Correspondências do amor – Parte II

Outro dia desses, falávamos sobre a nossa dificuldade em compreender que o amor é um sentimento caprichoso que, para existir, precisa apenas do nosso consentimento. Amar é uma capacidade que nasce conosco e cresce à medida em que o mundo se agiganta diante de nós. Ou não. De todo modo, o que estabelece a nossa capacidade de amar, é a forma como apresentamos esse sentimento aos que se aproximam de nós pela vida afora. E, vou além. Saber amar é, também, compreender que as correspondências do amor, não tem destinatários. Estão aí para serem lidas por quem desejar.

Para amar, basta querer. Sobre isso não há discordância, o problema nasce quando acreditamos que isso só é possível, no momento em que recebemos um sinal verde, de alguém que está na outra margem de um rio desconhecido. Ou seja, o amor que vive escondido em nós, a espera de um sinal luminoso que nos autoriza a compartilha-lo, sempre que o outro demonstrar alguma iniciativa… Reparem que essa é a regra que aprendemos, repetimos e ensinamos uns aos outros desde sempre, o que não significa que esteja correta. Enganos repetidos não transformam-se em certezas.

A vida segue e nós seguimos, aguardando pelo sinal verde do outro lado da linha. E, como crianças chegando em um parque de diversões, nos perdemos em meio a sinais com diferentes intensidades. O que acontece em seguida? Nos confundimos e escolhemos os sinais errados, claro. O que não é ruim, pois ajuda a criar uma palheta de cores de alerta, que pode fazer a diferença para quando a urgência nos dominar e nos fizer correr rápido demais e não perceber que, o sinal era, na verdade, para parar e não para seguir em frente…

E, nessa dúvida entre parar ou seguir, é que nos apegamos aos sinais errados e ignoramos que o saber amar vem de nós e não dos outros. Que amar é uma condição particular que decidimos dividir com alguém por escolha e não por desespero. Acreditar que a salvação está no amor do outro, nos obriga a entrar em formas fabricadas para outras medidas. Sei que é difícil perceber tudo isso, quando estamos engajados na busca pelo fantástico amor perfeito que não existe. Mas, não esquecer que o amar é algo que parte de nós para os outros, já evitaria um bocado de equívocos por aí.

O grande desafio de saber amar é que não há um caminho pavimentado previamente, que nos dê segurança para caminhar sem sobressaltos. E, todas as vezes em que vislumbramos o sinal que indica o amor da nossa vida, não importa quantas tenham sido as tentativas, seguiremos o mesmo padrão repleto de atitudes aleatórias, que irão nos conduzir por caminhos completamente diferentes daqueles que passamos muito tempo planejando. Falta de juízo, como dizem…  O amor é sobre isso também, não é?

Independente dos tropeços que essa corrida em busca do amor nos impõe, não se pode perder de vista que, como diz a música, o nosso amor a gente inventa. Deixar na mão de quem quer que seja, a escolha de como, quando e por quanto tempo iremos compartilhar a nossa capacidade de amar é, além de um erro, uma injustiça. Duvidar dos sinais talvez seja uma boa saída. Duvide das cores e aproveite cada uma delas. Algumas serão facilmente esquecidas, outras brilharão tão forte que irão provocar cegueira instantânea. Mas, no fim dessa montanha russa de cores e formas, seremos sim, capazes de perceber quando será o momento certo de dividir, para aumentar, a intensidade dos nossos luminosos sinais de amor.

Pequenas conquistas

Muitas coisas nesta vida são capazes de trazer alegria, êxtase e um brilho persistente nos olhos de quem consegue, por mais simples que seja, celebrar seus bons momentos. A celebração vai muito além do óbvio calendário comemorativo que o tempo nos permite montar. Comemorar as pequenas conquistas, ainda que não pareçam especiais, nos dá a chance de compreender a importância de cada uma das nossas vitórias em momentos diferentes da vida.

É difícil, muitas vezes, considerar a celebração do simples em uma perspectiva real e cotidiana, uma vez que vivemos em tempos onde sobram motivos para desesperanças e faltam razões para valorizar as pequenas vitórias. Em um cenário onde as dificuldades são regra, é preciso buscar exceções que transformem a indiferença que nos cerca, em sensibilidade.

Essa questão vai muito além do ser ou não ser otimista, enxergar ou não o mundo com filtros que distorcem a realidade. Ser bem agradecido é algo que aprendemos desde muito cedo mas que, infelizmente, vamos deixando de lado. Talvez a nossa capacidade de comemorar as pequenas conquistas seja, pouco a pouco, substituída pela necessidade de se chegar aos patamares mais altos e mais disputados por quase todo mundo. O que cria uma miopia tão severa, que nos impede de perceber com nitidez, as cores de todas as outras coisas incríveis que conquistamos, apenas por não estarem formatadas com a grandiosidade que esperamos.

