Queda livre

Quanto mais tempo vivemos e experimentamos diferentes situações, maior é a sensação de que vivemos em um campo minado pronto para explodir sob os nossos pés. Não importa se calculamos quando, como ou onde será o nosso próximo passo, seremos sempre surpreendidos por explosões que irão colocar nossas vidas de pernas para o ar. O que significa dizer que, viver é como estar em uma queda livre, onde não se sabe o destino, nem a sua velocidade, logo, a única coisa a fazer é aproveitar o vento no rosto e tentar se divertir ao longo da jornada.

Não, este não é um texto sobre como jogar tudo para o alto, bater a porta e sair sem olhar para trás. Mas, não deixa de ser uma pequena provocação ao nosso tão organizado modo de ver o mundo. O convívio social estabelece tantas regras, onde não podemos fazer isso ou aquilo, não devemos usar tal roupa, não falar com estranhos, não ser tão expansivos e, principalmente, não precisamos falar tudo que se passa em nossas cabeças. É claro que estes são filtros importantes e devem ser usados em muitos momentos. Até porque, podem nos manter a salvo de uma série de ciladas.

Mas, como tudo nessa vida, esses filtros devem ser usados com sabedoria e moderação. Restrições demais apresentam efeitos colaterais que podem, com frequência, nos paralisar diante de oportunidades e desafios. Somos criados em uma lógica onde dizer não é a melhor escolha. Se por um lado, isso irá nos privar de novas experiências, por outro, não sofreremos por apostar em algo tão fora dos nossos padrões. Pelo menos, foi isso que nos disseram desde sempre. E nós, acreditamos…

O tempo vai passando e vamos, cada vez mais, nos distanciando da nossa espontaneidade e abrindo espaço para desconfianças e ressalvas. Até que alcançamos o ponto onde dizer não para tudo, será o padrão e, dizer sim, uma inesperada exceção. Isso, talvez, seja fruto da nossa necessidade de sobrevivência que diz que devemos colocar as coisas em seu devido lugar e que, devemos manter nossas a salvo pois não sabemos se será possível conquistá-la novamente. Resquícios da nossa evolução ou, para ser mais realista, é o famoso “quem guarda, têm”.

Mas é preciso acreditar que, apesar das nossas conquistas seguras, há um universo de opções inexploradas e, o melhor de tudo, bem ao alcance das nossas mãos. Basta que ampliemos o nosso campo de visão para incluir em nosso radar, todas as coisas para as quais dissemos não, sem sequer ponderar se seriam ou não boas escolhas, bons caminhos ou boas surpresas. Nadar contra a maré não foi e nunca será uma tarefa fácil, mas é preciso tentar. Qualquer braçada no sentido contrário ao que esperam de nós, pode ser a porta de entrada para uma realidade cheia de novas possibilidades.

Muitos acreditam que essa seria a saída de suas zonas de conforto. Acho que vai muito além. Quedas livres, voos cegos ou seja lá como gostariam de chamar, podem ser a salvação para a vida de pessoas que foram levadas a acreditar que a ousadia não está disponível para todos. O que é um grande engano. Jogar-se no desconhecido e sentir aquele misto de medo, ansiedade e desafio, ajuda a romper amarras, trazendo uma sensação de que não pertencemos a lugar algum e que, ao mesmo tempo, esse pode ser o melhor lugar onde poderíamos estar.

Me engana que eu gosto

Quantas vezes encontramos com algum conhecido por acaso e, quase imediatamente, tratamos de marcar um outro encontro tipo, “passa lá em casa”, mesmo tendo a certeza de que isso jamais vai acontecer? Confirmamos presença e não comparecemos. Concordamos com argumentos indigestos, apenas para acabar com conversas chatíssimas. Declaramos amor a quem mal conhecemos, só para agradar aos ouvidos alheios. Estamos apressados demais para verdades verdadeiras e cada vez mais abertos a mentiras sinceras. Se não for tomar muito tempo e nem dar  muito trabalho, tudo bem, siga em frente e… me engana que eu gosto.

Desde quando ser enganado ou enganar alguém faz parte do nosso cotidiano? Diria que essa é uma premissa que se estabelece a partir do momento em que nos aventuramos nas formas mais básicas de relacionamento. Podemos até negar isso com todas as forças mas, até que ponto, essa convicção não seria, também, um autoengano? Difícil precisar, mas não pense que isso é, de forma ampla, um desvio de caráter ou coisa parecida. São regras de um jogo que já estava rolando muito antes de chegarmos aqui e que irá se perpetuar durante muito, muito tempo.

