O inesperado trazendo surpresas

         Se pararmos para observar a forma como vivemos a vida, chegaremos a conclusão de que fomos programados para programar praticamente tudo o que nos cerca. Mas, apesar do esforço feito para seguirmos um roteiro prévio e, por vezes engessado, desejamos quase em sigilo, que algo novo apareça repentinamente e mude os nossos rumos. Não importa o momento que vivemos, se o novo for capaz de mudar a nossa rotina, mesmo que de forma discreta, será muito bem-vindo. Vivemos negando, mas nada é mais esperado por nós, do que o inesperado trazendo surpresas.

         Porém, ser surpreendido não é uma tarefa fácil e, para muitos, fugir de uma agenda pré-determinada é quase um pesadelo. Mas, gostando ou não, é impossível negar que ficar surpreso pode nos proporcionar uma mudança de perspectiva bem interessante. Surpresas criam um inusitado jogo de cena onde, de um lado, a ansiedade domina o autor da ação e do outro, o imprevisível comanda todo o resto. Talvez seja este jogo duplo o que torna tão fascinante o ato de se surpreender.

       Surpresas não escolhem dia, hora e nem local. E é, justamente nessa falta de limites, onde ela sorrateiramente nos alcança e surpreende. Surpresas não têm compromisso com planejamento, talvez por isso, sejam capazes de ligar pontos, restabelecer vínculos antigos ou, simplesmente, criar novas conexões de onde menos esperamos. O que deixa a maioria de nós com aquela cara de bobo, própria de quem não sabe como agir quando perde as rédeas da situação. Ainda bem que o acaso existe e se disfarça de surpresa para nos mostrar o quão ilusório é, acreditar que somos senhores de nossos destinos.

          Poucas coisas substituem a euforia provocada por uma boa notícia fora de hora, por uma sensação que nunca se imaginou sentir ou por um sonho realizado sem tenha sido maturando durante longos anos. Surpresas nem sempre são prazerosas ou excitantes, mas são, sempre, transformadoras. Relacionamentos que acabam sem razão. Paixões que nascem de olhares despretensiosos. Transformar o sonho da escrita em sessões de autógrafos mundo afora… Tudo é transformador, tudo é reflexo de deliciosas surpresas que a vida nos dá.

      Acaso, destino, ou seja lá o nome que se queira dar, todos têm em comum, aquilo que os transforma em mistério – a capacidade de ser surpreendente. A felicidade de um sim, a ansiedade por quem demora a chegar ou a dor em descobrir algo que lhe fará sofrer… tudo isso perderia a importância se, algum dia, ignorássemos a ação do inesperado, impedindo que ele surpreendesse a nossa monótona programação diária. Ainda bem que é inútil lutar contra o que está por vir. Mas, o melhor de tudo, é ter a certeza de que, independentemente das nossas escolhas, é na surpresa que a vida se revela.

Conversas com os meus

            Na última semana, ao arrumar caixas antigas, me deparei com muitas referências de pessoas com quem compartilhei sonhos, dores, amores e esperança. Percebi que, à medida em que as fotos amareladas surgiam, novos fragmentos de memória pulavam, exibidos, diante de meus olhos, querendo mostrar que aquele momento era mais importante que todos os outros anteriores. E, sem me dar conta, passei horas em transe, em um interminável ciclo de conversas com os meus velhos eus.

            Sim, velhos. Apesar das imagens mostrarem uma juventude recheada de colágeno e de figurinos de gosto duvidoso, aquele garoto, adolescente magrelo, jovem rebelde e adulto esperançoso são, todos, velhas versões de mim. Versões que teimamos em deixar presas dentro de caixas, longe dos olhos alheios, longe das nossas lembranças. Estamos pré-programados para viver o hoje como se o amanhã não fosse chegar, deixando de lado, os registros daqueles que já habitaram nossas peles, mas, que, sabe-se lá o porquê, foram relegados ao um esquecimento consentido.

            Fotos antigas trazem informações para muito além das imagens. Olhar para aquele rosto de outros tempos, revela alguns dos pontos que marcaram as nossas trajetórias. O que dizer para aquele jovem emocionado no dia da sua formatura? O que será que pensava aquela criança sentada no chão da sala, comendo um pacote de biscoitos? Quais eram as expectativas dela ao rever as fotos do seu casamento? Difícil saber ao certo, mas as imagens de outrora são bem mais que simples recordações. Rever as imagens de nossos eus é, antes de tudo, reviver os antigos passos que nos trouxeram até aqui.

