Sobre montanhas, perdas e pedrinhas

            O isolamento não é privilégio de tempos pandêmicos. Nós, que fomos criados para viver coletivamente, também fazemos uso desse artifício sempre que precisamos curar as nossas dores. Nos isolamos voluntariamente todas as vezes em que procuramos respostas para perguntas nada óbvias, que apenas o tempo é capaz de responder.

            Mas, de tempos em tempos, a memória nos trai e leva embora todo o ensinamento que tivemos durante os nossos momentos de reclusão, sejam eles voluntários ou não. Num primeiro olhar, essa é uma estratégia polêmica e subestimada. Como esquecer momentos difíceis? Como cometer os mesmos erros em épocas diferentes? Faz sentido, mas, já pararam para pensar que, mesmo que os enganos sejam parecidos, eles não acontecem com a mesma pessoa?

            O tempo não passa à toa. Ele nos modifica, nos altera. E não apenas fisicamente. Acumulamos experiências, romantizamos vivências e esquecemos a causa das nossas dores. Claro! Lembramos das quedas, lembramos das dores, mas esquecemos do que nos levou até elas. Apagamos essas pegadas não porque isso não evitará novos tombos e, sim, porque não queremos viver sob o domínio de um medo imaginário que vai nos impedir de saltar novamente.

            Somos um mosaico de experiências que deixam marcas e cicatrizes. Algumas fáceis de apagar, outras nem tanto. E, de tudo que já vivemos e de tudo que ainda está por vir, sabemos que existem cicatrizes mais difíceis de lidar. A falta é uma delas. Perdas definitivas são como montanhas incômodas que nos acompanham de forma irritantemente fiel. Primeiro elas impedem a nossa passagem. Depois elas nos permitem seguir, provocando desvios enormes em nossa rota, até que a erosão provocada pelo passar do tempo, transforma essas montanhas em fragmentos.

            Pedrinhas que agora cabem em nossos bolsos e que servem como registro de vida. O que isso significa? Que nenhuma montanha se mantém inalterada para sempre. Que nenhuma dificuldade se estabelece indefinidamente. O tempo vem e joga novas experiências na nossa cara, o que nos obriga a criar novas possibilidades e a diminuir o tamanho dos obstáculos. Quebramos as montanhas, mas levamos conosco um pouco de cada uma delas.

            Pedrinhas nos bolsos que diminuem de peso com o passar do tempo, mas que nunca desaparecem. Resquícios de um tempo e de memórias que não voltam e por uma razão muito simples: elas não existirem mais. Mas, lembram-se das marcas e cicatrizes? Essas ficam. São elas as pedrinhas que podem nos deixar mais cautelosos, e que estarão sempre ali para nos mostrar que, em algum momento, as montanhas se desfazem, as perdas são suavizadas e as dores se transformam em lembranças leves de carregar.

