Essa culpa eu não carrego

          Estamos diante de uma sequência de eventos que, de tão estranhos, beiram a insanidade. Eventos que acontecem em uma velocidade tão impressionante, que nos impede de acompanha-los com alguma clareza. Vivemos um momento de tanta estranheza, em que, até o nosso cotidiano perde, pouco a pouco, o próprio sentido. Isso nos leva ao perigoso caminho da isenção. E, uma vez que não temos mais a responsabilidade por nossas ações, sejam elas diretas ou não, passamos a usar com muita frequência, o jargão mais infame dos últimos tempos: Essa culpa eu não carrego!

         Esta é a grande muleta que utilizamos sempre que precisamos pular fora de uma questão. Não quero. Não sei. Não vi. Não fui… Assim, se nada tenho com o que quer que seja, me isento de tudo. Mas, até que ponto, podemos ficar à margem de decisões, sejam elas pessoais ou coletivas? É possível passar a vida sem se envolver? Sim e sim. Essa é a resposta de muitos e cada vez mais.

          O mundo está recheado de pequenas questões e de grandes polêmicas que caem em nossos colos muitas vezes ao dia, o que quase torna possível uma justificativa para a isenção nossa de cada dia. Quase. Sabemos que não é possível estar a par de tudo e, muito menos, interferir em todas as questões que nos cercam, mas, não há como fugir de todas o tempo todo. Afinal, o que nos constrói como sociedade é, definitivamente, a capacidade de fazer conexões e agir de acordo com o comportamento do outro.

         O que se vê agora é o oposto disso. Como se, de uma hora para outra, passássemos a negar todos os estímulos e provocações inerentes a qualquer relação, em prol de uma neutralidade repleta de um cinismo quase covarde. Sabemos que é possível ver a miséria e não se importar, assim como ver as vítimas da violência aumentarem progressivamente e, ainda assim, fazer de conta que nada disso é capaz de conquistar a nossa atenção.

     Não há, por trás destas palavras, a pretensão em ditar regras de comportamento sobre como cada um deve conduzir suas relações com a vida que os cerca. Mas servem de alerta para esse movimento coletivo onde tudo acontece, mas nada é da nossa conta. Relativizar a importância das coisas é uma bola de neve que começa com pequenas insensibilidades, que começam com um bom dia não respondido e um sono fingido no assento preferencial, e vão até a não aceitação da responsabilidade pela escolha de demônios como representantes do povo. Afinal, essa culpa, eu não carrego, não é mesmo?

         Meus amigos, não há como ser isento em um mundo feito de escolhas. Não há como ser isento em uma vida que implora por posicionamentos. Não há como ser isento nesta realidade sem ser cínico. Não há como ser isento quando se vive coletivamente. Não há como ser isento. Não há.

Forças da natureza

       É impressionante como algumas palavras bem curtas, apresentam significados que difíceis de explicar. Já perceberam que algumas das pessoas mais importantes de nossas vidas são denominadas por, no máximo, três letras? Tia, tio, avó, avô, mãe e pai. Criaturas que têm seus nomes substituídos por toda uma vida, e se enchem de orgulho disso. Quando nascemos somos imediatamente apresentamos a indivíduos sem nomes próprios, mas que pouco se importam com isso. Pessoas que deixaram de ser indivíduos para tornarem-se forças da natureza. E uma dessas forças é celebrada hoje.

          Pai. Quantas definições cabem aí? Sei lá. Criar significados serve para muitas coisas, mas não para forças da natureza. Essas simplesmente se criam, se mantém e se sustentam por si só. Se fecharmos os olhos, encontraremos na memória alguma figura que antes parecia um gigante, de fala grossa e com mãos pesadamente protetoras e carinhosas. Figura essa que extrapola vínculos genéticos, basta que esteja repleta de uma capacidade inesgotável de amar.

