horror tão denso que não há como não sentir os seus efeitos, por mais insensível que se possa ser. Há muito vivemos sob a sombra desse medo tão poderoso e onipresente, que sequer somos capazes de nomea-lo. Como lutar contra o que não tem nome?

            Vivemos em uma escalada crescente de horror que se apresenta diferente a cada dia. Ora dissimulado, ora extravagante, mas sempre presente. E essa presença constante faz com que seja quase impossível detectar qual é a sua origem e muito menos, qual é o seu alvo. O que faz com que, no fim das contas, sejamos todos afetados por todas as expressões desse permanente estado de terror que se abateu sobre todos nós.

            Para entender essa aparente apatia coletiva, talvez seja preciso voltar no tempo. Imagine se, todas as vezes em que sentimos medo na infância, nossos pais não estivessem lá para nos ensinar que éramos mais fortes que qualquer ameaça. Imaginou? Agora, o que seria se, eles, nossos responsáveis, ao invés de nos protegerem, decidissem nos abandonar a nossa própria sorte? Tipo um se vira nos trinta onde o prêmio final seria muita dor e trauma. É exatamente assim que me sinto agora.

            Estamos à deriva. Não há ninguém para amparar os nossos medos, ao contrário, somos vítimas de um horror causado por quem deveria nos proteger. O presidente não se responsabiliza por seu povo, governantes roubam a chance de sobrevivência das pessoas, juízes condenam inocentes, a ganância incendeia a natureza, crianças têm a sua infância roubada. Crianças são violadas por quem as deveria proteger.  Crianças sofrem violências inimagináveis. O horror nos envolve como arame farpado.

            Essa escalada de desamparo nos transforma em criaturas solitárias que não sabem como reagir diante do medo. Mas, para todo mal, há cura. Até mesmo as crianças sabem que as ameaças tornam-se menores quando elas não estão sozinhas. Quando estamos em bandos, aumentamos a nossa força contra toda e qualquer ameaça. Talvez seja a hora de pararmos de sofrer sozinhos. Não faz sentido individualizar tristezas que são coletivas. A pandemia nos obrigou a carregar sozinhos, fardos que o isolamento tornou pesados demais para serem carregados individualmente.

            É hora de compartilharmos nossas dores e dividirmos nossos temores. Lembre-se que o poder dos valentões não vem de sua força, mas de sua capacidade de imprimir o medo. O poder daqueles que nos aprisionam a partir do horror, vem do medo que eles podem causar. Mas, um medo dividido é um medo enfraquecido. Dar as mãos, nesse momento, é criar forças para mostrar àqueles que nos fazem sofrer, que a era do horror está com seus dias contados.

Texto que trata sobre o nada

            Retomar um hábito que me acompanha há quase quatro anos é um prazer e, ao mesmo tempo, um pedido de desculpas que faço aos textos e as palavras. Não foi minha intenção abandona-los por tanto tempo. Mentira. Foi, sim. Lidar com pandemia, medo, insegurança, aulas virtualizadas, desafios em novas mídias e mais um monte de outras coisas, foram as principais causas desse afastamento que, confesso, foi bastante produtivo. Desculpas devidamente registradas, vamos seguir em frente nesse texto que trata sobre o nada.

           Como assim, um texto que trata sobre o nada? Num primeiro momento pode parecer que cá estamos para não dizer coisa alguma, mas não se enganem, falar sobre o nada é muito mais complexo do que parece. Duvida? Pare aí por cinco minutos e olhe ao seu redor. Tirando as tarefas domésticas óbvias, será possível perceber que estamos rodeados de nada. Nada para ver na TV, nada gostoso para comer, nada para fazer, nada para pensar… Em algum momento dos nossos longos dias pandêmicos, o nada será o nosso parceiro mais frequente.

            Não que isto seja algo ruim. Longe disso. Não ter nada para fazer, em muitos momentos, é tudo o que se quer. O nada nos ajuda a organizar pensamentos, a ver o mundo sob novas perspectivas, a respirar melhor ou a dar uma checada nos cabelos brancos que insistem em brotar pelo seu corpo. Passamos muito tempo desejando tudo e todos. E nessa obsessão pelo tudo, deixamos de enxergar uma porção de nuances do nosso cotidiano que só podem ser captadas quando nos conectamos com o nada.