A nova arena dos leões

A História nos mostra que a escravização de seus pares e a exposição a riscos de vida para o entretenimento da massa, fazem parte do DNA da espécie humana. Povos diferentes, ao longo do tempo, apresentam fartos registros de desumanidade em que homens e mulheres foram utilizados como coisas para satisfazerem os piores desejos daqueles que deveriam ser seus iguais.
A dor de carne humana sendo dilacerada sempre despertou o sadismo e o horror. Arenas com animais e gladiadores, jogos medievais, campos de concentração, a escravização… são apenas poucos exemplos que ilustram muito bem o desejo coletivo, consciente ou não, em personificar juízes e executores. A simples possibilidade de estar no comando sobre quem vive e quem morre, confere a algumas pessoas a sensação de ocupar o lugar de uma divindade perversa que decide os rumos da existência alheia.
Modernamente, as arenas dos leões migraram para dentro para aparelhos de TV, mas continuam servindo aos mesmos propósitos: o entretenimento sádico da massa ávida pelo dilaceramento de seu igual.
A modernidade disfarça, cinicamente, a maneira com a qual seres humanos são degradados diante de nossos olhos. As arenas agora são chamadas de reality shows. Programas que alcançam milhões e que mobilizam a opinião de bilhões de pessoas via internet. Uma inacreditável audiência que escancara, em tempo real, uma nova forma de dilaceramento humano, pautado no abuso, na manipulação, na exposição e na destruição psicológica das pessoas. Tudo isso diante dos nossos olhos.
O tempo passa, conquistas científicas, políticas e sociais impactam positivamente as nossas vidas, porém, a humanidade não abre mão do sadismo que nos acompanha desde o nosso início. O prazer em decidir sobre o sofrimento do outro mudou, tornou-se legal e hoje entra em nossas casas através de programas transmitidos pela TV aberta, em horário nobre e atende pelo nome de entretenimento.
Críticas à parte, as arenas modernas, impulsionadas pela internet, criam uma plateia monumental, repleta de inquisidores e carrascos que substituíram as cordas e espadas, por smartphones e redes sociais que sentenciam seus pares com a mesma crueldade e a uma velocidade espantosa.
Sentenças que agora são as principais ferramentas de um fenômeno nascido nas redes: a cultura do cancelamento.
Independente do período histórico, a humanidade segue com seu voyeurismo indecente e sádico, apesar de toda a evolução que tivemos como sociedade.
É realmente necessário seguir consumindo esses espetáculos de horror? É realmente necessário observar esses laboratórios humanos roteirizados e editados para saciarem o sadismo coletivo?
É preciso reconhecer que a dor do outro em horário nobre não é entretenimento, é dor, é tristeza, é tortura.

Marco Rocha.

O que é que está acontecendo?

            Essa pergunta nunca teve tantas possibilidades de uso como agora, em tempos em que nada parece fazer qualquer sentido. Quem sonharia em ter a sua vida virada de pernas para o ar num estalar de dedos? Pandemia, ameaça de guerra, isolamento social, milhares de mortes inesperadas, home office, uso de máscara, viver no mundo virtual… tudo de uma hora para outra, como se estivéssemos em um filme surrealista, com roteiro de gosto duvidoso. Diante disso, quem seria capaz de ter a exata resposta para o que é que está acontecendo?

            Tudo bem que tornou-se redundante falar sobre este assunto. E é por isso que devemos falar ainda mais. Não é possível ignorar os fatos quando somos todos afetados por eles. A realidade engatou uma marcha ré enquanto estávamos todos em uma pista de alta velocidade. Do nada! O resultado disso é uma capotagem espetacular que se arrasta por longos dez meses e que parece não ter previsão de desaceleração. E nós estamos dentro desse carro, enxergando a vida passar em imagens sem definição.

            Então, como tentar responder a nossa pergunta inicial? Antes de qualquer resposta possível, é preciso perceber que estamos todos diante de uma enorme tela. E que não há distância entre nós e a pintura, que assegure a visão global da imagem. Logo, enxergamos apenas uma pincelada desta grande tela que, isolada, não passa de uma marca de tinta sem sentido. Precisamos nos afastar desta tela pixelada para que suas formas ganhem definição e, a partir disso, seja possível enxergar o que de fato está acontecendo conosco.

            Isso significa que ficaremos sem respostas até que, enfim, seja possível ver os detalhes daquilo que nos tira o sono e a paz? Talvez. Mas, ainda assim é possível mudar as regras desse jogo. Entender que é preciso se manter vivo é o primeiro passo é o mais importante. Apenas com a percepção de que nada é mais urgente do que preservar vidas, é que vamos começar a, enfim, aumentar a nitidez sobre o drama que nos envolve. É isso que nos levará a compreender que a manutenção das nossas existências, só será possível se for uma força-tarefa coletiva.

             Afinal, a existência precisa ser compartilhada para valer a pena. Passos atrás podem ser o início do fim desse turbilhão sem sentido que nos tragou sem cerimônias. Parece contraditório pedir cautela em um momento onde a pressa parece ser mais apropriada. Mas, pense comigo… Estamos vivenciando a história sendo escrita em tempo real. Mas essa proximidade não nos deixa entender o real sentido do que estamos vivendo. Então, por que não tirar o pé do acelerador, acalmar o coração, abrir os olhos e enxergar, sem afobação, tudo e todos que nos rodeiam? Por que não passar a dar valor ao que é, de fato, importante? Por que não aceitar que a preciosidade mora nas coisas simples?