            Pais são, injustamente, lembrados como rochas inabaláveis que estão ali para sustentar os seus de todas as formas possíveis. O que acaba por criar uma ideia de que devemos oscilar entre amor, respeito, medo e admiração por estes que têm, obrigatoriamente, a função de pilares de suas famílias. Porém, o tempo passa e leva consigo esse estereótipo repleto de força bruta e vazio de sensibilidade. Pais podem, e devem, ser muito mais que isso. Sensibilidade, cuidado e afeto são traços humanos que não podem ser aprisionados em gêneros. Afinal, amor sem demonstração, não passa de intenção vazia.

            Pai. Palavra cunhada sobre a figura masculina e que, por muito tempo, relegou os homens ao papel de provedor isento de sentimentos por sua prole. O curioso nisso tudo é que, apesar de muitos tentarem masculinizar, de forma tóxica, a figura paterna, o ser pai nos conduz a um substantivo feminino, acolhedor e forte, porém cheio de ternura: a paternidade. Tão desejada por uns, tolerada por outros e, infelizmente, rechaçada por muitos. Negar o acolhimento que a paternidade oferece ao homem, é, sim, provocar abortos cinicamente aceitáveis.

           Ser pai não é doar genes. Ser pai é estar lá por seus filhos não importa quem sejam, o que tenham feito ou de onde tenham vindo. Ser pai nasce do desejo de perpetuar-se incondicionalmente. Ser pai é assustar para, em seguida, derramar-se de amor. Ser pai é aprendizado, entrega e insegurança. É brigar e se emocionar, dizer bobagens e cair na gargalhada. Ser pai é pavimentar caminhos limpos, porém repletos de pegadas largas, firmes e profundas, capazes de nos guiar, fortalecer e amparar sempre… e para sempre.

Feliz dia para todos aqueles que decidiram ser pais.

Aniversários são datas curiosas

       Aniversários são datas curiosas. É uma celebração que começa muito antes de entendermos o porquê desse ritual comemorativo. O que significa que já somos festejados, mesmo antes de saber o que isso quer dizer. Mas, o mais curioso em fazer aniversário, é a possibilidade que temos, ao longo dos trezentos e sessenta e cinco dias do ano, de poder ser o centro de um fluxo de energia tão particular e especial.

        E, mesmo que tenhamos 8, 25, 44 ou 89, há uma energia especial que nos visita e faz companhia durante as vinte e quatro horas do dia que foi reservado especialmente para nós. Que energia é essa? Não sei dizer, mas, de todas as emoções que nos arrebatam no dia em que estreamos nessa vida, nada é tão significativo quanto a gratidão. Fazer aniversário é relembrar, todos os anos, que há uma vida para ser vivida lá fora. É ter a certeza de que, sim, somos o motivo da alegria e da gratidão daqueles que nos trouxeram até aqui.

       Fazer aniversário é ter o privilégio de ser a razão de um sorriso, de um abraço apertado, de um beijo molhado, de uma ligação de longe ou de uma mensagem na rede social. Fazer aniversário é receber amor gratuito, alegria genuína e um carinho restaurador que nos dá forças para seguir mais um ciclo que se inicia. A data que acreditamos ser nossa, é, na verdade, o nosso momento mais coletivo e que nos proporciona a melhor, a maior e a mais especial troca de afeto que podemos receber. E, em tempos tão duros, nada é tão potente quanto doar e receber amor.

       Aniversários são datas realmente curiosas não pela festa em si, mas, porque nos dão, nem que seja uma vez ao ano, a chance única de agradecer por tudo aquilo que realmente importa e, principalmente, por nos lembrar o que a felicidade plena pode caber em carinhos simples e abraços verdadeiros. Ser grato por isso é, sem dúvidas, o nosso maior presente.

 

Muito obrigado por tudo,

Marco Rocha.

Camadas de tinta

            É difícil mensurar a quantidade de desafios e dificuldades vividos até aqui, mas, ao tentar olhar para trás, percebo quão transformadora foi essa jornada. Agimos a partir dos movimentos que a vida nos apresenta e estamos sempre em busca de alguma demanda que nos faça mudar o status anterior. Empregos, amores, família e todas as outras convenções sociais que nos façam assumir novas posturas diante da vida, exigem novas cores e formatos. Dessa forma, seguimos a vida acumulando novas camadas de tinta que ajudam a esconder nossas texturas originais.