            Pode parecer uma viagem meio louca ler sobre o nada, mas, reparem, esses tempos pandêmicos trouxeram muitos conflitos inesperados para as nossas vidas, mas, o maior deles foi, sem dúvida, a obrigatoriedade de convivermos com nós mesmos por tanto tempo. Ficamos presos, compulsoriamente, a rotinas insanas que demandaram de nós uma atenção exclusiva. O que, trocando em miúdos, significa que cada um de nós tornou-se o único responsável por tarefas que, na pré pandemia, seriam facilmente compartilhadas.

            Esse isolamento não restringiu apenas a nossa livre circulação. Ele também nos forçou a retomarmos comportamentos há muito esquecidos. O tempo entrou em modo desacelerado e isso permitiu que olhássemos com mais cuidado para tudo, inclusive para nós mesmos. E isso só foi possível, porque a urgência em ter tudo foi substituída pela complexidade autoexplicativa do nada. Explico. Quando ganhar as ruas era um direito nosso, a correria nos impedia de contemplar os detalhes do cotidiano, como reparar no crescimento de uma criança ou a beleza de um pôr do sol.

              Porém, quando nos vimos diante do imponderável e que, de uma hora para outra, isso poderia afetar a nossa existência, freamos a velocidade das nossas rotinas e passamos a enxergar que nada, absolutamente nada, é tão importante quanto parecia ser. E, para além disso, nos reconectarmos conosco e com os nossos. Os momentos em contato com o nada, permitiram que enxergássemos tudo o que realmente vale a pena e que,  sem aviso prévio, tudo que temos ou julgamos precioso, pode se transformar no mais absoluto nada.

Influências à parte

            Quem disser que nunca foi influenciado por alguém, em algum momento da vida, deve fazer um exame rápido de consciência. Esse fenômeno é tão poderoso que, mesmo quando não percebemos, lá estamos nós seguindo, assistindo, comentando e replicando informações que nos foram passadas por aqueles que falam com as massas. Sim, fazemos parte dessa multidão ávida por saber mais sobre o que fulano acha, veste ou diz. Influências à parte, o que queremos mesmo é um influenciador para chamar de nosso.

            Mas, o que é intrigante de fato, não é somente a forma como moldamos a nossa maneira de ver o mundo e, sim, quem conduz a construção desse olhar. Se pensarmos em personalidades que fazem ou fizeram a diferença na nossa forma de interagir com a realidade, não daremos conta do número de nomes dessa lista. O que significa dizer que, apesar das discordâncias, passamos pelas mãos de muitos influenciadores vida afora.

            Não acredita? Então faça uma busca em suas fotos e memórias. Lá você irá encontrar várias referências, que vão desde a sua forma de vestir, até as suas músicas preferidas. É curioso perceber que, independente da época, continuamos sendo como telas prontas para receberem tintas com diferentes nuances e que são capazes de criar formas que podem ser alteradas o tempo todo. Renovando, com frequência, a forma como nos mostramos ao mundo.

            Uma vez que, as influências são nossas parceiras constantes desde que esse mundo é mundo, por qual razão passamos a reclamar da influência daqueles quem nos influenciam? Resposta nada fácil. As coisas mudaram e ressignificaram o poder dos influenciadores. Os livros, os líderes políticos ou religiosos, o rádio, o cinema, a televisão, a internet… Todos são responsáveis por escreverem a história e o comportamento. O que nos leva a crer que não seríamos quem somos, não fosse a forma como somos influenciados através dos tempos.

        Mas, é claro que, apesar do apelo, é necessário que exista um filtro individual que nos diga até onde podemos ser influenciados, sem que nos tornemos rascunhos mal feitos de influenciadores. A internet renomeou os ídolos. Muitos são conhecidos nos dias de hoje como blogueiros ou digital influencers… Mais do mesmo. De fato, continuamos a mirar figuras populares em seus nichos e que continuam sendo capazes de reunir milhões de fãs, que agora chamamos de seguidores.

      As mídias sociais acolheram esses influenciadores modernos, que seguem nos entretendo, passando a falsa impressão de que ali, tudo é assombrosamente espontâneo. Não, não é. E tudo bem se continuarmos a seguir as nossas deliciosas ilusões, desde que jamais nos esqueçamos que, apesar das influências, somos responsáveis pela manutenção da nossa preciosa originalidade.