O curioso por trás da capacidade em perceber e valorizar nossos êxitos mais discretos, é que só paramos para pensar sobre eles, quando acreditamos ter perdido uma chance de conquistar grandes vitórias. Talvez este seja o nosso erro. Conceder o prêmio de consolação ao que transforma nossas vidas diariamente, sem muito alarde. Gastamos tanta energia na busca por sucessos superlativos e esporádicos, que esquecemos que é a batalha diária, a fonte da maioria das nossas conquistas.

Estar atento aos detalhes que nos levam onde queremos chegar, cria um efeito colateral muito bem-vindo: a gratidão. A partir do momento em que percebemos que nosso sucesso é fruto de planos discretos, de metas traçadas todo os dias ao sair de casa e das pessoas que escolhemos para compartilhar nossos desejos, ser grato torna-se uma adorável consequência. Mas, se tudo é assim tão simples, por que a grande maioria de nós não consegue enxergar a importância das pequenas realizações na construção de quem somos de verdade? A resposta pode não ser fácil, mas não é impossível.

Celebração. Gratidão. Conquistas. Passamos grande parte da vida na busca por esta trindade, na esperança que só conseguiremos atingir a felicidade plena quando nos tornarmos, enfim, capazes de domar estas três forças. O grande equívoco que cometemos é enxergar essas possibilidades apenas em escala macro. Como se todo o esforço feito para alcançar esse olimpo, fosse desimportante. Na corrida pelo sucesso inatingível, esquecemos de celebrar os pequenos êxitos e de agradecer por tê-los conquistado um pouco a cada dia.

Não há receita mágica que nos leve até as grandes conquistas. O que temos ao alcance das mãos todos os dias, é a possibilidade de vencer pequenos desafios que se acumulam ao longo do tempo, e que acabam transformando-se em conquistas memoráveis. Mas isso só é possível quando nos mantemos firmes, atentos, gratos e celebrando sempre as nossas pequenas conquistas.

Correspondências do amor – Parte I

Todo mundo já amou e também foi amado em alguma medida. Sei que não há novidade alguma nisso, mas, então, porque algo tão corriqueiro, transformou-se na mais cobiçada das sensações? Meu palpite é que o amor tem o boca a boca, literal ou não, como seu maior trunfo de marketing. Um poderoso canal de comunicação absolutamente livre para dizer o que quer, na intensidade que desejar. O que nos traz a certeza de que sempre haverá alguém dizendo ou recebendo declarações que formam as tão esperadas correspondências do amor.

Nenhum problema, não fosse a curiosidade que esse contato com o amor, desperta em dez entre dez mortais. Logo, para cada um que explode de amores, há uma horda de espectadores ansiosos para experimentar um pouco desse ópio. E, assim, uma rede imaginária vai ligando pessoas a partir da relação entre amar e ser amado. O que em novelas e contos de fada funciona muito bem, mas, na vida real, sabemos que ligar esses pontos invisíveis pode ser uma das tarefas mais difíceis da vida.

E é neste instante que percebemos que essa comunicação não é tão clara quanto imaginávamos. Ruídos aparecem aqui e ali, até que se transformam em estrondos que impedem que os versos repletos de amor, alcancem o seu destino final. Pessoas que amam, não conseguem fazer com que sua mensagem chegue a quem interessa, interrompendo, assim, o fluxo das correspondências amorosas. Qual é o resultado disso? A chegada de um velho conhecido de muitos de nós: O amor não correspondido.

Antes de falarmos desse visitante inesperado e culpa-lo por todas as nossas frustrações, é bom voltar algumas casas deste jogo. Amar é, antes de tudo, uma condição individual, por mais que seja estimulada por outros olhares. Escolhemos amar de forma unilateral. Negamos isso com todas as forças, mas basta parar para refletir por alguns segundos para constatar que o amor não se submete a força bruta. Ele só se estabelece dentro de nós quando o aceitamos, sem pressão ou imposições. O que quer dizer que, amores não têm parcerias pré-estabelecidas, como somos levados a crer. O amor é um nômade solitário que não depende do outro para existir. Agora, se for para ser devidamente desfrutado, o amor precisa, sim, ser compartilhado.

No meio do furacão, temos a certeza do amor que carregamos individualmente e o anseio por dividir esse sentimento com outro para que possamos, enfim, gritar para todos que o amor é a melhor coisa do mundo. Essa disputa é o que nos confunde, uma vez que perdemos a medida do que é real e passamos a vislumbrar cenários irreais onde todos os amores serão correspondidos. Fazendo nascer a ideia equivocada de que amor, só presta se for a dois. E assim, esquecemos que é a nossa capacidade de amar unilateralmente, o que nos permite dividir amor quando bem desejarmos para que, só então, possamos espalhar ruidosamente, toda a felicidade que só o amor nos proporciona.