               Em tempos onde nada parece fazer sentido, encontrar as respostas para essas perguntas pode ser a nossa grande chance de começar a, enfim, entender o que é que está nos acontecendo.

O pior ano de nossas vidas

            E vamos nos aproximando do fim de um ciclo estranho. Talvez um dos mais estranhos para quem tem menos de um século de vida. É bem verdade que a humanidade já andava mal das pernas, mas, ninguém seria capaz de prever com exatidão, que cairíamos de joelhos e seríamos completamente dominados, expostos e humilhados. Uma virose ultrapassou os limites da biologia e se aliou a ignorância, ao desrespeito e a negação. Ingredientes que deram forma e sabor amargo para o pior ano de nossas vidas.

            É claro que, em muitos aspectos, coisas boas surgiram a partir dessa crise sanitária e moral de proporções planetárias. Mas, propositalmente, esse texto não será sobre isso. E longe de mim bater palma para o pessimismo. Porém agora, mais do que nunca, é fundamental encarar a realidade do jeito que ela se apresenta, densa, perigosa e cheia de armadilhas. Ignorar esses sinais, é virar as costas para tudo aquilo que vimos, sentimos e perdemos, de uma forma que ninguém imaginou ser possível.

            O tom grave deste ano vem se repetindo dia após dia, criando uma ilusão que nos impede de perceber a real velocidade do tempo. Ora estamos no presente, ora no passado, sempre esperando por um futuro que parece nunca chegar. Esse estado de desesperança sufocante não é fruto da pandemia, apenas. O flagelo provocado pelo vírus serviu de gatilhos para outros agentes com potencial tão destrutivo quanto. E foi aí que a pandemia ganhou contornos de tragédia.

            Governantes, de todas as esferas, viram oportunidades na crise. Oportunidades que envolveram, apenas, o bem estar próprio e dos seus, deixando a população jogada a própria sorte. O escárnio foi acionado em nível máximo por muitos que escolheram acatar, concordar e praticar as mesmas ideias defendidas por criaturas inescrupulosas que, para o nosso desespero, ocupam os cargos de comando desse país. Pessoas que não serão nominadas aqui para que não manchem essas palavras com o horror que os alimenta.

            Mas, se os fins de ano são datas em que sempre manifestamos a nossa esperança e crenças em um novo ciclo melhor que o anterior, por que trazer palavras tão duras e cheias de pesar? Simples! Para que não se esqueça, nem por um segundo, que essa tragédia poderia ter sido menor. Para que se esqueça que o vírus não foi o único responsável por tantas perdas. Para que lembremos sempre de que as nossas escolhas sempre serão responsáveis por tudo que ganhamos, por tudo que sofremos e por tudo que perdemos.

            O ano de 2020 não permite falsidade. Esse ano veio para escancarar mentiras, expor enganos e punir os erros. Até mesmo daqueles que insistem em acreditar que tudo não passou de uma gripezinha. Dez meses depois de seu início, a pandemia do vírus e da ignorância cobra um preço muito alto. Então, para que possamos acreditar novamente em dias genuinamente melhores, é preciso cuidar das marcas profundas deixadas por esse ano inominável. Marcas que deixarão cicatrizes e memórias para o resto de nossas vidas.

            Que sejamos verdadeiros diante do novo ano que se aproxima. Chega de tentar mascarar dores e tristezas. Talvez o maior aprendizado desse ano pandêmico, foi que não há mais tempo para maquiar o que precisa estar nítido. Que a hipocrisia, a indiferença e a negação precisam ser tratados e não ignoradas, para que, finalmente, o amor e a felicidade prevaleçam e voltem a nos abraçar novamente.

Somos capazes de mudar o futuro?