       Vivemos em um sistema que molda formatos, que dita comportamentos, que impõe regras. Essa padronização geral, nada ingênua e muito ardilosa, nos leva a crer que possuímos um colorido único e que podemos expressar todas as nuances que desejarmos. E, o que parece muito sedutor é, na verdade, um grande engano. Sabemos bem o que interessa aos padrões: normatizar, relativizar e nivelar pessoas e suas formas, talentos e suas cores, sinalizando que todos devemos circular em uma infinita palheta de cores pastéis, porém, acreditando que somos exclusivamente radiantes.

          Assim, para cada desafio que a vida nos apresenta, substituímos os tons e apagamos os registros daquilo que não nos serve mais. O que não chega a ser um grande problema, uma vez que, mudar, é desejável. Mas, o quanto de interessante, particular e original, ocultamos sob tantas demãos de tintas? O que deixamos de enxergar como único em nós, apenas por que o mundo nos diz que não é adequado explorar cores fortes e brilhos intensos demais? É, não resta dúvidas de que detalhes raros se perdem quando decidimos nos pintar nos mesmos tons de todos os outros.

              Seguimos uma cartilha repleta de regras que são postas em prática do instante em que abrimos os olhos, até o momento em que eles não mais se abrirão. Nos pintam com as tintas sóbrias da família e daí vem a escola nos padroniza em tons de bege e cinza. Na adolescência, descobrimos as cores intensas que os padrões tentam ocultar a todo custo. Um curto período onde a intensidade é tolerada com alguma parcimônia, infelizmente.

        Mas, é na idade adulta onde somos obrigados a encarar uma das perguntas mais difíceis da vida, mesmo que jamais tenhamos percebido a presença desta indagação: Nos manteremos no catálogo dos frios tons padronizados ou pintaremos nossas fachadas com cores fortes e vibrantes? Essa pergunta não é simples e, tampouco, possui uma resposta óbvia. Sempre oscilaremos entre momentos de intensidade e sobriedade.

         Nos cobriremos com muitas cores vida afora, mas, precisamos ter muito cuidado com os detalhes de nossas pinturas originais. Cobri-los com muitas camadas de tinta ruim, ajuda a soterrar potencias, aniquilar talentos e suprimir genialidades que sequer tiveram a chance de brilhar. Sempre é tempo de remover as cores circunstanciais e deixar brilhar os tons que ninguém mais tem.

Troco likes por humanidade

            E, nesse emaranhado de notícias caóticas que nos envolve diariamente, fomos subitamente informados que, os nossos amados e necessários coraçõezinhos, não mais farão parte da vitrine do amor virtual. De uma hora para outra, deixamos de ver o quanto celebridades perfeitas são adoradas e o quanto suas postagens são queridas. Mas, acima de tudo, perdemos a comparação, a disputa e busca desenfreada pela atenção virtual que tanto nos faz bem. Ainda bem. Será que chegou a hora em que poderemos, enfim, trocar likes por humanidade?

            Todos somos vítimas e algozes nesse jogo voraz, que chamamos de redes sociais. Queremos ser vistos, seguidos e admirados cada vez mais. Deixamos de lado o prazer de uma refeição quente, de um belo dia de praia e de como é bom ser tocado pelo olhar de quem nos ama. Preferimos fazer isso tudo através de uma lente que, sedutoramente, nos permite repetir registros incontáveis vezes até que, finalmente, alcancemos aquilo que acreditamos ser perfeito o suficiente para atrair o olhar alheio. Trocamos instantes de intimidade por imagens frias e ávidas por publicidade.

            Somos aquilo que postamos. Na verdade, nos transformamos em perseguidores de atenção. Mas, que atenção é essa que se tornou tão cara para todos nós? Quem nos garante que, quem nos curte, nos ama? Quem pode nos afirmar se, os milhares de seguidores que vivem dentro de caixinhas de tela brilhante, de fato, existem? Vale a pena ser alvo de um amor tão intenso e, ao mesmo tempo, tão efêmero? Vale a pena ser reduzido a uma imagem incapaz de expressar realidade? Não, não vale.