            Fazer uma imersão em nosso museu particular, traz uma gama de emoções que se alternam entre amor e ódio, esperança e frustração, euforia e tristeza. Visitar registros do passado, nos permite criar uma nova perspectiva sobre nós mesmos. Uma perspectiva que desafia nossas escolhas presentes e nos faz pensar em como as decisões tomadas por aquelas pessoas eternizadas em fotos amareladas, foram responsáveis por tudo aquilo que nos tornamos, para o bem ou não.

            Visitar nossas versões anteriores, ajuda a entender como a vida é dinâmica e como somos capazes de nos adaptar a situações que nunca imaginamos viver, até sermos postos à prova. Somos testados, resistimos e nos transformamos. Unimos o que já conhecíamos a novos detalhes e, assim, conhecemos um novo eu para chamar de nosso. Dessa forma, vamos tecendo uma grande colcha de retalhos que nos protege, desafia e impulsiona a seguir em frente, criando novas e melhores, versões de nós mesmos.

Viver é inevitável…

            Os dias vêm e vão. Transformam-se em semanas, meses, anos e décadas. Esse avanço irrefreável do tempo, impõe a todos, incontáveis barreiras que imprimem novos caminhos, escolhas e consequências, a uma velocidade difícil de alcançar. Por vezes, diante da impossibilidade de vencer o tempo, criamos moldes imprecisos que nos permitem algum encaixe, mesmo que isso provoque algum desconforto. Mas, apesar desses subterfúgios, é difícil burlar a vida por muito tempo e, em algum momento, ela irá nos mostrar que viver é inevitável.

                  Esse caminhar acelerado do tempo, estabelece diferentes formas de interação com o mundo. Alguns preferem viver sem colete de proteção, como se o amanhã não fosse chegar, enquanto outros pisam do freio e apertam seus cintos, na esperança de conseguir controlar o que não tem controle. E, há aqueles que tentam o caminho do meio entre o exagero ansioso e a austeridade segura. Mas, no fundo, pouco importa a forma escolhida, uma vez que a vida não faz consultas prévias. Se estamos acima deste solo e debaixo deste céu, é preciso aceitar que viver é mandatório.

                Tem gente que nasce, cresce, gera descendentes, envelhece e morre, sem, jamais, se dar conta se, isso era, ou não, viver. Completar o ciclo da vida com sucesso, não traz nenhuma garantia de uma vida, de fato, bem vivida. Em muitos momentos, ligamos o piloto automático que a tudo controla. Ele nos acorda, leva ao trabalho, paga as nossas contas, permite alguns momentos burocráticos de lazer, nos põe para dormir e traz a certeza de que, no dia seguinte, tudo será, exatamente, como no dia anterior. Isso é viver?

            A forma como decidimos levar a vida está, em grande medida, baseada nos hábitos que criamos. Hábitos que ora indicam os extremos, ora sinalizam o caminho do meio. Mas, independente disso, é preciso ir além dos meus ou dos seus hábitos. Eles são apenas reflexos da forma como enxergamos a vida e, cada um de nós a vê sob uma perspectiva. Afinal, a vida não é uma pintura onde todos conseguem enxergar a mesma paisagem. Nascemos com horizontes pré-programados diante de nós. Amplia-los é uma questão de escolha, de luta e de oportunidades.

           Perceber que viver é inevitável, já é um bom ponto de partida para uma mudança. É o que nos faz enxergar para além dos hábitos, das convenções e da opinião alheia. Ter noção da importância da vida, não pode ser algo que se tem, apenas quando nos deparamos com a maior de todas as nossas certezas. Tentar dar valorizar a vida diante de seu obrigatório fim, é, de longe, o nosso maior engano.

           Todos nós conheceremos o fim disso que chamamos de vida, e isso não se discute. Mas, até que esse derradeiro dia chegue, teremos milhares de novas chances de contar a nossa própria história. Cabe a nós decidirmos se nossas vidas serão lidas como um belo romance ou como um monótono manual de instruções. Dentre todas as coisas que a vida nos impõe, nada pode ser mais importante do que aceitar o inevitável desafio de viver.