O amor é um troca-troca onde, nem sempre, encontraremos as peças corretas. Sofremos com a ideia de amores sem correspondência, porque gostamos de acreditar que não existe felicidade na ausência do idealizado amor a dois. Talvez tenha sido esta a forma encontrada para culparmos outros, que não nós, pelos possíveis desencontros que teremos com o amor por aí afora. Amar nos dá a chance de seguir amando de forma plural. O que não significa que seremos correspondidos por quem quer que seja. A capacidade de amar é pessoal e intransferível. Já, o desejo de divulgar o amor como único, para quem quiser ouvir, é um mal coletivo. Compreender esta diferença, nos permite aceitar que amores não correspondidos não são vilões que nos farão sofrer e, sim, percalços normais em um caminho onde, nem sempre, será possível enxergar os correspondentes para o nosso amor.

                                            Continua…

Sob pressão

Como está a vida? Se fizermos essa pergunta a pessoas próximas, a resposta será a mesma: uma grande correria. Viver sob pressão é algo inerente ao que resolvemos chamar de vida moderna. Mas será que precisamos, de fato, correr tanto para alcançar e conquistar o que estiver em nosso caminho? Bom, cada um de nós desenha a própria estrada, mas, no geral, viver a vida como se estivéssemos em uma eterna corrida de velocidade, é a maneira mais fácil de alienar-se diante do mundo. Além de ser muito cansativo.

Que somos pressionados com uma frequência acima do aceitável, não é segredo. Vivemos em meio a um turbilhão de vozes que ordenam e cobram atitudes o tempo todo, em um esquema semelhante a uma linha de montagem, onde é necessário alcançar um produto final e acabado no menor tempo possível. Pouco importa como faremos para executar essa tarefa e qual será o custo pessoal ao final dessa empreitada. Simplesmente execute e não reclame. Afinal, o mundo não respeita aqueles que não suportam pressão…

Ouvimos essa bobagem repetidas vezes como se fosse uma verdade absoluta. Até que se torne, de fato, algo que acreditamos ser verdadeiro. É claro que existem cobranças óbvias, uma vez que todos compartilhamos a vontade de chegar ao lugar mais alto em nossa escala de sucesso. Mesmo sem saber direito que escala é essa. Para muitos de nós, querer o melhor significa, às vezes, apenas mudar a configuração do seu momento atual, sem manobras mirabolantes ou mudanças profundas. Desejos despretensiosos em sua gênese. Até serem confrontados com a pressão causada por opiniões alheias e vontades que superam a nossa capacidade de decisão.

Isso quer dizer, então, que a nossa trajetória deveria ser muito mais tranquila, se não fossem as pressões que sofremos a todo instante? Possivelmente, mas é difícil identificar se é a pressão que vem de fora, a causadora do nosso sofrimento ou, se nascemos com uma queda pela autocobrança. Ambos podem ser fontes isoladas, ou não, responsáveis por nos empurrar para essa eterna corrida rumo ao que quer que seja. E que, via de regra, tornam-se responsáveis por tropeços frequentes e, muitas vezes, desnecessários.

A pressão cria um estado de atenção permanente que, independente do lugar que ocupamos, estabelece uma tensão tão recorrente que passamos a aceita-la como parte de nós. Nos acostumamos, estranhamente, as batidas aceleradas de um coração em frequente descompasso e a noites de sono vazias repletas de picos de ansiedade.

Esse estado de alerta começa em momentos diferentes de nossas vidas e, a influência que terá sobre nós, vai depender de quanto tempo, cada um consegue manter-se imune aos seus efeitos. Sempre teremos, pairando sobre nossas cabeças, uma mão pesada que mostrará sua força por muitas vezes. Ora sentiremos pânico, ora acharemos necessária a presença deste impulso que nos arremessa adiante. O problema é quando aceitamos a pressão como uma obrigação. Um calvário voluntário que não cansa de dizer que, momentos de calmaria são exceções descartáveis. E, dessa forma, seguimos pressionados, porque acreditamos que é assim que deve ser. Não devemos, jamais, acreditar nisso.

Criamos códigos que disfarçam bem os nossos momentos mais tensos. Não é por acaso que lançamos mão de sorrisos largos que tentam mostrar felicidades desmedidas. Sentir-se pressionado frequentemente, nos faz criar rotas de fuga que mascaram incômodos e mostram aos nossos espectadores, que estaremos sempre prontos para o que der e vier. É possível mudar esse caminho que parece inevitável? Sim. Gestos simples podem ajudar. Olhar para dentro e perceber se qualquer querer justifica uma existência sob pressão, é um bom começo. É importante ter em mente que sempre estaremos diante de muitas batalhas, mas que, nem todas, valem o preço do nosso valioso sossego.