               É curioso como, em tão pouco tempo, desistimos de ouvir vozes reais para sorrir de áudios sem rosto. Até outro dia, jamais dispensaríamos o calor que emana de mãos dadas, para conquistar “olhares” que não conseguem nos olhar nos olhos. Montamos perfis baseados em luzes editadas e felicidades ensaiadas exaustivamente, com um único e claro objetivo: o seu like. Fico curioso para saber como será a nossa interface entre o real e o virtual. Ainda seremos amados, agora que somos feitos de likes invisíveis?

             Distribuímos curtidas indiscriminadas, esperando ter outras tantas em troca. As mídias sociais reinventaram o escambo, só que, neste caso, a moeda de troca é formada por projeções irreais de felicidade. Delícias modernas oferecidas a todos nós, mas, disponíveis para poucos. O que provoca efeitos colaterais que são imperceptíveis para alguns, mas, devastadores para outros. Agora que os likes sumiram de nossas vistas, talvez esta seja uma boa chance para deixarmos de lado a busca por uma ilusória perfeição virtual, para abraçarmos, definitivamente, a nossa imperfeita, genuína e deliciosa humanidade.

Não existem inocentes no absurdo

            Em que momento o intolerável começou a ocupar o lugar comum em nossas vidas? Dormimos repudiando barbaridades e acordamos acreditando que roubar infâncias é algo normal. Será que o mundo se pôs de ponta a cabeça com tamanha velocidade que nos impediu de perceber que, o que era bom, perdeu valor no mercado e, o que era deplorável, passou a ser suportável com muita tranquilidade? Será que a maldade invisível deu uma rasteira na nossa boa-fé? Muitas perguntas e uma única certeza. Não existem inocentes no absurdo em que vivemos.

            Presenciamos nos últimos tempos, situações que beiram o insano, o imoral e o impensável. E podem acreditar, esta não é uma fala revestida de pudor. É uma constatação indignada, impotente e assustada diante de uma realidade que, nem nos nossos piores pesadelos, imaginaríamos viver. É como se estivéssemos em uma dimensão onde o nosso umbigo é o centro do universo. Uma dimensão cinzenta onde tudo é desimportante, superficial e perigosamente indiferente.

            Vivemos um mundo pelo avesso. Degradamos a casa onde fomos criados. Alteramos tudo que vemos pela frente, mesmo que isso signifique o desaparecimento de tantas outras vidas mundo afora. Praticamos uma violência que adjetivos não conseguem mais classificar. Transformamos a barbárie em algo corriqueiro e banal. Criamos uma prisão claustrofóbica, revestida com papéis de parede que refletem um belo céu azul com nuvens calmas. Uma bela forma de autoengano que dá suporte a um estilo de vida perfeitamente irreal.

            Criamos células fantasiosas que escondem aquilo que não queremos ver. Transformamos o feio em bonito, o que era errado virou certo e o mal passou a não ser tão mal assim. E por quê? Talvez para esconder a nossa enorme covardia. O absurdo não tomou conta de tudo repentinamente, como escolhemos acreditar. Permitimos que ele tomasse corpo, demos suporte para que ele se espalhasse e, quando ele assumiu o controle, lavamos nossas mãos e nos maquiamos com o bom e velho cinismo, próprio dos covardes e dos mal-intencionados.

         Estamos diante de um paradoxo. Evoluímos tanto sob diversos aspectos, mas, ao mesmo tempo, jamais deixamos de flertar com a irracionalidade. E não é difícil constatar isso, basta olhar para os absurdos escolhidos, deliberadamente, pelas maiorias orgulhosas espalhadas por aí. Podemos consumir mais venenos? Renunciar à educação ampla e justa e aniquilar patrimônios naturais? Subjugar mulheres, abusar de crianças, rechaçar afetos? Acumular mais do que precisamos e desprezar a pobreza e aqueles que nela são forçados a viver? Sim, podemos. Sim, queremos.