Uma boa dose de amor

             E, em meio a tantos episódios cotidianos de horror, que só nos mostram o que há de pior em nós, me pergunto se ainda há motivos para continuar em frente, sendo positivo, sem parecer tolo. Afinal, quais as garantias que o acaso nos oferta, para que acreditemos que, um dia, toda essa névoa densa e obscura irá se dissipar, levando consigo, esse mal-estar perverso e insistente? Nenhuma garantia. Mas, como todo otimista crônico, sigo acreditando que não há mal que não se cure com uma boa dose de amor.

            Sinto falta do amor em estado bruto, daquele que arrebata, que não precisa de permissão para se estabelecer e que não cabe em propagandas sentimentais. Aliás, o que foi feito do amor? Preso a uma ideia de romantismo onde amantes sorriem felizes e trocam promessas apaixonadas que garantem felicidade, fidelidade e frustração… até que a morte os separe. O que cria legiões de ingênuos que abrem mão do amor real, pelo ilusório e pasteurizado, amor romântico.

           O amor dos tempos atuais perdeu em solidez e ganhou em volatilidade. Afinal de contas, o amor, só é amor, se puder ser divulgado virtualmente e seguido por infinitas exclamações e emojis criativos. É possível que a fonte desse atoleiro de desesperança, no qual estamos afundados até o pescoço, tenha uma relação direta com o significado que resolvemos dar ao amor. Amar não pode ser resumir a interjeições exageradas, que pretendem ser mais importantes do que realmente são. Amar, não é só isso. Simplesmente não é.

            O amor é uma força da natureza e não pode ser contido em uma caixa de presente enrolada por um belo laço de fita. Talvez o nosso grande erro seja criar barreiras para conte-lo. Limitar as fronteiras do amor, para que ele faça sentido sob um ponto de vista, é deixar de senti-lo em toda sua plenitude. Amor não foi feito para formar pares. Amor foi feito para aproximar multidões. Amor foi feito para transgredir conceitos, aproximar diferentes, criar novos olhares para o mundo e, principalmente, mostrar a quem queira ver, que cabe tudo dentro do amor, menos a exclusão.

            Abandonar a figura do amor romantizado e seletivo é uma questão de sobrevivência. Aceitar o amor raiz é, também, compreender que somos iguais, independente de cor, credo, orientação sexual ou time de futebol. O que nos falta é baixar a guarda e tirar as camadas que, durante muito tempo, mascararam o real significado do que é amar.

       O amor puro nunca anda só. Está sempre lado a lado da esperança, felicidade e empatia, para a nossa sorte. Por isso cante, dance, sorria para estranhos, cumprimente-os, escute mais, se reconheça e compartilhe suas experiências. Espalhe o seu melhor, que o melhor dos outros chegará até você. É hora de atualizarmos a nossa definição de amor. Só assim, será possível dar fim a essa dor, que parece não ter fim.

Geração mi, mi, mi

Carregamos conosco, em algum grau, os resquícios de um comportamento que se arrasta desde tempos coloniais, onde fomos levados a crer que, jamais seríamos capazes de assumir qualquer protagonismo. Fomos, e continuamos sendo, servos subjugados, convenientemente forçados a alienação, por aqueles que ditam as regras e não toleram contrariedades. Por esta razão que, toda e qualquer forma de resistência sempre foi desacreditada, mas, ultimamente, o ato de resistir foi categorizado de forma rasa e, todos os envolvidos neste movimento foram, ridiculamente, batizados de geração mi, mi, mi.

           Uma onomatopeia péssima que coloca na vala comum, entre o deboche e o descaso, toda e qualquer forma de resistência. Especialmente, quando a resistência vem de um povo que nunca conheceu privilégios, mas que foi talhado para acreditar que, algum dia, suas vidas seriam um bom lugar para se viver. Por séculos, as elites brazucas foram criadas aos moldes da realeza, onde seus membros interagiam exclusivamente entre seus pares, igualmente privilegiados. Ignorando tudo que os remetesse a pobreza, falta de educação ou a “falta de modos”.

        Os velhos códigos de comportamento daqueles que sempre tiveram tudo, escancaram hoje, aquilo que sempre esteve entrincheirado durante muito tempo. O horror de que, um dia, a base da pirâmide percebesse que o seu suor e a sua dor, sustentaram luxos, desmandos e opressão. Durante muito, muito tempo, foi assim que tudo se manteve. Os abastados privilegiados de um lado e a massa pobre e sem acesso a direitos básicos de outro. Essa distorção perversa se manteve imune a qualquer tipo de mudança… até agora.