            Em muitos artigos escritos, percebemos análises que dão conta de muitas mazelas e dificuldades vividas por cada um de nós. E, em um ano tão atípico, surpreendente e definitivo, não faltaram tentativas para tentar explicar o horror tão inesperado. Vivemos tragédias em tempo real que chegaram subitamente e parecem não ter data de partida. Mas, será que todas elas foram inevitáveis? Será que poderíamos ter feito algo diferente? Até que ponto somos capazes de mudar o futuro?

            Quem dera tivéssemos uma máquina do tempo que nos transportasse para pontos específicos da nossa trajetória. Certamente a vida seria outra, afinal, teríamos em nossas mãos o poder para mudar tudo aquilo que não nos fez bem. Alterando o presente para que o futuro se enquadrasse em nossas expectativas. Seria um plano infalível, não fosse a ação do inesperado. O que isso significa? Que a cada mudança de curso, afetaríamos não só as nossas vidas, mas todas as outras no nosso entorno… e vice-versa.

            Essa percepção sobre o tempo, nos leva a pensar que somos, de muitas formas, senhores do nosso tempo e que as decisões que tomamos não são individuais e estéreis. Tudo o que fazemos se reflete. Tudo. Decidir qual caminho tomar, qual livro ler, o que comer, que profissão escolher, em quem votar… Escolhas implicam em perdas e, para além disso, escolhas provocam reflexos. É como se, a cada decisão nossa, um feixe de luz fosse produzido, iluminando outras pessoas, que seriam como espelhos gerando múltiplos reflexos de intensidades diferentes e em incontáveis direções.

            Vivemos em uma eterna contradança, onde cada passo dado, recebe um movimento que o complementa. Pensando dessa forma, torna-se mais fácil entender que o futuro não é tão imprevisível quanto pensamos. O nosso presente nada mais é do que um compilado de escolhas feitas ao longo da vida e temperadas com pitadas de acaso. E esse acaso nasce do choque entre as nossas decisões e as escolhas de todas as outras pessoas.

             Lidar com essa dança as cegas é desafiador. Não saber os passos do outro, cria um estado de alerta constante que nos obriga a viver pensando sempre em múltiplas possibilidades de escolha. Ora acertamos, ora erramos. E isso nos ajuda a criar padrões de comportamento que servem de leme para as decisões que tomaremos ao longo da vida. Então, para todas as vezes em que a pergunta “somos capazes de mudar o futuro?”, povoar os nossos pensamentos, a resposta é simples: Sempre!

            Decisões individuais têm impacto coletivo, mesmo quando achamos que só dizem respeito a nós. Portanto, escolhas são chaves para o futuro que estão ao alcance das nossas mãos. Use-as com respeito e sabedoria.

Voto consciente

É hoje. Sim, é hoje o dia de pensarmos em momentos mais felizes, mais tranquilos e mais justos. Hoje é dia de se transportar para o futuro e imaginar-se daqui a 1, 2, 3… 4 anos.
Como transformar uma realidade desigual e sem esperança em dias mais promissores?

VOTE!

Nesse dia 15 de novembro, encare a sua votação como se estivesse entrando em uma máquina do tempo capaz de levá-lo a um futuro onde representantes do povo desempenhem o papel para o qual foram eleitos. Sem que jamais esqueçam  que só estão naquele lugar porque foram escolhidos pelo povo e para ele governar.

Políticos são funcionários do povo. Jamais o contrário. Políticos se colocam, de forma voluntária, em uma disputa onde devem comprovar a sua competência como gestores ou legisladores.

Políticos não estão acima do bem e do mal e, muito menos, são representantes divinos na terra. Usar de sua devoção para angariar votos é a maior prova de que eles deveriam estar em templos, não em casas legislativas ou executivas.

As armadilhas são muitas, as tentações também. Porém, diferente do que vivemos em eleições anteriores, escolhermos  representantes que podem estabelecer o equilíbrio social que pode nos livrar da barbárie e do horror.
Por isso, pense, pesquise seus candidatos e se reconheça como beneficiário do trabalho de seus representantes.