Por mais incômodo que seja enxergar as coisas sem filtro, não há muito o que fazer, além de aceitar, aprender as regras e começar a brincadeira. Ainda não se convenceu disso? Sem problemas mas, se você, à medida em que avançou no texto, foi buscando momentos onde levou alguém ou se deixou levar por conversas fiadas, promessas convenientes ou compromissos vazios, sinto informar, você faz parte do grupo que ganha a aposta, mas não leva o prêmio pra casa.

Políticos inventam fábulas para conseguir o que querem. Guerras são deflagradas a partir de fantasias. Amores se acabam, amizades se desfazem, votos de confiança se quebram… Sabemos que muitas dessas situações se sustentam sobre pilares de areia que, a qualquer momento, podem ruir. Mas, mesmo assim, concordamos em entrar nesse ciclo sem fim, mesmo sabendo que cobraremos preços altos por nossa permissividade, assim como nos veremos obrigados a arcar com os custos da nossa dissimulação pré-programada.

Não é exagero dizer que a maioria de nós flerta com a hipocrisia mais vezes do que gostaria. Alguns fazem uso dessa prática sem moderação, provocando estragos por onde passam, infelizmente. Mas, me parece que, dia após dia, os níveis de exigência aumentam sua elasticidade aos enganos que sofrem e passam a relativizar mentiras e a acostumar-se a meias verdades. Como se esse fosse, o caminho mais fácil para se chegar onde quer ou para se manter confortável em situações que não resistiriam, ao menor contato que fosse, com uma verdade sem máscaras.

Estaríamos nos tornando cínicos ocasionais? Possivelmente, mas acredito que ainda temos o poder de escolher quando preferimos verdades e quando toleramos mentiras. É aí que reside a nossa capacidade de alterar os fatos de acordo com as conveniências. Para nós, a realidade. Para os outros, bom, para os outros será aquilo que for possível… E assim seguimos realizando, descontroladamente,  quebras de contrato, escapadas, puladas de cerca e um sem número de descompromissos vida afora. Tudo dentro do grande acordo social, que inclui a todos nós.

Este cenário nos obriga a tomar posições que irão impactar a forma como vemos o mundo e como ele nos enxerga de volta. Em uma época onde o nosso maior patrimônio é o tempo, a correria da vida acaba gerando relações efêmeras. Com isso, respostas imediatas que dizem o que queremos ouvir, cumprem o papel da verdade e criam uma sensação de que isso é o certo. Esse é o ponto crucial onde nos restam apenas duas opções: O certo ou o fácil. A escolha é sua.

Doses diárias de empatia

Vivemos em tempos onde expressar opiniões pode ser perigoso. Não que haja, pelo menos não por ora, controle formal sobre o que se diz. Mas há, sem dúvidas, uma patrulha ao que se fala, como se fala e sobre quem falamos. É a batalha entre o EU versus ELES, onde cada um dá o peso máximo ao que pensa e o descrédito absoluto ao que o outro tem a dizer. São muitas vozes para poucos ouvidos. São muitos dedos apontados para o outro, porém, isentos de qualquer indício de autocrítica. É chegada a hora de entender que precisamos de doses diárias de empatia.

Pessoas dizem o que bem entendem e a todo instante. Isso jamais seria um problema, se as opiniões proferidas aos quatro ventos, fossem opiniões de fato e não repetições tortas de argumentos alheios, sem o menor compromisso com a verdade. Não seria exagero dizer que os tempos atuais, além de líquidos, estão se tornando perigosos para quem se dá ao trabalho de ouvir e refletir para, só então, falar.

Essa corrida por um pódio que premia aquele que fala, fala mas não tem nada a dizer, parece ter como objetivo principal, satisfazer uma incontrolável vontade de muitos em se fazer notar. Passar despercebido tornou-se o maior pecado do mundo dito moderno, onde as barreiras físicas não importam mais, onde o compromisso de ser alguém de carne e osso e responsável por suas posições, também não. Talvez isso ajude a entender essa fuidez nas relações. Fale, replique, aumente, invente o que quiser, mas jamais se comprometa. Esse parece ser a grande bandeira da atualidade.

Essa maluquice coletiva produz muitos efeitos colaterais. Mas um deles, em particular, tem sido responsável por grandes estragos nas relações: a intolerância. Hoje, se qualquer um de nós ousar expressar uma opinião, surgirá, quase imediatamente, alguém para desqualificar, muitas vezes de forma violenta, aquilo que foi dito.