Aos que vieram antes

Antes, havia um amor, um trabalho, uma casa. Antes, havia escola, amigos e muitos sonhos. Antes, havia uma imensa vontade de saber como seria o depois… Passamos grande parte da nossa existência imaginando o futuro, querendo saber como será a vida em tempos que ainda não existem. Perdemos incontáveis horas do nosso escasso tempo, tentando moldar possibilidades e acabamos esquecendo que, para caminhar em frente, é preciso saber quem somos e, sobretudo, quem fomos. Criar uma super versão futura de nós mesmos, só é possível quando damos valor aos que vieram antes.

O presente sempre será o elo entre o que nos precedeu e aquilo que gostaríamos de ser. Isso nos dá a chance de entender a forma como construímos nossas trajetórias a partir das experiências prévias, boas ou não, que acumulamos vida afora. Porém, damos muito pouco crédito as pessoas que já fomos e concentramos muita energia para formatar a pessoa que queremos ser. Talvez o nosso grande equívoco seja desconectar um evento do outro, uma vez que jamais seremos futuro se não respeitarmos nossas versões passadas.

A grande questão aqui não é criticar nossa queda por projeções futuras. Isso é para lá de saudável e nos ajuda, imensamente, no desenvolvimento das nossas metas, além de ser um ótimo exercício que ensina a enxergar versões mais legais, mais ricas e mais felizes do que a atual. Tornar-se melhor não passa apenas pelo desejo instantâneo de querer ser o que não se é. Esperamos que o futuro surja como um passe de mágica, trazendo um pacote de felicidades que transformará a todos em criaturas incríveis de uma hora para outra. Isto até pode funcionar em nossos mais puros devaneios, mas está longe de ser algo possível na realidade.

Todos temos o nosso antes. Deixamos marcas no mundo à medida que o tempo passa por nós. Marcas estas, que criam uma longa sequência de degraus aleatórios que nos conduzem ao exato ponto onde estamos. Construímos nosso presente, caminhando às cegas e abrindo portas que só revelam seu conteúdo depois de abertas. Dessa forma, seguimos montando um quebra-cabeças diverso que, além de definir quem somos, abre espaço para incluir novas peças que podem nos levar até cenários inesperados.

Porém, não podemos esquecer que, como em um quebra-cabeças, imagens só se formam a partir de encaixes perfeitos. Por esta razão, fica difícil continuar acreditando em futuros, onde, magicamente, rompemos com tudo que vivemos até então, e nos transformamos em personagens sem qualquer compromisso com o próprio passado. Talvez este seja um dos motivos pelos quais a maioria das nossas previsões não se concretize no mundo real. Não é possível renovar-se quando escolhemos ignorar aqueles que fomos um dia.

Mas, é bom esclarecer que este texto não se trata de apego ao passado ou as amarras que ele nos traz. Ao contrário. Esta é, sim, uma exaltação as nossas versões anteriores, mas sem saudosismos vazios. É um carinho com as nossas cópias retrô, repletas de uma sabedoria própria, que só melhora com o passar do tempo.

O nosso antes, é como a fonte onde podemos mergulhar sempre que precisarmos encontrar chaves que irão que nos ajudar a abrir novas portas. Fonte que devemos contemplar, vez ou outra, para relembrar grandes acertos, sucessos acomodados e os erros responsáveis por mudar as nossas vidas. Sim, os erros. Aqueles que no tempo presente significam derrotas dolorosas, assumem ares de redentores quando são vistos com distância. Já os acertos, tornam-se guias para possíveis rotas onde surfaremos em boas ondas ou voaremos em céu de brigadeiro. Mas, não importa para onde a balança irá pesar mais. Só nos tornamos capazes de perceber as nuances que nos formam, quando entendemos que, só conseguiremos transformar nossas sonhadoras projeções de futuro em um presente possível, quando não abandonamos o que nos precedeu, quando não viramos as costas para aqueles que fomos antes.

Novas conquistas

Novidades acontecem o tempo todo para nos mostrar que, independente de nossas convicções, a vida se renova e segue seu fluxo contínuo e irrefreável. Do momento em que nascemos até os dias de hoje, concentramos forças para tentar compreender esse mecanismo complexo que nos diz que é preciso reinventar-se sempre e que, ao mesmo tempo, não devemos esquecer a essência que nos faz ser quem somos. Parece contraditório, e é. Mas, ao mesmo tempo, explica parte da inquietude que nos impulsiona em busca de novos saberes e novas conquistas.