      Essa pirâmide de partes desiguais, apresenta uma perigosa porção mediana. Formada por aqueles que sempre estiveram mais próximos da base do que do topo, e que encontram dificuldades para perceber seu verdadeiro papel nesta novela. E, por isso, são facilmente manobrados por quem manda de fato. Iludidos por sonhos de grandeza, os ingênuos mal-intencionados são capazes de tudo para não desmanchar seu ideal de sucesso que, na verdade, não passa de um frágil castelo de cartas prestes a desabar. Para muitos que formam essa classe mediana, pequenos sacrifícios são necessários para chegar ao tão cobiçado topo. Como negar as próprias origens e aceitar desmandos. Mas, se isso os levar onde querem, vale o risco.

         Porém, diante de tamanho desalento onde os que tem menos, a cada dia, são privados ainda mais do pouco que os resta, uma onda oxigenada ganha corpo e grita a plenos pulmões: BASTA! Negros, gays, mulheres, pobres, favelados, portadores de deficiências, trabalhadores escravizados e todos aqueles que foram, de alguma maneira, excluídos pelo modo de vida que nos foi imposto, ganharam voz. E essa voz grita contra as ofensas disfarçadas de piadas, contra a violência banalizada, contra a exclusão como forma de poder e, por fim, contra tudo o que possa impedi-los de serem quem são. Então, se a luta por igualdade e equidade nos transforma em geração mi, mi, mi… Benditos sejam estes novos tempos.

É preciso ser outro para ser feliz?

            Ser livre ou agradar aos outros? Ser original ou buscar formas alheias para chamar de sua? Ser feliz do jeito que se é, ou viver para agradar? Outro diz, me peguei mudando de canal e comecei a ver as mesmas pessoas apresentando programas diferentes, em emissoras diferentes. Me dei conta de que estava admirando clones. Apresentadoras brancas, quase todas loiras, falando no mesmo tom, rindo das mesmas piadas e falando para o mesmo público. Apresentadores brancos, falastrões, voz impostada e uma gaiatice disfarçada de seriedade. E, daí me veio uma questão: é preciso ser outro para ser feliz?

            E, quando ampliamos o campo de visão, percebemos que essa repetição dos mesmos tipos se repete em muitos lugares. Basta uma celebridade cortar o cabelo, para que milhares de outros o façam também, mesmo que não lhes caia muito bem. Mudamos o nosso comportamento para que seja possível se aproximar dos trejeitos de estranhos, simplesmente porque são famosos ou ocupam um lugar de admiração. Aliás, admirar o outro assumiu, nos últimos tempos, um lugar de devoção. Não basta admirar alguém, é preciso ser igual a ele.

            É bom esclarecer que não há nada de errado em transformar um perfil em objeto de admiração. Mas, daí a tentar, a todo custo, transformar-se em outra pessoa para encontrar a felicidade, nos leva a crer que muitas pessoas não estão confortáveis sob suas próprias peles. O que é absolutamente contraditório, uma vez que vivemos em uma época onde nunca foi tão comum ser quem se é. Parece que, diante de tantas possibilidades, muitos deixaram de se auto admirar para enquadrarem-se em formatos, supostamente, mais interessantes.

            Muitas pessoas decidiram pautar suas vidas, a partir da existência do seu ídolo. Renunciando a uma felicidade autêntica, apenas para seguir padrões ditados por outros, como se a escolha por si mesmo, não fosse tão legal assim. A grama do vizinho sempre será mais verde. A boca quimicamente alterada, sempre será mais bonita. Os dentes encapados e absurdamente brancos, serão sempre mais perfeitos. Os corpos talhados na academia e em procedimentos estéticos, transformam-se em obsessões difíceis de entender. Em que momento deixamos de nos enxergar, para admirar, somente, a beleza que há no outro?