Saber quem são e, sobretudo, quem foram e o que já fizeram, fará diferença na vida de cada um de nós. Por isso vote por você, por sua comunidade, pela vida dos mais velhos e pelo futuro dos mais jovens. Vote pelas mulheres e pela defesa da expressão de gênero. Certifique-se que seu voto é agregador, consciente e antirracista. Sei que parece muito a se pensar, e é. Mas, pensar um pouco mais agora, pode nos poupar de dores de cabeça que podem ser evitadas.

Diante disso, não tenha dúvidas. Vote com responsabilidade, vote consciente! E, lembre-se sempre que votar é uma escolha individual que terá impactos na vida de todos nós.

Voto consciente!

Como lutar contra o que não tem nome?

            É difícil elaborar respostas com alguma racionalidade quando estamos face a face com o horror. Tipo aquelas situações em que coisas terríveis acontecem e não se pode, simplesmente, fechar o livro ou desligar a TV. Os últimos tempos tem trazido à tona um horror tão denso que não há como não sentir os seus efeitos, por mais insensível que se possa ser. Há muito vivemos sob a sombra desse medo tão poderoso e onipresente, que sequer somos capazes de nomea-lo. Como lutar contra o que não tem nome?

            Vivemos em uma escalada crescente de horror que se apresenta diferente a cada dia. Ora dissimulado, ora extravagante, mas sempre presente. E essa presença constante faz com que seja quase impossível detectar qual é a sua origem e muito menos, qual é o seu alvo. O que faz com que, no fim das contas, sejamos todos afetados por todas as expressões desse permanente estado de terror que se abateu sobre todos nós.

            Para entender essa aparente apatia coletiva, talvez seja preciso voltar no tempo. Imagine se, todas as vezes em que sentimos medo na infância, nossos pais não estivessem lá para nos ensinar que éramos mais fortes que qualquer ameaça. Imaginou? Agora, o que seria se, eles, nossos responsáveis, ao invés de nos protegerem, decidissem nos abandonar a nossa própria sorte? Tipo um se vira nos trinta onde o prêmio final seria muita dor e trauma. É exatamente assim que me sinto agora.

            Estamos à deriva. Não há ninguém para amparar os nossos medos, ao contrário, somos vítimas de um horror causado por quem deveria nos proteger. O presidente não se responsabiliza por seu povo, governantes roubam a chance de sobrevivência das pessoas, juízes condenam inocentes, a ganância incendeia a natureza, crianças têm a sua infância roubada. Crianças são violadas por quem as deveria proteger.  Crianças sofrem violências inimagináveis. O horror nos envolve como arame farpado.

            Essa escalada de desamparo nos transforma em criaturas solitárias que não sabem como reagir diante do medo. Mas, para todo mal, há cura. Até mesmo as crianças sabem que as ameaças tornam-se menores quando elas não estão sozinhas. Quando estamos em bandos, aumentamos a nossa força contra toda e qualquer ameaça. Talvez seja a hora de pararmos de sofrer sozinhos. Não faz sentido individualizar tristezas que são coletivas. A pandemia nos obrigou a carregar sozinhos, fardos que o isolamento tornou pesados demais para serem carregados individualmente.

            É hora de compartilharmos nossas dores e dividirmos nossos temores. Lembre-se que o poder dos valentões não vem de sua força, mas de sua capacidade de imprimir o medo. O poder daqueles que nos aprisionam a partir do horror, vem do medo que eles podem causar. Mas, um medo dividido é um medo enfraquecido. Dar as mãos, nesse momento, é criar forças para mostrar àqueles que nos fazem sofrer, que a era do horror está com seus dias contados.

Texto que trata sobre o nada

            Retomar um hábito que me acompanha há quase quatro anos é um prazer e, ao mesmo tempo, um pedido de desculpas que faço aos textos e as palavras. Não foi minha intenção abandona-los por tanto tempo. Mentira. Foi, sim. Lidar com pandemia, medo, insegurança, aulas virtualizadas, desafios em novas mídias e mais um monte de outras coisas, foram as principais causas desse afastamento que, confesso, foi bastante produtivo. Desculpas devidamente registradas, vamos seguir em frente nesse texto que trata sobre o nada.