Nascemos, crescemos, amizades são feitas e desfeitas. Criamos novas conexões que movimentam novos costumes e diferentes formas de pensar e interagir. Isso faz com que o mundo se movimente em direções diversas e, muitas vezes, contrárias as nossas visões tão engessadas e cheias de certezas. Visto dessa forma, parece fácil perceber a chegada das mudanças. Mas estamos longe disso. A novidade nem sempre é visível a olho nú e pode passar absolutamente despercebida, até para os mais atentos.

O que devemos fazer para não perder nenhum capítulo dessa história que muda em tempo real? É ingênuo imaginar que podemos dar conta de cada fato novo, mas não podemos abrir mão de algumas coisas. Disponibilidade para quem nos cerca, atenção com o que é essencial e flexibilidade para não enrijecer além do necessário. Receitas simples, mas que podem suavizar, em vários aspectos, a pesada rotina que aprisiona sonhos e encurta horizontes. Para acompanhar as mudanças é preciso tornar-se parte do processo e, não apenas, contentar-se em ser um mero observador, pronto para se queixar de tudo aquilo que fugir as suas expectativas vazias.

Mudar é difícil? Quanto a isso não há dúvidas, mas nada é mais desafiador que perceber-se inerte diante da mudança. Como se estivéssemos imóveis em meio a um vendaval que movimenta todas as peças ao nosso redor mas que, por alguma razão, nos mantém presos ao mesmo lugar, impossibilitados de usufruir dos novos ventos. Essa imobilidade é, por vezes, uma opção para qual não cabe julgamentos. O caminho que nos leva a liberdade de escolhas, também pode nos envolver com pesadas correntes que trazem a ilusão de que, quanto mais pesada for a caminhada, mais forte será a nossa postura diante das novidades do mundo. Nada além de um grande engano…

Ser parte de algo novo, não pode ser apenas um sonho para observar de longe. Tornar-se um agente transformador da própria realidade, traz uma infinidade de novas possibilidades aos que escolheram ou foram levados a acreditar que, mudanças, só ocorrem de fora para dentro. Isso é, além de perverso, a perpetuação de um comportamento que aprendemos desde muito cedo e que diz que devemos nos contentar com situações onde, a normalidade aparente, é responsável por felicidades burocráticas.

Ceder ao novo provoca, quase sempre, reações distintas, em intensidades diferentes e com tempo de duração indeterminado. Alguns aceitam boas novas tranquilamente, enquanto outros, passam anos avaliando se vale a pena mudar uma peça de lugar. Perdemos mais tempo que o necessário, avaliando se o agora é melhor que o depois ou se o antes é mais confiável do que aquilo que está por vir…

O tempo nos ajuda a entender que, contemplar o novo possibilita, não apenas o aprendizado, mas também, baixa nossa guarda diante das muitas barreiras que enfrentaremos diariamente. Mas isso não é suficiente. É necessário aceitar que a novidade, quando nos alcança, propõe desafios que vão além da superficialidade. Aceitar o novo só é possível quando mudanças internas ocorrem e nos permitem acreditar que, novos desafios só serão possíveis quando, finalmente, dermos voz aos anseios de novidade que mantivemos, por muito tempo, escondidos no silêncio.

Por isso eu corro demais

Acorde cedo. Trabalhe muito. Divirta-se como se fosse a última vez. Seja bom amigo. Embriague-se com frequência. Persiga a felicidade. Pratique esportes. Seja saudável e lindo. Durma um pouco, se for possível… Reparem que esta é uma lista de como devemos nos comportar em tempos moderníssimos. Só em ler essa sequência, já é possível sentir uma ansiedade sufocante. Nesta proposta, não há espaço para nada que fuja a esse insano padrão qualidade. Ficar triste ou cansado não é legal. É comum, é sem graça. Por isso eu corro demais. Para tentar ser o melhor, nem que seja, apenas, aos olhos dos outros. Será que este é o caminho?

Nunca fomos tão pressionados como agora. Mas também, nunca precisamos cumprir tantos pré-requisitos para sermos aceitos, apesar de caminharmos para um mundo onde a inclusão é uma pauta definitiva. Para entender melhor, basta olhar a sua volta. Sempre haverá um expoente em alguma tribo. Aquele que desperta, não apenas a nossa admiração, mas também, a de uma legião disposta a segui-lo e a copiar gestos, roupas, falas e posturas. À medida em que isso ocorre, cria-se uma padronização de comportamento. E, para todo padrão criado, nasce, ao mesmo tempo, uma massa de excluídos.