            O antídoto para esse mal é muito simples, apesar de não ser fácil. Olhar-se fixamente no espelho e contemplar aqueles traços que, num primeiro olhar podem parecer estranhos, mas que, em pouco tempo, voltam a ser uma imagem intimamente familiar. Admirar personalidades ou se encantar pelo jeito de agir de alguém é maravilhosamente normal, além de nos ajudar a tecer essa complexa trama que nos forma. Mas, diante destes perfis plenos de irrealidade, talvez seja a hora de começar a admirar aquela boa e velha imagem que se reflete, todos os dias, diante de nós. Sejamos nós, também, os exemplos de quem queremos ser.

Perdemos demais

Vivemos em tempos onde acompanhar o noticiário, pode provocar reações diversas que vão da desesperança ao horror em poucos minutos. E, independente do tema, uma sensação me faz chegar a triste conclusão de que perdemos demais. A batalha, o jogo, a aposta, a graça… perdemos. Mas, acima de tudo, parece que nos foi tirada a capacidade de reação em um momento em que nunca precisamos tanto dela. Ficamos surpresos, indignados, estupefatos, mas, apesar disso, não somos capazes de reagir aos desmandos e retirada de direitos que nos são impostos diariamente.

Muitos dizem que não se pode fazer nada, que são muitos eventos simultâneos e que não dá pra reagir a tudo… Até pode ser, mas não é suficiente. Confundimos o real com o virtual e acreditamos que posts via facebook, instagram, twitter, nos redimem de uma omissão consentida. Outros tantos, acreditam que não sofrem calados, pois tem ferramentas digitais capazes de amplificar suas vozes, porém, se esquecem de que não adianta falar, se não houver ninguém para ouvir.

O peso do rolo compressor é tamanho que começamos a ver a vida de uma forma perigosíssima, onde, a defesa de pontos de vista, rompe o campo das ideias e entra em um ringue onde argumentos cedem lugar a lei do mais forte, onde tudo tem que ser olho por olho, dente por dente. De uma hora para outra, o que antes era certo, agora é errado. O que antes era importante, agora perde o seu valor. Seguimos perdendo…

A demonização da educação e seus educadores. Artistas, que, com a sua arte, nos fazem pensar e ver o mundo mais leve, agora, não passam de vagabundos. E a ciência, bom, a ciência é algo desimportante. Tristes tempos são esses onde rechaçamos o que nos ajudou a evoluir até aqui. Vivemos no limite do absurdo pessoal e profissionalmente. Buscamos forças para nos mantermos firmes na batalha contra uma ignorância cega, que se apresenta forte como nunca.

Desrespeito virou palavra de ordem. Velhos, crianças, professores, vizinhos, colegas de trabalho… Transformados em inimigos de última hora, por forças que têm, como único objetivo, desagregar e confundir. Pensar diferente, pensar coletivamente, pensar no bem do próximo, passou a ser considerado “coisa de vagabundo”. E, muitos, acreditam que o remédio para isso é manter esses vagabundos calados, por bem ou por mal. É derrota que não acaba…

Seguimos uma cartilha que diz que, se o povo souber ler um pouco e efetuar relações matemáticas simples, melhor. Se o povo não gostar de política, mais fácil será aceitar desmandos. Se o povo ignorar a Filosofia, a Sociologia e a História, jamais conseguirão questionar e analisar dados históricos que nos impedem de cometer os mesmos erros. Um povo incapaz de reagir intelectualmente ao autoritarismo, jamais será capaz de entender a sua perda de direitos. Um povo ignorante, doente, passivo e ameaçado, não é capaz de enxergar sua derrota programada. E, por esta razão, só consegue se preocupar com uma única e triste realidade: sobreviver.

O segredo do sucesso

            Basta esbarrarmos com uma história bem-sucedida que, quase imediatamente, uma pergunta nos toma de assalto: qual é o segredo do sucesso? O que é normal, uma vez que acreditamos que as boas trajetórias, só são possíveis, se estiverem cercadas por um sigilo maroto, que finge gostar do anonimato, mas que aguarda, ansiosamente, pelo momento em poderá, enfim, exibir com orgulho o êxito conquistado. O que me leva a pensar que passamos anos acreditamos em uma lógica, que, na verdade, está invertida.

            Desde cedo nos ensinam que em boca fechada não entra mosca. Concordo que a elaboração de planos e estratégias, anda melhor quando protegida por um silêncio precavido. Mas, sabemos também, que o sucesso é exibido e foi feito para ser visto e admirado. Tentar escondê-lo pode funcionar por um tempo, mas não o tempo todo. Tentar abafar sonhos promissores, não trazem garantia alguma de que eles serão realizados. Ao contrário. Podemos condena-los ao esquecimento antes que consigam ver a luz do dia.