Pela velocidade que se observa na virtualidade, fica patente que não houve tempo para, sequer, ler o conteúdo da mensagem. Entendê-la, muito menos. Logo, uma onda descontrolada de comentários desconexos, abafa a verdadeira intenção de uma opinião que nem ao menos foi assimilada. Com isso, desavenças se formam, amizades se partem e ódios se controem, por muito pouco ou por quase nada. Estamos nos encaminhando a passos largos para a insustentabilidade das relações. Infelizmente…

Essa postura geral tem promovido, quase sempre, uma polarização na forma de pensar e agir. Perdemos, pouco a pouco, a capacidade de ponderar. Nos comportamos como se estivéssemos em um ringue onde, de um lado, estamos nós, prontos pro combate e, do outro, está um adversário que pode ser qualquer um,  que esteja disposto a brigar por coisa nenhuma. Enquanto isso, negligenciamos questões valiosas e que realmente merecem ser defendidas. Este é, claramente, um mundo de prioridades invertidas.

Me parece que perdemos o atalho que leva ao caminho do meio, a rota do diálogo e a capacidade de discutir ideias. Se faço parte de um grupo, jamais poderei romper essas fronteiras irreais pois, uma vez que se escolhe um lado, não há mais chance de retorno. Isso, além de grotesco, é um sinal claro de alienação, que leva a exclusão em todos os níveis. É necessário ter urgência na mudança de olhar para o mundo. Caminhamos para a autoexclusão, onde o diferente deve ser descartado pelo simples fato de ser divergente. Esse modo de agir tem nome, passado, consequências e um final trágico. Isto se chama barbárie.

Entendo que nossa trajetória é cíclica e que, de tempos em tempos, recuperamos comportamentos antigos e questionáveis. Mas é preciso fazer uso das ferramentas sociais que criamos ao longo do tempo. É necessário aprender com erros passados para que não se tornem recorrentes. É urgente desenvolver a empatia e, assim, resgatar aquilo nos torna essencialmente humanos: a nossa capacidade de pensar.

Como será o amanhã?

Como será o amanhã? A curiosidade que mora em nós jamais desistirá de tentar descobrir esse mistério, mesmo sabendo que possíveis respostas são baseadas, apenas, em nuvens de suposições. Pouco importa se o futuro é daqui a dez anos ou dois dias. Não fazer ideia do desfecho de um projeto ou de um sonho, cria uma expectativa que é quase tão importante quanto a execução do plano em si. Talvez esta seja uma das razões que nos faça acreditar que o futuro sempre reservará boas surpresas.

Como será se…? Essa pergunta pode ser complementada de inúmeras formas que, normalmente, variam de acordo com o nosso momento de vida. O que serei quando crescer? Quantos filhos terei? Terei filhos? Com quantos anos vou morrer? Conseguirei emprego? Serei feliz?… São tantas as questões que, a simples tentativa de respondê-las, é capaz de tirar o sono até dos mais tranquilos. Mas seguimos tentando, mesmo que não tenhamos as respostas, o exercício de imaginar o que nos espera, faz a ansiedade valer a pena. Afinal, não saber como serão os dias que ainda não conhecemos, nos mantém diante de muitas possibilidades.  Coisa que a realidade, por si só,  não é capaz de fazer.

Pensando nas formas que temos para acessar futuros possíveis, me veio a ideia de que, o tempo verbal faz toda a diferença quando o assunto é o desconhecido. Pensar em como será, vem sempre acompanhado de uma certeza: algo foi iniciado e não tem mais volta, como a flecha que parte do arco. Não se sabe com exatidão qual será o alvo correto, mas temos a certeza de que ela vai alcançar seu destino final. Agora, pensar em como seria, traz  consigo um quê de dúvida e uma margem de segurança, uma vez que não é preciso arriscar, basta apenas fechar os olhos e imaginar as mil possibilidades que teríamos se, por acaso, resolvêssemos disparar nossas flechas.

De todo modo, pensar em como estaremos no futuro, seja ele próximo ou não, ajuda a criar estratégias que definem o nosso presente. Querer concretizar um desejo, ajuda a pavimentar um caminho em direção a esse objetivo. Não pensar em sonhos possíveis, faz com que portas se fechem e chances sejam perdidas. Como seria a vida sem o delicioso desafio de tentar imaginar como será a versão futura de nós mesmos? Melhor nem imaginar…

Por mais instigante que seja, a prática da futurologia é, também, uma grande fonte de ansiedade que, ao invés de nos permitir alçar voos maiores, pode transformar-se em uma âncora que limita nossa capacidade de ir além e, principalmente, restringe a nossa liberdade de atuar no próprio presente. Jamais conseguiremos alcançar nossos sonhos, desejos ou delírios, se não percebermos que nossos anseios nascem e amadurecem no presente e que, o futuro, é apenas uma consequência do que fazemos hoje.

Seríamos capazes de imaginar, há dez anos, como estaria a nossa vida hoje? Sim, mas seriam apenas pensamentos em nuvens recheadas de imaginação. Sonhos em perspectiva, sem compromisso com a realidade nua e crua. Nossa trajetória se constrói dia após dia, vencendo pequenos desafios, tomando tombos, sacudindo poeiras difíceis e erguendo a cabeça para continuar vislumbrando possibilidades que ainda estão por vir.