Sempre que miramos em algo ou em alguém que nos interessa, imediatamente pensamos em como seria se estivéssemos naquela posição. Em alguns casos, essa vontade de ser como o outro, desperta ansiedades difíceis de conter. Quando isso ocorre, entramos em uma frequência que diz que, para ocupar aquele lugar, é preciso abrir mão de algumas particularidades para tornar-se um rascunho de alguém que jamais seremos. E, assim, caminhamos em direção ao arriscado caminho daqueles que escolhem um padrão para chamar de seu.

Padrões estão por toda parte, dizendo o que devemos fazer, quando fazer e com quem fazer. Alguns conseguem ignorar essas correntes com tranquilidade, mas, para a grande maioria, é impossível resistir ao desejo de se aproximar de uma fórmula de sucesso, perseguida por muitos e privilégio de poucos. Fórmulas que não passam de armadilhas muito bem pensadas para atrair o maior número de admiradores que, tentarão a todo custo, apagar traços próprios e adequar suas medidas para que possam caber em fôrmas alheias e desconfortáveis.

Mas, se sabemos previamente que padrões existem e que, invariavelmente, seremos tragados por eles, por que não relaxar e aproveitar? Afinal, o que há de tão ruim em acordar todos os dias e travar batalhas com poucas chances de vitórias? Por que não seguir acreditando que sem dor não há ganho? O que há de errado em querer ser melhor, mais inteligente e mais bonito? Qual é o problema em querer mostrar que, além de sexy, somos saudáveis e bons de cama? E por que não fazer isso tudo ao mesmo tempo? Não há nada de errado com absolutamente nada disso, a não ser que isso cause, por menor que seja, algum tipo de dor ou sofrimento aos que tentam, incessantemente, alcançar marcas inalcançáveis.

A vida é feita de muitos ritmos e nem sempre conseguimos seguir o seu compasso. Especialmente quando tudo parece acelerar demais e distorcer as imagens a nossa volta. Corremos o mais rápido que conseguimos, na busca por padrões que funcionem como atalhos que nos levem a lugares que nem sabemos direito se queremos ir. E. no caminho, encontramos verdades nada fáceis de engolir.

Não aceitamos o fato de vivermos tão pouco e, talvez por isso, tenhamos tanta dificuldade em aceitar quem realmente somos e quais são os nossos limites. Sucumbimos a padrões tolos porque, supostamente, facilitam a nossa convivência. Corremos demais. Mas, ao contrário do que pensa, isso não faz ninguém experimentar a vida ao máximo. A pressa, por si só, exclui a calma necessária para aproveitar detalhes, trazendo consigo uma única certeza: quanto maior for a nossa velocidade, mais próximos estaremos do fim.

Futuros possíveis

Muitos são os pontos de encontro que nos unem nesse mundo. Mas nada é tão impressionantemente comum, quanto a nossa capacidade de projetar o aqui e agora, em direção a futuros possíveis, onde, independente da situação que vivemos no presente, temos a certeza que, o que virá, trará alívio para todos os males. Dessa forma, conseguimos ganhar fôlego para suportar tristezas, digerir decepções e reorganizar ideias. Especialmente naqueles momentos em que nada disso parece ter solução.

Saber como será o amanhã é algo que não está ao nosso alcance. Talvez este seja o motivo que nos leve a criação de realidades fantásticas, onde a felicidade é um direito total e irrestrito a todos aqueles que a desejarem. A esperança nos faz acreditar que o amanhã será sempre melhor que o hoje, que não há dor que dure para sempre e que há solução para todos os problemas. Essa capacidade tão própria da nossa natureza, possivelmente é um item que vem de fábrica mas que só o tempo nos ajuda a entender como funciona.

Alguns trazem essa esperança estampada no peito como um grande estandarte, enquanto outros escondem, timidamente, essa habilidade de acreditar na existência de dias melhores. O que não é uma regra, uma vez que todo mundo, em algum momento, já vivenciou tanto explosões de otimismo, quanto o abandono provocado pela desesperança. Experimentar esses extremos é essencial e permite a compreensão sobre quase tudo aquilo que nos cerca e ajuda a demonstrar, inclusive, que a esperança no futuro só é possível a partir do instante em que se entende que, mudanças, nascem a partir de incômodos.