O horror se faz presente

O horror está no ar e não se sente envergonhado de se fazer presente. Para onde quer que olhemos, lá está ele, dando as caras. Vivemos, há meses, sem conhecer um dia sequer, com as bençãos da paz. É como se estivéssemos obrigados a renunciar ao básico necessário para viver. Aquilo que acreditamos ser fundamental e que costumávamos chamar de amor. A frequência com que somos golpeados, cotidianamente, por toda sorte de maldades e absurdos é tão grande, que nos anestesia tão intensamente, que não conseguimos mais diferenciar a impotência, da apatia.

As informações sobre esse mundo bizarro, chegam em tempo real, carregadas de um desassossego que não nos permite tomar fôlego. Estamos, há tempos, soterrados por péssimas notícias que, é claro, não gostaríamos de ver ou ouvir. Mas, vivemos em um tempo onde a informação, por mais dolorosa que seja, é necessária. Nunca foi tão importante sabermos o tamanho do buraco onde fomos colocados. Nunca foi tão urgente conhecermos aquilo que nos fragiliza. Nunca foi tão necessário identificar quem nos faz mal, para que, enfim, sejamos capazes de reagir contra esse mal que teima em nos dominar.

É como se o pesadelo provocado por uma pandemia, não fosse suficientemente doloroso e, a ele, fossem agregados novos elementos igualmente terríveis. O que acaba por criar uma fonte interminável de dor e desespero. O que, talvez, cause mais espanto em toda essa situação inominável, é a nossa incapacidade de lidar com ela. Não fazemos a menor ideia de quando ou como esse horror, e seus efeitos colaterais, chegarão ao fim. Caminhamos um dia após o outro, de olhos vendados sem saber muito bem para onde ir e, muito menos, como chegaremos lá.

É bem difícil pensar em mensagens otimistas que possam suavizar essa escrita. Na verdade, não é difícil, é impossível criar mensagens repletas de uma felicidade fluida e falsa. E, a última coisa que precisamos agora, é de falsas verdades. Está difícil? Muito. É nauseante viver em uma realidade onde dados sobre a morte de milhares são manipulados, onde um homem negro é asfixiado pelo joelho de um policial branco, é aterrador viver em um mundo onde uma criança negra, de cinco anos, é sentenciada à morte pela perversidade da patroa de sua mãe, apenas por ter sentido falta daquela a quem ele mais amava.

Essas são, apenas algumas amostras de um horror que parece não encontrar limites. Um horror que só vai encontrar seu fim, no instante em que transformarmos a nossa apatia e o nosso cansaço em força. Não é possível viver sob a lâmina do medo por tanto tempo. É hora de gritar a plenos pulmões que viver com medo não é viver, é estar aprisionado. E, isso, ninguém tolera mais.

P. S.: Esse texto é dedicado ao menino Miguel e sua mãe, Mirtes Renata. Meus sentimentos…

Reticências…

Que tempos são esses em que precisamos defender o óbvio? Nem Bertold Brecht conseguiria responder a essa pergunta se ainda estivesse entre nós. Estamos criando um hábito muito perigoso, nesses dias em que não encontramos respostas para tudo isso que vivemos. Por conta disso, nomeamos como loucura o que, na verdade, é desvio de caráter. E isso não é justo. Essa aparente insanidade coletiva nos impede de bater o martelo sobre muitas coisas. É como se, de uma hora para outra, as urgências perdessem o lugar na nossa escala de importância, as certezas dessem espaço para o imprevisível e as reticências assumissem o protagonismo em nossas vidas.

Esse estado de apatia compartilhada, certamente não é algo desejado por nenhum de nós. É algo muito bem pensado por aqueles que se favorecem da nossa falta de reação diante de um sem número de estímulos que, em sua maioria, só servem para minar a nossa compreensão sobre os fatos que nos cercam. Os efeitos dessa letargia são vários e nos afetam de formas distintas, mas, quase sempre, conseguem promover uma grande confusão mental, que nos impede de compreender, de fato, os absurdos que confundem a nossa percepção sobre o certo e errado. O que nos paralisa entre a dúvida e a decisão. Como saber para onde ir, se não conhecemos o nosso ponto de partida?

Essa percepção toma corpo em momentos em que a verdade é ameaçada pela incerteza de forma tão sútil e sorrateira, que impede posicionamentos que assumiríamos facilmente, em um passado não tão distante. Não conseguir deliberar sobre o que antes era simples, é fruto desse caos que nos governa, onde pouca coisa está clara, exceto o desejo de alguns em nos manter alheios, sem a nossa fundamental capacidade de tomar as nossas próximas decisões.