           Como assim, um texto que trata sobre o nada? Num primeiro momento pode parecer que cá estamos para não dizer coisa alguma, mas não se enganem, falar sobre o nada é muito mais complexo do que parece. Duvida? Pare aí por cinco minutos e olhe ao seu redor. Tirando as tarefas domésticas óbvias, será possível perceber que estamos rodeados de nada. Nada para ver na TV, nada gostoso para comer, nada para fazer, nada para pensar… Em algum momento dos nossos longos dias pandêmicos, o nada será o nosso parceiro mais frequente.

            Não que isto seja algo ruim. Longe disso. Não ter nada para fazer, em muitos momentos, é tudo o que se quer. O nada nos ajuda a organizar pensamentos, a ver o mundo sob novas perspectivas, a respirar melhor ou a dar uma checada nos cabelos brancos que insistem em brotar pelo seu corpo. Passamos muito tempo desejando tudo e todos. E nessa obsessão pelo tudo, deixamos de enxergar uma porção de nuances do nosso cotidiano que só podem ser captadas quando nos conectamos com o nada.

            Pode parecer uma viagem meio louca ler sobre o nada, mas, reparem, esses tempos pandêmicos trouxeram muitos conflitos inesperados para as nossas vidas, mas, o maior deles foi, sem dúvida, a obrigatoriedade de convivermos com nós mesmos por tanto tempo. Ficamos presos, compulsoriamente, a rotinas insanas que demandaram de nós uma atenção exclusiva. O que, trocando em miúdos, significa que cada um de nós tornou-se o único responsável por tarefas que, na pré pandemia, seriam facilmente compartilhadas.

            Esse isolamento não restringiu apenas a nossa livre circulação. Ele também nos forçou a retomarmos comportamentos há muito esquecidos. O tempo entrou em modo desacelerado e isso permitiu que olhássemos com mais cuidado para tudo, inclusive para nós mesmos. E isso só foi possível, porque a urgência em ter tudo foi substituída pela complexidade autoexplicativa do nada. Explico. Quando ganhar as ruas era um direito nosso, a correria nos impedia de contemplar os detalhes do cotidiano, como reparar no crescimento de uma criança ou a beleza de um pôr do sol.

              Porém, quando nos vimos diante do imponderável e que, de uma hora para outra, isso poderia afetar a nossa existência, freamos a velocidade das nossas rotinas e passamos a enxergar que nada, absolutamente nada, é tão importante quanto parecia ser. E, para além disso, nos reconectarmos conosco e com os nossos. Os momentos em contato com o nada, permitiram que enxergássemos tudo o que realmente vale a pena e que,  sem aviso prévio, tudo que temos ou julgamos precioso, pode se transformar no mais absoluto nada.

Influências à parte

            Quem disser que nunca foi influenciado por alguém, em algum momento da vida, deve fazer um exame rápido de consciência. Esse fenômeno é tão poderoso que, mesmo quando não percebemos, lá estamos nós seguindo, assistindo, comentando e replicando informações que nos foram passadas por aqueles que falam com as massas. Sim, fazemos parte dessa multidão ávida por saber mais sobre o que fulano acha, veste ou diz. Influências à parte, o que queremos mesmo é um influenciador para chamar de nosso.

            Mas, o que é intrigante de fato, não é somente a forma como moldamos a nossa maneira de ver o mundo e, sim, quem conduz a construção desse olhar. Se pensarmos em personalidades que fazem ou fizeram a diferença na nossa forma de interagir com a realidade, não daremos conta do número de nomes dessa lista. O que significa dizer que, apesar das discordâncias, passamos pelas mãos de muitos influenciadores vida afora.

            Não acredita? Então faça uma busca em suas fotos e memórias. Lá você irá encontrar várias referências, que vão desde a sua forma de vestir, até as suas músicas preferidas. É curioso perceber que, independente da época, continuamos sendo como telas prontas para receberem tintas com diferentes nuances e que são capazes de criar formas que podem ser alteradas o tempo todo. Renovando, com frequência, a forma como nos mostramos ao mundo.