Se puxarmos pela memória, certamente encontraremos momentos onde a única coisa que nos manteve de pé, foi a crença em uma realidade alternativa que nos receberia sem restrições, independente de quem somos ou do que fizemos. Quem nunca se viu soterrado por problemas insolúveis à primeira vista, mas que foram mudando à medida em que acreditamos num futuro próximo, onde tudo aquilo não passaria de lembranças incapazes de nos fazer mal? Sei que não é nada fácil pensar assim, quando estamos no olho do furacão, mas não custa tentar…

Usar a imaginação como arma de sobrevivência em momentos hostis, pode nos ajudar a resolver os vários fracassos que iremos colecionar por aí afora. Corações partidos, por exemplo, são capazes de provocar dores inimagináveis. Mas até isso pode ser amenizado quando acionamos o nosso botão de emergência que, imediatamente, projeta um futuro feliz onde conseguimos, apesar da dor, imaginar como a vida será melhor quando um novo amor chegar. Para toda e qualquer situação ruim, teremos sempre uma maravilhosa chance de nos transportar para onde os problemas são proibidos de entrar. Assim, usando nossa imaginação de forma quase infantil, é possível aliviar o peso de alguns fardos, conseguindo uma carga extra de energia que será capaz de aplacar dores e fortalecer convicções.

É claro que, por vezes, sequer lembraremos de usar essa válvula de escape. Mergulharemos tão intensamente em nossas questões que teremos certeza de que a luz no fim do túnel não passa de uma metáfora vazia. Mas, para nossa sorte, na maioria das vezes, seguiremos em frente, acreditando em um caminho que, sempre que possível, nos levará até onde podemos ser maiores e melhores. Este não é um incentivo a viver na irrealidade e, sim, uma forma de demonstrar que somos, de fato, capazes de vencer dificuldades a partir do instante em que não as levarmos tão a sério.

Problemas são barreiras que se colocam diante de nós para testar nossa capacidade de superá-las. Coisa que fazemos com frequência. Caímos, levantamos e aprendemos muito nesse processo. Mas o que talvez seja a melhor parte disso, apesar das dores e frustrações, é perceber que poderemos contar sempre com a nossa habilidade de criar futuros capazes de salvar o presente.

Amores baratos

Nos últimos tempos, estar apaixonado ou envolvido por alguém parece ser o objeto de desejo de nove entre dez aspirantes ao amor. Essa ânsia por amar a qualquer preço vem assumindo proporções incontroláveis e acaba criando uma busca frenética por um bem querer. Isso, além de baixar os níveis de exigência, nos conduz a prateleiras desarrumadas onde é possível encontrar produtos nada exclusivos e com prazo de validade duvidoso, como: paixões instantâneas, afetos eventuais e amores baratos.

Esse cenário de terra quase arrasada onde é preferível garantir qualquer coisa a ficar de mãos abanando, tem lá suas consequências. Até onde estamos dispostos a ir para ter alguém? Qual é o preço que estamos prontos a pagar para dividir a vida com um par? Até quando será necessário estar com alguém para ser feliz? Perguntas necessárias, porém, difíceis de responder em tempos onde a cobrança por uma felicidade pasteurizada e padronizada, pesa sobre os nossos ombros, ditando regras e costumes.

Os amores, que antes eram sólidos, tornaram-se líquidos difíceis de reter por muito tempo. O que causa uma série de dissabores àqueles que apostaram suas fichas no amor idealizado, romântico e inalcançável. E, à medida que o tempo passa e a pressa pela conquista aumenta, o amor tende a mudar uma vez mais e transformar-se em vapor, tornando a vida das pessoas ainda mais complicada. Isso faz com que aumentemos a velocidade na busca por algo que torna-se cada vez mais difícil de encontrar e, principalmente, de reconhecer.

Em meio a essa maratona atrapalhada, tropeçamos em pedras de todos os tipos e tamanhos. A maioria não passa de pedaços de rocha sem muito brilho, mas que ajudam a treinar o nosso olhar para reconhecer o momento em que, enfim, as pedras preciosas começarem a surgir. Só que esse é um trabalho de paciência e tentar acelerar o processo pode nos forçar a ver preciosidade e brilho em cascalhos que, além de pesados, não valem grande coisa…

É claro que conhecer pessoas é algo maravilhoso em todas as etapas da vida, desde que seja no nosso tempo e sem ultrapassar os nossos limites. Porém, como escolhas e perdas caminham juntas, não há como ganhar aqui sem perder logo ali. Essa é uma percepção que  demora a ser construída e, acima de tudo, compreendida. Ao longo desse aprendizado, nos acostumamos a ouvir juras de amor vazias, promessas de eternidade que duram instantes e  frases de apaixonadas que dizem exatamente aquilo que o outro quer ouvir. Amar é, certamente, muito mais que isso.

Estar só, depois de algum tempo, acaba atraindo mais olhares do que gostaríamos, como se estivéssemos marcados pela incapacidade de amar. Nada disso. Procurar as pedras certas, tropeçando nas erradas também tem o seu valor e oferecem uma grande lição. Um dia, todos acabam descobrindo que o amor idealizado só existe em comerciais de margarina. Na vida real há o amor imperfeito, cheio de contradições e dificuldades, mas que, apesar disso, é capaz de imprimir sorrisos simples, sinceros e irresistíveis em lábios apaixonados.