É estranho abordar as reticências sob este contexto. Essas longas pausas, por quem tenho enorme apreço, ajudam a organizar pensamentos e traçar estratégias para continuar uma caminhada. Em condições normais, temos o controle sobre quando e de que forma, devemos parar, respirar, entender para, então, seguir em frente. Porém, a realidade nos roubou, momentaneamente, o domínio sobre algumas de nossas escolhas.

Mas, o que parece uma derrota é, na verdade, uma grande oportunidade. Usar esse tempo em suspensão, para enxergar além das aparências, pode nos ajudar a ressignificar valores, amizades, posicionamentos e prioridades. Isso talvez facilite a nossa caminhada em direção a esse novo mundo, que se apresenta misterioso e cheio de reticências inesperadas.

E daí?

            Os dias avançam de um jeito incomum, como se tivessem rompido o contrato do com tempo. Ora, avançam numa velocidade espantosa, ora arrastam-se perturbadoramente lentos. E, no meio desse limbo temporal, estamos todos nós, alternando momentos de euforia com tristeza, otimismo com desesperança e ingenuidade com dureza. É um período tão denso que nos impede, até, de perceber a passagem do tempo. Nossa, que forma triste de começar um texto. E daí que muitos morrem? E daí que há um vírus? E daí que o mundo mudou? E daí?… – Triste realidade onde há coragem para essas perguntas.

            Fomos capturados por um redemoinho de emoções, onde passamos os nossos dias entre a superfície e as profundezas, calejando os nossos corações diante de uma realidade insana que se abateu sobre todos nós. Fomos atingidos por um meteoro desconstruído, que abandonou o formato colossal e assumiu uma forma microscópica invisível, mas, com a mesma capacidade de deixar um rastro de destruição por onde passa. Mas, e daí? Pandemias que provocam mortes não chegam a ser uma novidade. – Outros tantos podem se perguntar, mas, eu me pergunto, quantas dessas catástrofes, você já viveu?

            É curioso ver muitas pessoas, quando confrontadas com dados frios e contundentes, negarem os fatos. Entendo que, para algumas, essa é uma forma de autoproteção, afinal, não é fácil absorver tantas desgraças em tão pouco tempo. Mas, para muitos outros, negar fatos incontestáveis, nada tem a ver com a dificuldade de assimilar a dor. Se, negam, minimizam ou desqualificam os dados, o fazem por puro cinismo e desrespeito com aqueles que, infelizmente, foram atingidos em cheio por essa catástrofe. Mas, esses números não param de crescer, muitos vão morrer. E daí, fazer o que? – …

        Esse tipo de depoimento nos insulta da forma mais odiosa possível. Essas expressões de desumanidade, pensadas friamente para nos adoecer a alma, devem ser combatidas com indignação, sim, mas, sobretudo, devem ser alvo do nosso desprezo e horror. Alguns portadores da indiferença e do ódio, destilam o seu rancor pelo próximo, pedindo que deixemos de ser essa minoria barulhenta que adora reclamar de tudo, que paremos de carregar mortos nas costas, que voltemos a sorrir e, a despeito de todo o sofrimento que nos devora, que sejamos leves… Até quando falaremos – e daí? – para todo esse horror?

            Os nossos tempos, certamente serão objeto de estudo nos anos que estão por vir. É difícil saber qual será o olhar que as futuras gerações terão sobre o que vivemos neste tempo presente. É complicado imaginar seus pensamentos sobre como fomos capazes de lidar com toda essa dor. Mas, mesmo que seja apenas um exercício de futurologia, sem nenhuma efetividade, há comportamentos que ficarão registrados para sempre. A história se encarregará de marcar os cínicos e perversos com uma legenda que expressará toda a sua desimportância. Assim, quando nossos descendentes se perguntarem quem foram, a resposta será simples – E daí? Esses insignificantes não merecem atenção.”

Não somos heróis

            E estes novos tempos, hein? Tempos que mais parecem um caldeirão de incertezas, repleto de perguntas que aguardam por respostas nada fáceis. Parece que tudo o que sabíamos, perdeu parte da importância, e isso colocou a todos em rota de colisão com as nossas frágeis convicções. Como sairemos dessa? A quem recorrer quando o mundo a nossa volta parece ter perdido o sentido? Aos heróis, claro! Será?!