            E por quê? Isso eu não sei dizer, mas o que fica muito claro, diante do que temos vivido, é que estamos afundados até o pescoço neste absurdo convenientemente perverso. O que o mundo quer de nós agora? Que façamos escolhas. Precisamos decidir se continuamos presos à essa lama ou se lutamos para que o absurdo, enfim, dê lugar à razão.

O insano ritmo que inventaram para nós

    É engraçado como nos acostumamos a observar, falar e viver a vida em modo avançado. Corremos de um lado para o outro, sem saber muito bem aonde estamos indo. Sabemos, apenas, que precisamos chegar lá, seja lá onde for. E, essa correria, não abre muito espaço para momentos de calmaria espontânea, desaceleração programada ou aquela simples vontade de não fazer absolutamente nada. Até que, por descuido da tal vida moderna, algo inesperado nos obriga a reduzir o insano ritmo que inventaram para nós.

          Essa parada não programada é um desejo que, apesar de compartilhado por muitos, quase não ousamos expressa-lo em alto e bom som. Como se fosse algo feio, desejar que, por alguns momentos, a vida sentisse preguiça e nos concedesse um tempo para respirar, rever amigos, consertar a torneira ou ver os filhos crescerem de verdade. Parece que, no momento em que nos rendemos a esse modelo de vida que sussurra o tempo todo em nossos ouvidos “Não pare! Siga em frente! Não olhe para trás!”, passamos a ver tudo em imagens borradas e sem definição.

          E, nos raros momentos em que conseguimos uma pausa para respirar, percebemos que não vimos as crianças crescerem, os cabelos brancos chegarem e as amizades se transformarem em lembranças. Raros momentos em que chegamos à conclusão que passamos a vida no mesmo lugar, sem perceber que lugar era esse. E, a partir desse ponto, passamos a acreditar que é preciso fazer escolhas, a começar pelo ritmo que imprimimos à vida. Ninguém deseja sair do maravilhoso transe que é viver usufruindo do maior bem que podemos desejar nos dias de hoje: o tempo.

         Talvez, o ato de escolher, tenha se transformado no maior dos nossos privilégios. Se decidirmos correr, o mundo, talvez, nos presenteie com algumas possibilidades. Se a escolha for por uma vida onde o tempo não é um tirando e sim um parceiro, é melhor ficar preparado para os muitos olhares inquisidores que lembrarão, a todo instante, que não é possível ser bem-sucedido sem se deixar sacrificar pela pressa da vida. Como eu disse, uma escolha nada simples.

         Apesar de todos compartilharmos o desejo por uma vida mais calma, o real significado disso é absolutamente particular. Se somos todos diferentes, também são diversos os nossos desejos. Mas, de todo modo, precisamos estar atentos ao que fazemos do nosso próprio tempo e, o quanto de culpa atribuímos a ele pelas escolhas que fazemos. Não se trata de fazer a escolha de Sofia, mas, sim, de entender que não é preciso esperar que o destino coloque paradas obrigatórias em nosso caminho.

       Em tempos de correria obrigatória, as paradas nem sempre nos trazem saúde para usufruí-las. O tempo sempre seguirá o seu inabalável e contínuo fluxo. Sejamos seus cúmplices e caminhemos lado a lado do único que pode nos mostrar como viver bom, se aprendermos a degustar tudo no seu devido tempo.

A suspeita aprovação alheia

            Se tem uma coisa que aproxima a todos nós, é a necessidade de conquistar a suspeita aprovação alheia. E não adianta negar. Quem nunca se pegou olhando ao redor, buscando um olhar, sorriso ou um tapinha nas costas que trouxesse um alento positivo que diga “é, você acertou”. É claro que cada um de nós sente o peso dessa aprovação de formas diferentes. Quanto mais jovens nós somos, mais devastadores são os efeitos do olhar do outro. Ainda bem, que o passar dos anos alivia esse fardo. Ou pelo menos deveria.