Jamais saberemos o que exatamente nos aguarda naquela fração do tempo que, de fato, não existe, mas que adoramos criar, desafazer, mudar de forma e recriar quantas vezes quisermos. Como será o amanhã? Não tenho a menor ideia. A única certeza nessa jornada, é que sempre estaremos prontos para saltar no nosso tempo imaginário, espiar nossas possíveis cópias e retornar a realidade, certos de que, um dia, aquele futuro poderá, sim, tornar-se realidade.

Quando o fim chegar

Ciclos. Somos regidos por incontáveis mecanismos com começo, meio, fim e recomeço. Sejam eles particulares ou não, nascemos com uma única certeza: todo ciclo tem seu fim. Exercemos controle temporário sobre alguns deles, mas na grande maioria das vezes, as peças movidas nesse tabuleiro pré-programado somos nós. Dessa forma, seguimos ávidos por ciclos que se iniciam, empolgados por novas jornadas, mesmo sem ter a menor noção de como será quando o fim chegar.

Nascer, crescer, reproduzir e morrer… essa é a cascata de eventos que aprendemos nas aulas de ciências e que acreditamos acontecer com todas as outras espécies do planeta, menos conosco. Agimos como se fossemos imunes aos efeitos do mais previsível de todos os ciclos. Nós, simplesmente, não aceitamos essa programação prévia, estabelecida e comum a absolutamente todos os seres que já passaram por esta terra.

Criamos delírios de eternidade para quase tudo que pensamos ou fazemos. Talvez este seja o maior reflexo da nossa incapacidade em aceitar a finitude de tudo o que nos cerca e, principalmente, da nossa inabilidade em enxergar o nosso próprio fim da linha. Traçamos planos a perder de vista, fazemos amizades sem data de validade, marcamos encontros que nunca acontecem e, quase sempre, fazemos juras de amor eternas, projetando a nossa existência para além dos limites conhecidos, apesar de sabermos, desde sempre, que o para sempre, sempre chega ao fim.

Então, como não conseguimos lidar com a certeza do fim, apostamos em nossas memórias para que, assim, seja possível prolongar indefinidamente os nossos ciclos, mesmo depois do ponto final. O que pode ser uma armadilha que nos mantém presos a momentos, pessoas e situações que há tempos não existem mais. Ciclos imaginários permitem um controle que nos dá a falsa impressão de que estamos no comando quando, na verdade, somos reféns de um mundo irreal, que restringe a nossa capacidade de reagir aos estímulos da realidade.

É difícil perceber as etapas de um ciclo. Começamos relações com laços muito sutis, que não deixam claro que, de fato, iniciamos um processo sem volta. Mas, basta perceber que estamos diante de algo importante para que, imediatamente, passemos a acreditar que aquilo será para sempre. Muitos diriam que isso nos torna otimistas. Será? Vislumbrar relações duradouras e repletas de felicidade, pode até ser um desejo, mas está longe de ser uma realidade. Ciclos reais não são suaves.

Voltando as relações. Quando percebemos que um novo amor começou, ficamos tomados por uma plenitude tão arrebatadora que, pensar no fim daquele êxtase, é a última coisa que se quer. Momento perfeito para juras de amor eterno, não é? Certamente, mas conforme o tempo passa e os ciclos avançam, tudo muda, independente do nosso desejo inicial. Paixões ardentes dão lugar ao amor constante e esse, por sua vez, requer atenção e paciência para continuar existindo. E se, por acaso, deixarmos de seguir o manual de cuidados do amor eterno, ele certamente chegará ao fim.

Mas, como fazer para aceitar o fim? Diante desse fato, temos dois caminhos. Um deles é não aceitar e tentar, de todas as formas, retardar as etapas de um ciclo, mesmo sabendo que isso não é possível. Apegar-se a memórias de um passado feliz é, normalmente, a escolha da maioria. Porém, a dificuldade em aceitar o fim não pode ser pior do que manter-se preso a relações terminais, disfarçadas com uma capa de ilusões de felicidade.

O outro caminho é compreender que nada dura para sempre. Só que para alcançar esse nível de lucidez, é preciso passar por vários ciclos imaginários cheios de armadilhas criadas por nós mesmos. Independente de qual será a escolha, em algum momento seremos obrigados a encarar o fim, sem retoques e sem possibilidade de retorno. Nesse momento, o vazio se estabelece, mas isso não é ruim. É apenas o anúncio de que estamos preparados para, enfim, iniciar um novo ciclo.