            De vez em quando, todos nós, adoramos escolher um herói para chamar de nosso. Esse comportamento tão peculiar, nos faz alçar um ser humano, igualzinho a nós, à condição de superioridade, por vezes, bastante questionável. Mas, se pensarmos nas carências crônicas que nos acompanham desde sempre, talvez seja possível explicar o porquê isso acontece. Somos um povo que se acostumou, da pior forma, a viver um dia de cada vez, com toda sorte de dificuldades batendo à nossa porta.

            Porém, apesar das nossas mazelas, somos um povo forte e diverso, que consegue encontrar pontos de encontro entre tantas diferenças. Então, no meio dessa confusão generalizada que nos forma, fica muito difícil se enxergar em um lugar destaque, especialmente aqueles que nunca tiveram contato com nenhum tipo de privilégio. Por essa razão, quando alguém consegue, enfim, romper essa barreira, torna-se um fortíssimo candidato ao posto de herói. Mas, o que isso significa?

            Várias são as definições possíveis, mas, de modo geral, heróis são aqueles capazes de realizar trabalhos épicos, são plenos de virtudes e de uma coragem à toda prova. Mas, isso não passa de um arquétipo, uma descrição de um personagem modelo e perfeito, incapaz de incorrer nos erros de meros mortais. Esse é o desenho de um perfil bastante conveniente em tempos onde a desesperança parece dar o tom aos nossos dias.

            Mas, sinto dizer que não, não somos heróis. Precisamos enxergar as coisas por uma outra perspectiva. Toda figura que é promovida à condição de ser superior, dela se torna prisioneira. Seja por vontade própria ou por uma desconfortável imposição social. Professores, médicos, enfermeiros, técnicos da área de saúde, profissionais de limpeza, policiais e cientistas… São exemplos de essencialidade, não de heróis. Não é justo rotular, de uma hora para outra, os trabalhadores que sempre foram maltratados e desconsiderados pela sociedade, à condição de super-heróis. Afinal, eles continuam desempenhando as suas funções, como sempre fizeram. Funções que a maioria não gostaria ou não poderia desempenhar.

            Todos esses profissionais, de forma geral sofrem, e muito, por terem escolhido tais ofícios. E todos nós sempre soubemos disso. Mas, ao invés de brigarmos coletivamente para que as suas profissões sejam respeitadas e valorizadas, o que fazemos? Escolhemos o caminho mais fácil e passamos a chama-los de… heróis! E, sabem o porquê? Heróis precisam seguir sempre em frente, realizando seus feitos épicos, sem direito a sofrimento, dor, felicidade ou remuneração. Reparem como um super clichê pode, quase sempre, transformar trabalhadores sofridos e mal pagos, em figuras acima do bem e do mal.

            Que tal se, substituíssemos os arquétipos por realidade? Chega desse papo de super humanos. Temos, sim, profissionais que merecem todo o nosso respeito, reconhecimento, orgulho e aplauso, mas, ainda assim, isso não os transforma em heróis e por uma única razão: muito acima dos profissionais, existem as pessoas. Pessoas que choram, adoecem, sangram e podem até morrer no exercício de suas funções. E isso, para mim, tem outro nome e não é heroísmo, é a maior e melhor expressão daquilo que conhecemos como humanidade.

Do lado de dentro

Fique em casa. Esta é a frase do momento e não é à toa. Ficar em casa em tempos de pandemia, significa muito para quem pode ficar, assim como, para quem precisa sair. Mas, para além do óbvio, ficar em casa permite, não apenas, salvar vidas, mas, também, frear o movimento com o qual estávamos habituados. Movimento que sempre indicou portas de saída, mas, esqueceu de sinalizar as áreas de descanso. Estar em casa compulsoriamente, resgatou uma nova perspectiva para a nossa existência. Estamos do lado de dentro, vislumbrando a vida passar em outra velocidade e que, pouco a pouco, nos faz apagar da memória, alguns detalhes de como éramos antes disso tudo acontecer.

Enxergar a realidade através de portais, não substitui, de forma alguma, a sensação única que é vivenciar in loco e sem amarras, as experiências que a vida tem para nos mostrar. Mas, por mais que nos desagrade, é preciso entender que este internato repentino, nos faz rever conceitos, redimensionar escolhas e conhecer as pessoas que nos tornamos, mas que, ainda, não tivemos tempo de conviver tão intensamente. Para muitos de nós, o isolamento trouxe uma grata e necessária surpresa: a possibilidade da auto convivência.