            Uma vez que, as influências são nossas parceiras constantes desde que esse mundo é mundo, por qual razão passamos a reclamar da influência daqueles quem nos influenciam? Resposta nada fácil. As coisas mudaram e ressignificaram o poder dos influenciadores. Os livros, os líderes políticos ou religiosos, o rádio, o cinema, a televisão, a internet… Todos são responsáveis por escreverem a história e o comportamento. O que nos leva a crer que não seríamos quem somos, não fosse a forma como somos influenciados através dos tempos.

        Mas, é claro que, apesar do apelo, é necessário que exista um filtro individual que nos diga até onde podemos ser influenciados, sem que nos tornemos rascunhos mal feitos de influenciadores. A internet renomeou os ídolos. Muitos são conhecidos nos dias de hoje como blogueiros ou digital influencers… Mais do mesmo. De fato, continuamos a mirar figuras populares em seus nichos e que continuam sendo capazes de reunir milhões de fãs, que agora chamamos de seguidores.

      As mídias sociais acolheram esses influenciadores modernos, que seguem nos entretendo, passando a falsa impressão de que ali, tudo é assombrosamente espontâneo. Não, não é. E tudo bem se continuarmos a seguir as nossas deliciosas ilusões, desde que jamais nos esqueçamos que, apesar das influências, somos responsáveis pela manutenção da nossa preciosa originalidade.

O horror se faz presente

O horror está no ar e não se sente envergonhado de se fazer presente. Para onde quer que olhemos, lá está ele, dando as caras. Vivemos, há meses, sem conhecer um dia sequer, com as bençãos da paz. É como se estivéssemos obrigados a renunciar ao básico necessário para viver. Aquilo que acreditamos ser fundamental e que costumávamos chamar de amor. A frequência com que somos golpeados, cotidianamente, por toda sorte de maldades e absurdos é tão grande, que nos anestesia tão intensamente, que não conseguimos mais diferenciar a impotência, da apatia.

As informações sobre esse mundo bizarro, chegam em tempo real, carregadas de um desassossego que não nos permite tomar fôlego. Estamos, há tempos, soterrados por péssimas notícias que, é claro, não gostaríamos de ver ou ouvir. Mas, vivemos em um tempo onde a informação, por mais dolorosa que seja, é necessária. Nunca foi tão importante sabermos o tamanho do buraco onde fomos colocados. Nunca foi tão urgente conhecermos aquilo que nos fragiliza. Nunca foi tão necessário identificar quem nos faz mal, para que, enfim, sejamos capazes de reagir contra esse mal que teima em nos dominar.

É como se o pesadelo provocado por uma pandemia, não fosse suficientemente doloroso e, a ele, fossem agregados novos elementos igualmente terríveis. O que acaba por criar uma fonte interminável de dor e desespero. O que, talvez, cause mais espanto em toda essa situação inominável, é a nossa incapacidade de lidar com ela. Não fazemos a menor ideia de quando ou como esse horror, e seus efeitos colaterais, chegarão ao fim. Caminhamos um dia após o outro, de olhos vendados sem saber muito bem para onde ir e, muito menos, como chegaremos lá.

É bem difícil pensar em mensagens otimistas que possam suavizar essa escrita. Na verdade, não é difícil, é impossível criar mensagens repletas de uma felicidade fluida e falsa. E, a última coisa que precisamos agora, é de falsas verdades. Está difícil? Muito. É nauseante viver em uma realidade onde dados sobre a morte de milhares são manipulados, onde um homem negro é asfixiado pelo joelho de um policial branco, é aterrador viver em um mundo onde uma criança negra, de cinco anos, é sentenciada à morte pela perversidade da patroa de sua mãe, apenas por ter sentido falta daquela a quem ele mais amava.

Essas são, apenas algumas amostras de um horror que parece não encontrar limites. Um horror que só vai encontrar seu fim, no instante em que transformarmos a nossa apatia e o nosso cansaço em força. Não é possível viver sob a lâmina do medo por tanto tempo. É hora de gritar a plenos pulmões que viver com medo não é viver, é estar aprisionado. E, isso, ninguém tolera mais.

P. S.: Esse texto é dedicado ao menino Miguel e sua mãe, Mirtes Renata. Meus sentimentos…