Nada pode ser mais triste…

Ódio… ódio e mais ódio. Estamos imersos em uma zona muito escura onde qualquer movimento, por mais simples, parece aumentar ainda mais a sensação de que não somos capazes de replicar nada, além de ressentimento, raiva e amargura. E nada pode ser mais triste que isso… ou será que pode?

Vivemos tempos duros, onde opiniões não são debatidas, são impostas. Tempos onde diálogos dão lugar a convicções particulares elevadas a categoria de verdades absolutas. Estamos sufocados por um cotidiano áspero, denso e nauseante, que tenta, a todo custo, silenciar murmúrios, lamentos e gritos. Tentamos sair do mesmo lugar mas nossas pernas pesam e nossos braços não alcançam saídas de emergência. Vidas aprisionadas, limitadas a ver o mundo sob a ótica do medo e do ódio. Tem como dar certo?

Saímos de casa cheios de dúvidas e com um único desejo: retornar com dignidade. Infelizmente, não há garantias para que isso aconteça. Estamos como crianças brincando em uma piscina onde, o primeiro a encostar na borda, estará eliminado do jogo. Porém, no nosso caso, as bordas aproximam-se do centro, encurralando a todos, deixando a clara mensagem: retirem-se, vocês não são bem vindos aqui. Por quanto tempo é possível aguentar?

Amigos revelam posições divergentes e apoiam causas que colidem violentamente com valores que prezamos tanto. O que seria normal, se não fossem tempos de cólera. Todos têm razão ou pelo menos querem ter. Nessa busca pela afirmação das causas próprias, formam-se facções que disputam território onde possam plantar suas certezas e suprimir seus contrapontos que, a esta altura, transformam-se em desafetos. Vale a pena lutar por isso?

E sob o domínio de um medo tão consistente, seguimos sem muitos planos, apenas reagindo aos estímulos que a vida nos dá. Perdidos em uma sequência de sobressaltos que aceleram o nosso coração e amolecem as nossas pernas. À mercê de toda a sorte de riscos que só uma sociedade adoecida é capaz de oferecer. Hoje, para provocar pânico não é preciso vislumbrar uma ameaça real, basta apenas enxergar o diferente como algo ameaçador. Foi para isso que evoluímos tanto?

O medo, o ódio e a ignorância são forjados do mesmo material, fluido e maleável, que pode crescer indefinidamente, sem apresentar nenhuma rachadura. Basta que seja inflado com cuidado até que tomem corpo e englobem tudo a sua volta. Criando uma cobertura dissimulada que envolve a todos com uma película impossível de ser detectada. Assim, lutas fervorosas são travadas, acusações graves são feitas e relações são desfeitas, mas nenhum dos lados consegue enxergar essas camadas, o que torna impossível perceber quem, de fato, comanda toda essa batalha. Até quando ficaremos tão cegos?

A compaixão, algo tão inerente a humanidade, torna-se cada vez mais supérflua. Uma perfumaria cara, um artigo de luxo. Não podemos acreditar, por nem um segundo, que isso é verdadeiro. Sentir-se conectado a quem está ao nosso redor, é sentir suas alegrias, angústias, medos, é perceber seus defeitos e qualidades. Se privar disso é escolher não entender o próprio mundo, a própria realidade. Sentir o outro é, também, se ver refletido. Abraçar o outro, é sentir o mesmo abraço. Ouvir as experiências alheias, é vivencia-las também. A isso, chamamos de empatia. De que vale usar um termo da moda, sem saber o seu significado?

Morremos cada dia mais. Grupos morrem aos milhares. Mas pouco importa, enquanto isso não nos afetar diretamente, são apenas estatísticas arremessadas em nossa direção diariamente. Em cidades onde o medo e a ignorância são os pais do ódio, ninguém deveria se sentir indiferente a dor do outro. Talvez este seja o maior desafio dos tempos atuais: curar corações repletos de horror para que, só assim, seja possível resgatar e transformar em realidade a empatia presente apenas no discurso. Vale a pena tentar? Nunca valeu tão a pena resgatar a nossa própria humanidade.

O peso das nossas escolhas

O que eu faço agora? Essa pergunta é feita todas as vezes em que o chão desaparece sob nossos pés e ficamos à deriva, sem referências e sem a menor ideia do que fazer. Não paramos para pensar sobre isso, a não ser que sejamos vítimas dessa súbita falta de base que, ao contrário do que parece, não nos deixa sem opções. Sofremos exatamente por não saber escolher diante de tantas possibilidades que se abrem a nossa frente mas, principalmente, sofremos por não saber qual será o peso das nossas escolhas.