Pode parecer um tanto estranho, mas, pensem comigo, quantas vezes tivemos a chance de não precisarmos agradar a ninguém, além de nós mesmos? Quantas vezes tivemos a oportunidade de não ter que dizer sim, quando tudo o que queríamos era, na verdade, dizer não? Em quais outros momentos de sua vida adulta, foi possível parar e admirar a passagem do tempo, sem medo ou culpa? Há quanto tempo não desfrutávamos da nossa própria companhia de forma tão simples e descompromissada? Responder a estas perguntas pode ser um bom passatempo em época de quarentena…

Passamos tempo demais apostando uma corrida contra oponentes criados pelo estilo de vida que escolhemos viver. Acreditamos que, se não for preciso correr, é porque algo não está indo bem. Nos tornamos a única espécie que renuncia ao descanso de forma voluntária. E fazemos isso com tanta habilidade, que passamos a acreditar que o repouso é a recompensa dos fracos. Talvez devêssemos aprender mais com os animais que sabem muito melhor que nós que, a velocidade é uma necessidade eventual e não, uma regra. Correr demais é deixar de enxergar a beleza que mora nos detalhes.

Seria mais fácil baixar a guarda e deixar que o mundo nos abraçasse com o seu ritmo natural, porém, passamos tanto tempo correndo em disparada, que sequer lembramos, como é ser dono do nosso próprio tempo. Por isso, pare, contemple, respire e se reconheça. Retire as máscaras, abandone os personagens e aceite suas virtudes e imperfeições. É difícil dizer se teremos mais uma chance de poder mostrar ao mundo, mesmo sem sair de casa, que somos feitos de cabelos despenteados, de cara lavada, de corpos naturalmente felizes e cobertos por roupas confortáveis. Não deixe passar a oportunidade de mostrar ao mundo que a melhor matéria-prima da humanidade é, e sempre foi, a nossa simplicidade.

Quarentena

Quarentena. Distância. Isolamento. A forma como vamos nomear esse período da nossa história, de fato, pouco importa. Afinal, de que adiantará nomear um fato, se não tentarmos entender o seu significado? O que temos de concreto, até agora, é que uma realidade, totalmente inesperada, nos apartou do mundo com o qual estávamos acostumados. Alterando a ordem das coisas que faziam parte do nosso cotidiano, tão cheio de regras e programações. Lidamos com uma novidade intragável que chegou para mostrar a todos que não temos controle sobre absolutamente nada.

É bem verdade que já nascemos com planos traçados, fomos criados para buscar conquistas e assumir o controle de nossas vidas. E, por conta disso, passamos a nossa existência tratando uma ilusão, como uma verdade absoluta. Acreditamos que tudo passa pelo nosso desejo e, quando algo de errado acontece, assumimos a culpa pela nossa desatenção. Controle, controle e controle. Não fomos programados para duvidar desse suposto dom que nos permite domar os nossos destinos. Até que, quando menos esperamos, o destino encarrega-se de nos mostrar quem manda…

Estamos diante de algo que nos afeta coletivamente. Mas, como agir de forma coletiva, se passamos anos acreditando que só dependemos de nós mesmos para chegar onde queremos chegar? Diante deste cenário surreal, apenas uma opção parece ser razoável: abandonar nossos egoísmos injustificáveis. Não, não é fácil abrir mão, de uma hora para outra, de toda aquela farsa bem montada sobre como somos únicos e especiais.

Essa realidade, que engoliu a todos, nos obriga a aprender, da pior forma, que sempre estivemos errados. Vivemos um pesadelo para o qual não há saída individual possível e, negar esse fato, só nos trará angústia, desesperança e dor. Essa realidade bizarra impõe, de forma impiedosa, que mudemos o nosso olhar, as nossas crenças e hábitos e deixa claro que, dia após dia, não terá misericórdia daqueles que tripudiarem de sua força. Isso pode parecer exagero para alguns, afinal, vivemos um período onde a incerteza é a palavra de ordem, logo, se nada sabemos, não há motivo para pânico, certo? As respostas estão nos fatos.