            Muito se fala sobre uma suposta “receita para o sucesso”, capaz de transformar a vida de todos aqueles que estiverem dispostos a seguir, a risca, o seu passo a passo. O que significa abdicar de coisas aqui e ali, com muito foco, disciplina e algumas renúncias… Como se todos fossemos iguais e estivéssemos em busca das mesmas coisas. Porém, a partir do instante em que percebemos que a ideia pasteurizada de um sucesso único e acessível a todos, não passa de uma fábula comercial, ganhamos a chance de entender que, ser bem-sucedido é, exclusivamente, uma atitude pessoal e intrasferível.

            Afinal, o que é o sucesso? Seria aquele ideal inatingível que as revistas tentam vender, onde corpos perfeitos, dentes brilhantes e cabelos sedosos, emolduram pessoas lindas, felizes e profissionalmente realizadas? Talvez, o sucesso só possa ser alcançado por aqueles que acordam muito cedo, gastam a sola de seus sapatos em busca de uma oportunidade, e carregam como mantra a frase que diz: Não reclame, trabalhe! E, assim, seguimos por essa estrada de tijolos irregulares em busca da realização de sonhos que nos façam, enfim, beber o néctar do sucesso. Mas, será esse o caminho correto?

            Ao mesmo tempo em que somos bombardeados por receitas de sucesso mirabolantes, os dias seguem seu fluxo independente e constante, sem concessões e sem clemência. O que nos obriga a tentar, de todas as formas, alcançar uma fórmula mágica que consiga adequar a nossa busca pelo sucesso, às vinte e quatro horas de um dia que não tem a menor cerimônia em nos atropelar como um rolo compressor. Resultado: frustração pessoal e idealização do conceito inalcançável de sucesso.

O tempo (ou a falta dele) e as histórias repletas de clichês contadas por pessoas de sucesso, criam uma combinação responsável por desenvolver em todos nós a sensação de que, ser bem-sucedido é, de fato, um privilégio para poucos e bons. Talvez, por isso, seja algo que deva ser mantido em segredo absoluto, para que não caia em mãos erradas. Mas, antes de sair por aí, nessa corrida maluca em busca de um sonho, certifique-se que esse sonho lhe interessa, lhe cabe ou lhe pertence. Se achar que sim, não faça tanto segredo do seu sucesso, porque o sucesso, não se faz em segredo.

Nó na garganta

            Nó na garganta. Essa é a sensação mais incômoda e mais constante dos últimos tempos. Há tantas desgraças acontecendo em tempo irreal, que nos transforma em expectadores de um espetáculo maluco, onde somos elenco e plateia, mesmo que essa não seja a nossa vontade. Vivemos como se estivéssemos envolvidos por um círculo de cordas esticadas capazes de nos puxar com violência, que torna impossível manter-se de pé. Sentimos as cordas, mas não enxergamos a mão que as controla.

            Em um dia, prédios desabam. Noutro, catedrais ardem em chamas. E, quase ao mesmo tempo, furacões varrem populações pobres do mapa. Morremos como formigas, sofremos como gigantes, choramos como crianças. Nunca foi tão difícil compreender o que, de fato, está acontecendo a nossa volta. Bem e mal. Certo e errado. Sim e não. Conceitos que sempre foram tão sólidos, hoje não passam de borrões derretidos e sem definição.

            A sensação, quase real, de que estamos correndo a esmo, a espera de alguém de que nos diga o que fazer, varia entre o pânico anestesiado e a indignação eufórica. Mas, mais uma vez não sabemos como agir diante desses antagonismos que resolveram formar pares incomuns e conflitantes. A alteração dos padrões que sempre nortearam a vida muitos de nós, provoca uma desesperança tão densa que quase podemos tocá-la. É claro que, em muitos momentos, já confrontamos situações difíceis, mas, nunca como agora.

            O mundo está ao contrário, e todo mundo reparou. O que aumenta, ainda mais, essa certeza, são as diferentes formas de reação da massa diante desse circo dos horrores cotidiano. Emoções potencializadas permitem que pequenas discordâncias, transformem-se em diferenças irreconciliáveis, amizades se desmancham como castelos de areia e o diálogo é nocauteado pela intolerância. E, em meio a esse tiroteio social, não sabemos se corremos, se buscamos um abrigo ou se nos posicionamos no front de batalha.