Esse questionamento, que precede uma escolha rápida e sem ensaios, cria um desconforto em vários sentidos. Ora por demonstrar nossas fragilidades, ora por expressar ansiedade ou, simplesmente, porque nos faz constatar que não estamos preparados para tudo. Mas isto está longe de ser algo ruim. Ser pego de surpresa, exige uma capacidade de reação veloz e, normalmente, sem segundas chances. Erros nas escolhas são bem mais comuns que acertos, mas, como quase tudo na vida, tomar decisões mais assertivas, também depende de experiência e aprendizado.

Há momentos onde o mundo passa por cima de nós como um rolo compressor, exigindo respostas para perguntas que sequer entendemos, sem oferecer tempo para reflexões ou buscas por novos caminhos. Diante desse beco sem saída, só nos resta procurar soluções onde elas são mais difíceis de encontrar: dentro nós. Neste cenário, somos obrigados a voltar o olhar para nosso interior, nem que seja por uma fração de segundo,  e tentar achar forças em lugares que jamais acessamos. Dessa forma, adentramos em áreas nebulosas e desconhecidas, perdidas em nossas gavetas internas.

Pensando dessa maneira, não saber como agir em determinadas situações, tem o seu lado bom. Fincar raízes muito profundas pode restringir nossos reflexos e comprometer a nossa capacidade de reagir as surpresas que a vida nos oferece. Perguntar-se o que fazer, quase nunca traz as respostas certas e, muito menos, aquelas que esperamos. Por uma simples razão: Não há certezas, erros ou acertos. Existem apenas possibilidades que serão criadas de acordo com as nossas decisões.

Ser confrontado por situações desconcertantes, reduz a nossa possibilidade de escolha, permitindo que fiquemos entre o não, que nos deixa estagnados no mesmo porto seguro, ou o sim, que pede uma dose extra de coragem para navegar por mares desconhecidos. Mas, independente da escolha, algumas perguntas são impacientes e pedem respostas instantâneas. É esta fração de segundo que nos faz seguir em frente e, pouco importa, se vamos dizer sim ou não, o importante no momento de decisão, é a forma como teremos que lidar com as nossas certezas, inseguranças, verdades, mentiras…

O imprevisível caminha ao lado desses momentos. Nunca saberemos ao certo quando ou porque será necessário pular mais alto e decidir algo de primeira. Muito menos saber o quão difícil será tomar decisões que não estavam em nossos planos e que podem, com frequência, afetar as pessoas ao nosso redor, de formas que não podemos prever. É sempre bom não perder de vista que as nossas decisões, por mais simples que sejam, jamais serão individuais.

É claro que a vida nos coloca em situações onde há muito pouco ou nada a ser feito mas, ainda assim, é possível decidir se nos conformamos ou não com essa situação. Vivemos as decisões que tomamos, sejam elas repentinas ou não. Porém, sempre que exercitamos a nossa capacidade de escolha, conhecemos um pouco mais de nós e reconhecemos limites. Por vezes colocamos esses limites à prova, o que nos ajuda a compreender que existem linhas que não devem ser ultrapassadas.

Decisões são desafiadoras e nos testam de formas que nem imaginaríamos possíveis. O ato de escolher impõe mudanças, quer você queira ou não.  É difícil dizer se escolhemos os caminhos corretos, mas podemos afirmar que somos a síntese das escolhas que fizemos. O que faremos daqui em diante? Escolhas. Qual a melhor maneira de fazê-las? Aprendendo com elas…

A difícil arte da despedida

Que encontraremos muitas dificuldades pela vida afora, ninguém duvida, mas algumas são particularmente indigestas. É o caso das despedidas. Estas estão, certamente, no topo da lista, até por conta da sua natureza. Dizer adeus não é uma simples fala, é uma atitude que, dependendo da ocasião, pode ser algo difícil de entender e aceitar.

Não é fácil precisar quantas vezes nos vimos obrigados a dizer até logo, tchau ou adeus. Afinal, como é possível que algo que fazemos todos os dias, possa ser tão complicado? Simples. Despedidas são pessoais, intransferíveis e não dependem apenas do nosso consentimento. Dessa forma, seja para dizer ou ouvir os sinais de afastamento, sempre precisaremos da participação e da vontade de outros atores, talvez por isso seja tão complicado vivenciá-los.

Visto dessa forma, a despedida parece algo ruim e que sempre nos trará dor e sofrimento. Em alguns momentos sim, é verdade, mas sempre há um quê de renovação por trás de um simples até logo. Despedir-se dos amigos do trabalho após um dia exaustivo, pode significar um retorno feliz pra casa, uma ida ao cinema ou um encontro com amigos. Dizer tchau aos seus pais, depois de um bom domingo em família, nos permite retornar as nossas vidas particulares, repletos de amor e boas energias. Essas despedidas são quase uma forma de carinho, pois sabemos que são temporárias e que, todas as vezes em que for preciso dizer esse tipo de adeus, é porque voltaremos a viver aqueles bons momentos novamente.