O confinamento não está na lista de desejos de ninguém. Mas, viver bem está. O distanciamento jamais foi uma opção de felicidade, mas, a liberdade, sim. A privação de afetos nunca esteve em nossos planos, assim como qualquer coisa que nos mantivesse afastados de tudo aquilo nos é precioso. Não sabemos lidar com esse turbilhão de frustrações que se abateu nobre nós. Simplesmente, não sabemos. Nem nos sonhos mais nebulosos, seria possível conceber que, algum dia, seríamos privados dos olhares cúmplices, do toque acolhedor, do cheiro da intimidade e da gargalhada que alegra a alma.

As nossas ausências são importantes, mas, nesse momento, é fundamental perceber que fomos reconectados a partir da dor e que o nosso distanciamento é a única ponte que nos levará de volta aos nossos afetos. Levaremos tempo para entender os efeitos colaterais provocados por esse pandemônio, mas, o tempo, é justamente o que nos falta neste momento. O que fazer, então? Transformar, com coragem, as nossas fraquezas em fortalezas. Abdicando da nossa ilusória autossuficiência e abraçando a potência da coletividade. Talvez esta seja a nossa grande e única chance de chegar ao fim desse longo, doloroso processo, acreditando que, um dia, muito em breve, tudo isso há de passar.

Isolamento e empatia

Há momentos na vida em que estamos diante de uma série de situações com as quais não sabemos lidar. Situações difíceis onde somos obrigados a tomar decisões que, normalmente, não são nada fáceis. Quase sempre erramos? Sim, mas, são essas horas complicadas que nos ensinam a enxergar a vida por diversos prismas. E, quando isso acontece, poucas atitudes são tão sensatas quanto parar, pensar e tentar entender que, diante de algo grandioso demais, é preciso recuar e aceitar que isolamento e empatia podem ser grandes parceiros.

Vivemos tempos muitos estranhos, não é de hoje. Os últimos anos provocaram uma verdadeira avalanche de acontecimentos difíceis de digerir, mas, talvez, nada tenha sido tão emblemático quanto o que vivemos agora. Tateamos no escuro em busca de uma fresta que nos guie até a luz de um entendimento possível, mas, ao invés disso, nos aprofundamos ainda mais numa espécie de escuridão sorrateira e difícil de vencer. Em um ano que começou com ameaças de guerra, nos deparamos agora, com uma batalha as avessas.

Lutamos contra um inimigo de baixa letalidade, porém, capaz de estragos imensos. O mundo está de ponta a cabeça, seja por necessidade ou por alarde. Não sabemos exatamente como agir, mas, de uma coisa ninguém duvida: É preciso fazer alguma coisa. E logo. Corremos riscos de adoecer, apesar de sabermos que é possível evitar um cenário de sofrimento, que ameaça se formar bem diante de nossos olhos. Como evitar o pior? Simples, colocando-se em reclusão voluntária é uma boa pedida. Coisa que, infelizmente, não é tão simples quanto parece ser.

Uma decisão que, para muitos, é bastante fácil, para outros, pode exigir enormes sacrifícios. A razão para isso, inevitavelmente, nos leva a perceber que a questão vai muito além da tentativa de se manter saudável. Recuar para uma saída estratégica afeta brios, orgulhos, ética e, sobretudo, o conceito que cada um de nós tem sobre coletividade. Até que ponto estamos dispostos a renunciar às nossas liberdades individuais, para assegurar o bem estar coletivo?

Reclusão não trata, apenas, da retirada de pessoas de seus espaços habituais. Sair de cena pode se tornar uma decisão dificílima quando conseguimos enxergar, somente, o nosso próprio umbigo. Nosso inimigo é desconhecido, mas, nem tão perigoso assim, se entendermos o que é preciso ser feito para que esta crise não se transforme em catástrofe. O que inclui o controle do pânico. Não há nada pior que desinformação e medo caminhando de mãos dadas. O efeito dessa união é o motor que nos leva a desabastecer mercados, buscar terapias alternativas e ineficazes e ignorar a importância de quem está do nosso lado, mesmo que sejam desconhecidos.

Nada pode ser mais nocivo, especialmente em períodos difíceis, do que a incapacidade de perceber a necessidade do outro. Em momentos sombrios e confusos como estes, a terapia mais eficaz, ainda é, o exercício da empatia. Seu poder é tão grande, que não há pandemia capaz de suportar o poder de cura por trás do cuidado com o próximo. Mesmo que esse cuidado inclua sair de cena. Quando o todo percebe a sua força coletiva, não há moléstia que perdure para sempre.