Os amores baratos estão por toda parte, oferecendo sonhos de felicidade plena que, quase sempre, transformam-se em desamores parcelados a perder de vista. A receita para não cair nessa cilada é simples. Se for começar a amar, é melhor não prometer além do que se pode cumprir. Se for continuar amando, nunca deixe de resgatar o brilho precioso de suas pedras. No mais, é só seguir em frente e deixar o amor mostrar o seu verdadeiro valor.

 

Vozes de alerta

Pensamentos recorrentes costumam nos visitar quando menos esperamos. E, sempre que vão embora, deixam um rastro de sensações que, dependendo do nosso estado de espírito, podem bagunçar nossas certezas, reacender chamas há muito apagada ou valorizar alguns erros que jamais deveriam voltar à tona. Isso acontece com tanta frequência que sequer nos damos conta da existência desses pensamentos. Que são, na realidade, vozes de alerta, inaudíveis aos outros, mas que são capazes de gritar em nossas cabeças, projetando medos, ansiedades ou euforias para fora das caixas onde insistimos em guarda-las.

No início não damos muito crédito aos anseios que começam a tomar forma e causar incômodos, mas, pouco a pouco, os sons aumentam seu volume e torna-se impossível ignorá-los e, principalmente, não prestar atenção aos seus reflexos. No fim, pouco importa como vamos lidar com isso, uma vez que nossas vozes internas só se calam quando, finalmente, aceitamos ouvir tudo aquilo que elas tem a dizer. Tentar ignorar esses sinais, certamente, não é a melhor saída.

Situações onde ouvimos o que não queríamos ou não merecíamos ouvir, apresentam desdobramentos internos que, via de regra, trazem um sem número de questões que vão desde os clássicos “por que eu não respondi à altura?” ou “da próxima vez isso não vai ficar assim…”, até aquelas sensações desconfortáveis que não sabemos direito qual é a sua origem e o que, de fato, querem dizer. Não é nada fácil entender a expressão discreta dos nossos códigos, mas esta é, possivelmente, a melhor arma que temos para fortalecer fraquezas e estabelecer limites que nos ajudam a enxergar até onde vale a pena seguir.

Mas há o outro lado da moeda. Não é sempre que nos permitimos escutar as expressões que vem de dentro. Muitas e muitas vezes, abafamos todo e qualquer ruído que possa, minimamente, alterar a rota que traçamos, mesmo que isso nos leve para uma grande cilada. Querer demais, seja lá o que for, forma uma barreira a todo e qualquer alerta. Criar certezas, mesmo que estejam sobre pilares frágeis, nos impede de enxergar alguns enganos, mesmo que estejam bem diante de nós. Ignorar nossos avisos particulares, talvez seja o principal motivo que nos leve a enfrentar frustrações desnecessárias e relações arrastadas onde as perdas são sempre maiores que os ganhos.

Na prática, só aprendemos a valorizar nossas placas de perigo após um longa sequência de tombos, pés na bunda e decepções que servem, dentre outras coisas, para mostrar que vale a pena parar, olhar para dentro e consultar nossos verdadeiros anseios, antes de qualquer tomada de decisão. Mas é preciso ter a clareza que, pedras serão uma constante na vida de todo mundo e não é isso que nos fará desistir daquilo que queremos. Insucessos, apesar de seu gosto amargo, são absolutamente importantes, uma vez que forçam um retorno ao ponto de partida, de onde é possível traçar novas rotas e reavaliar o que não deu certo.

Toda essa conversa serve para dizer que, apesar de todas as influências que sofremos desde sempre, no fim, seremos nós os únicos responsáveis por cada passo, por cada escolha e por cada perda. De toda forma, nossos erros e acertos são o reflexo de como percebemos o mundo e as lições que ele nos dá. Nossas vozes de alerta dão a medida entre a diversidade do que está fora e a complexidade do que somos por dentro. Por vezes, enxergamos essas dicas mas não damos muito crédito, em outros momentos, supervalorizamos a sua importância. Isso faz parte do jogo.

O mais fascinante nisso tudo, é perceber que, mesmo que de forma inconsciente, temos um mecanismo de autoproteção que nos ajuda nas vitórias, nos avisa sobre os erros e nos dá a mão quando precisamos superar uma queda. Aprender a usar essa ferramenta poderosa leva tempo, às vezes uma vida inteira. Mas não importa o quanto demoramos para compreendê-la. O essencial aqui é perceber que para seguir em frente, realizado com suas escolhas, sejam elas boas ou não, é preciso dar ouvidos ao conselheiro que vive dentro de cada um de nós.