Sair de casa, mudar de profissão, ver os filhos voando para fora do seu ninho ou terminar um relacionamento abusivo. Todas essas situações estão impregnadas de sentimentos como a saudade, rancor, amor, frustração e ansiedade. Despedir-se do que quer que seja, pressupõe um afastamento, o que irá provocar uma distância, maior ou menor, daquilo que estávamos tão acostumados a chamar de nosso.

Mas, dentre todas as formas de dizer adeus, nada supera a dificuldade que temos em aceitar as despedidas definitivas e inevitáveis. Aquelas em que nenhuma vontade é respeitada e nenhum desejo é levado em conta, pois elas irão acontecer independente do nosso querer e sem dar qualquer explicação. Deixando para trás uma estrada devastada por vazios preenchidos de silêncios e perguntas sem respostas…

Perder. Já repararam que as perdas, seja lá quais forem, são quase sempre precedidas por despedidas? Quando viajamos sem destino e sem data de retorno, significa que perderemos, por tempo indeterminado, aquilo que nos era garantido. Mas, nesta situação, houve a possibilidade de dizer até breve, mesmo que a despedida do que deixamos para trás, fosse definitiva. O grande problema é quando, por um capricho das circunstâncias, somos privados do direito de dizer adeus. É nesse ponto onde somos tomados pela impotência diante de coisas completamente fora do alcance na nossa compreensão. E isso incomoda.

Dizer adeus é como dar o último passo de dança ou pôr um ponto final de uma história. Quando isso não acontece, nos perdemos em passos aleatórios e textos desconectados que não nos levam a lugar algum. Então, apesar de todo o peso que algumas despedidas podem ter, é preciso dizer adeus para que novas etapas possam, enfim, começar. É difícil perceber quando, de uma hora para outra, aquilo que era nosso por direito, passa a ser algo deslocado e menos importante.

Nesses momentos, despedir-se é o melhor a ser feito. A sensação de posse pode, muitas vezes, mascarar a importância das coisas. Deixar para trás o que não precisamos, não significa que não sentiremos falta, mas sim, que é necessário buscar novos caminhos e experiências. Despedir-se é dizer adeus a ilusória sensação de pertencimento.

É permitido resistir

Resistência. Que sensação é essa que se estabelece em nós e que é capaz de nos forçar a seguir em frente, mesmo quando não temos forças para dar um passo sequer? Que sensação é essa que nos faz ignorar todas as adversidades, continuar caminhado e acreditando em mudanças, novas possibilidades e vitórias? Não sei dizer, mas uma coisa é certa, sempre será permitido resistir.

Resistir é, possivelmente, uma daquelas ações sobre as quais temos pouco ou nenhum controle, a partir do momento em que sucumbimos a ela. Sim, a resistência é tão arrebatadora quanto um tsunami que chega sem aviso e sem limites. E por uma razão muito simples. Resistir é o efeito colateral da insatisfação. Uma vez que conseguimos perceber que algo nos incomoda, reagimos. Com intensidades diferentes, é claro, mas é difícil se manter alheio a algo que nos perturba.

Seguindo as leis da física, toda ação gera uma reação contrária e na mesma intensidade… Porém, isso nem sempre se aplica ao nosso dia a dia. Amadurecemos e com isso, criamos uma certa tolerância as ações que sofremos ao longo da vida. Há aqueles que respondem prontamente a todo e qualquer sinal de incômodo e que não guardam desaforos para depois. Mas também existem os que não respondem prontamente e que guardam seus incômodos para outra hora. E  há, ainda, aqueles que simplesmente não reagem quando confrontados por algo que os desestabiliza. O que é uma pena…

A natureza nos forjou para reagir a tudo que nos cerca. Reagimos ao medo, ao prazer, a dor, a fome ou a sede. Mas a vida moderna nos bombardeia com uma quantidade tão grande de desafios, sufocando a todos de tal forma, que torna-se difícil estar pronto para a guerra o tempo todo. Dessa forma, vamos priorizando as batalhas que podem ser vencidas e acumulamos, sem perceber, espinhos que incomodam pouco inicialmente, mas que, com o tempo, tornam-se grandes fontes de dor.

É obvio que não é nada fácil reagir a tudo e a todo instante, mas não podemos abrir mão da nossa capacidade de reação. É ela que nos dá a real medida de onde podemos chegar. É ela que nos diz que não devemos desistir do que se quer, ao primeiro sinal de dificuldade. A resistência sempre abre novas passagens por caminhos bastante estreitos e difíceis. Mas vale o sacrifício, apesar dos contratempos.