            É difícil saber com exatidão em que momento, as opiniões externas assumem o status de ditadoras do comportamento alheio. Talvez seja um avanço progressivo, onde, pequenas doses de interferências, supostamente inocentes, ganham volume e passam a criar pequenos obstáculos que, com o passar do tempo, transformam-se em barreiras difíceis de transpor. Mas, o mais inquietante neste enredo é perceber como, todos nós, de alguma forma, pautamos nosso comportamento a partir do que os outros apontam como certo ou errado, feio ou bonito, bom ou ruim.

            A opinião do outro sobre qualquer uma das nossas características não chega a ser um problema, uma vez que, a maioria de nós, também passa, com facilidade, de réu a acusador de acordo com a ocasião. E, neste jogo de gato e rato onde ora somos o dedo que aponta, ora somos a face que é exposta, apenas um resultado é possível: idealizar o outro de acordo com as nossas expectativas. Esperamos que o mundo aja de acordo com os nossos pontos de vista, logo, qualquer comportamento que não esteja enquadrado em nossos formatos, passa a ser alvo de julgamentos rasos e instantâneos.

           Então, não é exatamente a opinião do outro que nos afeta, mas, sim, o receio em desapontar as opiniões que o mundo tem a nosso respeito. Nossos questionamentos sobre o que os outros acham de nós, não passam de projeções dos nossos próprios julgamentos. Os perigos em medir as pessoas e seu comportamento a partir da nossa régua, permite, apenas, que criemos uma visão restrita e distorcida da realidade.

          Depender da aprovação alheia ou ser o inquisidor do comportamento do outro, são atitudes igualmente perversas, pois, ambas são responsáveis por anular expressões, aumentar medos e reprimir espontaneidades. O que, trocando em miúdos, significa fazer mal ao outro sem qualquer razão. Estamos impregnados de julgamentos que nos tornam senhores do comportamento externo e, ao mesmo tempo, dependentes crônicos da suspeita aprovação alheia. Mas, apesar desse cenário triste onde deixamos de ser originais, é possível enxergar uma luz de esperança.

         Vivemos em tempos onde o desejo pela aprovação do outro massacra e exclui, mas, se olharmos bem, o julgamento alheio não é tão poderoso assim. Para derrota-lo, basta abrir mão do próprio desejo de categorizar o outro. No momento em que percebermos que a diferença que enxergamos no outro, pouco importa na aceitação daquilo que temos de genuíno, estaremos livres para sermos quem somos e tranquilos para convivermos com todas as diferenças que o mundo nos apresentar.

O inesperado trazendo surpresas

         Se pararmos para observar a forma como vivemos a vida, chegaremos a conclusão de que fomos programados para programar praticamente tudo o que nos cerca. Mas, apesar do esforço feito para seguirmos um roteiro prévio e, por vezes engessado, desejamos quase em sigilo, que algo novo apareça repentinamente e mude os nossos rumos. Não importa o momento que vivemos, se o novo for capaz de mudar a nossa rotina, mesmo que de forma discreta, será muito bem-vindo. Vivemos negando, mas nada é mais esperado por nós, do que o inesperado trazendo surpresas.

         Porém, ser surpreendido não é uma tarefa fácil e, para muitos, fugir de uma agenda pré-determinada é quase um pesadelo. Mas, gostando ou não, é impossível negar que ficar surpreso pode nos proporcionar uma mudança de perspectiva bem interessante. Surpresas criam um inusitado jogo de cena onde, de um lado, a ansiedade domina o autor da ação e do outro, o imprevisível comanda todo o resto. Talvez seja este jogo duplo o que torna tão fascinante o ato de se surpreender.

       Surpresas não escolhem dia, hora e nem local. E é, justamente nessa falta de limites, onde ela sorrateiramente nos alcança e surpreende. Surpresas não têm compromisso com planejamento, talvez por isso, sejam capazes de ligar pontos, restabelecer vínculos antigos ou, simplesmente, criar novas conexões de onde menos esperamos. O que deixa a maioria de nós com aquela cara de bobo, própria de quem não sabe como agir quando perde as rédeas da situação. Ainda bem que o acaso existe e se disfarça de surpresa para nos mostrar o quão ilusório é, acreditar que somos senhores de nossos destinos.