            Essa balbúrdia generalizada tem provocado efeitos colaterais, capazes de provocar um tumor moral nada fácil de tratar, mas, muito fácil de diagnosticar. Qual é o seu principal sintoma? Ódio em estado bruto. Sem retoques e sem pudores. Ódio que provoca uma irracionalidade, que impede a todos de ponderar, ouvir e refletir. É como se, depois de muito tempo sob controle, em masmorras muito bem guardadas, essa raiva tenha descoberto frestas por onde fugir. Criando disfarces elaborados para, aos poucos, tomar conta daqueles que, durante muito tempo, desejaram expressar seus piores reflexos, mas não sabiam como. Até agora.

            Esse ódio chegou a todos os lugares, dominou lideranças, que transformaram-se em exemplos a seguir. Ícones arrebanham seguidores inebriados pela possibilidade de explodir suas intolerâncias, sem constrangimentos. Ver esse panorama em palavras traz dor e desassossego, sem dúvidas. Se o nó na garganta foi meu companheiro ao longo desta escrita, ele também possibilitou o renascimento do desejo por um basta e me fez entender que só conseguiremos nos livrar das amarras do ódio, quando restaurarmos o poder do amor.

Nossos melhores horizontes

Às vezes, o horizonte a nossa frente não se parece com aquela imagem idealizada de um mar calmo e com águas claras. É, bem verdade, que essa figura idealizada e romântica é quase uma lenda. A vida está mais para um oceano revolto, do que para uma praia em calmaria. Esse turbilhão em que vivemos, quase sempre, nos faz olhar de um lado para o outro em busca de luzes de emergência que indiquem caminhos que conduzam à praias paradisíacas, onde repousam os nossos melhores horizontes.

O momento em que vivemos, não importa em que lugar do mundo estejamos, não tem sido fácil. A cada dia uma nova notícia nos alcança e, independente da nossa vontade, diminui nossos reflexos, provocando uma apatia difícil de vencer. Criando rachaduras na nossa capacidade de reagir, e se indignar, diante de tanta loucura. É neste ponto onde encontramos a primeira armadilha: a banalização daquilo que nos incomoda.

Jovens são perdidos para a violência, chuvas fortes provocam desabamentos, mulheres sofrem abusos, escolas não conseguem mais instruir, não há sensação de segurança, famílias são esfaceladas… Desigualdades por todos os lados, injustiças para onde quer que se olhe e dores compartilhadas, que não sabemos explicar, apenas sentir. Com isso, nos deparamos com a segunda armadilha: achar que não existem luzes de emergência quando a única coisa que enxergamos é a escuridão.

Mas, ao mesmo tempo em que parece não haver saída deste abismo sem fundo, onde as tragédias parecem grandes demais, passamos a enxergar detalhes que antes não eram notados. Pequenas atitudes, gentilezas sutis e uma cordialidade cotidiana que insistem em resistir, diante de uma realidade excludente, raivosa e impessoal. Mas, felizmente, são essas sutilezas que injetam energia em corpos e almas sem esperança. E, assim, chegamos a terceira armadilha: acreditar que não viveremos dias melhores.

É obvio que, diante dessa encruzilhada que não aponta para lugar algum, esperança não é algo fácil de perceber. Mas, basta treinar o olhar para percebermos que aquilo que nos afasta pode, também, ser uma forma de aproximação. A dor, a indiferença ou a falta de empatia, permitem reflexões sobre quem somos e o que é, de fato, importante para nós. Talvez esse seja o grande ponto de retorno. Aquele mar revolto ao qual nos acostumamos, nos endurece e nos impede de enxergar a boa energia das coisas simples.

Portanto, aquela ideia do horizonte calmo e solar, pode até não ser uma verdade absoluta, mas traz consigo uma importância que vai muito além de um ideal romântico. Imaginar que um dia seremos capazes de chegar até as belas paisagens que julgamos perfeitas, garante, não apenas um fôlego extra para seguir em frente e de cabeça erguida, mas também, a capacidade de não sucumbir às armadilhas que nos impedem de acreditar que dias melhores virão.