Mesmo tendo a certeza de que na prática, resistir nem sempre é tão simples, é preciso estar disposto. Situações estabelecidas só podem ser mudadas a partir da nossa vontade, ou seja, para transformar, é preciso resistir. Mas, infelizmente, a nossa capacidade de reação vai se diluindo à medida que o tempo passa e nos torna mais tolerantes a toda sorte de incômodos. Criando uma razão inversa e proporcional onde, quanto maior a nossa tolerância, menor o nosso instinto de resistência.

Isso cria uma atmosfera de acomodação que impede a tomada de decisões que podem transformar os nossos rumos. E, para além disso, esta inércia cria uma casta de pessoas que perdem, progressivamente, a sua capacidade de escolha. Não expressar descontentamento com aquilo que nos lesa, nos torna cúmplices da nossa própria infelicidade. É bom ter em mente que, todas as vezes que nos calamos, outro irá falar por nós.

Resistência é algo que se constrói ao longo da vida, a partir das experiências que nos põem à prova, seja de forma coletiva ou particular. Resistir é um exercício que melhoramos com a prática. Por isso, todas as vezes em que for preciso escolher entre seu bem estar e algo que lhe incomoda, apenas para não se indispor, resista. A nossa capacidade de resistir é o que nos representa no mundo. A nossa capacidade de resistir é o que nos faz chegar mais longe. Sobreviver sempre foi e sempre será, um ato de resistência.

 

Recortes de felicidade

Vivemos um momento muito curioso, onde a realidade parece ter se partido em muitos fragmentos e, cada um deles, reflete uma imagem da mesma história. Algumas mais agradáveis, outras nem tanto. Mas o que chama atenção, é a quantidade de momentos incríveis que fazemos questão de divulgar à exaustão como se, de alguma forma, isso fosse capaz de neutralizar as partes ordinárias do nosso dia a dia.

Todo mundo já percebeu isso em algum momento e já abordei isso em outros textos, mas impressiona o volume de realidades alternativas que encontramos a todo instante. Parece que estamos caminhando a passos largos para uma espécie de “matrix” onde projetamos vidas perfeitas, que serão admiradas e invejadas. À medida que o tempo passa e vamos nos acostumando a esse comportamento, passamos a esconder o que é real e comum a todos nós: nossa humanidade.

É ela que nos dá a exata medida do que somos. Criaturas que reagem ao meio onde vivem das mais diferentes formas e intensidades. Criando um comportamento tão complexo que não pode ser, de maneira alguma, resumido a postagens solares, sorridentes e editadas. Somos muito mais que isso. Há beleza na lágrima, há importância no medo e aprendizado na dor. Não se pode ignorar ou reprimir facetas tão essenciais, que ajudam a entender que a vida é feita a partir de um todo e, jamais, de recortes de felicidade.

A cada dia, a socialização virtual cria um novo movimento que atua como uma força da natureza, completamente fora de controle. O que nos leva a perseguir modelos inatingíveis, felicidades escancaradas e fórmulas prontas que só existem no mundo virtual. Estamos, pouco a pouco, abrindo mão dos detalhes que nos tornam únicos, para abraçar formatos padronizados onde todos são tão estranhamente semelhantes, que é quase impossível identificar quem é quem.

São muitos os pontos que levam a esse erro de avaliação e que nos dizem o tempo todo, que devemos ser iguais, apesar das diferenças. Mas o que salta aos olhos de forma quase agressiva, é a obrigação de expressar uma felicidade desmedida. De uma hora para outra, todos resolveram publicar fotos que traduzem momentos únicos, repletos de uma alegria especial, reservada a todos aqueles que acreditam no ideal da vida perfeita. Mesmo que isso não passe de faz de conta.

Estar feliz demais em situações onde a grande maioria não vê felicidade alguma, além de forçar uma barra, pode causar impressões absolutamente impossíveis de reproduzir. Que fique claro que esta não é uma crítica ao bem viver, ao contrário. Mas, a superexposição de uma vida absolutamente feliz é preocupante sim, uma vez que pode sufocar sentimentos e anular desejos. Quem nunca exagerou no sorriso para uma selfie perfeita na praia para, no instante seguinte, desmanchar a alegria e constatar que gostaria de estar em qualquer lugar longe dali? Esta é a grande questão. Até que ponto devemos suprimir o que, de fato, sentimos, para expor uma perfeição irreal e perversa?

Entender de que formas essa nova forma de viver irá nos afetar, só o tempo dirá, mas é possível não sucumbir completamente as maravilhas da felicidade obrigatória. Como? Valorizando todas as outras experiências. A vida real está longe de ser feita apenas por momentos felizes. Altos e baixos farão parte da jornada o tempo todo. Por isso fique atento aos sinais e não se sinta menos feliz só porque outros demonstram explosões de felicidade. Essas expressões podem conter altas doses de infelicidade.