          Poucas coisas substituem a euforia provocada por uma boa notícia fora de hora, por uma sensação que nunca se imaginou sentir ou por um sonho realizado sem tenha sido maturando durante longos anos. Surpresas nem sempre são prazerosas ou excitantes, mas são, sempre, transformadoras. Relacionamentos que acabam sem razão. Paixões que nascem de olhares despretensiosos. Transformar o sonho da escrita em sessões de autógrafos mundo afora… Tudo é transformador, tudo é reflexo de deliciosas surpresas que a vida nos dá.

      Acaso, destino, ou seja lá o nome que se queira dar, todos têm em comum, aquilo que os transforma em mistério – a capacidade de ser surpreendente. A felicidade de um sim, a ansiedade por quem demora a chegar ou a dor em descobrir algo que lhe fará sofrer… tudo isso perderia a importância se, algum dia, ignorássemos a ação do inesperado, impedindo que ele surpreendesse a nossa monótona programação diária. Ainda bem que é inútil lutar contra o que está por vir. Mas, o melhor de tudo, é ter a certeza de que, independentemente das nossas escolhas, é na surpresa que a vida se revela.

Conversas com os meus

            Na última semana, ao arrumar caixas antigas, me deparei com muitas referências de pessoas com quem compartilhei sonhos, dores, amores e esperança. Percebi que, à medida em que as fotos amareladas surgiam, novos fragmentos de memória pulavam, exibidos, diante de meus olhos, querendo mostrar que aquele momento era mais importante que todos os outros anteriores. E, sem me dar conta, passei horas em transe, em um interminável ciclo de conversas com os meus velhos eus.

            Sim, velhos. Apesar das imagens mostrarem uma juventude recheada de colágeno e de figurinos de gosto duvidoso, aquele garoto, adolescente magrelo, jovem rebelde e adulto esperançoso são, todos, velhas versões de mim. Versões que teimamos em deixar presas dentro de caixas, longe dos olhos alheios, longe das nossas lembranças. Estamos pré-programados para viver o hoje como se o amanhã não fosse chegar, deixando de lado, os registros daqueles que já habitaram nossas peles, mas, que, sabe-se lá o porquê, foram relegados ao um esquecimento consentido.

            Fotos antigas trazem informações para muito além das imagens. Olhar para aquele rosto de outros tempos, revela alguns dos pontos que marcaram as nossas trajetórias. O que dizer para aquele jovem emocionado no dia da sua formatura? O que será que pensava aquela criança sentada no chão da sala, comendo um pacote de biscoitos? Quais eram as expectativas dela ao rever as fotos do seu casamento? Difícil saber ao certo, mas as imagens de outrora são bem mais que simples recordações. Rever as imagens de nossos eus é, antes de tudo, reviver os antigos passos que nos trouxeram até aqui.

            Fazer uma imersão em nosso museu particular, traz uma gama de emoções que se alternam entre amor e ódio, esperança e frustração, euforia e tristeza. Visitar registros do passado, nos permite criar uma nova perspectiva sobre nós mesmos. Uma perspectiva que desafia nossas escolhas presentes e nos faz pensar em como as decisões tomadas por aquelas pessoas eternizadas em fotos amareladas, foram responsáveis por tudo aquilo que nos tornamos, para o bem ou não.

            Visitar nossas versões anteriores, ajuda a entender como a vida é dinâmica e como somos capazes de nos adaptar a situações que nunca imaginamos viver, até sermos postos à prova. Somos testados, resistimos e nos transformamos. Unimos o que já conhecíamos a novos detalhes e, assim, conhecemos um novo eu para chamar de nosso. Dessa forma, vamos tecendo uma grande colcha de retalhos que nos protege, desafia e impulsiona a seguir em frente, criando novas e melhores, versões de nós mesmos.